Never Let Me Go
17 Aurora - Christopher
Notas iniciais
O olhar de minha mãe era deprimente, o tipo de olhar que você odeia receber de seus pais, aquele que indica que você falhou. E eu posso ter falhado, mas não me arrependo. Acho que meu pai foi e é precipitado em suas conclusões, e não só em relação a família de Pietra Medina, mas em relação a tudo que acontece e cada comentário seu me irrita cada vez mais do que deveria.
— Você não pode responder assim para seu pai. — a voz de minha mãe era suave, mas a decepção em seus olhos e em cada palavra que saia da sua boca, me fazia repensar se eu estava mais errado do que eu imaginava estar.
— E ele não pode nos tratar assim.
— Ele é o homem da casa, Chris! — ela exclama, fazendo sua voz ficar mais aguda.
Ela acha que eu sou uma menininha indefesa, por acaso?
— Eu também sou um homem! Ele mesmo diz que devemos defender nossos ideais, proteger aquilo que acreditamos!
— Você é só um garoto... E você pode não lembrar, mas ele sempre dizia-nos, a família deve vir antes de qualquer coisa.
Suspiro.
— Parece que ele mesmo então deveria ouvir seus conselhos.
Ambos nos calamos. O silêncio preenchia cada frase incompleta, e cada dúvida que surgisse, ele aniquilava. O silêncio conseguia ser mais reconfortante do que qualquer palavra pudesse tentar ser. E assim, nesse silêncio repleto de certezas e dúvidas, permaneceu entre mãe e filho por alguns minutos, até minha mãe conseguir quebrar esse silêncio.
— Chris... — ela se aproxima de mim, saindo de perto da porta fechada e sentando ao meu lado em minha cama. — Por que estava defendendo a família Medina?
Suspiro. Ela não entende. Acho que nem eu entendo direito.
— Não estava os defendendo. — afirmo com certeza.
— Sim, estava.
— Não, não estava. — afirmo novamente. — Eu só acho que as vezes ele devia guardar o que ele pensa para ele mesmo. Quando não está ofendendo a família Medina, está ofendendo outra! Poderia ser diferente! Já pensou no que as outras famílias devem falar da gente? Nada. Sabe por quê? — começo a falar rápido e responder minhas próprias perguntas. — Porque eles não ficam perdendo tempo se preocupando com a gente, nos ofendendo ou nos elogiando. Eles sim colocam a família em primeiro lugar.
Eu então escuto a porta do quarto ser aberta violentamente. Surge então com um olhar furioso e voz determinada.
— Já chega! — sua voz era firme e alta. — Fiquei ali o tempo inteiro tendo que ouvi-lo falar asneiras. Isso está passando dos limites e não permitirei isso. Vou retomar o controle aqui dentro agora em diante.
Resumo, isso é o meu fim.
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Aproximo-me de Stephan que parece dormir durante a aula de Álgebra. Eu havia acabado de chegar devido ao meu despertador quebrado durante uma discussão com meu pai, o que resultou em um Chris correndo contra o tempo para não chegar atrasado, mas só pude entrar no segundo tempo de aula. Ele consegue ser assustador algumas vezes.
Olhando para o quadro vejo o mesmo repleto todas aquelas letras misturadas a números e sinais que eu desconhecia. Para mim matemática se resumia a contas de adição, subtração, multiplicação e divisão. O resto era alguma coisa vinda do inferno para torturar os humanos desde a infância pelo resto de suas vidas. As vezes sinto saudade da época onde dizíamos que um mais um é igual a três e reclamávamos de qualquer mísera conta que nos fosse passado.
Eramos felizes e não sabíamos. Dali para frente eu já não sabia mais nada.
Stephan tinha sua cabeça abaixada, com seus cabelos um tanto compridos castanhos como os meus caindo sobre sue rosto. Mas não é como se eu o estivesse analisando. Eu gosto de garotas. G-a-r-o-t-a-s. Sento ao seu lado antes lhe dando um tapa na cabeça que o despertou de seu sono. Sua cara estava horrível.
— Qual é, cara. Eu estava sonhando aqui.
Dou uma risada baixa.
— É, percebi, só faltava falar dormindo de novo.
Sim, ele fala dormindo. Todos, inclusive eu, ficaram por saber quando durante a aula de Trigonometria ele chamou pela mãe enquanto dormia. Foi filmado e tudo.
— Não enche. Esse vídeo quase toda a escola já viu e agora todos passam a zombar de mim por conta disso.
Ele fala enquanto sua testa se franze formando uma careta que é quase impossível não rir.
— Pobre coitado. — zombo. — Vamos ligar para sua mãe e dizer que estão cometendo bullying contra você. E quem sabe ela te faça um chocolate quente e te bote para dormir contando a história da Cinderela e sua fada madrinha. — digo fazendo caretas e ele revira os olhos.
— Isso é inveja.
— Ta okay, então, Aurora.
— Ta sabendo bem o nome das princesas, hein... — ele me olha rindo.
— Lógico, vi você falou dormindo que queria comprar um vestido como o dela.
Ele revira os olhos e volta a dormir enquanto eu passo a copiar tudo que estava no quadro passando para o meu caderno. Vez ou outra meu pensamento voava para longe, mas eu o capturava, me trazendo de volta para a realidade. Quando me cansava de escrever simplesmente olhava para o quadro. Quantos símbolos.
— Manhê... — escuto Stephan murmurar baixinho. De novo? Como ele pega no sono rápido. O empurro rapidamente antes que escutem, e de susto o rapaz cai no chão, atraindo olhares.
Só o Stephan sendo o Stephan.
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