Never Again

3 Capítulo 3 - Déjà vu


Wendy instintivamente virou-se para olhar suas companhias. Realmente, não avisara que levaria Tina à casa de sua mãe. Mas o menino também fora surpresa para a própria Wendy.

— Ah, é que foi tudo de última hora, mamãe. Há algum problema? A propósito, este é o...

— Thompson. Pan Thompson. É um prazer conhecê-la — ele beijou as mãos da senhora, de modo cortês.

— Pode me chamar de Senhora Darling.

A mamãe de Wendy esboçou um sorriso. Havia algo no olhar de Pan que intrigava a senhora Darling. Sentia como se a presença daquele menino não fosse surpresa, mas até... desconfortável.

— Então, mamãe, eu os chamei para tomar um chá... — Wendy tornou a falar, sentando-se na mesa da cozinha — Se a senhora não se importar, claro.

— Não, está tudo bem, Wendy.

A senhora Darling foi em direção ao fogo, preparar o chá.

— Como foi a peça? — perguntou, procurando ser amigável.

— Peça! — Pan pareceu ter sido acordado de um terrível pesadelo subitamente. Seus olhos haviam se arregalado — Que idiota! Estraguei tudo...

— Então eu estava certa — Tina comentou, de repente — Ele é mesmo o menino da peça...

Quase como um magnetismo, Pan e Wendy olharam-se outra vez. Era mesmo uma sensação estranha que sentiam; era engraçado o poder de silêncio que causavam um no outro. Como se apenas pelo olhar pudessem se comunicar.

A mente de Wendy estava numa luta interminável tentando entender os acontecimentos das últimas horas. Ouvia um zumbido de conversa, mas parecia algo tão distante... Deixou que a quentura do chá esquentasse seus sonhos até finalmente ser trazida à realidade.

— Wendy!

— Oi?

— Está vendo, senhora Darling? — Tina reclamou, aborrecida — Ela anda assim ultimamente. Nem mesmo indo ao teatro consigo trazê-la de volta. Wendy vive sonhando acordada...

A senhora Darling suspirou e fez carinho na sua filha. Alisou delicadamente os seus cabelos cor de mel. Sabia perfeitamente o que estava acontecendo. Desde aquele dia esquisito, quando milhões de garotos perdidos apareceram em sua casa, notou uma estranheza no ar. Aos poucos, tudo foi voltando ao normal. Menos Wendy.

Algumas vezes, tinha medo de levá-la ao médico. E se ela fosse doente? Uma menina tão boazinha, meu Deus. Por que andava assim? Não merecia isso.

— Ei... — a senhora Darling falou, depois de um tempo — Por que não vão conversar lá em cima? Comprei alguns discos recentemente. Podem escolher à vontade.

E foi o que fizeram. Enquanto os adolescentes deixavam a mesa, a senhora Darling lhes oferecia um sorriso triste. Observou-os subir as escadas, até sumirem de suas vistas.

Mas por que sentia tanto pressentimento quanto ao menino? Que mal ele poderia fazer? Era só um menino. Assim como todo mundo já foi um dia. A senhora Darling balançou a cabeça e voltou para seus afazeres domésticos.

No andar superior, Wendy os conduzira até o cômodo onde um dia fora o quarto das crianças.

Assim que haviam se aconchegado, Wendy ligara o toca-discos. Tina puxara conversa e não parara de falar. Pan continuara em silêncio. Àquela altura, passava das onze e a noite estava linda.

Pan levantou e olhou-se no hall do corredor. Nada que fizesse conseguia trazer sua sombra de volta.

Ele já passara por problemas parecidos antes, mas, na pior das hipóteses, sua sombra apenas correria livremente, sem se afastar.

Já fazia anos que tentava recuperá-la; estava mais do que óbvio que ele a havia perdido para sempre.

Esse era apenas um dos tantos problemas que sabia que enfrentaria ao aceitar tornar-se adulto. Sua sombra recusava-se a crescer; assim como no fundo, ele também.

Pan voltou ao quarto, tristonho, justamente quando já davam por falta dele.

— Você parece cansado... — começou Wendy, indo ao seu encontro, no meio do quarto — Por que não vai pra casa? Seus pais já devem estar preocupados, não?

Pan apenas balançou a cabeça.

— Com quem você mora? — Tina quis saber.

Pan estava agachado no chão, na ponta da cama, mexendo nervosamente nos cabelos. Wendy achava aquilo absurdamente nostálgico. Ousaria até mesmo chamar de déjà vu. Agachou-se para ficar da mesma altura que ele:

— Espera... Você está chorando... É por isso que está chorando? Você não tem para onde ir?

— Eu não estou chorando! Homens não choram! Muito menos por causa de casas! — Pan se levantou com raiva, limpando o rosto — E eu tenho casa! Quero dizer, não sei. Mas eu não quero ir pra casa...

— Wendy, vai mesmo deixar um estranho ficar aqui? — Tina sussurrou no ouvido da amiga.

Mas Wendy não tirou os olhos do menino-perdido, atenta. Será que ela era a única a não achar a ideia tão ruim?

— Deixe a desconfiança para os adultos, Tina. Não há problema algum. Pedirei a mamãe para levá-lo ao quarto de Miguel.

Pan encarou-as sem dizer mais nada.

As horas se passaram e todos pareciam estar numa festa do pijama. Tina também resolvera dormir lá, e logo Miguel se juntou a eles.

Miguel era o mais novo, para ele nenhuma novidade seria sinônimo de estranheza, muito pelo contrário. Tudo não passava de diversão.

Por volta das três da madrugada, a cidade dormia. Mas a insônia nunca abandonara Wendy, lembra-se? Ela acordou mais uma vez, na ponta dos pés, e sentou-se na sua janela, como costumava fazer quando ainda morava lá.

Deitou a cabeça na parede e dobrou os joelhos. Seus olhos refletiram a luz das estrelas e seus pensamentos pararam mais uma vez num mundo distante, bem mais além da lua, bem mais além daquele céu escuro.

— Quem está aí? — chamou Wendy.

De repente, quando virou-se procurando o autor do barulho, descobriu que não era a única sem dormir. Pan estava sentado na segunda janela, bem à vista dela. Ele sorria timidamente, e a cabeça estava levemente abaixada, para que não a encarasse nos olhos.

Era estranho, mas Pan realmente não queria voltar para casa; já fugira uma vez, por que não fugir de novo? Afinal, acho que nosso jovem Pan ao poucos estaria reencontrando seu caminho de volta ao verdadeiro lar.

Mas enquanto isto não acontecia, Pan apenas olhava às estrelas e o reflexo delas nas bochechas rosadas de Wendy Darling. Olhar para ela lhe trazia uma sensação conhecida. Só não diria nada. Preferia o silêncio. E assim permanecera por longos e torturantes minutos.