Estava frio. O céu estava limpo e o sol aquecia os campos em um dia de verão como outro qualquer, mas Elsa nunca saberia a diferença entre um dia de verão e um dia de tempestade no inverno. Ela podia ver as flores se abrirem na primavera, as folhas amarelas caírem no outono, as crianças gargalharem banhando em uma piscina para se refrescar do sol torrente do verão e todos bebericarem chocolate quente no inverno a procura de afastar o frio. Mas Elsa nunca sentiria o calor. Naquele dia quente de verão o inverno se mantinha vivo dentro de Elsa, como uma tempestade constante, inesgotável e triste.

E tudo o que ela poderia fazer era observar. Através das frestas da janela interditada por placas de madeira muito mal pregadas a parede. Seus olhos curiosos se agitavam a procura de qualquer coisa lá fora, qualquer coisa que pudesse lhe causar o minimo de calor humano. Mas não havia nada. E mesmo se houve, não haveria calor.

"Saia daí menina!" o velho gritou, arrastando-se para dentro da sala em sua cadeira de rodas gasta, apertando os olhos e lambendo os lábios em busca da baba que pôs para fora ao falar.

"Não tem ninguém lá fora." Elsa disse rapidamente. "Posso caminhar um pouco pelo campo e ninguém me verá. Serei rápida e cuidadosa."

"Quantas vezes tenho que dizer?!" o velho bufou catarrosamente. "Você não pode sair! Não está pronta para sair."

"E quando estarei?" ela perguntou tristemente. "Não faço nada aqui dentro. E Anna..." sua voz embargou e se obrigou a engolir o choro. Já chorara tantas vezes na frente do tio que mais uma não faria diferença, mas estava cansada de se sentir tão fraca. Se não conseguisse conter um choro como salvaria a vida da irmã? "Está dormindo, não sabemos até quando. Preciso fazer alguma coisa. Preciso pelo menos tentar ajudá-la."

"Não acha que já ajudou muito quase a matando?!"

Então mais uma vez, Elsa se obrigou a engolir o choro. Não importa o quanto as palavras lhe feriam, é apenas a verdade. É exatamente o que tem se dito em silêncio desde o incidente, mas nunca em voz alta. Sabia que era o que todos pensavam, mas ninguém nunca falou de fato. Agora o tio falara e foi como se o fato tivesse lhe ocorrido pela primeira vez. Mas algo na expressão dolorida de Elsa fez o tio repensar. O velho deu meia volta na cadeira de rodas e antes de sair falou novamente:

"Se não tiver ninguém, vá. Tem apenas uma hora. Se decidir voltar depois disso, nem mesmo volte."

"Sim... Sim." era tudo o que ela conseguia dizer.

"Elsa... Não se aproxime de ninguém. Não vai querer ferir as pessoas como fez a sua irmã."

"Não. Não vou querer." ela disse sofridamente.

Mais uma vez olhou por entre as frestas. Prendeu seus cabelos loiros platinados em um coque, calçou suas botas de montaria e suas luvas, vestiu o casado e cobriu a cabeça. Não era uma roupa de verão, mas ela nunca sentiu o calor. Tudo o que havia dentro dela era frio, e precisava se certificar que ninguém a veria e principalmente, não se machucaria.

Elsa saiu da velha casa de seu velho tio. Viu a luz lhe tocar, viu o campo que já não via de perto há tanto tempo. Correu alguns metros se sentindo quase livre, mas então um lampejo do rosto de sua irmã veio a sua mente. Anna, com os cabelos ruivos ao vento, montando e cantando, com um sorriso caloroso (mesmo que ela não soubesse o significado) e gargalhadas longas e saborosas.

Elsa parou abruptamente, caiu de joelhos e fitou o vazio do gramado. Anna jamais sorria novamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.