Neve
1 Capítulo 1
Conheci uma garota que se dizia ser um fantasma. Quando perguntei seu nome, ela me respondeu. “Não tenho um nome. Por não ter um nome, eu sou um fantasma. Você é igual a mim, não é?” Ela disse, sorrindo.
É verdade, eu também sou um fantasma. Um ser capaz de falar com fantasmas também é um deles, e como eles, perde o direito a seu próprio nome. Mas eu sei que um dia eu era conhecida como Yuki, um nome que soava como a neve.“E agora, vamos?” ela me perguntou. Seu passo era rápido e parecia que ela estava viva. Um guizo tocava ritmando com seus passos. “Podemos ir a qualquer lugar. Tem algum lugar que você gostaria de ir?”Pensei por um pouco. Onde eu estava? Por que eu estava aqui? Para onde eu pretendia ir? Mas tudo o que eu pude fazer foi ficar parada encarando seus olhos negros. As respostas se perderam antes mesmo de eu chegar aqui.Nós andamos, ou devo dizer, flutuamos sem rumo, e o guizo em seu pulso era nossa trilha sonora. Ela compreendia meu silêncio, meu conflito interno. Não esperava por respostas que eu ainda não podia dar. Enquanto eu não achava meu próprio caminho, eu trilhava o dela.Crianças brincavam de bola sob o olhar atento de um velho fumando cachimbo na varanda de sua casa. Um casal passeava de mãos dadas. Uma mãe ajeitava o cachecol em volta do pescoço de seu filho, enquanto o pai levava um bebê no colo.Era inverno e eu não o sentia. O mundo em que eu andava não era o mesmo que eu via. Separados por vidros coloridos, eu apenas podia observar, sem tocar ou sentir nada. Uma sensação de vazio e perda se apossou de mim.“É verdade que fantasmas são mortos que deixaram algo para trás?”, perguntei timidamente.“Por que pensa assim?”, ela perguntou.Dei de ombros. “Eu estou morta?”“Fantasmas são seres que se perderam.”E isto fez sentido. Seres que percorrem o mundo tentando se encontrar, como se seus pedaços estivessem espalhados por aí. Como podem achar que pertencem a um lugar que sequer sabia de sua existência? E no fim de sua jornada, acabam se perdendo para sempre.Estes são os fantasmas: Sombras do que foram. Ignorados por estranhos e esquecidos por aqueles que abandonaram. Era por isto que ninguém os via, nada os tocava e nada sentiam. Se isto não era a morte, também não era a vida. Poderia haver destino mais cruel que o vazio?Quando ouvi suas palavras, finalmente entendi o meu propósito. Por que eu tinha esquecido? Por que eu tinha esquecido um papel tão importante, a razão da minha existência? Tinha uma coisa que eu nunca devia ter esquecido.“Bom, isto resolve então.”A garota sorriu feliz. E ela me mostrou o único lugar que eu queria estar. Eu acenei e agradeci.“Adeus.”Algo branco começou a cair do céu. Pequenos cristais de água instáveis. Eles desapareciam assim que se encostavam ao chão.Pequenas maravilhas que encheram meus olhos. Este mundo está cheio dessas maravilhas. E eu ainda estava aqui para apreciar a cada uma delas. Não sei por quanto tempo fiquei ali, a passagem do tempo perdeu seu significado naquela noite.Aquela coisa impressionante continuou a cair, se amontoando como algodão.Decidi dar a isto o meu nome. Sussurrei.“Yuki”.Mas a voz que ouvi não foi a minha. Então acenei sorrindo, era mesmo a neve caindo.A voz tomou forma diante de meus olhos. E ela chorava, não de tristeza. Afinal, como algo tão bonito poderia deixar alguém triste? Esta voz afastou a neve do meu cabelo e aqueceu meu corpo que começava a tremer.Quando olhei para trás, percebi que a garota desapareceu e eu fiquei. Talvez ela tenha retornado ao lugar a que pertencia. Assim como eu retornei ao lugar que pertencia.Ouvi seu guizo soando uma última vez. Eu sorri e pensei, ela não era um fantasma. Então, eu não era mais um fantasma.
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