Notas iniciais
Estória escrita com muito amor e dedicação para todos.
Boa leitura.

Joshua olhou para fora, entediado, nevava como meses não fazia e a musica ainda tocava no aparelho quando finalmente a olhou, o cabelo jogado para trás ainda molhado pelo banho, curvada sobre o livro de geometria e enrolando o cabelo no lápis enquanto cantarolava a musica.

— O que ele te disse? – Ele perguntou, subitamente tomando coragem para perguntar.

Ela suspirou, sabia que ele lhe perguntaria isso uma hora ou outra, ela olhou para cima, os olhos cor de mel refletindo a luz da luminária.

— Nada demais. Só coisas relacionadas ao projeto que estávamos desenvolvendo -Respondeu, evitando contato visual.

Ele levantou de sua cadeira, desconfiado.

— Nada demais? Essa é a mesma resposta que você me diz toda vez, Beth. Quando será que você vai perceber que eu não sou tão ingênuo quanto você pensa? – Disse Joshua em um tom impaciente.

Beth entortou os olhos para ele, daquele jeito irritante e fofo que o fazia querer beliscar as bochechas gorduchas dela.

— E por que eu deveria alguma satisfação pra você, irmãozinho.

Então ele fez o que sempre fazia, e o que odiava fazer, deu as costas e subiu a escada, entrando no quarto compartilhado e se jogando na cama d’agua com tudo, conseguia ate ouvir a voz da mãe em sua cabeça “Isso, pule mesmo, assim o colchão fura e quero ver quem vai dormir no chão!”.

E Beth ficou lá em baixo, ainda ouvindo a musica e sentindo o rosto esquentar com o isolamento que ela tinha provocado no irmão. Quando sentiu o celular tocar, pegou e olhou para a tela brilhante, o nome estampado ali: Carol!

Demorou um pouco pra atender, ouvindo a voz indignada na linha:

— Meu deus, Beth! Estou tentando te ligar faz uma hora! – A voz de Carol era linda, melodiosa, até mesmo quando gritava, com raiva.

— Desculpe, estava estudando. – Ela disse, fechando os olhos cansados pela leitura. – O que foi?

— Teria como você me buscar? Estou presa e não acho um taxi.

— Não sei se vou poder, o carro é do meu irmão e ele está chateado comigo.

— Por que? O que você fez dessa vez?

— Por que você sempre acha que eu sou a culpada?

— Porque você está sempre implicando com o Josh! Aposto que tem haver com aquele cara da loja!

— Ah, meu Deus! Você também não! – Beth exclamou, batendo com a mão na mesa. Se arrependeu imediatamente. – Ai.

— Ok. – Carol respondeu. – Mas teria como você pedir pro Josh me buscar, então?

— Eu...

— Por favor!

— Josh! – Beth gritou para o irmão enclausurado.

Joshua não respondeu, Beth subiu as escadas e bateu na porta, dizendo:

— Josh, por favor, fala comigo, a Carol precisa de uma carona e meu carro está no mecânico, você pode ir buscar ela?

Ele continua em silencio. Beth desceu as escadas impaciente, agarrou o celular e disse para Carol espera-la, foi ate a garagem de sua casa e pegou as chaves do carro.

A caminho da Galeria Degli Uffizi onde ambas trabalham, Beth estava pensando na bronca que receberia de Josh quando voltasse para casa. Estavam brigando muito ultimamente.

Sentia saudades da época em que os dois passavam o dia inteiro se beijando.

O relacionamento deles tinha sofrido essa mudança súbita na adolescência, em um desafio idiota das festas em que iam juntos. No começo, eram só selinhos inocentes, mas passaram para algo fora de controle antes que dessem conta. Não que essa relação os impedissem de ficar com outras pessoas, e isso é o que mais os faziam brigar, apesar de nunca admitirem o ciúme ou o sentimento de traição.

Seus pensamentos foram cortados ao virar a esquina, ela já conseguia ver a galeria. As longas paredes adornadas e o lindo jardim lateral agora coberto de neve. Seguindo em frente, viu com nitidez o cabelo ruivo acobreado de Carol ao longe, em volta em pesados casacos e segurando um guarda-chuva, veio correndo, a bota de salto afundando na neve. Quando entrou, estava batendo queixo. Estendeu os dedos para o aquecedor, dizendo:

— Finalmente né sua piranha, já estava congelando.

— Tá reclamando? Te deixo aí e dou meia volta.

As duas começaram a rir e se abraçaram, fazia muito tempo que elas não passavam uma tarde se divertindo juntas, o trabalho e os estudos deixavam Beth muito ocupada, e Carol sabia disso:

— E aí, vamos encher a cara?

— Off The Hook!! – Gritou com os braços no ar. Deu a partida e dirigiu até o Pub, a neve caía torrencialmente e cobria dois palmos do bar fechado.

— Aah! – Gemeu Carol, desanimada.

— É Deus impedindo um coma alcoólico, relaxe. – Disse Beth, sarcástica, enquanto dava meia-volta em direção a sua casa.

— Pode ser. – Disse Carol num tom desanimado.

— Não se preocupe, não vai ser nenhum Off The Hook mas eu prometo que vai ser divertido.

As duas conversaram e cantaram varias musicas aleatórias, já chegando na casa Carol tocou no assunto de mais cedo.

— O que tá rolando entre você e aquele cara que trabalha lá na galeria?

— Ah, isso de novo não, Carol! Já te disse que não tem nada entre nós dois, só saímos algumas vezes pra almoçar.

— Me poupe! – Seu rosto ficou vermelho. – Beth... – Carol começou, muito nervosa, e depois despejou tudo de uma vez. – A verdade é que eu sei de toda sua historia com o Josh, eu sei que sua vida amorosa agora está um verdadeiro inferno. E mesmo não sendo a melhor hora... – Ela engasgou, não conseguia continuar. A unha do indicador raspando no polegar enquanto encarava o chão. — eu gosto de você, Beth.

Beth se sentiu corar imediatamente, os últimos anos de sua vida foram tão conturbados e ela nunca parou pra pensar na amiga desse jeito. Estacionaram o carro na entrada de casa, a porta da garagem estava cheia de neve. As duas entraram, sem fazer contato visual.

— Fala, Tribioli. – Joshua cumprimentou, esparramado no sofá com uma toalha no pescoço, o cabelo molhado e uma fatia de pizza na boca.

— Ei Josh. – Carol respondeu, se sentando ao lado dele e pegando uma fatia para si.

Beth suspirou aliviada, talvez pudessem fingir que nada tivesse acontecido, sim, e tudo ficaria bem, tudo ficaria muito bem!

Ela se sentou ao lado do irmão, pegando o controle do Xbox.

— Halo?

Joshua pegou o controle. – Vê se não campera dessa vez.

— Chorão! – Disse Carol, fazendo Beth rir.

Josh olhou pra irmã no meio da partida, com a pizza pendurada na boca e o controle lambuzado, se sentiu como quando o relacionamento com ela estava no auge, relembrar dessa época o fazia corar.

Beth percebeu o olhar do irmão, conhecia bem aquela expressão, sabia exatamente o que ele estava querendo e isso a fez corar também. Carol estava tão distraída com a partida que nem percebeu a tensão entre os dois.

Beth levantou e disse:

— Nos viemos aqui pra encher a cara, bora beber ou não?

— Boooora!

Todos começaram a rir, Joshua foi ate a cozinha e voltou com uma garrafa gigante de Belvedere com varias latas de Coca-Cola.

Depois de horas de Halo, pizza e vodca Carol já estava babando, apagada no sofá.

Joshua e Beth ainda estavam acordados, sentados no chão e bêbados, discutindo:

— Tô te falando, é completamente possível!

— Não, isso é ridículo. – Beth respondeu, ainda com o copo na mão.

— Pense bem, é obvio que aliens existem, e se eles são mesmo superior em tecnologia e tudo, por que não tomar posse de um planeta de macacos?

— Porque, se eles são superiores em tudo, eles teriam mais moral que nós!

— Aliens não tem a mesma moral que nós, Beth, por favor né! – Joshua respondeu, servindo a garrafa já na metade para os dois. – Isso explica por que não teve nenhuma invasão, eles protegem o território.

— Uma máfia alienígena?

— Exato!

Beth começou a rir. – Meu deus, cala boca.

— O que?! – Ele respondeu, meio indignado e risonho pelo álcool.

Josh balançou a cabeça, o que fez sua visão rodar. Ele segurou em um dos ombros de Beth para se firmar.

Ela olhou para ele, estavam pertos demais.

— Bem, acho que já é hora de dormir. – Ela disse, se virando para levantar, mas ele segurou seu rosto.

— Beth...

...

...

...

Quando acordou já estava claro, a dor de cabeça martelando forte e quando apoiou a mão no chão sentiu que estava meio pegajoso.

Pegajoso?

Josh olhou para mão, completamente suja e cortada.

Vários flashs da noite anterior voltaram para ele, a bebia, a discussão, e depois... Ele olhou ao redor, Carol ainda dormindo em cima do sofá, com a cabeça virada para baixo.

Beth estava ao seu lado, cacos de vidro espalhados pelo chão e poças de vodca. A meia-calça rasgada e a saia levantada, vários botões da blusa soltos.

Isso foi como um soco.

Pior.

Foi como um caminhão, indo direto na barriga dele.

Não era possível! Isso era, eles nunca fariam...

Mesmo bêbados, por quê?!

Joshua sentiu os olhos, o rosto e o pescoço queimarem. Ele tinha vontade de dar um soco em si mesmo, e quebrar tudo naquela casa.

Estava desesperado, hiperventilando.

ABERRAÇÃO. – Sua mente gritou, e ele levantou, cambaleando para sala até a porta.

Não

NÃO

Isso é impossivel, isso é...

Ele andou pela calçada, a neve começava a derreter com o sol.

Você quis isso!

Não, eu não! Eu nunca...

Andava de um lado para o outro, os carros passando aumentavam o zunido em sua cabeça.

Você quis! VOCÊ FEZ!

Um caminhão buzinou, fazendo Josh sobressaltar, estava sentado no chão, o corpo tremia.

E ele não pensou quando fez, apenas três passos e um motorista indo rápido demais. Rápido demais para um dia de neve.

O ultimo dia de neve da vida dele.

O ultimo dia de paz para Beth.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!