Neva Lá Fora

3 Comida de hospital tem gosto de vômito


Notas iniciais
Fiz este capítulo com muita criatividade, e algumas ideias na mente. Obrigada aos que estão acompanhando *-*

Meu desdouro era eminente, e ele apenas sorriu. As recomendações de minha mãe para andar mais devagar não foram suficientes, principalmente porque eu estava habituada nos mesmos braços que serviram de lareira para mim quando sai do hospital. Meus descuidos pareciam surgir de uma hora para a outra e justamente na presença dele. Sim, daquele cara que me segurou quando meus pés decidiram me pregar uma peça.

— Você não consegue dormir sem dar uma esbarrada em mim, não é? – Se eu quisesse esbarrar em você eu falava, o.k?

Certo, não deixarei meus pensamentos falarem por mim. Eles seriam grosseiros e eu receberia uma resposta que iria acabar comigo, com certeza eu não diria aquilo.

— Ah? É você?

— Sim, eu mesmo. Acabei de voltar da minha aula de violão. – Por que ele não me disse antes que tocava violão? Traidor. – E eu não fui muito bem.

— Ah, sinto muito. Você vai melhorar – Não sinto muito, não! E você não vai melhorar, porque eu sou uma pessoa má que vai te amaldiçoar pelo resto da sua vida!

— Por que anda com tanta pressa?

— Não é nada, não. – ME AJUDA! S.O.S! Todos os dias de manhã eu vou para um inferno!

— Eu queria esclarecer uma pequena dúvida. Por que anda com esse aparelho?

— Aparelho? Que aparelho? – Boa desculpa, ele com certeza vai acreditar que você não sabe do que ele está falando.

— Este... Bem do seu lado.

— Ah, este? Bem, eu tenho asma.

— Ninguém que eu conheço que tem asma usa um aparelho deste tamanho. Usam geralmente um armazenador pequeno, não esse gigantesco.

— É, o meu caso é grave.

— Ah. Vou fingir que acredito. – Ele sorriu. Sorriso desgraçado, queria quebrar-lhe os dentes.

— Mas é verdade!

— Sei, não quer tomar uma xícara de café naquela cafeteria ali, não?

Eu só queria deixar para trás o que ocorreu naquela rotina irritante, confesso que eu aceitei o convite. E não tenha nada mais com que me arrependi na minha vida. Por que esta mente burra não me deixa em paz?

Chegamos a cafeteria, pedimos dois expressos com algumas raspas de chocolate. Tinha uma sensação que quase me bloqueava de conversar com ele, um frio na barriga. Parecia que tinham borboletas voando por ali, eu não quero descobrir o que é. Eu não quero descobrir que é o que temo ser. Ele contava histórias de sua vida como seu pai se achava um ser soberbo ou como sua mãe limpava a casa incansavelmente todos os sábados. A vida medíocre de qualquer um estava me pertencendo, e o que mais me temia era se ele não fosse qualquer um. E se ele fosse aquele que eu entregaria meu coração morto? O meu coração que carrega uma praga? Eu nunca me importei tanto com um problema relacionado a isso quanto desta vez. Ele falava mais e mais coisas, e eu ia me interessando mais e mais vezes. Eu não podia me apaixonar por ele, não por um estranho qualquer que esbarrei na rua. E a vontade de me aproximar e de contar tudo que ocorria comigo para ele era cada vez maior. Parecia que aquilo corroía minhas veias e não me deixava respirar. Digo, não me deixava mesmo. Eu comecei a ficar ofegante naquela mesa, e ele estava ocupado demais contando a história de sua vida simples para me ajudar. Ou ele não estava percebendo. Acho que ele só percebeu quando eu cai no chão frio (frio, mesmo!) daquele lugar clamando ajuda. Eu sentia o café quente escoar pelos meus cabelos que foram ficando cada vez mais molhado e quente. Eu ainda sentia meu coração batendo, para mim era um ótimo sinal. Eu não ia morrer três meses antes do acontecimento tão esperado. Eu só ouvi os gritos com meu nome que logo se foram abafando pelo vento forte que batia em meu rosto. Eu tentava falar algo e não conseguia, sentia meu corpo sendo abanado várias vezes pelas mãos daquele estranho, e senti meu corpo estremecendo inúmeras vezes, ouvindo o barulho de sirenes que me devoravam aos poucos. A agonia era imensa de meu corpo imóvel e sem condições de respirar sem ajuda.

E o barulho incansável daquele aparelho do hospital me rasgava por dentro, meus olhos não podiam aguentar tanto peso, não conseguia levantá-los por mais fácil que parecia. Ansiedade era pouco para me descrever agora.

— Filha eu... – Algo cortava as falas das pessoas, era como se um apito fizesse barulho dentro de meus ouvidos. Eu apertava incansavelmente meus olhos diversos turnos para tentar dar um aviso de que eu estava acordada. Mas ninguém viu ou comentou nada. E aquilo me deixava apenas mais exausta, e mais exausta e mais exausta. Eu só queria que alguém olhasse as minhas tentativas de alerta, e quanto mais eu desejava, menos acontecia. Um dos estranhos que me viu caída no chão da cafeteria conseguiu encontrar um dos meus cadernos na mochila que falavam meu endereço. Apenas esta foi minha salvação, as vezes sou sortuda até demais.

— Acor... – Ainda tinha o mesmo problema, mas eu conseguia decifrar algumas palavras deles. Só não sabia a quem pertencia as vozes. Aquilo estava me matando por dentro, eu só queria acordar!

Alguém segurou minhas mãos e apertava muito, nunca senti algo tão forte. Meu corpo clamava por força e eu clamava por água.

— Ah... – Consegui falar algo? Eu consegui. E consegui abrir os olhos também! Finalmente, chega de aflição!

Minha mãe me abraçou de um jeito sincero, mas me sufocava. Então a dei um beliscão.

— Ai! Não precisava disso!

— Desculpe-me... Cadê o Foster? – Sim, eu gostei o bastante para lembrar o nome que ele tinha me falado segundos antes de eu ter um ataque no meio de uma cafeteria.

— Foster? Aquele rapaz que te levou até em casa?

— Acho que sim...

— Ele teve que ir para casa, os pais dele ficaram bravos por ele ter se envolvido nisso.

— Certo, então. Estou com sede.

— As enfermeiras foram buscar água e comida. Você tem que descansar enquanto isso.

— A única coisa que eu não quero agora é descansar. Dá agonia só de pensar nisso.

— Por quê?

— Longa história, só quero comer e sair logo deste hospital lazarento.

— Pelo jeito você acordou com mau-humor.

— Você acha? Nossa, ninguém percebeu isso. E se não bastasse cair no meio de uma cafeteria eu estou com dor de cabeça. Esta sensação é horrível. Eu só quero alguém para me acalmar agora.

— Eu estou aqui.

— Mãe, você é uma das pessoas que mais briga comigo, portanto isso não serve de nada.

— Muita consideração, em? Obrigada.

— Por nada.

Uma enfermeira colocou um prato de sopa, ou o que seja aquilo, no meu colo. Em seguida me deu um copo de água. Já deve ter descoberto o que fiz em seguida. Aliás, a sopa tinha gosto de vômito de javali.