Neva Lá Fora

1 Os braços agasalhados de um desconhecido


Marilyn

Aquela enfermeira qualquer entrou na sala e me remediou. Eu sinceramente odiava ter que tomar medicamentos, principalmente aquele com gosto de vômito. Eca!

— Senhorita Marilyn, você não tomou suas pílulas ontem. Como conseguiu dormir bem? – Perguntou a enfermeira.

— E quem disse que dormi bem? Acordei hoje com sede e com fome, e o máximo que me deram para aplacar minhas vontades foi um pudim minúsculo e um remédio com gosto de bunda. – A respondi.

— Ora essa... Mais respeito, mocinha. Não é porque você está doente que pode me tratar dessa maneira. – A enfermeira retrucou, enquanto me debruçava.

— O que você vai fazer? Já me remediou hoje, saia do meu quarto. – Disse à enfermeira, enquanto me debatia esmurrando a maca com meus dois punhos.

— Dá para ficar quieta? Eu tenho que aplicar mais um remédio, só que desta vez será com uma seringa. – Falou a peste enquanto tentava me dar agulhadas com aquele objeto pontudo.

— Me solta sua vadia! Socorro! – Soltei um grito para tentar afastar aquele monstro ambulante com a maquiagem vultosa.

— Cala boca, Bicho do Mato! Você vai acordar os outros pacientes! – Ela respondeu tentando me segurar com um dos braços enquanto o outro me dava agulhadas em todos os lugares possíveis, todos mesmo!

— Sai! Sai! Sai, sua rapariga dos infernos! Me sol... ta... – A minha voz foi sendo abafada pelo sedativo que ela me aplicou naquele momento. Dormi como uma pedra.

Marilyn OFF

— Agora você não vai causar mais problemas. Vai dormir igual um bebê. – O verme ambulante me virava para a posição normal novamente. Eu roncava como um porco.

— Já aplicou os sedativos? – Perguntou o doutor, entrando na sala afobado.

— Sim senhor. – A enfermeira qualquer respondeu.

— Então leve-a para a sala de cirurgias. E ande logo que tenho mais pacientes para tratar. – O doutor se retirou da sala dirigindo-se a qualquer outra.

A ruiva pegou a maca a arrastando rapidamente ate a sala de cirurgias.

— Sinto muito por isso, meu docinho... – A mãe de Marilyn chegou ao seu lado enquanto a maca empurrava a porta da sala. Chorando, a mulher passava a mão nos cabelos dourados da filha.

— Senhora Rose, não se preocupe. A cirurgia trará melhoria para sua filha. Agora, se me dá licença, terei que levá-la para dentro. – Falou a enfermeira levando a maca com Marilyn para dentro da sala e em seguida saindo.

Um dia e dois remédios horríveis depois.

Marilyn ON

Acordei com uma enxaqueca insuportável, parecia que tinham martelado minha cabeça. Minha mãe estava segurando minha mão e enxugando as lágrimas. Mas é claro, afinal, depois de descobrir que a filha tem apenas três meses de vida pela frente, que mãe não iria chorar?

— Eu achei que você não aguentaria a pressão... Você é forte. – Minha mãe sorriu para mim.

— O único jeito é aguentar... Não há nada a mais para fazer, não é? – Perguntei retoricamente, retribuindo o sorriso.

— Suas bochechas estão rosadas. Ainda está gripada? – Mamãe me perguntou.

— Acho que sim, mas depois de todos os remédios que enfiaram em minha boca eu espero melhorar em pelo menos um dia. – Eu a respondi, enquanto uma lágrima rolava pelo lado esquerdo de meu rosto.

—Neva lá fora... Te darão alta amanhã, que tal brincarmos na neve? – Minha mãe mantinha o sorriso no rosto enquanto passava o dedo em meu rosto, enxugando a lágrima.

— Parece bom... Sinto falta de meus amigos. – Eu a respondi, desmanchando o sorriso de meu rosto que destacava minhas bochechas rosadas. Já tinha perdido a conta de quantas vezes eu tinha espirrado.

— É importante que você durma bem... A enfermeira me disse que você não tomou sua pílula para dormir. – Ela passava a mão em meus cabelos enquanto olhava, perdida, para o chão. Era possível que se desse uma piscada, um rio de lágrimas cairia de seus olhos.

— Mãe... Nada disso valerá a pena. Sabendo que daqui a alguns meses eu irei embora, tomar remédios não ajuda em nada. – Eu tossi, colocando meu braço ao alcance de minha boca. A minha voz estava rouca. Parecia que eu tinha gritado por um dia inteiro.

— Por favor, não diga isso. – Ela chorou colocando as mãos em frente ao rosto. Sinceramente, me apertava o coração ver minha mãe chorando. – Fica comigo! Não me abandona, não!

— Não chora, mãe. Eu odeio te ver chorar. – Apertei minha mão a dela. – Eu não vou te abandonar.

— Não me deixa sozinha! Não me deixa! – Minha mãe dava gritos escandalosos, interrompidos pela sua voz rouca de tanto chorar.

— Está tudo bem, mãe. Eu estou aqui. Eu estou aqui com você. – Geralmente era ela quem me falava isso quando eu estava com problemas. Nunca imaginei esta situação ao contrário.

Ela me abraçou, parecia que estava quebrando meus ossos de tanto que me apertava.

— Me desculpe te trazer ao mundo para esse sofrimento. – Sim, ela é um pouco dramática. Já me acostumei.

— Não é sua culpa, mamãe. Por favor, pare de despejar todas suas mágoas assim. – Eu tentava a apertar em meio ao abraço, mas minha força estava completamente ausente.

— D-desculpe-me. – Gaguejou – Já está anoitecendo, você precisa descansar. Eu vou para casa fazer a janta de seu irmão. Tchau, filha.

— Tchau, mãe. Mande um beijo para Alexandre. – Aliás, meu irmão. – Diga que sinto saudades.

Ela apenas fez um sinal positivo com a cabeça e saiu.

— Parece que o mundo desaba sobre mim... – Fechei os olhos, ainda molhados.

Uma noite depois, as 13:34

Acordei, já esfregando meus olhos ainda pesados. Uma nova enfermeira entrou em meu quarto com um "morro" de roupas e colocando por cima de minha maca.

— Vista-as. Já tem alta. Sua mãe está te esperando no primeiro andar. Precisamos nos apressar. – Disse a enfermeira enquanto trazia um objeto que continha um adesivo colado. "Oxygen".

Fiz o que foi pedido e vesti as roupas. Quase fiquei sem ar com tantas roupas acumuladas. Será que estaria tão frio assim?

— Ótimo. – A enfermeira colocou o devido objeto perto de mim e envolveu um fio condutor de oxigênio por baixo de meu nariz, também passava por trás de minha orelha. Acho que o objetivo era fazer com que o tal "fio" ficasse suspenso. – Vamos descer. Segure a alça para que leve-o também. – Acho que ela referia ao objeto, então fiz o que foi pedido.

Descemos até a recepção do hospital. Havia uma senhora chorando ao ombro de um rapaz. Era uma cena comovente.

— Vamos, Marilyn. – Minha mãe segurou minha mão direita me levando para o lado de fora. Estava bem frio e as ruas eram escorregadias. Imagine se um apressadinho passasse correndo por ali. Era um tombo feio! – Parece com o olhar perdido, no que está pensando?

— Em como seria se eu não estivesse doente... – Menti. Na verdade, meus pensamentos eram muito além disso. Minha mente nunca foi fértil, não fiquei pensando em como seria o céu depois que eu falecesse. Até pensei nas possibilidades de ser um eterno vazio, em vez de um paraíso. Na verdade, eu estava pensando na forma em que eu iria morrer.

(Silêncio...)

Nós duas caminhávamos com cuidado pelo piso escorregadio, mesmo com meus pés acomodados na bota eu ainda sentia um pequeno frio nos pés.

— Não quer tomar um café? – Ela perguntou-me.

— Não, só quero ir para casa e me sentir quente novamente. – A respondi.

— Entendo. – Ela disse.

Por um breve momento eu embrulhei meus pés e tropecei, meu Deus... Que vergonha!

— Cuidado! – Minha mãe gritou, tentando me segurar. Mas alguém já tinha feito isso por ela. Um garoto alto, com os cabelos castanhos e os olhos verdes, havia me segurado. Parecia cena de filme, por um momento pensei que iria me derreter naqueles braços bem agasalhados.

— Deveria tomar mais cautela. Não vou estar por aí toda vez que você tropeçar. – Ele sorriu, mas eu ainda estava vermelha de vergonha. Ocupada demais para retribuir o sorriso.

— Que vergonha... – Eu disse, enquanto tomava minha posição normal. – Desculpe-me.

— Que nada. Estou atrasado para minha aula. Até. – Ele correu. Achei que ele iria cair, porém não aconteceu. Pelo menos não ao alcance da minha vista. Retomei a caminhar com a minha mãe.

Caminhamos muito, e tomei sermão de minha mãe. Para variar.

— Alexandre! Chegamos! – Ela gritou, e eu ainda estava com a sensação de que tinham martelado minha cabeça. Que combinação!

O pequenino veio me abraçar, era muito baixo para alcançar os meus ombros, então abraçou minhas pernas.

— Eu senti saudades, baixinho... – Minha voz ainda estava rouca, era pouco provável dele escutar. Além de ser um bebê, claro.

— Está ciente de que terá de cuidar de seu irmãozinho enquanto vou trabalhar. Não é? – Minha mãe me perguntou.

— Claro, do jeito que você trabalha eu não sei como o Alexandre não aprendeu a cozinhar e cuidar da casa... – A respondi.

Ela saiu de casa com uma bolsa gigantesca na mão, parecia pesar. Eu queria tentar ajudar, mas meus braços ainda estavam fracos, e isso apenas a atrapalharia. A neve parecia estar querendo fazer um morro. Estava tomando conta de todo o bairro, e as pessoas que caminhavam por ali pareciam as pressas.