Nesperim - A Irmandade Fantasma
14 Capítulo 12: Mortes no Jardim
Os dias estão passando desenfreados pelas folhas do calendário. E quem diria que vivenciar o sobrenatural se tornaria algo inusitadamente “normal”? Corriqueiro seria mais bem expressado quanto à vida de um Servo da Morte e a caçada aos mais malignos e horrorosos seres que vagam pela terra: os Espectros. A frequência a qual sustos quase param o coração de Bernardi todas as noites, já não é mais algo tão espantoso. Por outro lado, a cada dia que se passa o ragazzo, por sua vez, vem melhorando devotadamente em tudo aquilo que se diz respeito ao fantástico mundo dos fantasmas, motivado fervorosamente pelo pavor de ver-se novamente impotente assim, como ficou na fábrica de caixões. Talvez esse fosse o real objetivo de Felix ao mandá-lo para lá logo na primeira noite. O messere encara-o agora com outro olhar: um de satisfação. Isso porque apenas a aparência de Bernardi continua simplória; porém, os olhos de brilho morto refletem o quanto sua alma não é mais inocente e covarde. Finalmente ele se tornou definitivamente uma criatura da escuridão. Um fantasma.
Claro que o amadurecimento veio das árduas experiências das várias madrugadas obscuras e sofridas que teve o desprazer de vivenciar. Ter que enfrentar e sobreviver intacto – outras vezes com arranhões, cortes, lesões, hematomas, fraturas de todos os tipos e até queimaduras – contra diversos Espectros de sinistros aspectos. Até mesmo um Exorcismo presenciou, sim; e certamente foi bem diferente aos dos filmes, mas tão arrepiante quanto. Ah, como esquecer. Lembra-se temerosamente como se fosse ontem. Naquela madrugada, Bernardi e mais dois Servos seguiram os comandos de Jeff até uma casa nobre ao sul de Cavaleiro Galeão. Entraram sombreadamente pelas paredes e encontraram o hospedeiro – uma adolescente – adormecido em sua cama, pálido, gélido, trêmulo e gemente – reações graças à presença do Espectro, que estava matando-o aos poucos e sugando sua vitalidade. Jeff então deslizou a mão pela escuridão da parede e volto-a encharcada de uma espécie de tinta negra: sombra líquida que é, inusitada e estranhamente, possível. O veterano começou rapidamente a desenhar um círculo em volta da cama, à medida que a jovem também começou a tremer bruscamente e incontrolavelmente por causa de uma misteriosa e inesperada convulsão. Assim como uma tropa de rios, subitamente, as latejantes e obscuras veias escorreram por todo o corpo hospedeiro.
– Preparem-se. O Espectro notou as nossas presenças – Bernardi se lembra bem das palavras de Jeff, e depois de um puxão de um Servo posicionando-o diante a cama assim como os outros, fechando um ciclo de guarda.
Jeff já tinha terminado de desenhar os últimos símbolos místicos necessários no círculo, quando então avançou ao hospedeiro e repousou a mão manchada de sombras sobre o tórax do corpo tremulamente relutante – assim como a cama, que desprendeu as pernas do chão. Por minutos, Jeff proferiu uma linha de sussurros – mais agressivos a cada parágrafo – e, de repente, pareceu afundar a mão além da pele do hospedeiro. O homem gemeu por redobrar a força, então, erguendo um puxão brusco, arrancou um corpo obscuro do interior da vítima, e logo o atirou para trás. Era o Espectro. E o próprio mal pôs os pés no chão, e já estava preste a decepar o pescoço de Jeff com sua foice desembainhada. No entanto, os dois Servos estavam, cada um, imobilizando um braço do fantasma. Arremessaram-no novamente, agora contra a janela do quarto, a qual o Espectro atravessou estraçalhando-a e despencou da elevada altura junto à chuveirada de cacos de vidro, até colidir contra o chão. O Espectro se levantou quase que intacto e, antes de cogitar se voaria ao quarto ou fugiria, Bernardi já estava lá, impedindo-o de tomar essa decisão, o envolvido em uma briga como vultos; ao tempo que os outros dois Servos desciam para ajudá-lo, e Jeff adormecia e alterava a memória da vítima, cuja espiou vagamente lúcida o que arregaçou sua janela. Em pouco tempo, os três Servos destruíram o Espectro mutilando-o ao meio. Esperaram o segundo até o veterano descer flutuante à calçada desértica que estavam e, finalmente, desapareceram obscuramente.
Mesmo a Irmandade caçando e enfrentando diversidades de Espectros por toda a Moreau, entretanto, desde a fábrica de caixões, mais nenhum encontro com Espectros apontou relações entre esses e o Ladrão de Tumbas. Nenhuma pista, sinal, símbolo, ligação... Nada. Deve ser por isso que, ultimamente, Felix tem andado com dificuldades em dar sorrisinhos debochados; carrega a feição confusa e preocupada quanto aos planos dessa suposta facção diabólica. Cabisbaixo, assim como todos os outros Servos. Contudo, o líder mandara os membros não levarem mais em altíssima consideração a suspeita quanto à Aliança do Ladrão de Tumbas. Entretanto ainda é prevalecente essa crença vagando na mente de cada Servo da Nesperim. Todavia essa questão é o mesmo que tentar ver o ar aos olhos nus: você sabe que ele existe; você apenas não o enxerga. O clima pairando sobre casarão a cada dia fica vigorosamente mais pesaroso e tenso.
Enfim.
Normalmente os Servos gastam boa parte das madrugadas em patrulhas – as quais Bernardi também teve as primeiras experiências um tanto quanto conturbadas. Incontáveis vezes ele se perdeu à medida que perambulava à deriva, visitando e vasculhando lugares que há pouco nem imaginava que existiam por Moreau, cuja tem mostrado-se uma cidade grandiosa, misteriosa e excêntrica. Vagam constantemente por incontáveis bairros de todas as estruturas e estéticas; ruas, becos, praças, parques, estradas e rodovias; cemitérios quase sempre obscuramente arrepiantes – os quais Bernardi tem evitado fielmente rondar. Catedrais, candelárias, monumentos e casarões de arquitetura gótica renascentista; prédios, edifícios, arranha-céus e torres, como a majestosa torre do relógio da Praça Central de Nova Roma – cuja Bernardi nunca irá esquecer a altíssima e estonteante vista, que quase o fez despencar enquanto admirava as luzes da cidade e recapturava o fôlego ao mesmo tempo.
Vigiam devotadamente as vidas que se deslocam sob a madrugada ou repousam em suas residências. Eventualmente acabam deparando-se com alguns Espectros famintos, por outro lado, algumas noites são serenas do escurecer do céu até o momento em que o sol começa a ressurgir avermelhado pelo horizonte.
Igual à madrugada de hoje!
Já deve ter se passado das cinco horas. A escuridão da madrugada está fugindo mais a cada minuto que se passa. Entrementes, dois respectivos vultos viajam ladeados, sobrevoando alguns altíssimos prédios comerciais ao sul de San Del Frari. Sossegados, pousam os pés no terraço do último prédio da fileira em linha reta. Enquanto emergem das sombras, pairam os relaxados olhos na Avenida Flinger Macuzzo, cujo encontra-se já bem trafegada por extensas fileiras de carros lerdos, e povoada por aglomerados pontinhos pretos – as pessoas normais a caminho das suas obrigações normais. Que inveja.
– Não demorará até a luz alcançar todo o céu – comenta Nervan, anteriormente um dos vultos. – Por fim, outra madrugada tranquila.
– De fato – concorda Bernardi aéreo há tempos; sentado na beira do precipício, assistindo sem hesitação suas pernas balançando livremente sobre a elevadíssima altura. Como se aquilo o ajudasse a desprender a atenção dos pensamentos.
– Bom, devemos voltar à sede; perambulamos uma madrugada toda. E você está em cima da hora para aprontar-se e alcançar à escola.
– Não terei aula hoje!
– Ah não?!... Posso saber o porquê?
Bernardi entreolha-o, permitindo a si mesmo de tocar no assunto.
– Um faxineiro e zelador da escola, o Ser. Jones... Morreu ontem ao anoitecer.
– Entendo. Sinto muito – lamenta Nervan com sinceridade. – O quê houve?
– Ele já era um senhor de idade avançada, saúde frágil. Não sei necessariamente o motivo que o levou a falecer, mas soube que ele foi vítima de uma parada cardíaca. Foi socorrido, porém faleceu antes de chegar ao hospital.
– Que o nosso senhor leve sua alma em paz.
Os dois proporcionam dois minutos silenciosos em respeito ao homem.
– Ele tinha família? – pergunta Nervan.
– Uma filha...
– Criança?
– Não. Ela deve ter seus vinte e poucos anos. O Ser. Jones uma vez contou sobre ela. Também contou dela ter um bom emprego, um apartamento recentemente financiado em Conde Caruso, e como estava extremamente orgulhoso por ela estar prestes a se formar em medicina.
– Melhor. Pelo menos ela não ficou desamparada. Não é tão triste quanto pareceu – opina o rapaz, não querendo ser indelicado assim como foi.
– Engano seu – contraria-o com mais palavras a dizer –, infelizmente o Ser. Jones morreu antes da hora.
– Como assim?
– Poucos alunos sabem do que te direi; o falecido Bernardi era um deles. Bom, diziam que o Ser. Jones tinha um tesouro sentimental trancafiado em um dos cofres da escola, pois acreditava mais na segurança deles ao de sua casa. Era uma jóia. Um colar muito valioso.
– Herança?
– Sim, para a filha dele, como um presente de formatura. Mas ele acabou morrendo antes da cerimônia, que será daqui a poucos meses. É trágico. Quanto ao colar... imagino que seja doado à filha dele. Assim espero...
– Torceremos para que isso aconteça.
Finalmente encerram o assunto por aí, ponderando agora a altura necessária para não serem vistos sobrevoando na claridade durante o retorno à sede.
Domingo à noite. Até então fechada em luto ao falecido funcionário, o solitário colégio Jardim das Montanhas recebe um ilustre visitante cruzando o jardim a passos largos sob um clima úmido e chuvoso. O visitante destranca, entra e acende as luzes sem cerimônias, como se estivesse em sua própria casa. Um rosto conhecido surge sob o guarda-chuvão preto – um senhor além do meio século, ligeiramente pançudo, mas vigoro, com poucas rugas contorcendo seu rosto: é Ralph, outro dos dois faxineiros além de Jones. Ralph veio decidido a entrar em serviço; a escola não fora limpa desde o enterro do amigo. Ainda em luto, porém, o homem tem que executar o seu trabalho. Dirige-se diretamente à sala dos funcionários. Abre e retira um macacão azulado do seu armário metálico. Veste lentamente o uniforme, enquanto não consegue desgrudar os olhos entristecidos de uma foto emoldurada e poeirenta, posta no fundo do armário. Surpreende sua mão tomando-a. A fotografia retrata um momento inesquecível: Ralph e Jones ladeados após mais uma tarde de pescaria, dando colo a uma truta gigantesca. Ambos com um sorriso alegre estampado no rosto, disfarçando o cansaço da trabalheira que aquela truta os deu.
Um dia maravilhoso.
Para Ralph não tem como conter as primeiras lágrimas em fuga dos olhos – lágrimas de saudades.
– Descanse em paz, mio amigo – lamenta Ralph, os pingos chovendo sobre a tela empoeirada, impulsionados pelos apertos bruscos no coração e as lembranças daquele e de outros dias de amizades revividas como flash em sua mente. Ralph devolve a moldura ao fundo do armário, ladeando-a a uma caixinha azul oculta na escuridão.
– Não se preocupe velho amigo. Eu cumprirei o seu desejo.
A seguir, ele trancafia o armário, lançando antes as últimas olhadas à caixinha. Deixa a sala, arrastando um esfregão e carregando na outra mão um balde recheado de panos limpos.
O clima obscuramente nubloso finalmente desaba como uma tempestade, assim como era esperado. O barulho chacoalhante do vento brusco soprando as árvores invade parcialmente os corredores do prédio. Agora são os trovões que rugem pelos corredores, acompanhados pelos clarões dos relâmpagos que rasgam o céu enegrecido; e os batuques violentos da chuva fortíssima lá fora.
No primeiro corredor do terceiro andar, o vento varre o chão com tanto fervor que assovios agudos formam um assombroso coral. Assim recebem um fantasmagórico brilho radiante – longe de ser comparável a mais um clarão produzido por um relâmpago – cruzando as vidraças e esparramando-se no chão. Alcançando todo o corredor, a própria luz reluta em debater-se para reconstituir-se, erguendo-se aos poucos do tapete brilhoso. Começa então a transparecer numa quase forma de um corpo. Está prestes a caminhar. No entanto, sombras brotam subitamente entre o tapete luminoso e alastram-se, consumindo potencialmente a luz. Correntes obscuras emergem vivas, uma após outra, enganchando-se firmemente nas pernas relutantes do corpo luminoso. Agora acorrentam seus ombros e braços. Enforcam o pescoço. O tronco. Não é preciso de mais nenhuma corrente, pois as existentes já conseguem por hostilmente o corpo irreverente de joelhos, cujo, agora inutilizado, demonstra sua indignação emitindo ruídos baixos semelhantes à fungadas após um longo choro. Finalmente as sombras deslizam pelo corpo acima, apoderando de cada milímetro dele. Então... A última faísca luminosa desaparece. O último gemido é calado. Silêncio. As sombras causam um estouro controlado, como uma nuvem carregada, brandindo um estrondo por todo o corredor. Passam-se poucos segundos duvidosos, até uma aparição então nascer do ventre da escuridão. O antigo corpo luminoso, agora, está inteiramente possuído pelas trevas. Ressurge num corpo alto e magricelo, acobertado sob uma longa e obscura veste serrilhada, que apenas deixa livre os pés enormes e as mãos esqueléticas de unhas pontudas. Ele ergue lentamente o rosto esculturalmente cadavérico e inexpressível, afundado sob um mastigado chapéu largo e pontudo como um cone decaído. Um Espectro.
Além dos soluços grosseiros do fantasma, outro ruído frenético cresce a cada segundo. Parecem ser... Passos apressados. Espantado, Ralph vem galopando os degraus, imaginando se poderia ter sido um raio que bradou o barulho da explosão. Ofegante, o veterano chega ao topo. Logo escancara os olhos intimidados pela figura assombrosa que encara no fundo do corredor.
– Oh mio Deus... O que é isso? – soluça ele abafado pelo grandioso susto.
O Espectro vira lentamente o rosto frio para ele, devorando a calma de Ralph com os mortos olhos cor de violeta. O homem gagueja preces incompletas de socorro, estremecendo-se sobre as pernas bambas que sucumbiram ao medo e a paralisaram. Entrementes o fantasma já tem alongado um palmo do buraco que acabara de perfurar em seu próprio torso. A mão encharcada de um líquido preto puxa uma trilha de fibras escurecidas – semelhantes a ossos –, até essas se alongarem o bastante para ele mondar uma firme foice óssea.
Isso tudo apenas numa piscada rápida de Ralph. Pois, na outra, presencia o momento que a lâmina da foice arremessada alcança-o e perfura violentamente o tronco amolecido do faxineiro, cujo, agora, está cravado contra a parede, erguido pela lâmina banhada de sangue.
Ralph já não respira mais. Morto. Em cascata, o sangue foge pelas bordas do ferimento e pela boca ainda escancarada de sofrimento. O cadáver suspende o rosto frouxo, e os olhos sem vidas não têm mais poder sobre as lágrimas.
O Espectro se dirige ao cadáver, estudando o trágico assassinato sem deixar escapar um pingo de arrependimento. Alavanca o rosto caído erguendo o queixo com o dedo; aproxima e alinha seus lábios negros aos avermelhados do cadáver. Então começa. Lentamente, o fantasma saboreia a vida se esvaecendo como um fino fluxo de vapor embranquecido; e com isso o cadáver ganha mais palidez que um lençol de hospital. Por fim o fantasma termina de devorar toda a vitalidade que foi possível. Recolhe a foice com um puxão firme, e aos poucos retorna e encaixa os ossos dentre o buraco em seu tronco. Quando termina, as bordas do ferimento deslizam, estreitando o buraco até apagar totalmente o buraco. Observa friamente o cadáver por mais alguns segundos – o corpo pousara sentado, presenteando a parede com uma avermelhada faixa vertical.
Inesperadamente os luzentes olhos violeta apontam diferenciadamente para o cadáver. O Espectro sussurra algo, pouco audível por culpa de um assovio baixo. Então, quando o próximo assovio resolve soar, o fantasma já tem desaparecido.
Na manhã seguinte. Pairando diante o batente da sala, Bernardi – ligeiramente boquiaberto de surpresa – ainda tenta adivinhar o ótimo motivo por qual sua sala está completamente vazia. Não apenas ela, mas também todas as salas as quais espiou até chegar a sua. Onde estariam todos?
A resposta soa por suas costas, vinda de dois alunos correndo apressadamente.
– Vamos rápido. Todos estão lá em cima!
– O que será que houve?...
Porém, antes que Bernardi consiga ouvir a continuação, os dois jovens desaparecem subindo a escada ao corredor do terceiro andar. Curioso, o ragazzo também avança e sobe os degraus. Logo ao pôr o pé no topo, tem a atenção roubada por um mar de corpos aglomerados na extremidade esquerdo do corredor. Os alunos formam uma multidão chiante, observando algo inusitado. Bernardi batalha para conseguir penetrar e locomover-se entre as dezenas de corpos eufóricos, esticando o pescoço o máximo que consegue para tentar enxergar o que eles tanto observam inquietos.
Lá na frente, os inspetores formam uma corrente humana aos braços dados, barrando fielmente qualquer aluno que tente invadir o que finalmente Bernardi consegue visualizar: a cena do crime. Como os demais alunos, ele amarga o rosto com a desagradável surpresa da maléfica imagem do cadáver violentado de Ralph. Pobre Ralph.
Nesse instante o diretor – um homem alto, corpo lento e de bigode longo – é quem abre caminho entre o núcleo da multidão, empurrando grosseiramente cada aluno que tenha o azar de pairar em seu caminho.
– SAIAM DA FRENTE, SAIAM DA FRENTE,...
O diretor se ajoelha de frente ao cadáver, estudando-o perplexo e sem conseguir dizer uma palavra sequer durante sua gagueira.
– Cuidado para não tocar no corpo, senhor. Pode atrapalhar a investigação – comenta inocentemente o inspetor que o deixou passar.
– Acha que eu não sei disso?!... Hein seu idiota?! – repreende o homem enfurecido com o atrevimento. – Ah, Ralph... Não... Até você – lamenta com sinceridade, entreolhando os embranquecidos olhos que, misteriosamente, perderam as pupilas.
A maioria da multidão também se sensibiliza, formando um coral de soluços chorosos ou de preces sentimentais ou religiosas. Quanto à minoria compartilha comentários de o quão é inusitado ver o diretor demonstrando sentimentos por alguém, ainda mais por um funcionário a qual ele apenas comunicava-se através de gritos autoritários – como com todos os outros.
– Alunos, quero que todos voltem para as suas salas e aguardem os inspetores liberá-los para irem às suas casas – ordena o diretor sensibilizado, porém orgulhoso o bastante para trancar as lágrimas.
O extenso mar de alunos imprensados marcha às respectivas salas. Normalmente dariam vivas por serem dispensados mais cedo, o que não é o caso dessa vez. E com muita razão. Aguardam cabisbaixos, sentados e mantendo ainda o silêncio respeitoso. Exceto por um surro – uma aluna sentada aos fundos da sala. Alta e magra; pele cor de azeitona, ou melhor, pálida; olhos castanhos; e cabelo curto, tingido de uma cor esverdeada. Dona de um estilo peculiarmente sombrio – dito isso pelas cores escuras a qual geralmente prefere maquiar o rosto, e os dois piercing’s enganchados no centro de cada bochecha.
– A que horas iremos? – resmunga ela, bufando entediada.
– Credo Liza. Não fale dessa maneira – repreende uma voz um pouco aguda e manhosa, vinda da garota loira da mesa da frente. Uma garota baixa, de cabelo dourado escuro e olhos verdes; rosto delicado, assim como seu ser. Carlot, ou Carli como os amigos chamam-na. Por ventura a melhor amiga de Liza, mesmo ambas tendo gêneros completamente opostos.
– Qual é o problema, Carli? – retruca Liza livre de arrependimentos. – Em primeiro lugar, não fomos nós que matamos o Ser. Ralph. Em segundo, se ficarmos aqui apenas iremos atrapalhar a investigação.
Na mesa ao lado, um ragazzo assiste a conversa. Tony: outro amigo de Liza. Um jovem de boa aparência. Afro descendente, alto e magro; cabelo curto e encaracolado.
– Liza tem razão – concorda Tony –, apesar de que... Esse caso não aparenta ter solução.
– Como assim Tony? – pergunta Carli curiosa.
– Isso está semelhante aos casos que a mídia andou escondendo das pessoas ultimamente, porque nem mesmo a polícia está conseguindo resolver. Vocês não viram o caso da candelária de San Ortigo? Os desaparecimentos no Rio Liberdade? A casa dos prazeres? A fábrica de caixões Descanse em Paz?... Entre muitos outros. Todos os cadáveres encontrados nesses lugares tinham sinais de violência excessiva, rostos apavorados, e as mesmas marcas estranhas: a pele muito clara, anormalmente gelada e ressecada e os olhos sem pupilas. Isso não pode ser apenas coincidência. O assassino é o mesmo.
Tony é um daqueles adolescentes que, quando não tem o que fazer, navega a tarde toda na internet, lendo artigos, casos policiais ou relatos misteriosos e inexplicáveis; tentando enxergar e comparar os fatos entre eles. Inteligente e observador, não deixa de ter razão.
– É verdade. Eu também li sobre esses casos – concorda Liza que tem o mesmo passatempo do amigo. – Todos se tornaram arquivos mortos. A polícia não obteve provas o suficiente para continuar os casos. Assim, nenhum culpado. Ou o assassino é um estrategista perfeito, ou... – inesperadamente ela curva um sorrisinho malicioso antes de terminar a alegação –, ele não é um humano comum.
– Ah, Liza. Lá vem você novamente com essa besteira de assuntos sobrenaturais – debocha Carli com uma risada arrogante e abafada.
– Tola. Você nunca ouviu falar em coisas sobrenaturais?
– Tudo balela.
– Conhece o Stonehenge na Inglaterra? Ele é um monumento histórico formado por pedras que pesam aproximadamente cinquenta toneladas cada – leciona Liza como se fosse especialista no assunto. – Em dias específicos e premeditados, e não por coincidência, o monumento fica alinhadamente abaixo do sol.
– E daí? – questiona Carli seca.
– E daí que suspeitam que elas sejam originárias de outro país. Já seria bem difícil transportá-las hoje em dia, imagine há séculos atrás. Fora o fato de terem sido postas num cálculo perfeito. Então me diga, como é que aquelas pedras de cinquenta toneladas foram carregadas de um país a outro, e organizadas para se alinharem exatamente com o sol?
– Coincidências, mitos, contos... Algo lógico – retruca Carli carente de um argumento mais convincente até para si mesma.
– Ahhhh, Você não vê, sua tapada?! – ralha Liza subitamente grossa. – Elas eram usadas para cultos espirituais e rituais sobrenaturais. Poderes místicos e ocultos colocaram-nas lá. Magos. Espíritos...
Carli não consegue conter as gargalhadas irônicas por muito tempo.
– Desculpa, mas você deveria ver menos televisão – zomba ela recuperando o fôlego. – Coisas sobrenaturais – enfatiza enrouquecendo a voz –, não existem, Liza.
– É um equivoco apostar nisso, Carli – defende Tony –, espíritos existem. Muitas pessoas entram em contato com eles, invocam-nos e até mesmo usam seus poderes. Vi muitos vídeos reais que me provaram isso. Se você quiser, eu lhe mostro alguns...
– Ahhhh, no grazie – dispensa Carli com uma careta enojada.
Inusitada e novamente, Liza abre um sorriso misterioso e malicioso – mais largo que o último –, encorajado pela ideia que acabara de ter em sua mente excêntrica.
– Tony, você me deu uma ótima ideia! – desabafa ela empolgada. – E se o misterioso assassino for um espírito maligno rondando pela cidade?! Claro. Espíritos não deixam pistas e são difíceis de serem encontrados. Tudo faz sentido.
– Não duvido dessa hipótese – argumenta ele –, mas qual é a ideia?
– O último assassinato foi aqui; ele ainda pode estar rondando a escola. O que acha de virmos aqui à noite e invocarmos o espírito?
– Genial – concorda o ragazzo contagiadamente eufórico. – Poderíamos ainda trazer uma câmera e gravar tudo. Eu estou dentro!
– Perfetto... Carli?
– Eu não!
– Ah, Carli. Não é você que não acredita no sobrenatural? – provoca Liza esperando arrancar uma resposta positiva. Porém...
– Sim, sou eu. Por isso acho que não valerá à pena vir aqui e perder mio tempo – gagueja ela claramente mais nervosa do que há um minuto.
– Medo? – saca Liza.
– Claro que não.
– Então por que não virá?
– Porque eu não quero!
– Pretexto para não admitir o medo.
Consistentemente, Liza persiste em provocá-la odiosa e habilmente com uma pirraça própria de uma adolescente. E o faz, até o breve momento que o rosto de Carli não consegue mais corar de impaciência e nervosismo. Finalmente ela explode.
– Basta... – cede a garota, bufando como um touro enfurecido –, virei e provarei como vocês são idiotas por acreditarem nessas idiotices.
– Ótimo Carli – agradece Liza risonha de satisfação por alcançar seu objetivo.
Tony vira seu rosto contentado à mesa de trás e ao ragazzo lá sentado. – E você, Cassio? Poderia trazer a câmera do seu babbo?
– Por mim, tudo bem – responde um ragazzo inchado que acompanhara a conversa. Cassiano, apelidado por Cassio, é o quarto integrante da turma isolada de amigos. Um jovem corpo lento – acima do peso para falar a verdade –, pele cor de oliva, porém sempre está com a mesma rosada; fica assim quando está envergonhado ou perto das pessoas... Ou seja, o tempo todo. Tímido e reservado demais até com seus amigos, sem falar por longos períodos. Liza até satiriza dizendo que ele usa a boca apenas para comer – o que não deixa de ser uma verdade.
A conversa se tornara tão envolvente que, apenas agora, os amigos percebem serem os únicos na sala esvaziada. Os outros alunos já devem estar a caminho de suas casas, exceto Liza e seu grupinho... E... Um ragazzo parado ladeado à porta: Bernardi. Quieto por causa de um mau-pressentimento, cujo atormentou-o após um arrepiante calafrio. Reflete sobre o que, visando involuntariamente os cochichos de Liza e seu grupo ao fundo da sala. Por outro lado a garota não se agrada muito ao notar ser alvo da atenção dos olhos cinza dele.
– Está olhando o que? Hein ragazzo zumbi? – resmunga Liza grosseiramente. A ofensa referente às não esquecidas semelhanças entre Bernardi e o falecido.
– Pare Liza – repreende Carli. – Desculpe, por favor – pede agora a Bernardi.
Mas Liza não se intimida. – Ainda está aí?... Decidindo qual de nós vai devorar primeiro? – zomba novamente.
Bernardi não se presta à vulgaridade de retrucar contra a garota, pois seus pensamentos estão quase desistindo de encontrar o que tanto te incomoda. Mas algo consegue desprendê-lo da preocupação: Hugo e Sarah, que vieram ver o porquê da demora do amigo. O trio deixa a sala, assim como o grupinho de Liza. E caminham separados a uma distância confortável.
Já é quase o fim desta tarde de céu alaranjado, e as viaturas policiais ainda permanecem no estacionamento do colégio. Assim como esperado. Nem por isso um corpo encapuzado deixa de avançar apressadamente pelo gramado verde vivo do jardim, até cobrir a distância às postas da diretoria. O ar está tenso graças à perambulante trupe de policiais que, a cada minuto, acrescenta uma nova pergunta aos interrogados e aflitos professores, inspetores e outros funcionários. Para piorar, acompanham o tom enfaticamente agressivo do diretor em suas palavras, enquanto este discute com o detetive, cujo está a um fio de dar voz de prisão ao homem por desacato. Enfim. Todos têm motivos mais que o suficiente para estar com a cabeça fervendo ao ponto de não notar um elefante cruzar a diretoria; muito menos uma sombra incógnita esgueirando-se, sem demorar mais que um segundo. No terceiro segundo, ela já tem alcançado a escada centrada no corredor. No quarto, sobrevoado todos os degraus ao terceiro andar. O rosto sob a escuridão do capuz estuda a presença de um jovem e impaciente policial vigiando o cadáver, mas, que agora, vem caminhando pelo corredor, sem notar nada fora do normal – assim como nas últimas três horas entediantes.
Subitamente algo abala o policial. Seus passos parecem perder estabilidade quando passam diante a escada. A seguir, os olhos caídos perdem o foco. O corpo a força. Guincha uns três suspiros profundos. Um gemido também. Então o policial despenca desacordado.
Materializadas, assim como o resto do corpo, as mãos cobertas em luvas negras aparam a queda do corpo, segurando e levando as costas amolecidas delicadamente ao chão.
A sombra avança. Pára apenas diante o cadáver aparentemente submetido a uma prévia autópsia. Coincidentemente o mesmo objetivo do intruso encapuzado, pois ele já se agachara para poder tatear e apalpar delicadamente o corpo de Ralph. Não demora muito até satisfazer-se com suas observações e descobertas. Bem a tempo de mudar sua preocupação agora para os passos quase inaudíveis que vem subindo a escada. Um policial chega galopante ao topo, cheio de novidades para o parceiro – como a prisão por desacato do diretor. Mas então...
– Clarck? Clarck... – vocifera ele amargado de preocupação, avançando rapidamente para socorrer o companheiro inconsciente. Estapeia levemente o rosto desacordado, e tranquiliza-se apenas quando sente o pulso e os batimentos do companheiro normalizar-se devagar. Agora, o enfurecido policial corre os olhos pelo corredor buscando quem fizera isso ao companheiro. Nada encontra além do cadáver do faxineiro.
A essa altura, o invasor encapuzado já tem deixado o jardim do colégio no passado.
O badalar das seis horas, soados pelos longínquos sinos da catedral recebem qualquer um que se aproxime da Praça dos Anjos Caídos, e atreve-se a cruzá-la – como o corpo encapuzado caminhando ao casarão. Ele entra no bar já pouco movimentado de clientes, e permite-se finalmente a descobrir o rosto do capuz. Bernardi agora procura visualmente um rosto esperado entre os cinco Servos, cujos estão encerando o chão e esfregando panos úmidos nas mesas. Um deles é Ithan, deslizando um esfregão pelo piso xadrez, atrás de um avental branco para não sujar de pó o belo colete índigo.
– Faxina? – cita Bernardi se aproximando do menino.
– Sim, já que você não a fez nesta tarde. Mas acredito em boas razões para isso – comenta Ithan, o escolhido que Felix encarregara de repor o trabalho de Bernardi. – Ciao Bernardi. – cumprimenta parando o esfregão.
– Ciao. Onde está o Ser. Felix?
– Estou bem aqui! – responde a voz do líder, sentado sobre uma mesa ali perto, que estava vazia há um segundo. – O que descobriu para mim?
– Corpo anormalmente gélido e branco como um lençol, ferimento anormal, pele descascando e o auge da confirmação: olhos sem pupilas. É uma certeza agora. O faxineiro foi morto por um Espectro – revela Bernardi entreolhando-o firmemente.
O líder funga forte e suspira pesadamente. É notável a preocupação nublando o rosto afogado em pensamentos. Um momento raro – tanto que Ithan e os outros membros esquecem as funções e direcionam a atenção ao homem.
– Assusto a mim mesmo ao tentar imaginar o quão horripilante é essa situação. Um Espectro em uma escola. Imaginem se ele tivesse a oportunidade de ceifar centenas de vidas no mesmo dia. Mas pelos céus descobrimos antes do banho de sangue – esclarece Felix horrorizado, como não é de costume. – É imprescindível. Devemos destruí-lo rápido, antes que ele tenha a chance de devorar mais vidas ou monte um Encosto.
Bernardi se arrepia só de imaginar mais paredes do colégio manchadas de sangue, e cadáveres esquartejados e vitimados. Centenas de funcionários e alunos mortos, o que inclui os seus amigos.
– Por isso terá de ser feito esta noite – ordena o líder. – Quero que vá jovem Bernardi. O senhor é primordial nessa tarefa já que conhece bem a área do colégio. Gostaria muito que o jovem Ithan o acompanhasse. Sei que os dois se dão bem...
Sem terminar, Felix direciona o olhar à extremidade esquerda do bar, e quando o sussurro da porta recém-fechada alcança-os, ele cita o último nome que completará o grupo: – E Dennis também!
Imediatamente, o rapaz começa a vir aonde foi mencionado.
– Dennis?! – repete Bernardi ligeiramente surpreso.
A sugestão soa como um ligeiro balde de água fria. Ir com Ithan não é inusitado ou constrangedor – o menino lembra muito o jeito de bem com a vida de Nervan; às vezes é irritantemente excessivo com brincadeiras imaturas, mas, até hoje, nada tão abusivo. Porém Dennis, a quem Bernardi poucas vezes trocou mais que cinco palavras indispostas?! É desconfortante imaginar como os dois se comportarão na primeira caçada juntos, graças ao jeito frio e severo do rapaz.
Por outro lado, Dennis não parece questionar de forma alguma quanto à primeira parceria com Bernardi, durante a explicação de Felix sobre a árdua situação. Apenas crava um olhar gélido no ragazzo, como é de costume.
– E que horas partiremos? – pergunta Ithan, após encostar o esfregão à parede e ficar na ponta dos pés para pendurar o avental em um gancho.
– Quando o céu estiver totalmente escuro – responde Felix.
– Então que assim seja mio signore – concordam os três Servos, começando a ponderar o que será preciso para sobreviver a essa caçada que promete ser difícil.
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