Nesperim - A Irmandade Fantasma

12 Capítulo 10 - A Primeira Noite


Notas iniciais
Finalmente...

Embora a proeza, porém, estão sendo pouquíssimas as horas que Bernardi reside na casa dos Balleny – especificamente as manhãs até os meados das tardes dos finais de semana. E estes não estão sendo o mar de rosas que ele ansiava.Ele é nada além de um estranho.Um inquilino. Solitárias são as horas que se arrastam, enquanto Bernardi espera cada segundo passar, estirado sobre a cama do quartinho, lendo ou pensando; franzindo o mesmo rosto descontente por não estar próximo à sua família, como estava nas suas fantasias otimistas.
Raramente os vê. Geralmente eles cruzam a garagem apressados, e então partem de carro como se estivessem atrasados para pegar um avião. A família Balleny costuma ter um lugar para ir aos fins de semana – visitar parentes ou amigos,ir a lugares culturais ou divertidos, comer fora...
Do contrário, quando não optam em sair, Bernardi apenas consegue ver o vulto da jovem Lauren cruzando a garagem, soltando um ligeiro “buon giorno vizinho” antes de sair para brincar com as filhas gêmeas da Madame Johnson. Ou, contudo até então a única cordial vem sendo a Madame. Balleny. Sempre quando está prestes a sair, não hesita em parar diante o batente do quartinho e trocar algumas palavrinhas simpáticas com o ragazzo – este que a recebe com um bobo e esquecido sorriso. Ultimamente até comida ela anda lhe oferecendo constantemente, já que Simon proibiu-a de convidar Bernardi em juntar-se à mesa com a “família”. Não é algo anormal para que abale tanto Bernardi quanto além de uma rejeição. Além disso, nunca imaginara que algum dia voltaria a degustar os fabulosos pratos da família, como a torta de chocolate, os pasteis de calabresa com queijo,a bolonhesa,as pizzas caseiras. Mais prazeroso que isso – e bem mais, aliás – é surpreender a Madame Balleny voltando gradualmente a fazer aquilo que nasceu para fazer – tocar piano. Por estar no canto da sala-de-estar, e o quartinho ser na extremidade da garagem, apenas uma parede separa as embargantes melodias do piano à cama de Bernardi. Desde a tragédia, sua participação na Escola de Músicas ainda continua suspensa, contudo, os dedos da mulher continuam graciosos sobre os teclados – para a alegria dos ouvidos de Bernardi, agora mais que nunca, um grande admirador.
Já Simon é um caso totalmente diferente de sua esposa. Em poucas circunstâncias paira alguns segundos diante Bernardi. E quando isso ocorre, sempre o cumprimenta educadamente, mas não gentil ou amigável como Mariana. Não há nada amigável naqueles olhos frios, aliás. Entretanto não é exatamente isso que machuca Bernardi, e sim o que constantemente vem depois: Simon conduzindo Mariana e Lauren aos risos para algum lugar divertido que eles possam aproveitar o momento em família, Igual eles sempre faziam, quando o ragazzo ainda podia acompanhá-los – o que não queria dizer que Bernardi saia com eles com frequência. Por alguns momentos já cogitara consigo se sua falta não faz mais diferença aos rostos sorridentes ou distraídos que encontra na casa dos Balleny. Então finalmente sua morte foi superada? Esquecida?... Mas logo afasta esses pensamentos da mente quando, constantemente, surpreende os sussurros das orações para sua alma, feitas por cada membro da família antes de ir dormir.

Mesmo não morando mais no alojamento da Irmandade, porém, as horas de Bernardi na sede não diminuíram parcialmente. Ou melhor, quase nada. Todos os dias após as aulas, ele se dirige sem perda de tempo à sede para cumprir o acordo que fez com Felix: o ragazzo triplicará a dedicação como um Membro quanto às tarefas caseiras, e o líder pagará o aluguel do quartinho todo o mês. Ou seja, o ragazzo tem um trabalho de quebra-galho – como Felix parece divertir-se em apelidá-lo – todas as tardes da semana. As dedicações variam diariamente. Uma tarde toda pode ser prestada para limpar todos os milímetros do bar, ou os diversos corredores subterrâneos, as estranhas salas, os muitíssimos quartos... Ou, para Bernardi atuar de garçom aos elegantes clientes e magnatas que lá aparecem durante o dia.
Os preços dos pratos e bebidas no cardápio são altíssimos, Bernardi se assustara ao verificar uma vez. No entanto, isso não intimida nenhum dos clientes em voltar sempre e até em dois e dois dias. Homens engravatados ou muito bem vestidos; esnobes, arrogantes, vaidosos, donos de olhares fúteis que gostam de subjugar qualquer um funcionário dali – assim como as belas mulheres que vos acompanham. Risonhos como se não houvesse problema em suas vidas, pois, claro, o dinheiro resolve tudo.
Bernardi sente nojo de cada um deles. Não apenas ele como os outros Servos também, pelo visto – incluindo Felix, porém ele disfarçar bem melhor que os outros, acobertando o desprezo sob um falso carisma que chega a assustar.
Enfim.
Além de faxineiro e garçom, em alguns dias, Bernardi presta seus serviços à cozinha, onde raramente vê o rosto de uma moça, que parece ser quem ordena os outros Membros-Cozinheiros.
Essas são suas tarefas principais que preenchem as cansativas tardes até o sol começar a desaparecer pelo horizonte. Quando a noite tem pintado o céu, apenas os Servos perambulam pelo bar da Nesperim. Diferente dos outros Reencarnados, para o ragazzo cada segundo das noites às madrugadas seguintes continuam sendo usadas em sua preparação. Aquele ar de estranheza não orbita-o mais, e o progresso é eminente e corriqueiro – o que ainda duvidava que fosse acontecer.
Ultimamente tem sido um bom aprendiz e adversário nas lutas corporais. Há semanas Nervan vem ensinando-o como lutar – lutar anormalmente. Primeiramente foram surras atrás de surras, mesmo Nervan contendo-se ao máximo; porém, o ragazzo ainda voltava ao quarto com várias manchas roxas no corpo e filetes de sangue escorrendo por diversas feridas. Bernardi se sentia mal, ainda mais por assistir Nervan suplicar mil perdões todas as noites enquanto curava-o para que logo em seguida deixa-se novo em folha. Essa assustadora medicina ainda continua sendo algo de outro mundo, mesmo para quem até então só viu coisas inimagináveis.
Mesmo com tudo – tudo – que aprendera, no entanto, ele carrega em mente a sensação de que ainda falta algo a aprender. Algo muito importante. Mas o que?Ele não recorda.

Uma manhã comum e ensolarada. Após Bernardi e seus amigos terem sobrevivido a mais um cansativo e tedioso dia letivo, sorriem à medida que se aproximam ainda mais da saída, perdidos à enxurrada de alunos, banhados e reanimados pelos raios calorosos. Misteriosamente, alguém inautêntico paira logo além dos portões – alguém que os alunos preferem lutar para se espremerem mais ainda na multidão e contorná-lo, ao ter que ficar diante o caminho dele. Um fenômeno estranho visto de longe. Bernardi espreme as vistas e as salta, espantado ao conseguir enxergar melhor o rosto menos ofuscado pela luz do sol. Nervan.
– Buon giorno Bernardi – cumprimento o rapaz, quando ambos se encontram.
Outro espanto, leve dessa vez, ataca o rosto do ragazzo. É a primeira vez que encara Nervan fora daquele Sobretudo sombrio. Até que é confundível com alguém normal. Mas logo esta surpresa deixa de intrigá-lo, para outra fazer isso.
– O que faz aqui? – É agora que Bernardi dá por falta a presença dos amigos que ali estavam. – Onde estão Hugo e Sarah?
– Indo para casa. Por hora, não darão falta da sua presença – responde o Servo satisfeito, sendo o autor desse desencontro. – Respondendo a primeira pergunta, vim conduzi-lo até um lugar. Venha. Teremos um dia cheio pela frente – comenta espiando um pequeno relógio metálico que tirara do bolso.
– Para onde?
Nervan não o responde. Ambos partem em silêncio, deixando a pequena multidão de alunos para trás. Cruzam algumas ruas comentando outros assuntos, mas não que a pergunta anterior tenha sido deixada no ar; entretanto Nervan evita respondê-la. Então finalmente Bernardi descobre a resposta quando chegam ao destino: um vasto e fundo canteiro de obras abandonado. Eles invadem-no escalando o muro alto, sem cerimônia ou dificuldade, saltam num amplo e plano terreno, totalmente murado e sem brechas para ser espiado pelo lado de fora. Um terreno completamente abandonado de terra fofa, rodeando um prédio inacabado e diversas estruturas de metais brotando do chão.
– O que viemos fazer aqui? – indaga Bernardi espiando tudo ao redor, como se já procurasse algo inesperado.
Por fim a resposta – a surpresa –sai nas palavras de Nervan.
– Hoje você vai aprender a voar.
Antes que perceba, Bernardi tem um sorriso empolgado indo de orelha a orelha. Está prestes a dizer alguma coisa antes de se dar conta que nada que diga demonstrará sua predominante euforia.
– É a última proeza que faltava te ensinar. Eu precisava esperar até o dia que você demonstrasse domínio apto sobre as sombras. Você se Lembra quando te levei ao cemitério?
Ele começa a buscar as cenas na memória. De fato quando Nervan levou-o voando ao cemitério, estavam totalmente envoltos das sombras que afluíam do rapaz. – Como usarei as sombras para voar? – ele indaga confuso.
– Da mesma forma que você usou-as para atravessar paredes, desaparecer ou viajar na escuridão: instinto. Obviamente não imaginara, contudo voar é algo tão natural para os fantasmas, como nadar é para alguns seres-vivos. Não precisa entender agora, a única coisa que precisarás fazer é, novamente, deixar a escuridão assumi-lo e, acima de tudo, manter a calma.
Ao dedo estendido, Nervan indica um esqueleto de vigas pouco além, cujo deveria ser o início da estrutura de outro prédio. É dessa mesma estrutura alta que Nervan força-o com incentivos a atirar-se, buscando altitude para erguer voo. Sem muito êxito até então, e como alguém aprendendo a nadar, o ragazzo mergulha e afunda-se em diversas quedas e tropeços diretamente contra o chão de terra, que ameniza um pouco a dor. Um pouco.
Mais uma vez, mais uma vez, outra,... Outras...Nada ainda.
Tentando esquecer a dor, ele já aguarda a hora que precisará da ajuda de Nervan para se curar. Certamente se fosse uma pessoa normal, a essa altura estaria numa ambulância a caminho do hospital, por conta de vários ossos quebrados.
Na trigésima tentativa, ele tropeça antes do salto e despenca de cabeça apontada para o chão. O medo devora-o rapidamente e abafa seus berros amedrontados. Mas então surpreende enevoar-se espontaneamente, conseguindo transformar-se em um cometa sombreado, arqueando para frente antes de se arrebentar no chão. Finalmente um voo. Baixo, mas ainda um voo. No entanto fora de controle – o dançar trêmulo do corpo celeste entrega isso. Demora poucos segundos até ele despencar, livrando-se das sombras, rolando no chão como uma bola chutada. Pára num montinho de terra avermelhada, que mancha inteiramente sua roupa. Pelo menos a areia amortecera a queda, mas não a dor.
– Por fim – comemora Nervan, antes vivo apenas em pensamentos –, sobrevoou alguns metros, mas só de ter se transformado em corpo celeste e se equilibrado enquanto voava... Como se sente com seu primeiro voo?
– Dolorido! – resmunga no intervalo dos gemidos.Todavia isso não o impede de curvar um sorrisinho emocionado e orgulhoso.
Por outro lado, não é porque ele conseguiu uma vez, que as tentativas seguintes estão sendo drasticamente mais fáceis. Passa longe disso. É como Nervan mencionou: é como aprender a nadar – você tem em mente o que e como fazer, porém não o basta apenas; é preciso sincronizar o corpo e a mente para manter o equilíbrio enquanto se movimenta; manter a calma e a concentração, e controlar a coordenação motora para não afundar. A prática só pode ser alcançada com tentativas persistentes e erros por milhares de motivos a serem reparados ou evitados. Por horas Bernardi permanece saltando e se ralando no chão, ou conseguindo erguer voo, mas logo caindo por não manter um dos elementos necessário para continuar. Mas ao fim da tarde, já faz um bom tempo desde a última queda dele. Está diminuindo gradualmente a frequência com qual perde o controle do voo. Ainda um amador, sim, contudo ele está apto à prática por conta das inúmeras tentativas; acostumado em já manter o equilíbrio enquanto dispara no ar. Caso contrário, agora ao cair,consegue rapidamente que as sombras surjam dele e envolvam-no novamente para retomar.
Como teste final, Nervan convence Bernardi – este temerosamente relutante –, em voarem na altura das poucas nuvens do céu avermelhado.O medo da elevadíssima altitude não o abala tanto ao ponto estremecer seu equilíbrio, e não conseguir manter a conversão perfeita em corpo celeste, enquanto corta o céu e fura as nuvens, aprende manobras bruscamente arqueadas, e atrevesse em abusar da velocidade e poder acompanhar Nervan. Então, já farto de apenas desfrutar do medo da inexperiência lhe esfriando a barriga, o ragazzo começa a aproveitar a maravilhosa e eletrizante sensação de estar nadando pelo majestoso céu adiante. O vento gélido soprando-o, representando a liberdade que só tinha em seus sonhos. A vontade de alcançar o brilho das hipnotizantes estrelas que, de repente, salpicam a noite que acabara de cair.
Poucos minutos depois, e ambos descem bruscamente, rasgando o céu. Pousam na Praça dos Anjos Caídos. À medida que voltam a ser de carne e osso, estampam sorrisos contagiados pelo progresso desta tarde. Então, os dois se dirigem ao não muito distante casarão – Bernardi mancando, é claro. Entram. Logo se separam, pois Nervan acaba preso em um assunto que fluía da boca de três Servos encostados à porta. Já Bernardi avança à mesa vazia mais próxima, a qual se atira na cadeira, exausto; mas não tanto para deixar de correr os olhos pelo bar. Pela primeira vez, ele se senta de bom grato em uma mesa do bar e aproveita o ar vivo dela, totalmente diferente do morto que sombreava o quarto quando ele se isolava. O bar está delicadamente movimentado apenas pelos membros, enquanto bebem ou comem, conversam e riem, e desfrutam das belas melodias feitas pelos clássicos instrumentos do palco. Deve ser sob essa harmonia que eles se preparam para lidar com a morte lá fora, todas as noites. É compreensível: nem mesmo os Servos da Morte podem viver de morte e tristeza o tempo todo.
– Bem melhor aqui ao ficar sozinho lá em baixo, não acha? – pergunta Anna, puxando uma cadeira e juntando-se a Bernardi. Que surpresa agradável; dito isso pelo sorriso alegrado dele. Não a via desde a iniciação. – Há quanto tempo, hein?! Buona sera.
– Buona sera.Você tem razão. É bem melhor aqui do que a solidão do quarto.
Repentinamente ele se dá conta que as dores estão fugindo de seu corpo, levadas pelas cintilantes ondas da calorosa aurora reluzentes que rodeia e banha os dois corpos. Obra de Anna.
– Achei que estava precisando de ajuda.
– E estava. Molte grazie. – agradece aliviado sob o calor das luzes que beijam seu corpo.
Novamente distraído, ele ainda não percebeu Felix, cujo surgira ali, ao seu lado, sem mais nem menos. Finalmente espanta-se ao vê-lo. Entretanto, esse de longe não se igualara ao susto, que lhe rouba o ar sem piedade, quando o homem diz tais palavras sob o olhar de seriedade.
– Bom, posso ver que o senhor já está pronto. Parabéns, jovem Bernardi. Sua primeira noite como um Servo da Morte será amanhã.
Imediatamente Bernardi desmancha o sorriso relaxado, e abre espaço para o nervosismo amargurar seu rosto. Essas desconcertantes palavras do líder resmungam com o ragazzo até a hora de ir ao quarto e ao leito. Ecoam fortes como ditas por um alto falante no silêncio da sua mente.
... Sua primeira noite como um Servo da Morte será amanhã... Sua primeira noite será amanhã, Sua primeira noite será amanhã... Caçar Espectros, Espectros, Espectros...
Ansiava temerosamente esta noite,que iria chegar mais cedo ou mais tarde. Sim. Afinal comprometeu-se com esse dever quando aceitou ser um Servo. Passou diversos dias e noites dando sangue, suor, esforço e força de vontade até ficar pronto – assim como está – para quando esta noite chegasse. Todavia, não imaginou que ficaria nervosíssimo, e seria tão arrepiante só de imaginar que amanhã começará a deparar-se novamente com outras criaturas cadavéricas, diabólicas e horripilantes, sedentas para matá-lo. Todas as noites.
Não só as horríveis lembranças da noite que morreu para lhe assombrar enquanto prega os olhos, porém, misteriosamente, Bernardi começa a recordar todos os contos e relatos de alguns dos Espectros sanguinários e arrepiantes que leu no livrinho. Agora, debaixo dos lençóis, vive na imaginação a história do Espectro Morfegas: o Palhaço Vermelho. Ah que história terrível. Aconteceu nos Estados Unidos por volta do século XX. O Espectro assombrou e transformou um circo abandonado num deserto longe de uma cidade indefinida, em um matadouro. Atraia a platéia com uma ilusão de uma parada de palhaços brincalhões e divertidos, que conduzia um punhado de pessoas até o circo. E quando a noite caia, e todos entravam debaixo das lonas... Então começava o coral de dezenas de gritos urrando por piedade. Devorou muitas vidas, e teria matado mais pessoas se a Irmandade mais próxima não tivesse agido a tempo. A história foi apagada e escondida da civilização como se não tivesse acorrido.
Ah, e a história da Dama Sem Rosto?! Bernardi acaba de pensar nela. Era o Espectro de uma bela moça. Falecida nos dias de ressaca pós-guerra. Abusada e assassinada por militares enquanto voltava para casa ao anoitecer por uma desértica rodovia. Com o tempo ela caçou e devorou a vida dos seus assassinos e desapareceu. No livrinho está descrito que aqueles que passavam de carro pela mesma rodovia, sozinhos, e se sucumbissem à tentação de averiguar os estranhos rangidos vindos do banco de trás, ou se espiassem os chamativos espelhos, sofriam um acidente, sempre mortal. A Dama logo aparecia caminhante, e sugava o resto da vitalidade das vítimas entre os estilhaços do veículo. Quando os acidentes estavam longe de serem apenas coincidências, um grupo de Servos da Morte caçou-a por dias e madrugadas inteiras e destruiu-a quando ela tentava fugir por uma floresta negra e amaldiçoada.
E quanto ao Mestre das Marionetes do século XVIII?! Um Espectro tão poderoso que preparou por meses um Ritual das trevas que atingiu toda uma cidade. Desde então tomava controle de todos os cadáveres recém-falecidos, os transformado em “marionetes”. As Marionetes andavam refugiadas pelo mundo e assassinavam a sangue frio pessoas inocentes. O Mestre das Marionetes surgia logo depois e roubava a vitalidade das vítimas. Certamente fora um dos piores e dificultosos Espectros que já vagaram pela terra. Até hoje suas Marionetes são vistas como os piores assassinos em massa ou psicopatas da história. Estava tão poderoso quando foi encontrado que foram necessários sete Servos da Morte para enfrentá-lo, e a batalha destruiu um bairro todo.
Barran: o risonho... Como não se lembrar dele?! Essa é tão absurda e apavorante que Bernardi se recusa a relembrar. Tanto quanto Fayra, Anestam, o fantasma da foice de madeira, a Viúva Negra, o Predador... O Espectro que habitava a parte inferior da cama das vítimas, antes de dar-lhes o bote...
– BASTA... – grita Bernardi em seus pensamentos. Todavia, ocupando a mente com outra preocupação: e se vacilar durante a batalha? Sim, isso significará sua morte, assim como Nervan tinha te dito. Mas e se escorregar e acabar caindo no chão? Ou espirrar e perder o controle da situação? E se baixar à guarda? E se acabar de frente a um Espectro excessivamente poderoso e não souber o que fazer? E se... E se... E se...
TRIM, TRIM, TRIM, TRIM,...
O despertador dispara informando o início das seis da manhã. A noite passara voando desenfreada, e ele ainda tem disposição para gerar mais pensamentos preocupantes até a escola.
Contudo, por insignificante que pareça, ainda há uma coisa que consegue tomar a atenção temerosa de Bernardi: ver Sarah aos beijos com Xavier, cujo, por uma estranha coincidência, não vai com a cara dele. Fazem juízo ao ditado popular: “o santo de um, não se dá bem com o do outro”. E, portanto, Xavier sempre que pode tenta provocá-lo lançando olhares ameaçadores. Ou, como agora, trocando carinhos com Sarah diante dele, como se mostrasse quem é o dono. Embora Bernardi não demonstre sua raiva, porém, não consegue desgrudar os olhos da troca de salivas entre a amada e o vagabundo. Pondo a prova toda à calma e concentração que Nervan ensinou-o a ter. Claro que ajuda imaginar como seria divertido se acidentalmente a cadeira de Xavier deslizasse alguns centímetros antes de ele se sentar, e tomasse outro leve e vergonhoso tombo. Ou escorregasse novamente no corredor. Que tal com o nariz apontado ao chão desta vez? E perto da escada de preferência? Talvez uma ligeira pressão psicológica pudesse lhe causar uma impiedosa dor de cabeça...
– Até nisso vocês se parecem – comenta Hugo se sentando à sua mesa. Bernardi estava tão perdido nos pensamentos que não o percebeu chegar –, a atração pela mesma garota.
– Não é isso. Mas acho que ela merece coisa melhor. Xavier é um estúpido! – afirma ele, finalmente apontando os olhos a outra coisa que não seja a troca de saliva dos jovens.
– Isso eu devo concordar.
Bernardi então reflete algo e toma coragem para dizer.
– Talvez você! – arrisca ele.
– O que? Não... – responde com uma risadinha divertida. – Sarah sempre foi uma ótima amiga, brincalhona e divertida. Uma bambina maravilhosa. Sempre a vi como uma irmã mais nova, e nada mais. Além do que nossos gêneros não se batem. Eu sou um pouco mais solto, e ela merece alguém que se comprometa a ela. Mas Sarah sempre se diverte quando conto-a mios affair.
Bernardi não deixa escapar o involuntário e aliviado suspiro. No fundo era uma pergunta que já tinha cogitado consigo algumas vezes há muito tempo.
Sarah vem caminhando a passos frouxos, enquanto suspira apaixonada. Tão fora de órbita para não perceber entre si, Xavier e Bernardi batalhando com os olhares raivosos. O rosto de Xavier esbanja a satisfação, e para não perder o hábito, provoca o rival outra vez, agora esfregando a língua sobre os lábios como quem acabara de saborear algo altamente delicioso.
Todo o ódio concentra-se na careta enfurecida de Bernardi.
– Dê graças por eu não poder matá-lo – sussurra, tão baixo que nem ele próprio se ouviu.
Repentinamente sente a mão do amigo apalpando seu ombro. – Esquece – aconselha. Por um segundo, pergunta-se se estaria Hugo lendo seus pensamentos. Mas logo esquece após Sarah alcançá-los.
Bernardi não consegue tirar os olhos do relógio sobre a lousa. É impressão sua ou as horas estão passando rápido demais? Pois a cada encontro dos olhos com o relógio, os ponteiros têm andado um quarto adiante. Por pensamentos, despede-se de cada professor que parte no fim de sua aula – puderam ter sido as últimas que assistiu. Política, História, Filosofia...
Sobressalta da cadeira quando o sinal desafinado percorre o corredor, estimulando os alunos a saírem apressadamente da sala.
Aproveitando que hoje Felix o liberou para ir à casa dos Balleny, pela primeira vez Bernardi acompanha Hugo e Sarah até suas casas. Alivia a saudade das conversas divertidas do trio. Tão eufórico e despreocupado para não notar que, momentaneamente, seus pensamentos estão em paz. E nem que a distância está encurtando – o que acarreta um espanto em ter que despedir-se de seus amigos. Pode ser realmente um adeus.
Pouco após chegar à casa dos Balleny e abrir a porta do quartinho, ele surpreende uma grande caixa de papelão sobre o colchão. Como parara ali? Pergunta-se. Até chegar, a casa estava completamente vazia e o quartinho trancado... Como se isso impedisse sombras de penetrar o cômodo, ele se dá conta.
Aproxima-se e apanha o envelope posto sobre a caixa, abre-o e lê com atenção.
“Aqui estão vossas deslumbrantes vestes. Trate-as cuidadosamente como se elas fossem sua pele.”
Bernardi rasga os lacres da caixa e puxa as peças uma por uma. Primeiro o par de Sobretudos sombrios e as camisas brancas de gola fina. Coletes e gravatas índigos. Por fim, uma espécie de sapatos finos no final da caixa. Ele carrega tudo amarrotado e atira no armário velho da família, que os consome dentre a bagunça.
Já não sabe mais o que fazer para ocupar a mente enquanto as horas se arrastam nessa tarde quente. Senta-se e encara o relógio-despertador. Navega na internet no computador emprestado por Felix. Relê diversas páginas do livrinho, principalmente sobre os Espectros, para ter certeza de que não deixara passar nada importante. Sai de casa, senta-se ao lado do jardim e assiste as outras vidas corriqueiras e comuns dos vizinhos. Sem mais ideias, veste todas as peças da excêntrica vestimenta diante o espelho para ver se há algo errado... Bom, as partes de cima um pouco folgadas – assim como com todos na Irmandade –, já a calça confortável e justa. Mas enfim. Admira o belo e diferente Sobretudo, antes de tirá-lo e jogá-lo no armário. E, por último, deita-se à cama e tenta pegar num sono forçado. Consegue cochilar, porém o relógio mostra que não por mais de vinte minutos.
Cinco e meia. Quase toda a vestimenta está cobrindo seu corpo; exceto a gravata, com quem Bernardi luta para acertar um nó aceitável. A gravata vence mais uma vez! Mas o ragazzo persiste. Entrementes, passos suaves param ladeados à porta do quartinho. Bernardi espia e encontra Mariana pairando ali, observando-o e admirando da cabeça aos pés o belo traje do ragazzo.
– Ciao madame Balleny – cumprimenta ele, ainda não acostumado em chamá-la assim.
– Ciao. Que inusitado vê-lo aqui durante a semana – comenta Mariana simpática como sempre –, e que belíssimo traje este o seu?! Gostaria de ajuda quanto à gravata?
– Adoraria!
Ambos se aproximam bem, e as mãos de Mariana encontroam a gravata irreverente de Bernardi. Ela não tem dificuldade alguma em acertar um nó perfeito na primeira tentativa. De brinde, a mulher ajeita o Sobretudo dando uns três puxõezinhos. Seus olhos parecem brilhar enquanto os fazem.
– Sabe. O mio filho também tinha problemas em fazer nó na gravata. Lembro-me no dia do casamento da minha sobrinha. Deixei Bernardi aprontando-se no banheiro. No final das contas, ele se atrasou mais que a noiva – comenta a mulher soltando risos baixos, alegres, porém cheios de saudades. – Foi divertido vê-lo correndo no meio da igreja para não perder o início da cerimônia.
O ragazzo também ri com as lembranças do constrangimento que passou quando corria no meio da igreja e ouvia o coral abafado de risos.
Subitamente o sorriso de Mariana desaparece.
– Você me lembra ele em muitos aspectos... Ah, como eu sinto saudades do mio Bernardi – confessa, à voz esganiçada.
Os olhos lutando para segurar as lágrimas sobem a altura dos cinza, que também parecem estar ligeiramente mais úmidos.
– Tenha uma ótima noite de trabalho – deseja Mariana antes de afastar-se do ragazzo para também se afastar das lembranças.

Bernardi não demora muito em chegar à Praça dos Anjos Caídos. Misteriosamente os postes acendem por si só, quando o céu fica prestes a escurecer. Ainda assim, é bem sinistro andar sendo escoltado pelas infelizes estátuas até o casarão. A suave melodia dos violinos o afoga em um alívio momentâneo. Uma das metades da porta escancara-se, e três membros – que Bernardi conhece de vista – saem aos risos do bar.
– Buona sera – cumprimentam-no cordialmente.
– Buona sera.
O ragazzo assiste-os esconderem os rostos atrás dos capuzes pontudos, levantarem voo enegrecidos e sumirem na escuridão da noite. Então, entra no bar. O ambiente pouco movimentado, calmo e harmonioso como de costume.
– Olha quem chegou. Buona sera Bernardi – cumprimenta Nervan aproximando-se dele, acompanhado pela moça dos cabelos dourados.
– Buona sera Nervan. Anna.
– Buona sera.
– Buona sera Jovem Bernardi.
Soa a voz conhecida que atrai facilmente o olhar de Bernardi. Fora Felix, sentado sobre uma mesa quase que exatamente no centro do bar.
– Buona sera Ser. Felix – cumprimenta, franzindo o rosto como reverência.
O líder devolve o gesto. Posteriormente, ergue a mão e solta um estalar alto de dedos, que atravessa todo o bar, superando o caos sonoro de vozes misturadas e os instrumentos da banda. O silêncio sobre cai tudo e a todos. Um mar de olhares roubados e atenciosos concentra-se envolta de Felix e Bernardi.
– O senhor está diferente desde o primeiro dia que pôs os pés aqui. Sim, é notável. Mas não desejo ver isso apenas em seus olhos mais maduros – alega Felix ansiando algo a lhe agradar enquanto esconde os olhos atrás do chapéu. – Por favor, jovem Bernardi, mostre a todos um pouco do que o senhor andou... Fazendo.
Afastados, a platéia de membros evacua apertando-se aos cantos do bar. Bernardi logo cora de timidez, porém acena que sim com o rosto. Suspira tomando o máximo de fôlego que consegue, acompanhando a sua pulsação acelerar com o nervosismo. Silêncio. Apenas Bernardi sussurra algumas inaudíveis palavras. Repentinamente o ar assobia à medida que corre fortemente pelo chão. Um nevoeiro sombrio surge do nada, cobrindo tudo à altura das mesas. Ele então ergue reto o braço esquerdo. Uma chuva de cristais negros brota flutuante do nevoeiro, começando a girar soprada pelo vento entorno do ragazzo. Logo se amontoam. Flutuante, uma cristalina cabeça achatada forma-se dos cristais puxando um longo corpo consigo. Uma bela e viva serpente de cristal enegrecida orbita-o – que é duas vezes mais fino que sua criação –, sibilando mais assobios altos e vigorando a força do vento gélido que varre todo o bar. As trêmulas mesas e cadeiras deslizam para trás, lutando para manter as pernas presas no chão. A serpente então ruge intimidadora e dispara avassaladora sobrevoando firme para fora do bar. O vento escancara a porta para a serpente atravessá-la e mergulhar bruscamente contra o chão. A atração se desfaz em um muro de cristais brilhantes, que flutuam como uma constelação no ar, antes de começar a apagar-se gradualmente.
– Particularmente, interessei-me muito na Arte Sombria que alveja a cristalização e petrificação das sombras. Andei praticando. Aperfeiçoando... – comenta, a única voz. – Bom, acho que acabo de provar até para mim mesmo que fiz a escolha certa, e sou capaz de ir além.
O líder não contém os risos agradados enquanto bate palmas – e os outros Servos decidem juntar-se a ele, formando uma orquestra de aplausos, tão alta o quanto poderia, porém sem conseguir ocultar as preces admiradas: – parabéns... Excelente... Que belo... Magnífico...
Certamente ainda havia quem se perguntasse se ele havia aprendido alguma coisa nos tempos de solidão. Agora certamente devem estar todos convencidos.
Satisfeito consigo mesmo, Bernardi imagina que a esta altura o corar já cobre todo seu rosto. O orgulho de si força-o a curvar um sorrisinho bobo. Ele arqueia seu tronco, reverenciando com o rosto e aos braços abertos a apreciação de todos.
– Notável jovem Bernardi. Meio artístico. Criativo. Gostei! – diz Felix sincero.
– Grazie messere.
A ligeira multidão avança para dar-te as boas-vindas. Agora sim eles o veem como um Irmão – um Servo da Morte. Bernardi sorri sem graça e aperta todas as mãos cordiais que vão surgindo, de membros que ainda não tinha visto. Agora um rosto conhecido: Ithan cumprimenta-o, lutando para manter seu espaço entre os corpos altos na multidão. Pouco depois, Dennis que não demonstra o mínimo de euforia, mas respeito em seu olhar. Nervan e Anna também. Um rapaz loiro. Agora a vez de uma morena de cabelos curtos, cuja mal toca a mão cristalizada dele e lhe dá as costas sem se importar. Enfim. Mais uma mão, mais uma mão, e mais uma. Agora a vez de um senhor meio século, um pouco enrugado, alto e de cabelo e bigode brancos.
– Seja bem-vindo, Ser. Gallic. Sou Jefferson Vergillian. Mas pode me chamar de Jeff – diz a voz ligeiramente rouca, mas firme. – Não deve lembrar-se de mim. Certamente. Mas participei de sua iniciação. Fui quem te mandou para aquele mundo paralelo. Sabe. Artes ilusionistas.
– Ah, foi é?!... – respira Bernardi que tem motivos o suficiente para xingá-lo com todos os palavrões já inventados pelo o homem... Entretanto... – Muito prazer – responde cordialmente e com um falso sorriso.
Logo atrás, vem aquele homem grisalho – o bêbado e rude daquela vez, mas que agora transparece sobriedade. Ele estende a mão a Bernardi, que sobressalta de surpresa.
– Prazer. Eu sou Phillip Caneparo – apresenta-se sorridente. – Esplêndido o que fez. Eu gostaria de aproveitar a ocasião e lhe pedir desculpa pelo nosso pequeno desentendimento... Sabe... Aquele dia... – pede o homem simpático que nem parece o mesmo ranzinza da primeira impressão.
– Não precisa se preocupar. Águas passadas – responde Bernardi sorridente. Misteriosamente o homem acarreta um ar carismático e contagiante.
Foi o último. Todos voltam à normalidade, zanzando novamente de um lado para o outro, alguns até saindo para a escuridão da noite, voltando às obrigações e esquecendo rapidamente e totalmente de todo o fascínio que acabaram de demonstrar.
Um pouco perdido, Bernardi encontra os irmãos Edwart não muito distantes, um dos únicos parados.
– Todos estão bem ocupados, e eu ainda não sei o que vou fazer – comenta Bernardi claramente nervoso.
– Não tem porque se apressar, Bernardi – aconselha Anna.
– Ela tem razão. Como você é um estreante, se assim pode ser dito, será submetido a algo leve. Em breve haverá a próxima Patrulha, e você poderá...
– Nervan! – chama Felix não muito longe e nem perto dali.
– Scusi... – o rapaz se dirige aonde foi chamado.
– Patrulha? – questiona Bernardi a Anna.
– É quando vagamos por cada canto da cidade, em guardas, caçando algo anormal, monitorando e garantindo a segurança das vidas repousantes... É a nossa atividade mais comum e essencial!
–... Tem certeza ao que está me pedindo? – resmunga Nervan ligeiramente alto o bastante para atrair o foco de Bernardi para a conversa entre o rapaz e Felix. Pela expressão do rosto amargurado, algo não o agradou muito. – Babbo, nós vamos investigar e talvez enfrentar um Encosto – enfatiza temerosamente. – É a primeira noite dele, não podemos levá-lo. Ainda não confirmamos as tendências de ser ou não um Espectro muito alarmante. É muito perigoso para ele. Patrulhas já seriam bem arriscadas. Por favor, reconsidere.
– Acredite em mim; leve-o. Logo ele terá que passar por esse horror. Por que não hoje? A experiência vai ser boa para fazê-lo entender bem no que ele está se metendo, e começar a acostumar-se desde cedo.
Percebem estar sendo observados, então reduzem a conversa em cochichos. Bernardi faz força para tentar ouvir, mas Anna consegue redirecionar a atenção dele.
– Então, muito nervoso?
– Um pouco – responde, chacoalhando enfaticamente a cabeça. Contudo, está claro que é uma modesta mentira.
– Bom, aqui vai o conselho que te deixará vivo esta noite: mantenha a calma.
– Vou me lembrar disso!
Nervan retorna, ainda com o rosto retorcido e desagradado, esfriando letamente o desgosto que sente pelas ordens. Mas ordens são ordens.
– Vamos!
Os três jovens saem quietos do casarão. A cada passo, o estomago de Bernardi parece ficar mais gélido e remexido, como se a serpente de cristal estivesse dançando dentro dele agora.
– Voarei na frente. Sigam-me. E Bernardi, só porque uma vez tirou a sorte grande de desviar de alguns botes de um Espectro recém-nascido, não pense que vai ser mais fácil agora. Atente-se absurdamente em cada detalhe. Não subestime ou despreze o menor ruído que ouvir. O menor sinal que houver. Tome extremo cuidado. Fui claro?!
– Como um raio.
Por fim desmancham-se sombriamente e levantam voo como três corpos celestes, sendo engolidos pela escuridão da noite.