Nero
2 Teia
Mal acorda e já vai para o banheiro, encontrando-se no começo de sua rotina começando pela bendita pilha de comprimidos que tinha de tomar logo de manhã, sentia que a qualquer momento poderia morrer de remédios e ser achada como mais uma suicida.
Ignorando, acabando com a sessão de abre-engole-fecha-recomeça, foi para a sua cozinha comer nada mais que um café e torradas com ovos, indo para a sua sacada observar a fria e preguiçosa manhã de North Hills, não era um inverno rigoroso, mas continuava bem frio, Amélie voltou para se arrumar e botar um dos vários moletons que tinha.
Não eram aquela maior coisa do mundo, mas o corpo absurdamente esguio de Amélie era o suficiente para fazê-los virarem um tamanho maior, pegou sua bolsa e saiu andando para o estúdio de dança que não era longe dali, sempre gostou de ir á pé para ver a paisagem que tinha, uma coisa meio de velho.
Quinze minutos de caminhada eram o bastante para ver crianças admirando a geada e pessoas passeando com cachecóis quase cobrindo o rosto todo, em questão de segundos o ar frio de fora era trocado pelos aquecedores de dentro do estúdio, um lugar grande, bonito e bem cuidado, a dona sempre gostou de enfeitar o local com várias pinturas e desenhos de bailarinas.
E a porcaria do vestido negro, bem no meio do maldito estúdio, parecia que todas as vezes que ela entrava parecia que a peça de roupa zombava bem no meio da cara, só faltava criar vida e sair correndo em direção á garota.
Passando os segundos rotineiros de "admiração a peça que lhe deu uma perfeita estréia", saiu do transe e botou suas sapatilhas, indo para a sala de aula que ao entrar deu de cara com uma multidão. Atrasada, boa Amélie.
– Amy! Você chegou atrasada hoje...- Falou Anne, parando o que estava fazendo para ficar em pé como uma estátua imitando uma pose de reprovação. — Isso é algo que uma bailarina super dedicada faz?
– Está tentando imitar Andrew? Olha, ainda precisa de muito treino de atuação. — Revidou antes de levar um leve tapa nas costas. — E muita malhação ainda.
E assim seguia para o ballet, depois alternando para atuação, era assim em seu estúdio uma mistura de "atuação e dança" algo que a dona do local achava uma ideia totalmente revolucionária, era divertido até certo ponto, menos na parte de seu excêntrico professor e seus exageros nas lições.
– Vocês parecem aqueles bonecos de posto, molengas, caem para lá e para cá, quero mais pose! Fiquem ao menos mais eretos! Não estou ensinando para invertebrados. — Andrew falava de uma maneira irritantemente gritante, dos dois sentidos, exagerado e gritando com sua voz potente como cantor de ópera enquanto cuidadosamente passava os dedos em seus fios castanhos.
– Hoje ele optou pelas ofensas, quem está de TPM é melhor sair. — Henry sussurrou apontando para algumas garotas que pareciam irritadas.
– Seria divertido ver ele levando umas palmadas uma vez ou outra... — Amélie comentou rindo.
– Amélie e Henry! Já que estão tão energéticos hoje, acho que poderiam servir de exemplo pelo menos uma vez. — Andrew deu um espaço de onde estava e com o dedo chamou os dois.
– Hoje não deu para fugir...- Henry comentou enquanto enroscava os braços no professor. — Andrew...Então, qual a tortura hoje?
– Longe de mim brutamontes, refaçam dez vezes a cena da cafeteria da apresentação da semana passada
"Merda." Nunca gostava de ser o exemplo, e agora tinha de relembrar as frases que mal sabia o começo, começou a fazer relembrando poucas coisas e improvisando a maioria quando Andrew não olhava, tirando risos de alguns e zoações de Anne. Passando as exaustivas cenas e mais as torturas medievais que o cantor insistia em dizer que eram apenas exercícios "bem rigorosos", o tirano sai de sala.
Voltando com a Tirana Mestra, os dois mostrando estranhos e mórbidos sorrisos, dando arrepios nas espinhas de todos, os dois ficaram lá, quietos observando a massa de gente calada no meio da sala. Até a dona resolver falar.
– Novidades!
Silêncio.
– Na verdade duas gente, e acreditem uma delas é muito boa. — Mary falava energeticamente e junto de Andrew parecia estar escondendo alguém atrás. — Esse é Giovanni Vargas, nosso novo aluno.
E de trás dos dois apareceu um garoto com uma aparência totalmente jovial, seria facilmente confundido com um adolescente, ainda mais com sua franja castanha caída em seus olhos que em pequenas mechas mostravam-se verdes.
– Olá — Uma única palavra fez várias pessoas entrarem em choque, daquele garoto pequeno surgia uma voz alta e grossa, era até que incrível.
– Continuando, e... Vamos refazer a nossa grande peça "As asas do corvo"! — Mary lançou como uma bomba e os dois tiranos ficaram aguardando as reações com sorrisos no rosto.
Gritos das pessoas e depois um silêncio na cabeça de Amélie, um branco em mente e depois mal sentia seu corpo, apenas sentia um leve ar e a visão esvoaçar em negro, a audição voltava.
– Amy! Amy! AMY! AMÉLIE!
Fale com o autor