Estava escuro. Um cheiro putrefato invadia as minhas narinas, fazendo com que eu sentisse uma vontade enorme de vomitar. As paredes estavam úmidas e geladas. Chovia. Gotas grossas caíam sobre o chão de terra, fazendo com que ele ficasse escorregadio.

Pisco duas vezes e consigo enxergar uma figura alta e esbelta. Não consigo ver seu rosto, mas quando ele fala, eu reconheço a sua voz.

- Boa noite, Senhorita Black.- Ele diz. Consigo reconhecer um tom de escárnio em sua voz fria. Sei exatamente quem é e estou com vontade de socá-lo com tanta força que tento me levantar, mas é inútil. Estou fraca demais. Ele ri. Respiro fundo várias vezes, como se precisasse de ar.

- Eu já devia ter imaginado. — Minha voz sai fraca, mas consigo esconder o meu medo. Ele sorri com sarcasmo, enquanto engatilha a arma que está em sua mão. Mesmo no escuro consigo ver um símbolo esculpido em seu metal, mas não consigo identificá-lo. Eu fecho os olhos e prendo o ar. Morrer não deve ser tão ruim, dizem que tudo fica escuro e ai você não sente mais nada. Tomara que ele atire em um lugar que me faça morrer logo. Não quero ficar agonizando até perder os sentidos. Suspiro uma última vez e ele atira.

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Abro os olhos assustada. Minha respiração está pesada e minhas mãos trêmulas. Na verdade, todo o meu corpo treme. Puxo o ar várias vezes para conseguir me recompor e olho em volta. Enxergo paredes azuis e cortinas pretas, estou no meu quarto. Respiro aliviada e fecho os olhos. Estou bem , estou viva. Tudo não passou de um pesadelo.

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As horas simplesmente parecem não passar. Olho para o relógio na parede e suspiro, abaixando a cabeça sobre meus braços , que estão dobrados em cima da mesa. Passaram-se apenas cinco minutos desde a última vez que olhei para os ponteiros dourados. Eu odeio a escola. Talvez essa seja a definição mais fácil para o que sinto quando sou obrigada a acordar todos os dias e me arrastar até aqui.

Estou no ensino médio e isso é um pesadelo. Gostaria de só terminar os meus estudos em paz e ir para a faculdade, mas existem pessoas aqui que simplesmente decidiram tornar o meu ano o mais longo e exausto possível. Não sou muito sociável, o que explica minha falta de amigos.

Os meus olhos se erguem ao sentir alguma coisa bater em minha nuca. Olho para trás. Um garoto de cabelos espetados e olhos escuros me olha. Ele usa um macacão jeans com uma camisa xadrez por baixo. É Philipe e ele está me encarando com um sorriso malicioso, o que me faz ter certeza que ele é o responsável pela brincadeira de mal gosto. Reviro os olhos e olho para a frente, novamente para o relógio. Faltam dez minutos para o término da aula e isso me parece uma eternidade. Suspiro e passo os olhos pelo jardim, fora da janela. Daria tudo para estar do lado de fora fumando um baseado com os únicos garotos que me tratam como igual. Mike, John e Ralph. Eles estão matriculados aqui nessa escola, mas isso não significa que eles assistam às aulas. Dou um sorriso ao me lembrar do rosto deles, parecem verdadeiros marginais.

De repente algo lá fora me faz sair de meus devaneios. Um homem usando roupas escuras. Sua feição é séria e seus olhos parecem me encarar profundamente. Sinto um arrepio percorrer a minha espinha ao me lembrar do sonho que tive na noite anterior. Ele me lembra o homem que atirou em mim no meu pesadelo. Mas eu não o conheço. Por que ele estava me encarando daquela maneira? O sinal desperta minha atenção e eu desvio os meus olhos para as coisas em cima da minha mesa. Imediatamente começo a juntá-las e as jogo dentro da minha velha mochila preta. Quando me levanto, olho novamente para o lado de fora, mas já não há ninguém ali. Sinto aquele arrepio novamente e fecho os olhos, tentando me recompor. Depois deixo a sala com uma sensação de que ainda estou sendo observada.

Meus passos são rápidos e longos, enquanto caminho pelos corredores da escola, esbarrando em algumas pessoas que estão na minha frente. Quero sair logo daqui, estou começando a sentir minhas mãos suarem demais e isso não é bom. Eu não quero ter um ataque de pânico aqui dentro. Não quando Philipe e sua turma estão logo atrás de mim, rindo e fazendo piadas e eu sei que elas são direcionadas à mim. Sempre são. Suspiro e tento andar ainda mais rápido, enquanto olho para trás algumas vezes, para ver se eles estão longe. Numa dessas olhadas acabo esbarrando em alguém, e quando olho para frente me deparo com um garoto de olhos bem claros e cabelos loiros. Ele me encara e sua expressão é séria, mas isso não me faz deixar de notar o quanto ele é bonito.

- Desculpa.- Sussurro enquanto o olho sem graça. Ele não sorri, mas não me olha como Philipe me olharia numa situação dessas. Na verdade eu nem ao menos consigo saber o que ele está pensando. Talvez sinta dó de uma garota tão atrapalhada.

- Tudo bem.- Ele diz com firmeza. Seu corpo está ereto e tenso. Ele é intrigante e estranho. Mas não deixa de ser atraente. — Você está bem? — Sua pergunta foi automática. Não existe um tom de preocupação em sua voz. Arqueio a sobrancelha e consigo até soltar uma risada baixa. Ele é realmente estranho. Seus movimentos parecem ser todos calculados e as suas falas também.

- Hum, sim, eu estou bem.- Respondo com a mesma indiferença. — Hum, a gente se vê.- Murmuro e dou a volta, passando por ele com rapidez. Volto a caminhar em passos rápidos e longos e quanto avisto a saída, um peso sai das minhas costas.

A medida que eu me aproximo da porta, consigo ver Mike do lado de fora com o seu skate na mão. Sorrio sem perceber e saio com pressa do prédio, indo rapidamente até ele.

- Oi.- Digo e ele sorri. Mike coloca seu skate no chão e estende as mãos.

-Oi.- Responde , me olhando.- Me da a sua mochila.- Completa já com as mãos nela. Eu tiro as alças dos meus braços e ele a pega, colocando-a em suas costas. Depois pega o skate e o segura embaixo do braço.- Vamos.

Começamos a caminhar para longe do colégio, enquanto ele me conta como foi o seu dia. Nós somos apenas amigos, mas ele gosta de mim, apesar de eu não retribuir os seus sentimentos. O vejo como um irmão mais velho, mas nunca disse isso a ele. Tenho medo de magoá-lo e eu não quero que isso aconteça.

- Onde estão o John e o Ralph? — Pergunto enquanto caminhamos numa estrada de terra. Não mencionei, mas moro numa cidadezinha pequena com meus avós. Os meus pais morreram numa viagem ao Brasil e vim para cá. Já fazem 5 anos e as vezes ainda não consigo acreditar que isso aconteceu.

- Nos esperando na casa da colina.- Mike responde enquanto tira uma seda e um saquinho de maconha do bolso de sua calça. Eu sorrio e ele me olha. — Isso tudo é felicidade por saber onde eles estão ou é por causa disso? -Pergunta balançando o saquinho na minha cara. Eu o empurro de vagar e nós dois rimos.

Continuamos caminhando em silêncio, enquanto ele terminar de apertar o baseado e o acende. Estamos um pouco longe da casa da colina, mas lá é o nosso lugar preferido.

- Sabe de uma coisa.- Mike diz enquanto me passa o cigarro de maconha. — Talvez devêssemos passar em algum lugar e comprar umas cervejas.

- Talvez.- Murmuro e pego o baseado, levando-o até os meus lábios. Dou algumas tragadas e prendo a fumaça, passando-o de volta para Mike. — Ou

talvez você devesse parar de ser um bêbado que não vai pra escola. — Solto a fumaça e nós dois rimos.

O resto do trajeto até a casa da colina foi feito em meio á risadas e falas desconexas. Ríamos de tudo que tinha no caminho e que não teria a menor graça caso estivéssemos caretas. Mike colocou o skate no chão e parou, numa crise de riso por causa de um homem de meia idade que tentava montar em seu cavalo e não conseguia. Parecia bêbado. Eu ri também, mas parei rápido. Mike continuava rindo quando chegamos na casa da colina.

- Você fica pior quando bebe.- Comentei quando entramos na casa. John e Ralph estavam sentados cada um numa poltrona velha, que antes era branca, mas agora estava encardida. Ralph estava virado de lado e não se mexia. Devia estar dormindo.

- Qual a graça? — John perguntou e nos olhou. — Oi, Sue — Disse e sorriu para mim. John tem os cabelos curtos e escuros e seus olhos são azuis.

- Oi.- Sorrio para ele e me sento numa poltrona vazia.- Mike está rindo de um senhor bêbado que não conseguia montar no seu cavalo.- Expliquei e dei uma risada. — Oi , Ralph.- Completo, mas ele não me responde. Suspiro e o olho. Está realmente dormindo.

- Nem tenta.- John disse ao me ver olhando para Ralph.- Já tentei acordá-lo e ele não se mexe. Na verdade eu cheguei aqui e ele já estava dormindo. — Ele revira os olhos enquanto tira uma garrafa de conhaque da mochila.

Olho para Ralph novamente. Isso está estranho. Como ele está dormindo desde a hora que John chegou? Me levanto e vou até ele. Apenas o olho num primeiro momento, depois eu toco a sua face. Sinto um arrepio percorrer minha espinha e as minhas pernas bambearem. Ralph está gelado.

- Ele.. — Começo, mas não consigo terminar. Sinto o ar deixar meus pulmões e luto para pegá-lo de volta. Minhas mãos tremem e o meu rosto fica pálido. Lágrimas brotam em meus olhos enquanto John se aproxima dele.

John coloca os dedos no pescoço de Ralph para sentir os seus batimentos e então me olha assustado.

- Ele está morto.- Ele Sussurra e eu caio de joelhos, sentindo o tremor das minhas mãos se espalhar por meu corpo. Minha visão fica turva e eu fecho os olhos com força. Como assim morto?

Minha cabeça pesa tanto que parece que não vou conseguir sustentá-la com o meu corpo. Sinto os braços de Mike me segurarem com força e me levantarem. Eu o olho , mas não consigo enxergá-lo por trás das lágrimas que se formaram em meus olhos.

- Como... Como assim.. Morto — Digo baixo com certa dificuldade. Mike me tira da casa e John trás o corpo de Ralph no colo. — O que você vai fazer? — Pergunto ao John. — Precisamos chamar a polícia.

- Polícia? Você é louca? — Ele me olha e solta uma risada seca.- Sue, eu tenho drogas aqui, tá legal? — John suspira e solta o corpo de Ralph no chão.

- Mas ele está morto! Ralph está morto! Precisamos chamar a polícia! — Cuspo as palavras enquanto lágrimas grossas descem por minhas bochechas. — Eu vou chamar a polícia! — Grito e pego o celular, mas Mike o toma de mim. Eu o olho como se perguntasse o motivo dele ter feito aquilo.

- Sue, nós não podemos.- Mike diz baixo. Sua voz está calma demais. Eu o olho incrédula. Como o Mike pode ficar do lado do John? Ralph e ele cresceram juntos. — Além do mais.- Ele continuou e desviou os olhos dos meus.- Vão pensar que a culpa foi nossa. E John tem razão, estamos com drogas aqui. Vamos acabar nos ferrando.- Ele da as costas e se afasta de mim, indo até John, que a essa altura segurava os pés do corpo de Ralph. Mike pegou-o pelos braços e os dois começaram a caminhar até o penhasco.

Eu não tive forças para fazer nada. Não consegui os impedir. Ao invés disso, fiquei olhando-os, enquanto as lágrimas ainda desciam por meu rosto sem cor. Meus lábios tremiam assim como todo o meu corpo. Aquilo não era real. Não podia ser real. Ralph e eu éramos mas que amigos. Eu gostava dele e agora ele estava morto. Fechei os olhos com força , tentando não pensar nisso. Queria resgatar o seu sorriso ao olhar para mim, enquanto nós dois partilhávamos momentos perfeitos naquela casa da colina. Suspirei e abaixei a cabeça ainda de olhos fechados. Aquilo não podia ser real. Não podia, mas era. Ralph estava morto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.