Revirando na cama e suando frio, Aislynn não conseguia se entregar ao sono. Aquele dia havia sido intenso o suficiente para deixar sua ansiedade a flor da pele. Por algum motivo, sua respiração estava descontrolada, aquilo a fez pensar de imediato na possibilidade de serem seus poderes voltando. Ela se questionou como iria lidar com aquilo, até há algumas horas era apenas uma humana, pelo menos era o que pensava. Seus músculos começaram a se contorcer, Ayslinn gemeu, se sentindo desconfortável. Era como se estivesse perdendo controle de sua mente e o seu corpo não reagisse a seus comandos.

Abriu os olhos, mas era como se estivesse imersa sob uma escuridão, parecia que estava caindo em um abismo sem fim. Ela queria gritar, mas sua boca não abria. Seu corpo foi impulsionado para trás, Aislynn se afundou no colchão, uma lufada de ar gélido entrou pela sua boca e naquele momento ela soube. Havia outro ser dentro de seu corpo, assim como mais cedo, quando tentou matar Enid.

Abrindo os olhos, as suas orbitas estavam em completa escuridão.

Levante-se, a voz dentro de si exigiu.

Aislynn não queria, mas o fez. Era como se ela estivesse ligada no automático. Levantando a mão em direção a um atiçador de brasa da lareira de seu quarto, viu o objeto flutuar com velocidade até ela. O pânico lhe caiu, não conseguia se controlar e aquilo a assustava. Caminhando até a porta, Aislynn se esforçava pra impedir o ser infiltrado em seu corpo de agir, temendo que ele pudesse fazer algo.

Sangue. A voz daquela criatura ecoou novamente em sua cabeça.

Aislynn sentiu a maçaneta gelada entre seus dedos, abrindo-a. Assim que empurrou a porta, viu os dois homens que a escoltou até o quarto com Travis. Eles a olhou, curiosos em saber o porque dela estar ali — aquela hora da madrugada — segurando um pedaço de ferro. Aislynn sabia o que viria a seguir, tentou impedir, mas falhou inutilmente.

A criatura a forçou segurar o atiçador de brasa com as duas mãos, como se estivesse segurando um bastão de baseball, logo em seguida, socou um dos homens bem no rosto. Antes que o outro pudesse conte-la, Aislynn fincou o pedaço de ferro em seu peito. Assim que o corpo do cara caiu no chão, ela o girou, fazendo-o gemer e sangrar ainda mais. De relance, percebeu atrás dela a sombra do homem que tinha atingido no rosto e removeu o atiçador do peito de seu amigo, virando-se a tempo de lhe atacar no rosto novamente.

Aislynn já estava pronta pra lhe bater mais uma vez no rosto, quando escutou a voz de Enid falar atrás de si:

— Foi uma péssima ideia te deixar sozinha.

Antes de conseguir se virar pra olha-la, sentiu duas mãos gélidas envolverem sua cabeça e então se ouviu um estalo. Logo em seguida, tudo voltou a escuridão

— Está vadia quase deformou o meu rosto!

Aislynn abriu os olhos, confusa, vendo Travis, Enid e um homem com o rosto completamente ensanguentado, pressionando uma bolsa de gelo nele. Arregalando os olhos se lembrou do que havia feito, tentou se levantar da poltrona que estava sentada, mas sentiu uma pontada de dor no pescoço e acabou desistiu de sua ideia.

Travis percebeu que tinha acordado, então perguntou:

— Está tudo bem? — Cruzou os braços.

Aislynn abriu a boca para responder, mas o cara que estava com o rosto cheio de hematomas e feridas a interrompeu:

— Ela está ótima. Quem teve o rosto desfigurado foi eu!

Enid revirou os olhos.

— Alex, você está muito grandinho pra ficar choramingando.

— O que diabos aconteceu comigo? — Aislynn quis saber.

— Aparentemente, — Travis respondeu — sua falta de controle deu espaço para todos os seus demônios isolados dentro de si.

Ela balançou a cabeça.

— O que quer dizer?

— Que você vai ter que aprender a controlar sua raiva antes que nos coloque em perigo.

Aquilo era assustadoramente confuso. Como Aislynn poderia controlar aquela força? Ela havia tentado evitar com que o demônio machucasse aqueles homens, mas não conseguiu. Tinha medo de algum modo, acabar ferindo Enid. Bom, se é que aquilo era possível, já que sua querida amiga estava tecnicamente morta. Travis disse que iria ajudá-la a se controlar, mas, no fundo, temeu não conseguir fazer nada daquilo. Aquela sensação de estar dividindo seu corpo com um demônio era sem sombra de duvidas a mais terrível que já sentiu, queria se livrar daquela maldita coisa. Decidida, Aislynn se levantou, ainda sentindo sua nuca dolorida, mas a ignorou. Não iria agir como uma criancinha digna de pena. Não seria daquela forma que seu pai, ou até mesmo sua mãe — que era apenas uma humana -, agiria.

— Eu quero aprender controla-lo. Agora. — Falou.

— Aislynn, você ainda está fraca... — Enid tentou a convencer.

— Bom, mas não temos tempo para perder — olhou para Travis — certo?

Travis a examinou bem com seus olhos desafiadores, mas acabou confirmando com um gesto. Aislynn sentiu um alivio ao saber que ele conseguia entender seu desespero para poder saber como controlar cada átomo de seu corpo.

— Vá para seu quarto, vista suas roupas para o treino — Travis falou — você tem muito ao que aprender.