Nephilim: A Profecia Do Céu
5 Capítulo 4
Aislynn piscou, confusa.
Travis pareceu perceber que ela não conseguia entender aonde ele queria chegar com aquela pergunta, pois seguiu em frente
— Existe uma história, — a lançou um olhar sombrio. — Quando Deus expulsou os anjos do paraíso por terem se rebelado contra Ele, as criaturas começaram a conviver com os humanos aqui na Terra, sendo assim, resolveram espalhar seus genes malignos, se relacionando com as mulheres.
Aislynn engoliu seco, ainda sem entender o porquê Travis estava lhe dando uma aulinha religiosa naquele momento, mas ficou calada, esperando que aquele assunto, no final das contas, acabasse respondendo a sua pergunta.
— E então a partir dessa união sexual foi assim que originou a raça híbrida, os nefilim ou semideuses, sangue ruim... Seja lá, como você preferir chamá-los. Geralmente são retratados como pessoas com poderes sobrenaturais, eles habitaram na Terra no período antediluviano reinando sobre os humanos. — Travis puxou uma cadeira branca de metal e se sentou, examinando Aislynn. — Com a fixação dos nefilim na sociedade humana, foi então que toda a maldade e pecados começaram a se expandir descompassadamente. Deus irritado com o caos que se espalhava sobre sua criação, lançou um diluvio, exterminando os humanos e as criaturas.
Aislynn mordeu os lábios. Normalmente, se alguém a contasse uma história como aquela, provavelmente ficaria cética, mas, algo em como Travis pronunciava cada palavras, bem no fundo, a fazia acreditar. Desviando seu olhar para Enid, conseguia perceber que a amiga estava entretida no que ele dizia, os dois não pareciam se dar muito bem, mas apesar disso, ela demonstrava respeito e lealdade acima de tudo.
Travis continuou:
— Mas os demônios não seriam contidos tão facilmente. Depois de um determinado tempo após o diluvio, os nefilim voltaram a ter uma grande população na Terra. — Toda aquela conversa deixava Aislynn inquieta, mas de alguma forma, aquela história parecia tão... real. — Sendo assim, no início dos tempos os anjos, demônios e os nefilim resolveram criar um acordo. Mesmo não se dando nem um pouco bem, conseguiam conviver pacificamente e não existiria nenhuma guerra entre eles. — Travis parecia rígido ao contar aquilo. — Até porque se demônios e anjos entrassem em guerra, o apocalipse iria começar e ambos lados sabiam que o momento para isso é completamente inapropriado. Porém, nos últimos anos, os anjos começaram a fazer um massacre com os nefilim, infringindo o acordo.
Os seus pensamentos estavam a mil, tentando assimilar as palavras de Travis. De algum modo, ele estava tentando insinuar que existiam os tais nefilim? Sempre acreditara em anjos e demônios, mas não era muito fã do assunto, quer dizer... Aislynn não era muito fã de qualquer assunto que a assustava.
— O que está querendo dizer? — Sussurrou, querendo que fosse mais claro.
Travis abriu um sorriso e então ela temeu a sua resposta.
— Aislynn, — ele pronunciou seu nome como se fosse o desfecho de uma piada. — Isto que estou lhe contando não é apenas uma mitologia. Os demônios realmente se relacionaram no início dos tempos com os humanos e até hoje fazem isso. E seu pai, é um deles.
Não. Aquilo era totalmente absurdo. Seu pai estava morto. Ele havia morrido naquele maldito acidente de carro com sua mãe! Aislynn não iria acreditar em um maluco que a sequestrou. Aquilo era insano. Ela nunca desejou tanto estar em casa como naquela hora, preferia até estar de castigo do que ficar ali, ouvindo bobagens de um desconhecido.
Ela balançou a cabeça, lutando contra a imensa vontade de chorar, falar de seus pais ainda era uma ferida aberta.
— Por que eu acreditaria em você? — Questionou.
— Por que estou dizendo a verdade, e você sabe disso. — Ele falou como se fosse óbvio.
Aislynn não queria concordar com ele, mas algo dentro dela dizia que aquilo era a mais pura verdade. Desesperada olhou para Enid como se esperasse algum sinal, sempre confiou na melhor amiga, e, tia Jane aparentemente também confiava. Ela assentiu, como se quisesse dizer "Eu sei que isto parece maluquice, mas é a verdade".
— Minha tia me falou que meus pais haviam morrido em um acidente de carro — sussurrou.
Travis limpou a garganta.
— Bom, ela teve que ocultar alguns fatos de você.
Aislynn tensionou a mandíbula.
— Você quer dizer que minha vida inteira foi uma mentira? — Perguntou sarcasticamente.
Ele cruzou os braços, escorando na cadeira.
— Foi para a sua proteção, Aislynn. — Enid falou, se juntando a ele — seja um pouco mais grata, pois tudo, foi para sua proteção.
Então por que eu me sinto traída? Aislynn quis perguntar, mas não o fez. Ela podia estar sendo ingrata naquele momento, porém, tinha o direito de estar se sentindo daquele modo. Havia passado a sua vida inteira sendo enganada, achando que seus pais estavam mortos e simplesmente, do nada, sua melhor amiga e um desconhecido a sequestra, drena o seu sangue e diz que seu pai era um demônio. Aquilo era loucura!
O único som que dava pra se ouvir era de alguma goteira que estava ali no cômodo. Aislynn encarava Travis completamente estupefata, não conseguia dizer nada, apenas encará-lo. As lembranças veio em sua mente como um choque. Você não devia estar brincando com forças divinas, foi o que o homem havia dito no beco para Enid.
— Qual é a verdade sobre a minha família? — Quis saber.
Travis passou a mão pelo seu cabelo negro, parecia uma tarefa muito difícil para ele estar ali, contando as verdades sobre a vida de uma desconhecida.
— Bom, — começou — seu pai é um caído. Ele é imortal, ou seja, está vivo. E sim, realmente ocorreu um acidente de carro, que só aconteceu por que dois anjos perseguiam seus pais, e como sua mãe era uma simples mortal, não sobreviveu.
Um bolo se formou em sua garganta. Anjos haviam causado a morte sua mãe. Aquilo era tão doloroso para ela, queria poder tido a chance de conhecê-la e tê-la por perto. Embora sua tia Jane ter sido como uma mãe para Aislynn, não era a mesma coisa.
— Aonde ele está? — Perguntou, se referindo ao seu pai.
Travis abriu a boca pra começar a contar, mas Enid fez um sinal com a mão, impedindo-o de falar. Se reaproximando de Aislynn, segurou sua mão. Uma onda de arrependimento por ter sido extremamente grossa com sua amiga percorreu pelo seu corpo.
Ela parecia relutante, mas acabou dizendo:
— Um dos anjos que perseguiu seus pais, o prendeu no inferno por 100 anos.
Parecia que Aislynn havia recebido um soco no estômago, era por isso que seu pai nunca havia a procurado? Uma angustia cresceu em seu peito e o desespero em seu rosto era óbvio, saber que seu pai é um demônio não era a coisa mais confortável do mundo, mas, ela não gostou nem um pouco da ideia dele ter sido preso no inferno por um anjo.
— Então isso significa que... Eu sou uma nefilim? — Perguntou em voz baixa, se sentiu estranha por pronunciar aquelas palavras. — Era por isso que aquele homem no beco queria me matar? Ele era um anjo?
Enid mordeu os lábios.
— Sim — sussurrou.
Ela franziu o cenho, ainda não conseguir acreditar em tudo o que eles haviam lhe contado. Era tudo muito surreal.
— Vocês estão basicamente me falando que anjos estão querendo me matar por que eu dei o azar de nascer metade humana e metade demônio? — Seu tom era seco.
Aquilo só podia ser loucura! Há algumas horas, ela era apenas uma garota de 17 anos que estava querendo curtir o verão da melhor forma possível com a sua melhor amiga e agora lá estava Aislynn, descobrindo que sua vida inteira foi uma farsa e que não duraria muito tempo pra ser morta por anjos que queriam aniquilar sua raça.
Travis se levantou da cadeira e esfregou as palmas das mãos em sua jeans preta.
— Não se nós tentarmos intervir.
Aislynn cerrou os olhos para ele.
— Como assim nós?
Travis deu um sorriso e a olhou como se fosse óbvio.
— Também sou nefilim, Aislynn.
Ah, com certeza! Por que não tinha percebido aquilo antes? Um simples humano não teria a sequestrado e drenado seu sangue enquanto estava inconsciente, Travis também era um nefilim, assim com ela. Olhando para sua amiga, Aislynn lembrou-se da criatura que tinha se transformado e não poupou tempo em perguntá-la:
— Você é também é nefilim?
Enid fez uma careta, se aproximando de Travis enquanto cruzava os braços. Ela parecia enojada de ser comparada com os nefilim.
— Não, — cruzou os braços. — banshee.
Aislynn nunca conseguiu imaginar que algo tão bizarro poderia acontecer como aquilo. Sempre se sentiu incomum das outras pessoas, mas aquilo não significava que queria ser uma criatura sobrenatural, achava que aquele sentimento era apenas mais uma das suas intermináveis crises de identidade que — normalmente — os adolescentes tinham. Uma adolescente nefilim. Era estranho pensar naquele novo mundo que Travis e Enid havia a mostrado, Aislynn sempre se considerou tão... humana. Era difícil pra ela se aceitar e aceitar as novas informações, mas de repente, tudo ficou tão claro. De algum modo conseguia entender perfeitamente aquilo, talvez, bem no fundo, sabia que não era uma completa humana.
Franziu a testa, olhando para a bolsa de sangue.
— Por que exatamente vocês estão drenando o meu sangue?
Travis sorriu, quebrando o clima tenso que pairava sob eles.
— Pra sua segurança, — esse assunto de novo, Aislynn quis revirar os olhos. — Sua tia Jane colocava numbness na suas refeições, é um tipo de poção que deixa os poderes dos nefilim vulneráveis, para que assim, você conseguisse se passar por humana sem levantar suspeitas e não se metesse em encrenca.
Não se metesse em encrenca. Tarde demais. Aparentemente, Aislynn estava metida em uma encrenca desde que nascera.
Umedecendo os lábios, ela perguntou:
— Então minha tia Jane sabia disso tudo? Ela também é uma nefilim?
Travis e Enid deram uma risada ao Aislynn perguntar aquilo.
— Jesus, — Enid falou, ainda rindo. — Sua tia é mais humana do que os próprios humanos.
Aislynn soltou o ar que prendia. Sua vida toda estava uma bagunça e precisava de pelo menos uma coisa humana para consolá-la. Foi quando se deu conta do quanto sentia falta de sua tia Jane, o único desejo que tinha naquele momento era deitar no colo dela e chorar feito uma criança após aquelas informações. Ela nunca havia sentido tanto medo quanto agora. Era apavorante o fato de que passou sua vida inteira escondida de algo, sem nem ao menos perceber.
Respirando fundo, Aislynn perguntou:
— Então, quando é que vocês pretendem me soltar?
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