Nepente
1 One shot
Faz uns dias já, e ela continua com aquela dor. Parou até de fumar com medo de ficar pior. Como nem melhorou nem piorou, concluiu que não tinha a ver com nicotina. É aperto. Deve ser dor de doença. Não é de amor, nem de saudade, porque ela nunca se deixa levar para o que faz mal. Mas é fato, doí. Seu coração declara guerra aos outros órgãos. Revirou listas antigas na procura de alguém de que pudesse sentir saudade. Falhou gloriosamente. Tentou bares, cafés, livrarias, sinais de trânsito, bordéis, classificados, praias e calçadas… em vão.
Só pode ser doença. Não há ninguém nessa cidade de quem valeria a pena se lembrar. A dor para e volta, ameaça sumir de vez. Passa um tempo sem vir e novamente volta. E esse intervalo diminuí mais e mais e mais e mais, a cada nova possibilidade de cura. Começou a sentir gosto de desespero. Pensou em ir ao médico. Mas desistiu. E se o médico dissesse que ela não tinha doença? Teria que se convencer de que era bobagem mesmo. Cogitou ir à igreja. Mas padres têm sempre uma razão que envolve o demônio. Antes uma tuberculose, que não pensa. Visitou o túmulo da mãe, levou flores. Porém a sensação foi a de sempre: Conformidade. Que é o que acontece quando a saudade se cansa. Resolveu escutar todos os seus discos em busca de uma lembrança que lhe explicasse aquela dor e, música a música, lembrou-se de namorados, amigos, colegas de trabalho, convencendo-se de que todos significavam lembranças devidamente guardadas, assuntos resolvidíssimos. Todos jaziam em uma gaveta, junto com as fotos antigas e as memórias de criança. Não. A dor não era por causa deles. Agora, quando a dor apertava, ela tossia. Não se tosse de saudade. Nem se cospe. Porque a saudade é bonita demais pra se comparar com coisas tão brutas. Assistiu novamente aos filmes que marcaram sua vida, e neles procurou um motivo, uma lembrança de alguém. Falhou. Não achou nada. Era só dor. Uma dor boba, sem qualquer motivo mais sublime. Era só uma dor. Que doía cada vez mais. E agora, para completar, vinha um cansaço, como se não lhe fosse mais permitido respirar. Era um custo atravessar a rua, uma luta para completar uma frase. Por isso, reservou-se mais ainda. Apenas doía. Só. Certa noite, ao passar pelo centro, sentiu um cheiro bem conhecido, que lhe trazia o perfume do que fora o grande amor de sua vida. Emocionou-se. Da emoção, sentiu seu fôlego diminuir e o peito doer, situação que já se tornava rotineira. Continuou caminhando. Entrou em casa e foi tomar banho, porque leu em algum site vagabundo que água corrente corta o mal. Mas a dor não passava, pelo contrário, piorava. Tossiu e engasgou-se com a água que caía. Doía. Caiu no chuveiro por não conseguir sustentar-se. O sangue parando, cansado de contribuir para uma vida tão só; e o coração, carente do seu alimento, parando, pois seu sentido havia se perdido. A garota caiu na cerâmica molhada do banheiro, contorcendo-se de dor até morrer, sem ar. Uma morte sem sentido, sem uma desculpa para colocar sobre a linha pontilhada. Só. Indefesa. Ridícula. Morta. Nua. E infartada.
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