Neo Omega - A Dualidade das Almas
5 Capítulo IV - Não ouse tocar um dedo em meu ponto fraco
O corredor parecia gigantesco. O tempo parecia estático. Seus próprios passos eram inaudíveis. Um sentimento paradoxal fazia seus corações baterem mais forte. Estavam finalmente livres, um pensamento que se repetiu incontáveis vezes em suas mentes, mas temiam o que o Diretor falaria. Provavelmente não seria nada ruim, talvez parabéns, mas talvez ele os odiasse por quebrar a ordem natural de sua instituição. Também teriam que suportar toda a pressão do mundo exterior. Eles eram os garotos no topo da Academia, os garotos que escaparam pela tangente, os garotos que, mesmo antes de formados, eram páreos para a maior Agente do Império. Sim, eles teriam alguma fama mesmo sem terem feito nada do lado de fora. Talvez a imprensa os enchesse de vez em quando.
Mas isso era assunto para se pensar em outro momento. Seus pensamentos se voltaram para o homem que estava do outro lado da porta assim que chegaram a alguns centímetros dela. Os três engoliram em seco, um de cada vez.
– Senj. — Duxen pôs a mão sobre o ombro do garoto. — Ela precisa ficar de pé sozinha. Vocês não podem demonstrar fraqueza diante desse homem. Essa pode parecer só uma formalidade, mas é a parte final do Teste Especial.
– Certo... Você consegue?
– Sim... Não é isso que vai me parar...
O oficial acenou com a cabeça e moveu sua mão até um leitor que se encontrava ao lado da porta. Uma fina luz azul horizontal escaneou-a por alguns segundos, transformando-se então em uma luz que cobriu todo o painel. A fechadura se abriu. A porta começou a se mover. Uma voz fria veio de dentro da sala.
– Duxen. Os garotos sobreviveram? Ele não respondeu. Sequer olhou para o homem. Esperou a porta abrir-se por completo, fez os três entrarem e fechou a porta logo em seguida, deixando-os sozinhos com o Diretor.
– Parece que sim. Não em estado muito bom, mas parece que sim. Bom, alguém teria que pagar se vocês se safassem facilmente. Que bom que estão assim.
A voz daquele homem, seus olhos vermelhos como sangue seco, seus cabelos acinzentados pelo tempo, tudo irritava Zeon. Não sabia se era um reflexo por ter encontrado o homem que atormentara sua vida por tantos anos ou se a presença dele realmente era detestável, mas queria arrancar a espada do cinto e enfiá-la em seu peito. Mas não podia. Não era uma questão de dever ou não dever, ele realmente não podia. Aquele homem provavelmente tinha alguma habilidade em combate, não se deixaria ser assassinado assim facilmente.
O Diretor levantou-se de sua grande mesa cheia de papéis, aproximou-se e cumprimentou um a um. Zeon o lançou um olhar de ódio, recebeu outro em troca. Nuntia o lançou um olhar de dor, recebeu outro de gozação. Senj o lançou um olhar de tranquilidade, recebeu outro de desprezo.
– Gostaria de parabenizá-los por concluírem o Teste Especial de Graduação Nº 13. Como devem saber, todos os outros doze Testes Especiais terminaram na morte dos testados. Vocês três realmente são especiais. Mas... — Olhou para sua mesa, especificamente para três pilhas de papéis. — Vamos ver seus registros.
Ele silenciosamente os leu, trocando olhares com os assuntos dos documentos. Senj começou a pensar se aquilo era realmente necessário, se aquele idiota só os queria fazer sofrer, se ele só queria ver Nuntia piorar. Não sabia do ferimento, mas o estado dela era evidente em cada gesto, cada respiração.
– Primeiro, — Aproximou-se de Zeon. — o Rei da Academia. Zeon Crusadya, dezoito anos completos poucos dias atrás. Sobrevivente do Massacre de Crusadya. Interessante, há apenas dois registros desse evento aqui. — Zeon quis agarrá-lo e perguntar sobre o outro registro, que deveria ser de Asther, mas se conteve. — Tempo de permanência, cerca de cinco anos. Número de vezes que necessitou de assistência médica, duas. Número de assassinatos, mil quinhentos e vinte e três. Quase um por dia, impressionante. Assustador, na verdade. É uma grande carga ter matado tantas pessoas assim. Você suporta esse fardo?
– Sim, senhor.
– Muito bem. Segundo, — Aproximou-se de Senj. — o braço-direito do Rei. Senj Lecti, dezessete anos, a dois meses de completar dezoito. Encontrado nos esgotos da Capital depois que seus pais, um oficial de baixa patente e uma jornalista, foram cruelmente assassinados... — Olhou para Zeon. — pela espada que ele carrega, que pertencia a seu pai e foi “herdada” por você, aparentemente sob a posse de Zeon. Tempo de permanência, cerca de sete anos. Número de vezes que necessitou de assistência médica, vinte e uma. Número de assassinatos, novecentos e setenta e um. Entre eles, um de um amigo próximo. — O coração de Senj se apertou. — Esse um assassinato pode pesar tanto quanto os seiscentos que te distanciam de Zeon. Pode suportá-lo junto de todos os outros?
– Sim, senhor.
– Ótimo. Agora... — Aproximou-se de Nuntia, que estava no meio dos outros dois. — A peça mais interessante do trio. Nuntia Sacris, dezessete anos, a quatro meses de completar dezoito. Passado completamente desconhecido, nome e data de nascimento fornecidos por ela mesma quando foi encontrada vagando sozinha pelas ruas da Capital numa noite de inverno. Tempo de permanência, cerca de oito anos. Número de vezes que necessitou de assistência médica, cento e quinze. E aqui está a parte mais interessante. Número de assassinatos, — Ela engoliu em seco como nunca engolira antes. — cinco. Números de assassinatos de pessoas que visavam sua morte, três mil novecentos e oitenta e dois. Números de pessoas diretamente ligadas a ela mortas, vinte e sete, — Uma lágrima escorreu por seu rosto. — essas mortes tendo parado assim que conheceu Zeon. É um número impressionante. Você mal sujou as mãos, mas quatro milhares de pessoas morreram por sua causa. São números que rivalizam com os da infame Anima. Você é impressionante. Mas, acima de tudo, — Seu rosto ficou a milímetros dos dela. Sussurrou palavras que a fizeram cada centímetro de seu corpo tremer. — você é patética. Usa seu rostinho bonito pra se esconder atrás de idiotas que se apaixonam por você e os abandona quando não são mais fortes o suficiente pra te protegeram, deixando-os com os seus inimigos e os deles. Você se orgulha disso? Você gosta desse seu poder de manipulação? Você suporta o peso de quatro mil vidas sobre suas costas? Você se acha uma garota boa? Você não acha que estaria melhor vendendo seu corpo em alguma cidadezinha de merda, sua putinha?
Ela estava chorando. Estava quase soluçando. Lágrimas freneticamente escorriam por seu rosto e por seu pescoço. Ela tremia. Suas mãos estavam fechadas com a força de uma besta que segurava uma presa em tempos escassos. Sua cabeça estava baixa. Não conseguiria olhar nos olhos de qualquer ser vivo. Ela fez sutil movimento para frente. Queria atacá-lo, queria matá-lo. Zeon impediu-a colocando a mão sobre seu peito. Lágrimas tristemente escorreram por entre seus dedos. Ele, mais do que nunca, queria acabar com aquele homem. Senj, também, queria arrancar sua cabeça. Como aquele babaca ousava falar daquele modo com ela? Como ele ousava falar assim com a garota que ele amava? Mas ele se conteve. Zeon fez o mesmo. Nuntia não.
– Eu sou uma putinha... A culpa de quatro mil mortes é minha... Eu devia ir pra alguma cidade de merda me prostituir, porque é isso que eu mereço... Certo, senhor Diretor? — Ela perfurou a alma dele com o olhar. Seus olhos e seus lábios tremiam, lágrimas entravam em sua boca, ela podia sentir o gosto amargo. — A culpa disso é toda minha... As escolhas foram minhas... Não ter força pra sobreviver num mundo como esse foi escolha minha... Ser uma presa fácil, um alvo fácil, pontos fáceis, tudo foi escolha minha... Certo, senhor Diretor? Você não tem nada a ver com isso, certo? Não é você que chefia o pior lugar de todo o Império, senhor Diretor. Você não tem absolutamente nada a ver com nenhuma morte que aconteceu dentro destas paredes, senhor Diretor. Certo? Eu carrego o peso de quatro mil mortes... É, eu carrego... É verdade... Eu não vou nem posso negar... Mas se eu carrego quatro mil mortes... Eu não sei há quanto tempo você tá por aqui, senhor Diretor. Mas se eu carrego quatro mil mortes nas costas... Você, senhor Diretor... Você deve carregar pelo menos cem mil. Talvez duzentas mil. Trezentas mil. Um milhão, quem sabe. Então não me julgue, senhor Diretor. Não julgue as ações que precisei tomar pra sobreviver, porque as suas, pra criar “soldados perfeitos”, têm uma escala muito maior. Eu não queria matar ninguém... Eu só queria viver em paz com minha irmã... Com minha família... Mas eles foram todos tirados de mim e eu fui jogada nesse buraco de bosta humana. Eu não tive escolha. Mas mesmo que você ainda me ache uma puta, fique sabendo que então você, se fosse uns gazilhões de anos mais novo ou se eu fosse uns gazilhões de anos mais velha, poderia ser meu filho, porque você é, além de um animal hipócrita... UM GRANDE FILHO DA PUTA!!!
O grito final de Nuntia ecoou por toda a Academia. Mesmo com a porta da sala fechada, ele atravessou todos os corredores, foi ouvido por todos os alunos e todos os oficiais. Era um grito desesperado, angustiado e irritado. O início foi grave e cheio de rancor, o meio foi mais agudo e cheio de alívio, e o final pareceu o choro de uma garotinha e foi cheio de medo. Ela ficou com medo depois de dizer as últimas palavras. Muito medo. Ela viu toda sua vida, todos os momentos horríveis, assim como todos os incríveis, passarem diante de seus olhos como se ela tivesse poucos segundos para revivê-los. A Academia se silenciou por alguns segundos, mas pareceu que o mundo todo havia se calado perante tal desabafo. Ela havia escondido tantas emoções no mais fundo de seu coração e as deixou explodir justamente na cara de quem isso menos podia acontecer, bem na cara de quem podia jogá-la de volta naquele buraco, agora com um enorme prêmio por sua cabeça e num estado quase morto. Era isso que ia acontecer. Ela com certeza seria punida.
Mas ele se virou. O Diretor se virou, deu alguns passos em direção à sua mesa e devolveu os papéis para onde estavam, agora todos numa pilha só. Ficou parado por alguns longos segundos. O ambiente estaria perfeitamente silencioso se não fosse a garota, que agora soluçava com raiva. Ele se virou novamente. Olhou no fundo dos olhos dela.
Socou seu rosto. Ela deu um grito, caiu com a mão no rosto. Seu nariz estava sangrando, os dois garotos gritavam por seu nome. Ela chorou mais, soluçou mais. Sentiu que seu fim estava se aproximando. Zeon e Senj não queriam apenas sua morte, queriam que ele fosse torturado, que cada unha que tinha fosse friamente arrancada, que cada dedo fosse decepado, que cada membro fosse separado de seu corpo e que, então, fosse largado, sozinho, para morrer quando seu sangue acabasse. Mas eles não podiam fazer nada daquilo. Zeon moveu sua mão até a espada e a manteve lá, mas não a desembainhou. Se tentasse mais algo com Nuntia, atacaria. Não iria aguentar. Senj usaria qualquer coisa para atacá-lo também. Mesmo que tivesse que quebrar seu próprio braço e atacá-lo com um osso terrivelmente exposto, ele não deixaria que o Diretor tocasse novamente nela.
– Você aceita o fardo?
– O quê...? — Ela disse com a voz abafada pela mão e distorcida pelo choro.
– Você aceita esse fardo de quatro mil mortes? Você pode suportá-lo?
Ela chorou mais um pouco. Ela se lembrava de cada pessoa que morrera por sua causa, lembrava de cada dia em que alguém morreu por sua causa. Suas piores lembranças não eram o constante medo, as noites em claro, o sono mal dormido com um olho aberto, mas aqueles terríveis momentos dos quais ela odiava se lembrar. Eles, porém, haviam acontecido. Nada mudaria isso. Nada. Ela não podia voltar no tempo. Não podia trazê-los de volta. Não queria trazê-los de volta. Em morte eles já a assombravam, tinha medo do que fariam em vida. Mas ela sabia que não tinha escolha. Sabia que aquilo tudo não era proposital.
– Sim, eu aceito. Eu suporto o peso de todas essas mortes.
– Muito bem. — Caminhou lentamente até sua mesa e sentou-se mais uma vez. — Aqui. — Separou três papéis. — Assinem. Leiam, se quiserem.
Zeon e Senj ajudaram Nuntia a se levantar e a andar até a mesa. Os três cuidadosamente leram cada linha dos documentos, queriam certificar-se de que não havia nada errado.
Tudo em ordem. A assinatura de Zeon foi feita com força, deixou uma marca na mesa. A de Senj quase rasgou a folha. A de Nuntia foi suave, mas foi acompanhada por sangue e lágrimas.
O Diretor lentamente examinou as assinaturas com um rosto sem expressão. Nuntia havia tirado toda a ação daquele homem cruel? Ela o havia calado? Ele encarou cada um dos três com olhos vazios, como se não se importasse mais. Passou a mão por uma tela idêntica à que se encontrava do lado de fora da sala e a porta se abriu. Duxen estava encostado em uma parede, olhando como curiosidade, medo e surpresa para a sala que se mostrava.
– Vocês estão oficialmente formados na Academia Imperial. Parabéns.
Finalmente, a liberdade por que tanto esperaram. A liberdade por que tanto lutaram. A liberdade por que tanto... mataram. Senj segurou a mão de Nuntia, que cobria o rosto com a outra mão, e cobriu suas costas com o outro braço. Ambos caminharam, juntos, em direção aos Corredores Proibidos. Mas Zeon permaneceu lá, imóvel, na frente do Diretor.
– Vão na frente. Tenho algumas palavrinhas pra trocar.
Duxen o fitou com um olhar de reprovação, Nuntia com um sorriso ocultado por sua mão e Senj com medo do que poderia acontecer. Os dois concordaram e, contra a vontade de Duxen, fecharam a porta.
– Tenho duas coisas pra te dizer, Diretor.
– Vá embora. Você já tem o que queria. Cai fora daqui antes que eu mude de ideia.
– Primeira coisa. Eu conheço seu tipo. Você é dos caras que gostam de se vingar. Eu juro pela minha família morta que se você tentar encostar um dedo em um fio de cabelo da Nuntia, eu arranco seu sangue e te faço beber tudo. Segunda coisa. Eu quero o outro registro sobre o Massacre de Crusadya. Eu sei que você não vai me dar, mas ele vai ser meu. Que eu tenha que conquistá-lo, que eu tenha que comprá-lo, que eu tenha que roubá-lo, ele vai ser meu. Eu vou ver o que tá escrito nele.
Zeon pegou a mão do Diretor e a colocou no leitor. A porta se abriu. Ele andou em direção aos Corredores Proibidos com passos irritados. Parou quando ouviu uma voz atrás de si.
– Sua amiguinha está morta. Asther Crusadya está morta, Zeon.
Todos do lado de fora ouviram. Nenhum deles sabia da existência dessa garota, nem mesmo Duxen. Zeon segurou as lágrimas em seus olhos e teve dificuldade para falar.
– Eu não vou acreditar nas suas mentiras. Ela só vai estar morta quando eu tiver provas. Até lá, — Zeon o olhou com o canto do olho. — cala essa boca e vê se não diz merda, seu grande filho da puta.
E bateu a porta.
Eles atravessaram os Corredores Proibidos em silêncio. Desceram as escadas em silêncio. Foram observados mais uma vez. Agora em silêncio. Não se ouvia um ruído além dos passos dos quatro. Foram para seus quartos, pegaram as poucas coisas que tinham e foram embora com a mentalidade de nunca mais voltar. Subiram no carro de Duxen mais uma vez e foram ao maior e mais avançado hospital do Império, o Hospital Capital, localizado na Terceira Avenida com a Rua 125. Senj mal precisava de cuidados, foi liberado em menos de cinco minutos. Trataram a mão de Zeon em quinze ou vinte minutos. Ainda precisaria usar um curativo, mas haviam reestabelecido seus movimentos. O caso de Nuntia foi o mais demorado, mais de duas horas. Assustadoramente mais rápido do que a medicina convencional podia oferecer, é claro, mas ainda o mais demorado dos três. Seus pulmão estava furado e havia um pouco de sangue dentro dele. Se demorasse mais uma ou duas horas, talvez menos, talvez alguns minutos, para chegar ao hospital, possivelmente não suportaria. Eles fecharam os ferimentos do pulmão, tiraram o sangue, juntaram as costelas, fecharam os cortes externos e deram um jeito em seu nariz, a parte mais fácil do tratamento. Ela também precisaria usar um curativo, não poderia fazer movimentos bruscos. O soco do Diretor, na verdade, poderia tê-la matado. Ela deu sorte de cair numa posição que não causasse mais danos internos.
– Milagres da Alquimia Medicinal... — Ela disse para os outros três com um pequeno sorriso no canto do rosto e a mão sobre o local reconstruído, que ainda estava doendo.
Subiram mais uma vez no carro. Duxen os levou ao outro lado da cidade, à Sétima Avenida com a Rua 52, onde o apartamento em que viveriam os esperava.
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O prédio tinha vinte andares, o apartamento deles estava no décimo quinto. Apartamento 152, número 7 da Sétima Avenida com a Rua 52. Era ali que morariam a partir de então. Um lugar deles. Um lugar livre. Um lugar em que não precisariam dormir com um olho aberto, temendo que uma faca atravessasse suas costas enquanto descansavam. Era relativamente grande, pequeno para os padrões da Capital, mas tinha tudo. Uma sala mediana, com uma sofá para três pessoas, uma mesa redonda para seis e uma televisão de tela plana na parede. Uma mesinha à frente do sofá, uma boa janela com vista para a Avenida. Uma boa cozinha, ligada à sala por não ter parte da parede que as dividiria, com geladeira, fogão, micro-ondas, pia, tudo a que tinham direito. E espaço livre. Podiam andar sem se preocuparem em bater em algo. No final da cozinha, uma porta para uma pequena área de serviço. Ao ver isso, Zeon brincou, “Nuntia, é aqui que você passa seu tempo livre.”, e recebeu um tapa na cabeça pela piadinha. Dois quartos grandes, ambos suítes, se encontravam ligados à sala do lado oposto à parede da janela. Um tinha uma grande cama de casal, o outro tinha duas camas de solteiro. Ambos tinham grandes armários e um espaço livre, para decorarem como quisessem, assim que tivessem dinheiro. Ambos os banheiros eram espaçosos e tinham uma banheira e um chuveiro formando um conjunto.
Não podiam acreditar que viveriam num lugar tão incrível. Tão perfeito. E que não precisariam dar um centavo por ele. Só precisariam pagar as contas, e só a partir do mês seguinte. Surpresa ainda maior foi Duxen ter dado algum dinheiro, este do próprio bolso, para que eles pudessem começar uma nova vida. Disse que manteria contato e partiu.
Nuntia foi logo tomar um banho, desfrutar pela primeira vez em anos de uma boa banheira. Zeon foi direto para a cama, pra que iria querer um banho, pra que iria comer? Faria isso depois. Senj preparou um sanduíche, muito melhor do que a comida da Academia, diga-se de passagem, sentou no sofá e passou aleatoriamente os canais da televisão, simplesmente pelo prazer de mudá-los. Nuntia roubou uma mordida do sanduíche de Senj e preparou um para si mesma. Senj foi tomar um banho e, esperando ter algum tempo para conversar com Nuntia, encontrou-a desmaiada no sofá. Carregou-a até a grande cama de casal, a cobriu e beijou seu rosto. Se Zeon estivesse acordado, falaria para beijar a boca dela; Senj falaria que não era doente. Um sorriso escapou de seu rosto e foi para a cama de solteiro livre. O Sol ainda brilhava na Capital, mas a noite deles já havia começado.
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Um vento frio carregava flocos de neve e cortava uma estrada abandonada iluminada pela fraca luz da Lua. Dois vultos cobertos por sobretudos pretos com detalhes vermelhos conversavam, ambos de braços cruzados, um encostado em uma pequena construção também abandonada.
– Eles são bons o suficiente?
– Ainda não. Mas têm o potencial pra serem.
– Seu tempo não é ilimitado.
– Eu sei. Mas também não é como se tivéssemos todas as direções de que precisamos. Esses garotos são diamantes, não podemos deixar essa chance passar.
– Diamantes... E como diamantes...
– Eles precisam ser lapidados, sim.
– E como você planeja fazer isso?
Ela suspirou.
– Do pior modo possível, eu temo.
– Dor e sofrimento, é?
– Sugestões? — Retrucou com uma voz ríspida.
– Nenhuma.
– Então logo começaremos a pôr isso em prática.
– Logo quanto?
– Logo. Dê um tempo pra descansarem.
– Se é pra fazê-los sofrer, não é melhor que comecemos o quanto antes?
– O sofrimento é maior quando você se acostuma com a alegria. Quanto mais alegria, maior o sofrimento gerado pela perda dela. Quanto maior o sofrimento, mais precisa é a lapidação.
– ...Você não tem coração.
– Eu vendi meu coração — Colocou a mão no peito sobre um estranho símbolo preto. — quando consegui isto.
A outra mulher passou a mão sobre seu braço esquerdo coberto pelo tecido preto.
– É, eu sei como funciona.
Uma mirou para a Lua com olhos tristes, a outra a acompanhou segundos depois.
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