Neo Omega - A Dualidade das Almas
4 Capítulo III - O glorioso e inglório fim de uma era
Ele estava acordado, mas mantinha pouco de sua consciência. Seus olhos variavam entre suas trêmulas e sujas mãos e os raios alaranjados que anunciavam o início da manhã e da liberdade dos três. Zeon piscou algumas vezes, flashes de Anima e de Asther permeavam suas pupilas dilatadas, os olhos de uma lembrando os da outra. Pensava sobre o amor de sua amiga de infância. Ele era correspondido? Ele sentira algo que nunca sentira antes quando viu, lutou, conversou e, sobretudo, beijou Anima. Poderia ele estar apaixonado por aquela mulher que acabara de acontecer? E Nuntia, ele simplesmente a ignoraria? Perseguiria uma garota que pode não estar viva e uma que mal conhecia enquanto a que mais protegera em toda sua vida sofria ao seu lado? Entrara naquela floresta buscando a liberdade, mas sairia dela preso por pensamentos que pensou que nunca teria. Amar? Alguém como ele, alguém que perdeu tudo, poderia amar? Ele tinha esse direito? Ele tinha essa capacidade? Suas mãos tremiam, seus olhos vacilavam. Três rostos apareciam diante de seus olhos. Dois deles estavam ali, a alguns passos, ambos dormindo, um sobre o ombro do outro, seu melhor amigo; o outro estava apenas em sua mente. Talvez ele não precisasse se preocupar com o sofrimento de Nuntia com Senj por perto. Talvez ela acabasse não sofrendo por ter Senj por perto. Ele levou as mãos trêmulas ao rosto, sentiu o cheiro do sangue seco. Tantas perguntas em tão pouco tempo... Olhou mais uma vez para os dois amigos. Senj estava acordando.
– Onde você se meteu? — Ele perguntou esfregando os olhos.
– Onde você se meteu? — Zeon retrucou com um sorriso malicioso.
Senj não entendeu a princípio. Espreguiçou-se e olhou para o rosto de Nuntia em seu peito. Deu um sorriso enojado.
– Você é doente e nojento.
– Não, eu só tô com sono e você sabe disso.
– Começando a ter minhas dúvidas... — Disse levantando-se cuidadosamente para não acordar Nuntia.
– Então... Você encontrou ela?
– Anima?
– Quem mais?
Zeon pensou por um segundo. Ele deveria contar o que haviam combinado? Ele podia confiar em seu amigo, certo? Mas, se ele contasse, teria que contar para Nuntia, ou Senj contaria, e ambos iriam querer participar. Ir contra o Império não era uma boa ideia, ele não queria colocar seus amigos em perigo. Talvez ele devesse fazer tudo por baixo dos panos? Ir contra o Imperador não é exatamente algo que dê para fazer por baixo dos panos... Olhou mais uma vez para suas mãos trêmulas. Decidiu-se.
– É, eu achei ela.
– E o que aconteceu?
– Bom... Nada de mais. Ele só disse que... achava que nós temos boas chances.
– Boas chances?
– Sim, sabe, de darmos certo como uma equipe.
– Eu acho que isso é um belo elogio se veio da estrela do Esquadrão.
Zeon se levantou e olhou os raios de Sol que penetravam a clareira. Ele acabara de mentir para seu amigo. Era o certo a se fazer? Era o melhor? No pior dos casos, ele poderia simplesmente falar que se encontraram de novo e ela contou tudo aquilo. É, não parecia má ideia. Virou o olhar para Senj.
– Hora de ir. Acorda a Nuntia.
– Mas com você nesse estado? Não prefere descansar um pouco?
– Aquele idiota só vai esperar a gente por uma meia hora depois que der o tempo. Ele não disse, mas é bem a cara da Academia. É melhor começarmos logo se quisermos ir com calma. Não podemos correr por causa da Nuntia e é melhor eu ficar com sono do que ela voltar a sangrar.
– Bom... — Ele se virou para a garota, que ainda dormia. — Eu acho que você tem razão.
Senj deu alguns passos, mas Zeon o interrompeu.
– Ela é sua, certo?
– A Nuntia?
– E eu sou o doente. Vira pra cá. — Ele estendeu a espada. — Sua, certo?
– ... Não, pode ficar. Ela faz mais a sua cara do que a minha.
– Certeza?
– É, — Tirou a bainha de seu cinto e a entregou a Zeon. — é sua.
– Você não tá só — Prendeu a bainha no lado esquerdo do cinto e guardou a espada. — trocando a espada pela garota?
– Cala a boca.
Ambos riram. Senj se agachou e se aproximou de Nuntia. Olhando para seu lindo rosto, aquele rosto pelo qual há algum bom tempo se apaixonara, ele notou que ela parecia tentar esconder um sorriso. Poderia ela estar ouvindo a conversa toda?
– Você é uma peste, garota. — Disse para testar seu sono.
A cabeça dela se moveu para frente, seus lábios se tocaram. Não era, entretanto, um contato acidental. Senj caiu para trás, Nuntia abriu os olhos.
– E você é muito fofo, garoto.
Encostado em uma árvore e com os braços cruzados, Zeon se surpreendeu.
– Por essa eu não esperava...
– Quer um também? — Ela retrucou com um sorriso sedutor.
– Você já parece feliz o suficiente, passo.
– E você parece convencido o suficiente. — Ela continuava com aquele lindo sorriso no rosto.
– É, é. — Ele riu. — Mas por que você sequer tá tão feliz assim?
– Porque eu percebi algumas coisas ouvindo a conversa de vocês.
– A primeira é que você é bisbilhoteira?
– Xiu, Zeon, Nuntia tá falando. — Ela se levantou, mesmo sem ajuda. — Primeiro, eu tenho amigos que me amam e se preocupam comigo. — Ela ajudou um Senj quase paralisado a se levantar. — Segundo, eu amo vocês dois e não consigo imaginar minha vida sem vocês. Terceiro, meus amigos são profundamente doentes e nojentos. — Os três riram. — Quarto, somos bons o suficiente pra recebermos um elogio da Anima. Ah, e também que somos livres a partir de hoje, mas — Lágrimas rolaram por seu rosto sorridente. — quem se importa com isso, né?
Zeon e Senj tentavam segurar as lágrimas. Ambos se aproximaram de Nuntia e os três se abraçaram com força. O calor de seus corpos se misturou, sentiam-se como uma só pessoa.
Eles eram assim, amigos inseparáveis. Passaram tanto tempo juntos na Academia, tinham que ser assim, só podia ser assim. Um por todos, todos por um. Verdadeiras, profundas e inabaláveis amizades. Eles sabiam das paixões uns dos outros, mas não se ressentiam por isso. Mesmo que nenhuma desse certo, eles não se separariam.
Senj compartilhava da alegria dos dois, mas ainda estava meio abalado por aquele curto beijo. Ele não podia parar de pensar no motivo dela ter feito isso se era apaixonada pro Zeon, ainda mais na frente dele. Seria só um joguinho de ciúmes? Seria só para tortura-lo já que ela sabia o que ele sentia? Estava feliz, mas profundamente confuso e até mesmo envergonhado. A garota que amava acabara de beijá-lo, mas por quê? Não fazia ideia do que pensar.
Nuntia, até o dia anterior, teria as mesmas reações. Talvez piores. Ela provavelmente iria querer se esconder se Zeon a beijasse repentinamente, iria querer fugir da visão de todos. Mas ela sentira, pela primeira vez, a verdadeira dimensão do amor de Senj. Ele ficou ao seu lado quando precisou de proteção. Ele a abraçou quando precisou de conforto. Ele a aceitou em seus braços quando precisou dormir. Ela notou o brilho em seus olhos quando olhava pra ela. Ele não estava sequer pensando nisso, mas seus olhos ainda brilhavam. Ela começou a pensar que talvez devesse se preocupar menos em sentir vergonha. Começou a pensar se deveria tentar dar uma chance também a Senj, que talvez ela pudesse sentir algo por ele, ou talvez que tivesse acabado de começar a sentir. Ela tinha certeza de que amava Zeon, mas esse amor começou fraternal, o mesmo tipo de amor que sentia por Senj. Ela estava absolutamente confusa com todos os seus sentimentos, mas estava determinada a suportá-los com menos medo do futuro, além de estar profundamente feliz.
Zeon tinha uma ideia do tamanho da amizade entre todos, mas só a percebeu completamente com aquele abraço. Surpreendeu-se com quantas emoções podiam ser transmitidas com um único abraço, sem palavra nenhuma. Começou a pensar em Anima e Asther novamente. Ele deveria mesmo deixar Senj e Nuntia de fora? Ele conseguiria deixa-los de fora? Um por todos, todos por um. Eles certamente o ajudariam, e a ajuda seria muito bem-vinda. Mas ir contra o Imperador tinha enormes riscos. Tolerância zero a traidores, execução em praça pública. Ele iria mesmo jogar esse destino sobre as costas daqueles dois por alguém que pode nem estar vivo? Valia a pena? Ele não queria excluí-los, mas não queria pô-los em perigo. Eles provavelmente iam descobrir de qualquer jeito mesmo, pra que esconder? Ele tentou começar a falar, moveu seus lábios, mas Nuntia segurou as mãos dele e de Senj e os puxou.
– Vamos. Não podemos demorar, certo?
Eles caminharam entre as árvores como sempre caminharam na Academia. Conversaram como sempre conversaram no tempo livre. Estavam tão extasiados que tudo chegava ao fim e que um outro tudo estava para começar que mal sentiam as dores, os efeitos das terríveis horas anteriores. Nenhum animal atrapalhou seu caminho, todos que encontraram eram meros cadáveres jogados ao chão. Não se importaram com o motivo das mortes deles. Um relativamente irritante cheiro de sangue selvagem dominava alguns trechos do percurso. Os raios alaranjados se tornaram mais fortes, mais frequentes, pareciam vir da frente, não de cima. Aquele era o limite da floresta. Três longos suspiros acompanharam a entrada no mundo exterior. Eles se abraçaram novamente.
Estavam alguns minutos adiantados. Nuntia e Zeon não se aguentavam em pé, sentaram-se encostados em uma árvore. Senj permaneceu de pé, apoiado em outra. Os três conversaram sobre coisas banais, irrelevantes. O tempo fluiu paradoxalmente lendo. Estavam felizes, mas não queriam que o momento acabasse. Queriam sentir de fato o gosto da liberdade, mas estavam com medo dela. Um carro surgiu ignorando a gravidade. Os olhos deles brilharam num misto de ansiedade, pavor e felicidade.
– Então vocês sobreviveram mesmo! — Ele tentava parecer surpreso, mas não o estava, parecia já saber do sucesso deles. Confiança no Rei e seus seguidores mais próximos? Senj foi o único a notar.
– Pode levar a gente pra casa logo? Ou pra um hospital? — Zeon foi direto. — O volante é teu, a escolha é tua.
– Eu escolho a Academia.
Eles congelaram em confusão antes que ele pudesse continuar. Sentiram o mundo desabando abaixo de seus pés.
– Vocês precisam passar pela parte burocrática agora. Não acharam que podiam simplesmente sair andando da Academia sem dar satisfação nenhuma, acharam? Vocês estão prestes a conhecer o Diretor.
Senj ajudou Nuntia a se levantar, Duxen ajudou Zeon. Os quatro entraram no carro; Duxen e Zeon nos bancos da frente, Senj e Nuntia no banco de trás. Ela descansou a cabeça em seu ombro, uma mão em seu braço e fechou os olhos. Ela parecia extremamente calma, o coração dele bateu mais rápido por um segundo. Um pequeno sorriso que ninguém viu escapou dos lábios dela. Nenhum dos dois falou durante a viagem toda, só escutaram a conversa de Zeon e Duxen.
– Como foi?
– Cansativo. Interessante.
– Interessante?
– É. Interessante. Deu pra ver que o nível do Esquadrão é completamente diferente do da Academia.
– Então vocês acharam ela.
– Ela achou a gente. Que tipo de idiota iria atrás de alguém que quer te matar?
– Você parece um bom tipo de idiota.
– Como é?
– Alguém que de vez em quando age antes de pensar, alguém que quer garantir a segurança dos companheiros. Alguém que confia em sua própria força. Se encaixa perfeitamente em você.
– ... Cala a boca e dirige.
– E esse tipo de atitude é justamente o que pode te matar. Não seja babaca com seus superiores. Não vou fazer nada porque gosto de vocês, mas o Diretor não vai ser tão legal assim.
...
– Quanto tempo vai demorar?
– Até chegar na Academia?
– Não... Por quanto tempo vamos ficar de conversinha com o Diretor? A gente não tá exatamente bem...
– Pode demorar meia hora, uma hora, duas horas... Depende das perguntas que ele quiser fazer. Ou comentários.
– Perguntas... Comentários...
– Assustado?
– Conversar com um cara não me dá medo. Eu só tô preocupado com a Nuntia... Aquele corte tem um tempo já. Pode infeccionar.
– Corte?
– Costelas quebradas. Não foi a Anima.
– Selvageria da selva, é? E essa sua mão?
– Ah... — Ele olhou para a mão enfaixada. Estava tremendo mais do que antes. — Isso... Isso não é nada. Eu consigo me virar.
– É, claro. — Duxen riu. — Você não tá só se fazendo de forte.
– Eu levo outro esporro se falar pra você calar a boca e dirigir?
– Leva sim.
– Então não vou falar. Mas você entendeu o que eu disse subliminarmente, certo?
– Você tem alguma noção de quão grave é desrespeitar um oficial?
– Claro que sim.
– E você faz mesmo assim?
– Você não se sentiu ofendido, se sentiu?
– Eu não consigo ficar irritado com você. É impressionante.
Os quatro riram por alguns momentos e então a conversa cessou. Pouco depois atravessaram um dos portões da Capital, a enorme cidade que pode ser vista de longe cortando os céus com seus enormes prédios de tonalidades claras. A maior cidade do Império, seu mais imponente símbolo, o ponto central do Continente. Finalmente poderiam andar livremente por aquele lugar. Finalmente poderiam desfrutar de tudo que ela tinha a oferecer. Havia poucos carros na rua, algo característico do horário, mas mesmo assim demoraram pelo menos trinta ou quarenta minutos para atravessarem a gigantesca Capital e chegarem ao seu centro absoluto, a Praça Zero. Em seu interior, um prédio que, sozinho, poderia ser considerado outra cidade: o prédio da Academia, uma massiva construção de cinco andares, além do térreo e dos três abaixo do solo, erguida em um terreno de mais de dois mil metros quadrados, que demonstrava o poder militar do Império. No centro do pátio da construção central da praça central da cidade central do Império estava um enorme monumento de mármore, o Obelisco da Grandeza, que passava do ponto mais alto do quinto andar e ia até o ponto mais baixo do terceiro andar subterrâneo. Nele estavam escritos os nomes de todos que passaram pela Academia desde que ela fora fundada, três milênios atrás. As maiores estrelas, os maiores fracassos, todos os nomes estavam lá. Rumores diziam que o nome do Imperador estava no topo, mas ninguém podia comprovar.
Atravessaram as geralmente trancadas portas do absurdo prédio. Duxen ia à frente do grupo, Zeon tremia e tinha os olhos distantes, Nuntia, mal conseguindo se manter de pé, apoiava-se com o braço em volta do pescoço de Senj. Cada segundo que se passava deixava-os mais exaustos, mas só precisavam desse último sacrifício. Todos os habitantes da Academia olhavam para os três com olhares aterrorizados, invejosos, irritados. Algo havia deixado os melhores dos melhores num estado tão deplorável. Deplorável, mas vivos. O que haviam visto? Pelo que haviam passado? O que poderia ser tão pior do que aquele lugar? Como conseguiram passar por aquilo? Eles realmente mereciam escapar da Academia por tal tarefa? Por que só eles tinham esse benefício? E, acima de tudo, por que estavam voltando, livres, ao lugar em que por tanto tempo sofreram? Era simplesmente para se exibirem? Em meio a tanto ódio, duas pessoas superavam todos os demais; uma garota de cabelos pretos e olhos vermelhos e um garoto de cabelos loiros e olhos cinzas.
– Aquela vadia sobreviveu...
– Eles realmente me deixaram pra trás...
Os três continuaram sua caminhada de glória, alvejados pelo ódio simultâneo de milhares de pessoas, até chegarem aos Corredores Proibidos do quinto andar, o local onde os oficiais da Academia, inclusive o Diretor, se encontravam. Eles os atravessaram, guiados por Duxen, em silêncio. Incontáveis portas cortavam as paredes daquele lugar onde poucos alunos podiam passar, um número bem maior do que o de oficiais que conheciam. No último corredor, porém, havia apenas três: a porta do Diretor, a porta de Duxen, o segundo no comando, e a porta de alguém cuja existência era desconhecida.
Ansiedade. Muita ansiedade. Nada compensaria os anos em que tanto sofreram, mas podiam criar muitos outros anos, anos muito melhores. Deram aqueles passos esperando que fossem os últimos naquele abatedouro humano.
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