Nemo

6 EPÍLOGO - NEMO


Este sou eu para sempre
Alguém sem um nome
Um último esforço
Para achar a linha da vida perdida

Oh! Como eu desejo
Uma chuva reconfortante
Tudo que eu desejo é sonhar novamente
Meu coração cheio de amor
Perdido na escuridão
Por esperança eu daria tudo de mim



“...Laura, eu já não sei mais o que fazer. Acho que é neste momento que estou entendendo tudo o que aconteceu, desde o dia em que meu pai me levou àquele médico até o agora. As coisas ainda estão um pouco confusas na minha cabeça mas, para falar a verdade, sinto que foi bem melhor que minha percepção do mundo estivesse bagunçada. Não sofrerei tanto.

Sabe, talvez uma lobotomia seja uma boa idéia... afinal, acho que nós duas concordamos que eu já passei do estágio “normal” de loucura! Mas brincadeiras a parte, sinto que esta noite será diferente. Não sei, só tenho a sensação de que algo vai acontecer...

Eu acho que o aquecedor do meu quarto deve ter quebrado. Está esfriando.

Laura, meu quarto é diferente! Ele muda sozinho! Não é demais?


Laura, se você fosse eu e eu fosse você, as coisas seriam mais acertadas, não seriam?

Por que isso nunca aconteceu?

Está ficando frio... puxa, estou tão cansada! Gostaria que você estivesse aqui ”


Minha flor, seca entre
As páginas dois e três.
Aquele aroma melancólico e eterno se foi com meus pecados

Caminhe na trilha escura
Durma com os anjos
Clame ao passado por ajuda


– Doutora, por que ela escrevia essas coisas? – Marcelo terminou de ler o diário de Bruna – lendo esta última nota, parece que ela saía do estado de delírio e voltava à realidade.

– E era isso mesmo. Ela tinha esquizofrenia, mas em um grau leve. Essa técnica – Kamila pegou o diário e folheou-o rapidamente – já funcionou antes. Acho que, como ela já estava com a saúde do organismo muito debilitada, isso não fez efeito.

Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos. Kamila levantou-se e foi em direção à porta.

– Você entendeu as mudanças que ela descreveu no diário? – o enfermeiro balançou negativamente a cabeça – vamos até o quarto dela.


Tudo o que Bruna escrevera no diário...

Era tudo o que estava em seu quarto, em sua casa. Porém, no hospital psiquiátrico, os quartos não tinham cor (para não incomodar os pacientes), e as mudanças que ela demorou a entender foram mais rápidas para as pessoas à sua volta do que para ela mesma.

– Podemos contar para essa “Laura” sobre como a Bruna escrevia sobre elas? Parece que eram amigas.

– Não, Marcelo. Isso é impossível.

– Ah, é. Sigilo de médico-paciente, né?

– Também não é isso. É só que... não podemos simplesmente entregar para Laura.

Marcelo continuou encarando a psiquiatra. Ela se sentou na cama, agora vazia. E correu os olhos pelo quarto que, até o dia anterior, tivera uma paciente. Naquele momento, Kamila sabia que o pai de Bruna estava chorando sobre o corpo da filha, no necrotério.

– “Laura” seria o nome dela, se...

– ... se já não se chamasse Bruna. Então, era por isso que ela falava sobre como ambas seriam completas caso seus nomes fossem outros. E, doutora, você não falou pra ela a verdade sobre o Matheus?

– Ela teria ficado pior se soubesse que ele tentou cometer suicídio por monóxido de carbono. E que, quando falhou e descobriu que a irmã havia morrido, ele perdeu a consciência do certo e errado. Não, foi melhor assim. Foi bom para ele também, acreditar que a perda do olho foi resultado de um acidente que nunca aconteceu, ao invés de saber que foi um erro na lobotomia.


Oh! Como desejo sonhar novamente
De uma vez por todas
E de todas por uma vez
Nemo meu nome para todo o sempre

Nemo navegando para casa
Nemo indo embora

Notas finais
Pois é, foi uma fic triste. Mas sei que, de alguma forma, alguém vai acabar entendendo todo o significado por trás da história.
Ah, sim, já ia me esquecendo: Nemo = ninguém.
Nemo - Nightwish
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!