Nem tão príncipe encantado assim.

3 Fósseis, confissões e presentes.


Notas iniciais
Boa noite, queridos leitores. Mais um capítulo dessa fic que eu estou amando escrever. Esse ia ser o último, mas decidi escrever mais um, sem contar o capítulo bônus. Espero que gostem. Boa leitura e desculpe os errinhos.

Charlotte



— OLHA AQUELE ALI. — gritou o garotinho de olhos verdes, que Yami apresentou como Asta. — É um Apatosaurus. — saiu esbaforido puxando Yuno e Mavi pelos braços.

— Não corram. — pedi, mas foi tão baixo que nem me escutaram.

— Deixa eles. Não vai acontecer nada. — o moreno andando ao meu lado falou despreocupado.

— Podem se machucar. — retruquei apertando a alça da bolsa mais forte.

Mavi tinha que insistir tanto para que Yami Sukehiro viesse ao museu conosco?

Ela não me deu um minuto de paz em casa para respirar, a semana toda, sempre perguntando se eu já tinha ligado e convidado seu mais novo amigo.

O que eu não faço pela minha filha. Agora estou aqui, presa com o único homem que me tira do sério instantaneamente.

Ver ele já me deixa estressada. Ainda mais quando me observa desse jeito, com esse sorrisinho de canto irritante e os olhos cerrados.

— Você é muito super protetora. Crianças precisam correr, aprender a cair e se levantar. — a voz rouca ressoou pelo lugar.

— Quando você tiver os seus filhos, pode dar palpite na criação deles. — cochichei e seus olhos escureceram. — Eles também podem esbarrar em alguma coisa e quebrar sem querer. — argumentei apontando para Asta perto demais de um vidro repleto de rochas.

— Pirralhos. — falou alto o suficiente para que todas as pessoas que estavam no salão dos fósseis escutassem. — Venham aqui. — chamou os três e eu quis me esconder de tanto constrangimento, com todo mundo olhando em nossa direção.

— Você não sabe se comportar civilizadamente? — cutuquei e ele riu.

— E você sabe se divertir, Charlotte? — usou só o meu primeiro nome, e quis socá-lo na cabeça pelo tom proferido.

— Isso é engraçado para você? Envergonhar os outros? — perguntei contrariada.

— Não. — fez um gesto com as mãos desdenhando, como se eu tivesse falado uma besteira. — Mas te ver corada assim é muito divertido. — fiquei muda, embaraçada, e se abrisse minha boca, com toda certeza, gaguejaria como uma tola. O coração disparou no peito e o rosto ficou quente de raiva e timidez ao mesmo tempo.

— O que é tio Yami? — Asta perguntou e a mão enorme do homem segurou sua cabeça pequena, apertando levemente.

— Sua mãe já te falou para não correr por aí, pirralho. E não arraste os outros. — alertou a criança de olhos verdes. — A Charlotte está preocupada que vocês possam se machucar, então não faça, e principalmente, fique longe dos vidros. — notei em sua voz afeição pelo garotinho arteiro.

— Vou me comportar. — ele prometeu, não muito convincente, tentando tirar a mão de sua cabeça, puxando com veemência.

— Vamos comer alguma coisa. Vocês já estão rodando horas nesse museu. — o moreno falou e fiquei admirada dele conjecturar isso. — E eu preciso de cafeína. — revirei os olhos, devia ter esperado algo assim.

As crianças foram andando na nossa frente, com a tagarelice típica infantil, contando tudo o que tinham visto até agora. Na verdade, Asta dominava a conversa, com algumas contribuições de Mavi e quase nenhuma de Yuno. O garoto de cabelo preto era quieto, mas parecia muito próximo do primo, mesmo sendo seu total oposto.

— Como está vivo ainda? Tomando café como se fosse água e fumando cigarros de hora em hora. — comentei, já que as crianças não escutariam.

— Devo ficar lisonjeado com a princesa de gelo prestando atenção em mim? — fuzilei ele com o olhar pelo apelido ridículo. — Está preocupada com a minha saúde? — essa criatura cada vez que abria a boca ficava mais irritante.

— Nem um pouco. — revidei altiva. — Você é meu cliente, e aparece todo dia na loja, não tem como não reparar. — disse o óbvio.

— Por falar em reparar, você está muito bonita hoje, Charlotte. — corei com o elogio, e quase não notei quando, mais uma vez, me chamou pelo nome. — Caprichou por minha causa? — eu devo ter feito uma careta horrorosa porque ele gargalhou.

— Nos seus sonhos, quem sabe. — ele não precisa saber que demorei horas até decidir usar essa saia godê midi, azul royal com detalhes dourados, a blusa rendada sem mangas, branca, e sandálias de saltos baixos. — Preferia você antes, taciturno e mau humorado, essa sua versão engraçadinha não é legal. — alfinetei e ele sorriu.

Sentamos em uma mesa aconchegante ao lado de uma janela, com o sol morno de final de tarde refletindo nos vidros. Pedimos muffins de chocolate e morango, pães de queijo e chocolate quente para as crianças, e café para os adultos. O dele ristretto sem açúcar, o meu um café irlandês.

— Não está muito cedo para beber? — perguntou enquanto Asta, Yuno e Mavi estavam entretidos comendo.

— Quase não tem uísque aqui. — comentei bebericando meu café.

— Devíamos sair para tomar uns drinks, só nós dois. Você está precisando desestressar. — piscou atrevido.

— Eu não estou estressada. — resmunguei e senti o polegar áspero dele passear pelo canto dos meus lábios. Tirando um pouco de creme que tinha ficado ali, ele levou o dedo até a sua boca e lambeu, me dando um arrepio.

— Doce demais. — ele reclamou.

— Então tome seu café amargo e pare de roubar o meu. — passei meus dedos pelo rosto, aposto que vermelho como uma pimenta, checando se não estava mais lambuzada.

— Se isso pode ser chamado de café. — ele fez uma careta de desgosto quando deu um gole no líquido marrom, claro demais. — O da Roselei's é perfeito. — disse despretensioso.

— Obrigada. — agradeci pela primeira vez um elogio vindo dele.

— Por que uma cafeteria e floricultura? — perguntou interessado, encostando os antebraços musculosos na mesa, e por um instante perdi o foco.

— Eu sempre gostei de flores, desde cultivar até fazer os arranjos, mas só a floricultura não me daria o retorno financeiro que eu precisava. Por isso a cafeteria surgiu nos planos. — expliquei dando um gole no meu café.

— Ela é bonita que nem a tia Vanessa. — Asta chamou nossa atenção com esse comentário.

— Tenho bom gosto, pirralho. Agora come seu pão de queijo e pare de falar. — Sukehiro ordenou ao garoto.

— Então você namora? — questionei fingindo apatia, depois que as crianças não estavam mais atentas a nós. — Vanessa? — não vou confessar nunca que estava realmente curiosa.

— Está interessada? — revirei os olhos, espero não ficar vesga de tanto que faço isso quando estou perto desse homem. — É minha ex-esposa. — abri a boca chocada com essa informação.

— Você já foi casado? — não consegui segurar a língua.

— Por que o espanto? — ele inquiriu divertido.

— Só parece não combinar muito com você. — redargui direta. — Quanto tempo durou o casamento? — não escondia mais a curiosidade.

— Seis anos. — ele ainda ria da minha reação. — Desde o namoro até o fim do casamento foram onze anos juntos. Conheci Vanessa na escola fundamental, aos quinze começamos a namorar, aos vinte nos casamos e aos vinte e seis nos separamos. — fez o resumo da sua relação amorosa.

— É um tempo razoavelmente longo. — analisei.

— Mamãe. — Mavi chamou e minha atenção foi diretamente para ela. — Podemos ir ali comprar fósseis? — apontou na direção de um estande e Sukehiro me olhou tentando entender do que ela estava falando.

— São aqueles brinquedos de escavação. Uma pedra que dentro tem um esqueleto de dinossauro. — informei para o moreno. — Vou pagar a conta aqui e já vamos lá, filha. Espere aqui na mesa com o Sukehiro. — pedi procurando minha carteira na bolsa.

— Vão indo na frente. — ele levantou e foi em direção ao caixa.

Discutiria essa atitude com ele depois, não gosto que outras pessoas paguem meus débitos. Acho que por ser independente desde a adolescência, isso me incomodava bastante. E ele ter saído andando, sem nem perguntar se estava tudo bem, me apoquentou ainda mais.

Recolhi a sujeira da mesa e joguei no lixo, enquanto levava as três crianças até um dos estandes de vendas do museu. Elas debatiam qual era a melhor opção para comprar e quais os dinossauros que já tinham. O moreno voltou, parando ao meu lado, também escutando a conversa delas.

— Só pra constar, da próxima vez pergunte se eu não me incomodo com você pagando a conta. — sibilei e ele concordou com um aceno de cabeça, sem discutir.

— Então teremos uma próxima vez? — franzi o cenho por causa do sorriso charmoso que surgiu em seus lábios quando terminou a pergunta.

— É só um modo de falar. — constatei gélida. — Vou comprar os brinquedos das crianças e ficamos quites. — olhei para o moreno e ele não contestou, o que achei ótimo.

— Eu vou ganhar um presente também? — revirei os olhos pelo jeito sedutor de falar, mas aquela voz rouca me fazia palpitar e tremer de um modo que eu não queria. — Então você e o pai da Mavi não foram casados? — mudou o foco da conversa bruscamente, enquanto contemplava minha filha se divertindo com seus sobrinhos.

— Como você sabe? — estreitei os olhos.

— Palpite. — deu de ombros, porém, seu semblante dizia tudo, que me acha esperta demais para cair na lábia de um mulherengo.

Mas eu engravidei, não é? A conversa apaixonada e mentirosa de Nozel me fisgou, e uma adolescente não é tão astuta como acha que é.

Por isso prometi a mim mesma que nunca mais acreditaria nesses flertes, declarações e promessas só da boca para fora.

— Não. Quando descobri a gravidez, também entendi o quão irresponsável ele era. — reconheci amargurada. — Tive Mavi com dezessete anos. Sai de casa porque não suportava as hipocrisias e principalmente, não queria que minha filha se sentisse indesejada e menosprezada. Peguei a herança que minha avó me deixou e construí a Roselei's. Esse sobrenome vem dela. Tive sorte por poder ter onde recomeçar. — confessei dando um suspiro.

— Mas não tira seu mérito. Você é forte, Charlotte. — o moreno disse firme.

— Ela me fez forte. — sorri apreciando Mavi empolgada com duas caixas de brinquedo nas mãos. — E por que você se separou? Se não quiser falar, tudo bem. — não pretendia ser invasiva.

— Vanessa estava pronta para a próxima etapa do nosso relacionamento. Filhos. — notei algo estranho no timbre da sua voz.

— E você não estava? — perguntei quando ele demorou para continuar.

— Pelo contrário, eu sempre quis ser pai. — escondi o arquear dos lábios quando pensei nesse homem bruto, mas afetuoso, segurando um bebezinho no colo. — Procuramos um médico, já que não conseguimos engravidar. Tentamos muito, se é que me entende. — o sorriso de canto e assimilar aquelas palavras me fizeram ficar rubra.

— Você é um idiota. — dei uma cotovelada fraca nas suas costelas.

— E você é adorável, rainha dos espinhos. — murmurei um xingamento por causa do apelido novo. — Ela decidiu romper nosso casamento quando descobrimos que eu era estéril. — voltou ao assunto e eu sabia que não era tão fácil admitir isso, como ele parecia fazer.

— Adoção não foi uma opção? — ele negou com a cabeça. — Então ela era o tipo de pessoa que acha a biologia mais importante que o afeto e o amor? — julguei sem conhecer.

— Não é isso. — defendeu a ex-esposa. — Vanessa queria todo o processo de gerar um bebê. Engravidar, curtir a gestação, parir. — explicou e compreendi, como uma mãe, o quão maravilhoso era formar uma vida dentro de si.

— Você parece levar isso numa boa. Não tem mágoa? — cada vez mais queria conhecer e entender Yami Sukehiro.

— Não. Foi uma escolha dela e eu precisava aceitar. A gravidez era algo que ela não poderia abrir mão. — disse conformado. — Cada um sabe o que é mais importante para sua vida. Não cabia a mim decidir, e foi melhor terminar tudo do que viver infeliz ao meu lado. — ele estava certo em pensar assim.

Yuno veio andando na nossa direção e paramos de conversar, não era um assunto que uma criança deveria escutar. Vislumbramos Asta e Mavi ainda entretidos com alguma informação que a vendedora dava, empolgados e felizes.

— Eles já decidiram os brinquedos. — o garoto de olhos dourados informou simplesmente.

— E você não escolheu nada? — questionei avaliadora e ele olhou para o primo antes de responder.

— Não gosto muito de dinossauro. — contou cochichando, como um segredo, me fazendo abrir um sorriso caloroso.

— Tudo bem, eu também não gosto tanto assim. — sussurrei de volta e foi a vez dele sorrir. — Mas eles têm outros brinquedos e lembrancinhas. Você gosta de gemas? — perguntei apontando para a pedra azul do seu colar.

— Minha mãe me deu. — replicou com poucas palavras, segurando o pingente em seus dedos pequenos.

— Quer comprar uma para ela, então? — sugeri e ele timidamente afirmou com a cabeça.

O garotinho estendeu a mão e agarrou a minha, e fomos com elas entrelaçadas até o estande. Ajudei Yuno a escolher uma gema, da mesma cor que a dele, e paguei pelos três presentes.

Decidimos ir embora, já que o sol estava se pondo, logo ficaria escuro e perigoso para andar até em casa.

Asta e Mavi prometeram se encontrar novamente e apresentar seus dinossauros um para o outro. Despedi do moreno cordialmente, mas ele puxou minha mão e depositou um beijo delicado na minha palma. Galante sem-vergonha.

— Está aqui, o seu presente. — puxei meu cartão de visitas da bolsa e entreguei para ele. — Eu te pago um drink. — convidei.

— Vou cobrar. — Yami decretou, guardando o papel no bolso da calça jeans, com os cantos daquela boca bonita repuxados para cima.

Notas finais
Estou tão feliz de escrever YamiChar. Esse casal tem uma química incrível no anime. Eu adoro a diferença da interação dos dois com as crianças hahaha Temos Yami provocador e Charlotte tsundere. Amo. Obrigada por lerem e até o próximo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.