'' Você promete amá-la e respeitá-la, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe? '

Essas promessas nunca fizeram tanto sentido em minha vida como agora. Quando dizemos '' sim '' pra todas, perante um padre, nunca pensamos no real valor que elas carregam. Faz quatro anos que sou casado com a melhor pessoa que já existiu, cada segundo ao seu lado me fazia bem, cada dia amando-a foram mágicos. Ganhei um presente maravilhoso como prova desse amor: nossa filha. Posso dizer que, sem dúvidas, era a melhor família do mundo, até que... Há dois anos ela estava tendo muitas dores, muitos desmaios e chorava de dor todas as noites, até que descobrimos um tumor no lado esquerdo de seu peito, quase cobrindo seu coração. Segundo o médico, estava num nível muito avançado, portando não havia nada que pudéssemos fazer, ou nada que pudesse fazer que não colocaria sua vida em risco... Isso acabou comigo, acabou com meus dias, minutos, segundos, todos os dias a partir dali eram tristes, amargos e dolorosos, minha filha me perguntava onde estava a mamãe, e eu respondia '' ela vai voltar minha filha, ela vai voltar, prometo! '' e sorria, passando confiança para aquela pequena e doce criança. Eu sei que não deveria mentir, mas não conseguia contar a verdade a ela, não poderia quebrar seu doce coração, não como o da minha amada esposa. A cada sessão de quimioterapia ela gritava de dor, segurava minha mão e apertava conforme a dor ia aumentando, eu não sentia, não sentia aquela dor, apenas procurava uma forma de aliviá-la de tudo aquilo. As cicatrizes em minhas mãos eram provas, provas concretas que ela sofria todo dia. Pedia a Deus todas as noites, de joelhos em minha cama, para livrá-la de tudo aquilo, nem que para isso, eu tivesse que ir. Pedia que a salvasse, ou que me colocasse em seu lugar, mas nada nunca acontecia.

A cada dia de visita ela estava mais debilitada, mais fraca. Os brilhos dos seus olhos estavam ofuscados pelas lágrimas que seu peito guardara. Aquele belo cabelo que ela sempre venerou jazia no chão frio do hospital. Ela continuava linda, eu repetia isso toda a vez, repetia que meus sentimentos por ela não mudariam... nunca mudariam.

O tempo foi passando, nossa filha foi crescendo, ficando tão linda quanto a mãe era. Ela teve uma apresentação na escola, para homenagear as mães, e a única que faltou foi a dela. Ela ficou muito triste, sim; mas entendia que não foi por mal.
Aquele mau já havia engolido totalmente seu coração, pelas fotos podíamos ver: um buraco negro do seu peito. O médico havia lhe dado três meses de vida. Mas eu me recusei! Três meses? Havia lhe prometido uma vida inteira! Isso não era justo! Foi então que me propôs a cirurgia, que consistia em tirar toda a camada do tumor envolto do coração, assim ela ficaria livre para sempre; porém era muito arriscado, tendo somente quinze por cento de sucesso. Ela tentou me convencer a deixar como estava, ela estava preparada, mas... mas eu não estava. Não estava preparado pra deixar minha razão de viver ir embora, não estava preparado pra ter nosso amor roubado de mim por uma doença suja.

Então, enquanto ela dormia, assinei os papéis: permiti a operação. Fariam no dia seguinte, após a quimioterapia, enquanto ela dormia.
Na quimio, ela apertava minha mão com mais força que das outras vezes. Eu segurava as lágrimas pois não queria que ela visse que aquilo doía mais em mim do que nela própria. E repetia e repetia centenas de vezes na minha cabeça que seria a última vez, que seria a última vez que ela passaria por aquilo, que seria a última vez que minha mão ficaria marcada por arranhões, que seria a última vez que mataria minhas noites com uísque tentando ser forte perante minha filha... E eu estava certo.
Era duas horas da tarde quando me ligaram do hospital, eles iam começar. Deixei minha princesa na escola, eu sorri, eu abracei-a com força, eu sorri, eu sorri muito, eu repetia toda hora que tudo ia mudar, que tudo ia voltar como antes, ela ria, ela me beijava e acreditava em tudo que eu falava '' eu te amo papai! '' ela dizia, '' eu sei que você vai salvar a mamãe! '' e eu lhe encorajava a fazer uma boa prova, que quando chegasse em casa eu e sua mãe estaríamos esperando com um presente novo. Ela atravessou os portões da escola aos berros dizendo: '' mamãe vai me dar um presente novo! '' dando beijos super alegres em sua professora. Eu sequei o rosto e fui para o hospital.

A cirurgia havia começado na sala B-08, fiquei esperando do lado de fora, em pé, impaciente, esperando aquele botão vermelho apagar, e o doutor vir com um sorriso no rosto dizendo que tudo foi um sucesso.
Fiquei em pé quase seis horas, acabei esquecendo de pegar minha filha na escola, então sua professora levou-a para mim. A luz finalmente apagou, as luzes se acenderam, olhei pela pequena janela e um pano lhe cobria por completo, da cabeça aos pés. O que havia acontecido ? O médico saiu, sem expressão, da sala de cirurgia. '' O que aconteceu doutor? Ela está bem ? ''. Eu estava agarrado em seu jaleco. O velho homem nada disse, apenas colocou a mão em meu ombro, balançou a cabeça negativamente e sussurrou: '' eu fiz o que pude... me perdoe. ''

Ajoelhei-me. Não podia ser verdade, ela não poderia ter me deixado, eu não permitiria viver uma vida sem ela, não permitira que minha filha crescesse sem uma mãe. Atravessei aquela porta aos murros, passando pelos seguranças e enfermeiros. Aquela máquina, aquele barulho uníssono apitava, apitava de uma forma insultante, como se dissesse e me acusava que eu havia falhado, que eu havia deixado-a partir. Puxei aquele maldito pano. Ela estava com os olhos fechados, sua pele estava sem cor, ela estava gelada, seus lábios estavam secos. Seu pulso não pulsava, seu coração não batia, seu rosto não sorria, seus ouvidos não me ouviam... Por que meu Deus? Por que me tirou a única razão de ser feliz? Eu lhe pedi! Pedi para que a salvasse-a, pedia para que me levasse no seu lugar! Mas, depois de um tempo debruçado sobre aquela maca, eu finalmente entendi... Ele estava me testando, testando se as promessas que eu fiz eram reais...

Eu prometi amá-la, eu prometi respeitá-la, eu prometi ficar com ela na saúde, na doença, na riqueza, na pobreza, em vida, e... e a morte nunca iria vencer nosso amor, nunca iria tirá-la de mim... Saquei uma arma que carregava sempre comigo, mirei no lado esquerdo do meu peito, segurei a mão da minha amada.'' Espere por mim, vamos atravessar juntos. '' e... apertei o gatilho... apertei-o mesmo sem destravar.

Quando minha princesa chegou no hospital, todos estavam escandalosos, corriam de um lado para o outro. Ela, ao lado de sua professora, não entendiam nada, e foram perguntar onde estava seu pai. A recepcionista começou a chorar, ela não queria dizer... a garotinha entrou em pânico. Se soltou do abraço apertado da enfermeira e subiu aquela escada como se fosse a última coisa que faria na vida. Chegou ao quarto B-06, onde costumava levar flores a sua mãe. Quando entrou... o quarto estava banhado em sangue, um homem estava debruçado sobre um corpo morto. Ela começou a chorar, começou a gritar... Encontrou um bilhete no chão do corredor: '' Conseguimos meu anjo! Ficamos juntos! '' e ela entendeu exatamente o que havia acontecido. Sua família estava junta. Ela sorriu, secou as lágrimas, agarrou a mão de seu pai e de sua mãe, e foram embora... Para sua nova casa.

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