Notas iniciais
Ninguém me sugere piada.

Foi uma noite longa, sem sonhos e tendo que acordar no meio para tomar outra dose do sonífero. Detestava essas noites de insônia, pelo o menos, a prova não começava cedo, alguém entende que eu TENHO que dormir.

Acordo sozinha as nove e pouco, tomo um banho frio para acordar, mas saí tremendo e me prometi que nunca mais faria isso, coloquei uma calça do exercito e uma camisa alguns tamanhos maiores que o meu, só por conforto, pego um pano que deixei separado exatamente para hoje, enrolo-o no seio, o escondendo e faço o café.

Pego meu moletom, minhas luvas e cubro o rosto, pois eu sabia que a polícia de Ladro estaria rondando a região e tento chegar na arena. Já que a sorte me odeia, encontro com um desses policiais perto da arena.

– Papel.

–Tesoura.- e saio correndo.

Me escondo em um prédio abandonado até eu ter certeza de que não tem ninguém me seguindo e saio correndo até a arena.

Os lutadores são escolhidos por sorteio e hoje, os anunciantes vão nos chamar cara a cara para não chamar a atenção da polícia. Muitos cidadãos comuns estariam lá para saber quem "dominaria" a cidade.

– Beni, certo?- pergunta o cara que estava chamando. Eu assinto.- sua vez.

Ando até a arena de terra que estava rodeada por pessoas que queriam entreter-se e lá estava ele, um cara uns três anos mais velho que eu, tentando ganhar de mim.

– Boa sorte, garoto, vai precisar.

– Não se sinta convencido.

O sino toca e o cara investe, eu me desvio sem problema e acerto um golpe em sua barriga, fácil de mais. Coloco-me de pé em suas costas e ele acerta um golpe no meu pescoço e depois me dá uma rasteira, eu caio.

Levanto e me coloco em guarda, ele faz o mesmo e ficou me encarando, finjo um soco, o cara tenta bloquear e eu acerto um gancho com a outra mão.

– Eu disse para não ser tão convencido.- digo.

Tendo acertar um chute em seu tronco, mas ele apara, me derruba e da um puta chute na minha cabeça. Sinto um pouco de sangue escorrer, por esse motivo, me obrigo a continuar. Eu não perderia na primeira luta.

Uso a mesma técnica que usei com o Bryce, de me levantar e dar um soco no nariz dele. Yey, deu certo! Eu caio e ele me segura no chão.

– Digo o mesmo para você.

"Se você não se levantar, você perde."

Chuto-o para longe de mim e me levanto rapidamente. Ofego perigosamente sem ar, me desvio de alguns golpes que o cara tentou acertar e derrubo-o com um chute, dou mais alguns até ter certeza de que seu joelho estava quebrado.

A platéia conta silenciosamente os dez segundos de vitória, o cara tentou levantar, mas não conseguiu. Eu realmente quebrei a perna dele.

–O vencedor é Beni!- diz o juiz.

Vejo que meu oponente não estava recebendo ajuda, então, passo seu braço por cima do meu e o levo para a enfermaria.

– Por que você está fazendo isso, cara?- pergunta

– Porque eu não sou tão mau quanto vocês pensam.

Deixo-o na maca e me apoio na parede da área de espera e faço o que é para ser feito naquela sala.

Por enquanto nada muito sério comigo, a não ser alguns possíveis hematomas, mas nada de mais. A segunda luta foi de dois garotos que pareciam ter a mesma força, demoraria muito, experiência das vezes que Leen me forçou a vir aqui.

Estava começando a ficar com calor, então tiro o casaco e dou uma volta pela sala. Esse foi meu erro, meu moletom foi roubado, droga, procuro por alguém que usava algo próximo, dando mais atenção a uma mancha de tinta antiga.

Acho um cara que estava usando EXATAMENTE o meu moletom. Puxo seu capuz e vejo que é um garoto loiro.

– Isso é meu.- digo.

– Achei no chão.

– Que nem achou seu cérebro, me devolve.

– Vem pegar!

Dou um puta chute na barriga dele, deixando-o sem ar e pego o que é meu de volta.

– Dúvidas?- pergunto batendo o pé na cabeça dele.

Vou para meu canto atraindo muitos olhares desconfiados.

– Foi de mais.- murmura uma garota para mim.- onde você aprendeu?

– Com a vida.- digo.

– Me ensina?

– Se você está aqui, deve saber alguma coisa.

– Só estou por uma sorte na primeira luta.

– Legal.

– Krysten.- chama o tiozinho. Foi a vez da garota que estava ao meu lado ir, a mesma com a qual eu estava conversando.

Fico olhando a parede esperando pelos classificados da segunda rodada, eu, e algumas outras pessoas, o resto vai para casa com um ou dois dentes quebrados.

–Beni, Dina, Carolina, Isabelle, Krysten, Vicenzo, Fungai, Alonzo, Ayo e Livio, para a arena.

Puta que pariu, eu fui escolhida!!! Meu fuking deu do céu, dentre os quarenta e poucos que vieram eu fiquei nos dez melhores!! Acho que, já que meu nome foi mencionado em primeiro lugar, eu fui a melhor!

Ando com um sorriso no rosto juntamente com a Krysten até o quadrado de terra. Recebemos muitos aplausos, eu quase explodi de orgulho e foi bem fácil de estar lá, se eu não contar toda a preparação.

– Escolhidos, para os cantos, vamos fazer o sorteio! Somente cinco de vocês entrarão para o terceiro escalão... Isabelle e Fungai, para a arena.

Uma garota estranha, com muitos piercings e um cabelo chamativo, anda para o ring acompanhada de um garoto asiático. A luta não foi muito interessante, até a parte em que Krysten puxa a manga do meu moletom e diz:

– Você é bem bonito, sabia?- Tipo, eu sou uma garota.- não precisa ficar com essa cara, é só um elogio.

– Eu sou uma garota.

Ela fica com cara de porta. ( quem me conhece, sabe que isso é antigo.)

– Nossa. Por que você está vestida assim?

– Não quero que ninguém pegue leve comigo.

Como era esperado, Vicenzo, Dina, Ayo e Carolina tem a idade de Leen, torço para não ter que cair com eles, que algum dos outros o derrotassem, mas se não desse, eu queria cair com Dina, o único que eu queria que ficasse de fora, é Ayo, o adversário anterior não saiu para contar a história.

Por sorte, Livio derrota Ayo e meu nome é anunciado:

– Beni e Krysten.

Nós nos entreolhamos. Eu sorrio e tento não pedir para ter um outro sorteio.

– Que vença o melhor.- digo, mas eu via que ela estava assustada.

Eu tinha pena dela, se ela conseguiu chegar aqui, ela tinha que ter um cérebro enorme, mas isso não contava muito agora.

– Desista, Krysten, eu não quero te machucar.- digo tentando fazer o bem.

– Eu vou me machucar se fizer isso.

O juiz apita e eu desvio de muitos golpes que Krysten tentou acertar, nós duas merecíamos um lugar no pódio, ela por inteligência, eu por força, mas eu e somente eu estaria lá.

Desvio de um chute alto que ela tenta acertar e derrubo-a com uma rasteira, fico com pena dela, mas torceria para que uma das lutas empatasse. Piso em suas mão até ter certeza de que se ela socasse, doeria muito mais nela.

– Porra, golpe baixo!!- reclama Krysten.

– Vale tudo.

– Sendo assim...

Ainda com uma mão suja de sangue, Krysten me puxa para baixo, nos trocando de lugar, ela segura minha mão, me levanta como se eu fosse um boneco e me chuta para a parede, acho que meu ombro quebrou.

– Se eu não fosse boa, não estaria nos dez melhores.- diz Krysten.

– Digo o mesmo.- eu sabia que meu ombro estava fodido, mas continuo em guarda, o que esses médicos conseguem fazer...

A única coisa que me mantinha indo para frente era o medo de ser banida da cidade. Sim, jovens de 18 anos que não estiverem em uma gangue, saem da cidade. Eu sempre tive medo disso, só conhecia as coisas próximas do limite de Cato, nada mais. Não. Eu tenho que pensar melhor, eu vou ganhar.

Krysten dá um lindo chute no meu queixo e eu vejo pontos pretos. A platéia aplaude a garota, ignorando totalmente que EU era melhor. Minha antes amiga pisa no meu ombro já machucado e eu soube que não daria para levantar e, mesmo se eu conseguisse, seria inútil.

– Dez...Nove...Oito...- os números soavam abafados na minha cabeça, eu perdi, daria adeus a Cato e a tudo o que eu conhecia para tentar ganhar a vida com os preconceituosos de outras cidade, merda.

O Bryce não gostaria de me ver assim, perdedora. Eu nunca conseguiria levantar com um ombro quebrado eu tinha certeza de que quebrou, eu senti o estalo.

– A vencedora é Krysten!!- o público vibra diante da minha derrota.

Levanto com muita ajuda da Isabelle e de Livio, eles me levam para a enfermaria, o garoto sai e Isa fecha a porta.

– Tire a camisa.

–Não consigo.

– Tá, eu te ajudo.

Isa segura a barra da minha camisa e dá um jeito de fazê-la passar pelo meu ombro.

– Hey, achei que você era um garoto!!

– Eu não queria que ninguém pegasse leve comigo.

– Funcionou, é raro ter fraturas tão feias.

– Dá pra dar um jeito aqui?- pergunto.

– Não, vai ter que ir para o hospital. Tem documentos falsos?

– Só em casa.

– Consegue ir buscar?

– Não.

Ouço alguém bater muito forte na porta, Isa me ajuda a vestir e abre-a. Bryce…

– Bine, o que aconteceu?- ele pergunta passando a mão no meu rosto.

– Foi um acidente, só preciso que você busque aqueles papeis que eu deixei no apartamento do Leen.

– Brincadeira? O Leen tá puto comigo.

– Antes você sair com um olho roxo do que meu ombro cicatrizar como um dinossauro.

Ele sai sem dizer nada e bate a porta.

– Namorado?- pergunta a ruiva.

– Sim.

– Más lembranças…- ela coloca a mão em uma cicatriz no braço.

– Boas lembranças…- rio.

Ainda não tenha caído a ficha de que eu seria expulsa da cidade, eu nem perdi para um oponente digno, mas para uma garota que me pediu para eu ensiná-la…

Um pouco depois, Bryce aparece com o envelope certo em mãos.

– Está doendo muito?- pergunta Isa.

Eu queria mentir que não, mas não dava nem para respirar direito.

– Sim.- Bryce responde por mim e me pega no colo e eu fico vermelha pimentão.

– Eu consigo andar.- digo.- você não precisa fazer isso por mim.

– Quem disse que isso é para você? Eu sempre quis fazer isso.

Isa me olha com cara de que eu me fodi e da uma leve risada. Fico tentada a mostrar a língua para ela, mas me controlo e me aconchego nele. Que passa a mão no meu cabelo e eu fico tipo. Não para, pelo amor de deus, fica assim.

– Vão anunciar quem passou.- diz Isa.

– Isso não me interessa.- respondo secamente.

– Se alguém tiver empatado, você passa.

– Isso me interessa muito.- digo pulando do colo de Bryce, ignorando totalmente a dor no meu ombro.

Empataram!!! Puta que pariu! Que sorte. Eu não acredito!! Pulo dando um soco no ar com o braço saudável. Corro para a arena com o sorriso de orgulho no rosto. É mais sorte do que eu achei que eu tinha.

– Os novatos são, Isabelle, Livio, Dina, Krysten, Alonzo, Beni e Ayo!! Meus parabéns! Vocês batalharam muito para chegar aqui e passaram para o terceiro escalão!!! No final das provas, vocês serão direcionados para a sede de suas respectivas gangues!

Aplausos enchem o salão enquanto todo parecia ser um sonho. Eu não acreditava que eu consegui!! Foi sorte de mais para uma única pessoa. Olho para Krysten, ela ainda sorria da vitória quanto a mim e eu fui em sua direção.

–Krys…- murmuro.- parabéns!!

– Valeu, miga!!

– Miga?- pergunto confusa.

– Claro, nós somos certo? Digo, eu só queria passar.

Penso um pouco sobre o que ela acabou de falar, mas sorrio para ela.

– Claro, eu faria o mesmo.

Depois de me esgueirar para fora da arena, Bryce me carrega até o hospital de Ometo e fica tomando conta de mim enquanto Isa chama um médico.

– Isso foi bem feio.- diz Bryce.

– Sim, mas, veja pelo lado bom, eu passei!!- murmuro, estava tudo doendo.

Ficamos em silêncio por um tempo até uma moça vestida de branco aparecer com uma seringa e alguns frascos com conteúdos não identificados, mas brancos.

– Mê dê seu braço.- pede a moça.

Faço o que ela pede e a médica coloca alguma coisa desconhecida nele. Depois de um tempo, ela pega os resultados do papel, seleciona um dos frascos, despeja o conteúdo na seringa, coloca um pouco de pressão no líquido e diz em um tom rápido.

– Isso vai doer como o inferno.

– Obrigada pelo aviso.

Fecho os olhos enquanto sinto a agulha entrar e injetar o osso artificial. Isso não decepcionou, doeu como fogo.

– Conte até dez, se a dor não parar, me chame.

Faço o que ela pediu, a dor parou e eu tento mexer o braço de novo, tudo bem. Pego os contatos da Isa, só por capricho e tédio, eu falaria com ela depois. Nós nos despedimos na estrada do meu prédio e entro para meu apartamento.

Quando entro, vejo meu pai tomando café de desenhando.

– Pai, passei!!!- grito.

– Eu sabia que você conseguiria!- ele segura minha cabeça e bagunça totalmente meu rabo de cavalo.- boa, Bine!! eu sabia que a minha menininha conseguiria!

– Eu não sou mais sua menininha!! Já sou uma mulher!

– Claro, você já conseguiu um lugar em Cato e já transou, claro que não é mais uma menina!

– Pai!- rio.

– Só falei a verdade. Como quer comemorar?

– Não tenho ideia, com uma boa soneca, chocolate quente e desenho digital.

– Se cair um pingo de café naquele laptop, Eu te mato.

– Serei só mais uma em quantos…?

– Cento e trinta e cinco. Vou fazer seu chocolate quente, pegue seu saco de dormir que eu te encontro no escritório.

– Certo.

Vou para nosso quarto, pego aquele monte de cobertor com zíper e vou para sala. Deixo a mini-cama em um monte de travesseiro que eu não sei a quanto tempo está jogada lá e pego meu laptop com os trecos para desenhar.

Um tempo depois, Leen aparece com uma daquelas enormes garrafas e com todo seu material de desenho.

– Antes, deixa eu ver como a minha filhinha ficou dodói.- diz ele fazendo biquinho.

– Só pra irritar, né?

– Existe coisa melhor? Vamos, é sério, você se machucou muito?

– Só cortei a cabeça e as mãos.

– Além de ficar toda roxa de tanto hematoma.

– Vou ficar parecendo um cara de um videogame.

– Que?

– Esquece.- rio

Deixo-o ver tudo o que precisava para eu poder relaxar. Ele só faz um curativo na minha cabeça e dá um jeito de eu não ficar toda roxa.

– Certo, aqui, madame, nós temos uma pilha de mofo, chocolate quente feito em cinco minutos, dois sacos de dormir velhos e entretenimento infinito com dois laptops ganhos em um sorteio.

– Que eu ganhei, madamo.

Abro o monte de cobertores, me jogo dentro deles, conecto o carregador na tomada, os fones no computador, o computador no meu joelho, pego uma caneca da bebida dos deus deuses chada chocolate quente e fico desenhando por dinheiro o resto do dia, mas, os sonhos que tive de noite, foram muito estranhos, lembrei de todos que eu já matei e acordei suando frio de pensar que aquelas pessoas voltariam para me pegar, foi só um sonho, nada aconteceria. Tudo ficaria muito bem.

Olho o relógio, madrugada... droga, o único dia em que eu posso finalmente dormir, eu tenho um pesadelo. Pior, um pesadelo bem merecido que se acumulou por tantos anos de vidas que eu tirei. Ninguém quer me deixar dormir em paz.

Dou um jeito em mim, acho meu laptop no meio dos cobertores, tomo um café rápido e vou para onde é combinado junto com Krysten, nós assistiríamos a luta do quarto esquadrão.

– Dormiu bem?- pergunta a garota com seu cabelo branco preso.

– Não.

– O que foi? Você pode falar para mim.

– Não quero. Só eu e meu pai sabemos.

–Certo…- silêncio por um tempo.- eu preciso desabafar uma coisa. Tipo, você não precisa ouvir, só ficar aqui para que as pessoas não pensem que eu sou louca.

– Você se importa com o que as pessoas vão pensar de você?

– São elas quem vão definir meu destino no mundo, então sim.

Eu sei que sou rude, não tenho dúvidas disso, mas as pessoas nunca foram más comigo, então tudo bem.

– Eu não vou ouvir.- respondo.

– Só preciso de você aqui para as pessoas não acharem que eu estou falando com o nada.

Fico quieta olhando para frente, Krysten apoia a cabeça no meu ombro que ela mesma quebrou e segura minha mão. Eu fico tipo. NOOOO taki youre handis ofi mine, mas não a tiro de lá, as vezes, eu também queria fazer isso.

– Tudo bem eu ficar assim, certo? Tipo, eu não tenho muitos amigos…

– Claro…- murmuro indecisa.

– Valeu. É só que eu não sei mais o que fazer, quando eu era a zoada, ninguém pediu para as pessoas pararem, eu tive que conviver com isso por cinco anos, agora, que eu finamente achei alguém que fosse pior que eu, comecei a fazer o que fizeram comigo, só que bem mais leve e curta, mas, nesse caso, a diretora, todos os professores, minha mãe… todos me mandam parar. Isso não é justo.

– Pelo o menos, você tem mãe.- digo.- injustiça e você não saber o que a sua mãe foi, é ou será, injustiça é não saber se você é definitivamente, filho de uma puta ou de uma dona de empresas. Injustiça é isso, não o que você me falou antes.

– Pelo lado bom, você não é filha de uma puta. Não existem muitas por aqui.

– E meu pai disse que ela foi a última namorada dele.

– Você deveria agradece-lo.- diz Krysten.- não deve ser fácil te sustentar sem ninguém para ajudar.

– Desde sempre eu me ajudo.- digo.- ajudo com mais dinheiro do que ele.

– O que você faz?

– Vendo desenhos, cato dinheiro da rua para ficar comigo, aproveito das vezes em que consigo desviar dinheiro, essas coisas.

– Exemplo de menina.- ri Krysten.

A garota tira a cabeça de cima do meu ombro e volta a andar com as mãos no bolso, em silêncio. Agradeço por isso, eu não queria mais falar. Chegamos na arena, pegamos um bom lugar e eu tentei fazer alguma coisa que não fosse ver dois caras se batendo como ballet, tipo, pensar em começos, meios e fins de histórias possíveis, imaginar desenhos, piadas, frases filosóficas. O tanto de merda que eu pensei...

Fico a partida inteira esperando pela luta de Bryce, que não aconteceu, desço e começo a procurá-lo nas pessoas que esperavam pela vez delas na segunda rodada, não o acho, com um peso na consciência, volto para perto de Krysten e assisto mais cinto tiozões serem escolhidos para manter o cargo. Me despeço dela e vou para o apartamento de Bryce, fico batendo na porta repetidas vezes, mas ele não estava lá, procuro no parque, também não até que volto para casa sem esperanças e vejo que Leen deixou um bilhete em baixo do vaso:

Bine.

Não tenho ideia de como te falar isso, mas você sabe o que eu faço da vida, eu sou um assassino e assassinos nunca mudam. Calma, eu não vou te machucar. Quanto ao seu namorado… era ele ou eu. Sinto muito por te fazer passar por isso.

Leen

O bilhete foi digitado e impresso em tinta preta, o deixo cair, mas não caio e corro para a casa do Nikki, ele sabia onde o Leen estava.

– Nikki.- bato na porta.- Nikki.- mais uma vez.- NIKKI!!

– Que foi, Bine, Que foi, Bine, que foi, Bine?

– Cade o Leen?

– Não sei, talvez na cede da gangue dele.

– Valeu.

Corro para lá mesmo com a minha garganta querendo água mais do que vida. Entro no parque de diversão abandonado e procuro pela casa dos horrores, é onde as pessoas costumam ficar. Estranho o fato de não ter ninguém na cede da gangue com mais amplas possibilidades, mas entro na casa de horrores. Eu precisava saber o que estava acontecendo.

Silêncio por um tempo, ando timidamente pelos cômodos iluminados por uma luz branca no teto, daria para ver caso alguém corresse em minha direção, eu teria tempo de desviar.

– Bine.- era Leen.

Ele me abraça como se fosse a última coisa que ele faria.

– É tão bom te ver...- não sei o que deu nele.- é tão bom te ver viva... mesmo que eu não possa mais...

Afasto-o de mim e me seguro para não dar o chute nele. Fico com cara séria enquanto ele me olhava com dúvida.

– O que. Você fez?- pergunto com raiva e ódio.

– Sinto muito, mesmo, eu não queria que fosse assim, eu não sou mais que uma marionete, Bine, entenda.- não consigo acreditar no que ele dizia, ele matou o Bryce e estava fazendo isso?

– Adeus, coroa.- diz uma das moças que passaram no torneio do quarto escalão.

Quando me dou conta, aquela menina já tinha ferrado com a garganta dele. Observo sem me mover o que aconteceu. Leen. Morto. Fico de queixo caído enquanto vejo toda a vida confortável e humorística ir embora em menos de dez segundos.

– É você a filha do chefe...?- fala a moça largando a faca e colocando a mão na abertura do meu moletom.- O novo ficará feliz quando souber disso... mas o que eu ganho em tudo isso a não ser uma promoção?

Cerro os punhos enquanto sinto meu coração ficar de pedra.

– Um inimigo para toda vida.

Pego a faca que ela tinha largado no chão e com os movimentos que Leen me ensinou, prendo a moça na parede.

– Vamos, me mate, não vai estar sendo melhor que eu...- diz.

– Eu não quero ser melhor ou pior, só quero te fazer parar de sofrer.

De novo, minhas mão se sujam de sangue. Deixo-a cair. Droga, eu nem sabia o nome dela. Monte de Merda. É como ela será lembrada por mim.

– Agora, fofura...- ouço uma voz atrás de mim.- você larga isso devagar e se entrega para nós.

Me viro ainda com a lâmina na mão. Três contra um, todos homens.

– Três a um? Isso não é um pouco injusto?- digo conferindo o fio da faca.- A final, eu não me importo mais com vocês atirando ou não em mim. Me fale uma última coisa que eu tenho aqui?

– Vida. Vamos, solte isso e nós não vamos atirar.

– Vocês não tem coragem...- digo erroneamente.

– Não tenho tempo para essa merda.- diz um dos caras.

Ele mira no meu joelho e atira. Eu caio olhando para cima. O cara que mais me ameaçava aproximou o rosto de mim e disse:

– Você não tem coragem para desistir.

Olho para Leen. Pai... mesmo não sendo o melhor de todos, ele nunca desistiu de mim, mesmo quando eu fodia com tudo. Merda... eu deixei isso acontecer.

Aquele cara cospe em mim e se levanta.

– Seja uma boa garota e passe isso.

– Boas meninas vão para o céu, más meninas vão para qualquer lugar. Por isso que agora eu não tenho mais casa.

Passo a lâmina na coxa do cara, que mete mais uma bala no COITADO DO MEU JOELHO!! Eu estava começando a ver pontos pretos, mas ficaria acordada.

– Sua inteligência nunca teve.- diz o terceiro cara tirando a faca da minha mão.- só por isso, você vai andar o parque inteiro.

– Burton, nós somos criminosos, não monstros.

– Não, magina!! Olha o que vocês fizeram!

– Olha aqui, sua puta.- Burton me levanta do chão segurando a gola do meu moletom.- olha o seu estado e veja que você não está em posição de fazer porra nenhuma a não ser chorar, mas isso será bom para todos e ninguém vai se importar se você mostrar sua fraqueza.

Eu caio colocando o peso no joelho saudável.

– Vem.

Eles dizem em tom seco não notando que eu era só uma concha vazia. Eu morri lá, mas meu corpo não

Manco até uma vila abandonada próxima ao parque e sou jogada na frente de um cara que parecia ser o “líder” da gangue. Ele me olha fixamente com seus olhos azuis céu fortes.

– Ora, ora, ora, vocês conseguiram. Qual é seu nome?

Não respondo, só o fico encarando, ele que mandou Leen matar o Bryce e o Monte de Merda matar Leen. Esse cara é o culpado de tudo o que aconteceu. Por falta de resposta, ele me deu um tapa na cara.

– Responda quando alguém fala com você. Seu pai não te ensinou isso?

– E o seu? Não te ensinou a não ser um panaca?- digo em tom desafiador.

Ele dá um chute no meu joelho machucado e foi pior do que toda dor que eu já senti. Tento não chorar e consegui, olho para todos pedindo ajuda. Meu sangue só estava quente por causa da biologia, se não, ele seria gelo. Meu coração bate só pois não posso fazer-lo parar. Ele bate sem nenhum tipo de empatia.

– Você sabe por que está aqui?- pergunta o cara.

– Não quero saber.

– Mas você vai.- ele me levanta pela gola do moletom.- você tem um moral forte, só precisa ser treinada. Já perdeu tudo, certo? Não tem nenhuma motivação, mas isso não significa que você não mereça perdão.

– Perdão do que? Eu não fiz nada.

Fico olhando os que estavam me observando. Eles podiam me ajudar, mas não tinha nenhum rosto amigável lá.

– Eu estou te observando a muito tempo.- ele me solta.- eu só quero seu bem, uma menina tão bonita.

Ele coloca ma mão na abertura do meu moletom e eu a tiro de lá, o chutando com minha perna saudável, mas caio na machucada e grito de dor. O que eu fiz para isso? Eu só acordei um dia e vi que tudo estava perdido. Meu coração começa a doer enquanto eu abaixo a cabeça e choro silenciosamente. Aquele cara passa a mão no meu cabelo tentando me confortar, mas eu dou um tapa no pulso dele.

– A culpa é sua!!!- grito machucando minha garganta.- a culpa é sua de eu não ter mais motivação!!! Eu prefiro morrer do que ter seu perdão!!!

– Levem-na para aquelas salas embaixo do chão. Só a deixem viva, nada mais

Deixo os mesmo dois caras que atiraram no meu joelho me levarem por um corredor escuro iluminado por velas grandes. Eles me jogam em um quarto pequeno iluminado por uma lâmpada branca. Tinha uma cama, uma mesa e um armário sem nada. Eles trancam a porta e eu a fico encarando a parede bege. O que eu fiz para isso? Nada. Mas agora, esse nada é o que eu tenho. Nada. Nada me move para frente. Arrasto os moveis para bloquear a porta e procuro um jeito de fazer meu joelho parar de sangrar, a bala ainda estava presa e tudo o que eu queria era voltar a três dias atrás. Onde eu não tinha que me preocupar com muita coisa.

Tiro minha camisa velha que já era um trapo e a amarro como um torniquete enquanto tiro uma lasca de madeira da mesa, corto minha calça como um shorts para poder ver o que eu estava fazendo e faço outro corte para tirar a bala. Eu via pontos pretos, mas não pararia, doeria muito menos quando eu terminasse. Quando a primeira sai, faço uma pausa para que a dor parasse um pouco, mas só foi piorando. Tiro a segunda com mais um corte e limpo o sangue com o trapo da minha camisa e a jogo de lado. Perda total. Tiro as coisas da frente da porta e entro nas cobertas.

Fico encarando a luz branca enquanto desejo que ela estivesse apagada.

Alguém bate na porta e eu grito para que ela fosse embora, mas de qualquer jeito, a pessoa entra no meu quarto, o cara de antes aparece dentro das paredes.

– Wow, você está sem camisa…- diz.

– Sim, seu tarado.- digo.

– Estou mostrando alguma coisa? Eu só quero conversar. Meu nome é Rutendo.

– Nome estranho. Caia fora.

Rutendo se senta na minha cama, perigosamente perto de mim e passa a mão no meu rosto.

– Educação é fácil e todo mundo gosta.

– Gennadya.-digo o primeiro nome que vem na minha cabeça.

– Eu sei que seu nome é Bine.- diz Rutendo.- Bine Jolly, uma garota normal dentro de Cato.

– Eu não sou normal. Saia ou eu te tiro daqui.

– Eu não vou sair.- Rutendo tranca a porta e me prende na parede.- mas sua roupa vai, você esta me devendo uma.

Notas finais
O significado da filosofia é abortar, amenizar ou ressaltar o sofrimento humano.