Nem no Céu, Nem no Inferno
2 Sobre meu corpo
Notas iniciais
Eu sentia meu corpo suar. Imagens estranhas invadiam minha mente me deixando com insônia. Vozes de pessoas conhecidas recitavam uma mensagem que eu não conseguia identificar. Eu precisava dormir, mas algo me impedia.
Ergui meu braço e peguei meu celular. 02h34min.
Levantei e liguei a luz. Encostei-me a meu guarda-roupa e fiquei obsevando a rua pela janela à frente. Uma ambulância passou em uma velocidade na qual eu nunca tinha visto antes. O barulho da sirene durou apenas alguns instantes, até cessar após um estrondo.
Assustei-me com o estrondo e fui até a janela para ver se algo tinha acontecido. Meus olhos se arregalaram e por reflexo gritei, tampando meus olhos logo em seguida. A ambulância havia simplesmente pegado fogo e ao mesmo tempo, meu corpo parecia pegar fogo.
Aos poucos os vizinhos foram saindo de suas casas para ver a cena. Alguns falavam ao telefone, outros tentavam cessar o fogo e outros procuravam por sobreviventes gritando.
Por mais que eu não sabia o que fazer, e por mais que meu corpo parecia queimar junto ao carro. Algo parecia me guiar até o local do acidente.
Enquanto eu descia as escadas, minha mãe gritou meu nome.
― Eloah! Onde está indo? ― Assim como os vizinhos, minha mãe estava com o celular nas mãos e uma expressão facial devastada.
Virei de frente para ela, e me surpreendi, pois meus olhos pareciam cachoeiras de tanta lágrima que saíam deles.
― Eu preciso fazer isso! ― Falei, mas o que é que eu precisava fazer? Por que eu estava tão comovida?
Desci as escadas correndo e saí de casa. O acidente estava bem a minha frente. O fogo queimava com tanta voracidade e parecia que a cada segundo as chamas se multiplicavam. Eu estendi meu braço e aos poucos fui me aproximando do fogo.
Eu sentia a morte. Eu sentia que não havia mais vida ali. Eu sentia a morte me consumir. Eu sentia como se ela nunca tivesse saído de mim.
Eu estava tão próxima às chamas que minhas roupas estavam pegando fogo e virando cinzas. Eu pude ouvir grito desesperados dos meus vizinhos e principalmente o da minha mãe, mas eu também podia ouvir o grito de quem antes estava vivo. Como isso era possível? Eu não sei, no entanto, as vozes de três homens e duas mulheres ecoavam em minha cabeça como se estivessem sendo reproduzidas nesse instante. Eles nem tiveram tempo de tentar salvar um ao outro, era tarde demais. Por que nunca dava tempo?
Eu chorava agora por dor da queimação em meus braços, mas mesmo assim eu não conseguia me afastar, porém, mãos seguraram meu corpo e o peso que eu senti me fez cair ao chão.
Uma pessoa saiu de cima de mim, mais uma vez um encapuzado e surpreendentemente eu sabia que era o mesmo de antes. Ele estava com os dentes cerrados, e seus olhos continuavam cobertos. Mas algo chamou minha atenção. Suas mãos e um pedaço de seu rosto estavam cobertos por marcas que eu nunca havia visto na vida.
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