Nem Tudo é Ganância
17 ♕ Capítulo Dezessete ♛
O cheiro de madeira queimada invade minhas narinas. A casa em que estou é velha, não há mobília em lugar algum, parece familiar, porém, não consigo lembrar de onde. Olho pela janela para tentar me localizar, vejo árvores e um lugar para plantio. Estou em minha antiga casa. Não lembro como vim parar aqui.
— Giovanna — ouço mamãe me chamar.
Ela está viva.
Corro pela casa em busca de sua voz.
— Mamãe! — chamo-a. — Onde você está?
— Estou aqui.
Sigo sua voz até a entrada do seu antigo quarto. Quanto mais me aproximo do quarto o cheiro de madeira queimado aumenta. Assim que chego a porta, movo a maçaneta e solto um grito agonizante.
Está quente.
Olho para minha mão, está toda queimada, dolorida e tremendo, contudo, consegui mover a maçaneta o suficiente para poder abrir a porta. Meus olhos se arregalam com o que vejo, dou dois passos para trás em pânico.
Há fogo em todo o quarto.
Mamãe está lá dentro, os seus cabelos brilhando da mesma cor das chamas, está de pé me encarando completamente decepcionada. Enquanto isso, papai está caído no chão, desacordado. Há chamas ao redor dos dois, dançando de um lado para outro, me mostrando como sou incapaz de salvá-los.
— É tudo sua culpa — afirma, e é como um punhal sendo enfiado em meu peito.
— Eu não sabia que ele poderia fazer isso. — A culpa me corrói. — Pensava que ele me amava, ele disse que me amava.
— É tudo sua culpa — mamãe repete.
Ela tem razão. É tudo minha culpa, acreditei em um homem que dizia me amar. E era tudo mentira. Entretanto, o pior é ter que vê-los e saber que nada disso é real. Não há forma de salvá-los, nem se quisesse. Porque eles já estavam mortos e nada mudaria isso.
— É tudo sua culpa — mamãe repete e é como hino entoado por ela, cantarolando infinitamente.
Inclino-me quando a dor em meu peito se torna insuportável, tampo os meus ouvidos quando chego ao chão, porém, quanto mais tento evitar a melodia mais ela adentra na minha cabeça. Começo a gritar para que pare e cada vez fica mais alto. Suplico para que alguém a faça parar, mas não há ninguém que possa me ajudar. Estou sozinha e a única culpado sou eu.
Acordo gritando, olho para minha mão, ela parece está queimada, no entanto, estou tão apavorada que devo está vendo coisas. Levanto-me e visto um robe. Uma sensação dolorosa está corroendo o meu peito, me fazendo ficar sem ar. Saio do quarto procurando por algo que faça essa aflição acabar.
O palácio é muito grande, parece um labirinto, por isso, em pouco tempo me perco. Está chovendo muito. Dizem que a água pode purificar o espírito, e tudo quero nesse momento é ser limpa dessa culpa. Resolvo encontrar as escadas que levam ao terraço, algo surge em minha mente, algo que talvez possa resolver os meus problemas e dores. Para quê continuar uma vida que só possui dor? Por que insistir em algo que não tem jeito? Eu destruo tudo que toco a minha volta, não há motivos para continuar vivendo.
Não é difícil encontrar as portas para o terraço, abro-as e saio em busca de uma purificação. A chuva é pesada, parece que agulhas estão espetando minha pele. Dói. Talvez isso possa me purificar. As paredes do lugar possui dois tamanhos diferentes, posso me recostar para observar a vista na parte mais baixa e há colunas bem mais altas que poderia descansar o meu corpo. Seguro-me na coluna para subir na parte mais baixa, a pedra está lisa e quase escorrego, contudo, consigo me firmar. Olho para baixo, a vastidão do terreno. A terra está distante o que me faz crer que será rápido e não correrei risco de sobreviver.
Por ser o fim, fecho os olhos e deixo que minha mente navegue por toda a minha vida, todos os momentos em que vivi com os meus pais. Papai sempre me deu tanta atenção, depois que cresci sonhava no dia em que ele daria atenção aos netos. As lágrimas começam a brotar e juntam-se com a chuva. Mamãe me ensinando a como se portar diante das pessoas, quantas vezes imaginei ela fazendo o mesmo com os netos. Tudo na minha vida foi planejado com eles, agora não fazia sentido ter todas essas coisas.
Quando estou prestes a saltar, sinto braços rodearem minha cintura e me puxar para o sofrimento.
— O que você está fazendo? — Thomas grita em meu ouvido, enquanto tento me soltar de seus braços. Contudo, ele me segura com firmeza e me arrasta para dentro do palácio. Não consigo lutar contra ele, sou fraca demais. Até para acabar com a minha vida é difícil.
Meu corpo está tremendo de frio e sei que Thomas também está. Além da chuva, o vento torna tudo congelante. Por que o vento não congelou meu corpo? Seria uma morte lenta, de sofrimento, mas merecida. Me apaixonei por um assassino, seria o fim perfeito.
Enquanto, Thomas caminha pelos corredores do palácio, ouço seus dentes batendo um no outro. Paramos para entrar em um quarto no qual fiquei quando ele me trouxe após a queda do cavalo. Ele me coloca sentada na cama e pega dois cobertores e os joga sobre mim. Agora noto que estou fazendo um ruído estranho por causa do frio agonizante.
— Não sei por quê diabos você estava tentando fazer aquilo, mas acabou, mesmo que tenha que lhe trancar dentro do quarto sob a vigilância dos guardas — Thomas rosna furioso, nunca o ouvi falando dessa forma.
— É minha culpa — resmungo, enquanto Thomas parece tentar abrir um buraco no meio de seu quarto, andando de um lado para o outro.
— O que? — sua voz sai sufocada ao questionar.
Não quero encará-lo. A culpa está em cada pedaço da minha pele, e olhá-lo nos olhos só vai piorar tudo. Não entendo o motivo de seu ataque. Ele não entende que não sou uma boa pessoa, que não farei bem à ele. Penso em lhe contar sobre Juan, no entanto, saber que tenho que lidar com a sua repulsa torna tudo pior.
— Mamãe disse que é minha culpa — ergo os olhos ao murmurar e vejo a raiva se esvair de seu rosto.
Ele se aproxima de mim, coloca minha cabeça entre suas mãos e beija minha testa. O gesto é caloroso, faz com que minha vista fique embaçada de novas lágrimas. Quando os seus lábios desgrudam da minha pele, penso que vai se afastar, entretanto, ele se ajoelha e me puxa para um abraço.
— É claro que ela não lhe culpa — Thomas afirma, acariciando os meus cabelos.
— Ela falou no meu sonho, disse que era tudo minha culpa — soluço e passo os braços em volta de Thomas.
É sempre tão bom estar nos braços dele. Deveria cogitar viver assim todos os dias da minha vida. Porém, como conseguiria viver com a culpa de ter lhe desejado mal um dia?
— Temos que trocar de roupa, estamos completamente molhados — alerta ao se afastar com um meio sorriso.
Ele caminha até o baú que está entre duas janelas, abre e pega uma camisola.
— Tome, acho que serve. — Quando olha para mim percebe a confusão em meu rosto. — Era da minha mãe.
— Tenho outras no meu quarto.
Pode ser rude, entretanto, não vou usar algo que pertenceu a sua mãe. Ela era uma mulher honrada, algo que nunca serei.
— Vista essa, ficará aqui hoje.
Ele me guia até a porta do quarto de banho e decido não questionar. Removo o tecido molhado quando ele sai do lugar e visto o tecido macio com cheiro de lavanda. Quando volto para o quarto de dormir, encontro Thomas de roupas trocadas. Ele aponta para a cama e caminho até ela, assim que me deito ele toma o caminho da porta. Sento-me às pressas, desesperada.
— Aonde vai? — questiono.
Pensei que ele ficaria aqui comigo, me vigiando. Eu sei que não é a melhor atitude a se ter, mas não estou me importando com minha reputação nesse momento. Tudo que anseio é conseguir dormir sem voltar a ter pesadelos. Na noite em que o nada me deixou, Thomas ficou comigo e não tive pesadelos. No entanto, bastou dormir sozinha para que os sonhos viessem me assombrar.
Sei que pode ser apenas algo da minha cabeça, contudo, sinto-me mais segura se ele estiver do meu lado. Só desejo um pouco de paz em meio a um tempo sombrio. Estar com Thomas sempre me faz sentir segura, tenho certeza que conseguirei dormir bem ao seu lado.
— Vou dormir em outro quarto — informa.
— Não pode ficar? — Minhas mãos começam a tremer, e agora não é por causa do frio, mas o pânico se assolando em minhas veias.
As sobrancelhas de Thomas que estavam unidas se erguem e seus olhos se arregalam.
Não se espante, Tommy, você já dormiu comigo antes, minha mente grita.
— Não acho que seja apropriado. — Começa ao se aproximar da cama mais uma vez. — Sei que dormimos juntos na noite passada, contudo, não podemos repetir. O povo já deve estar comentando o fato de que está aqui no palácio, se os criados espalham para além dos muros do palácio que estamos dormindo juntos será um escândalo.
— Por favor! — Desesperada, levanto-me e me coloco de joelhos aos seus pés. — Preciso de um pouco de paz, sei que quando voltar a dormir terei novos pesadelos. — Os meus olhos começam a ficar úmidos, me impedindo de ver o seu rosto. — O nada se foi e tudo que sinto é dor. Não vou conseguir dormir. Não importa se estou nesse quarto ou em qualquer outro, os pesadelos virão e não estou preparada para isso. Ainda não tenho forças para lutar pela minha vida, Tommy. No entanto, quando você está do meu lado posso sentir paz.
Sei que vai me entender, ele já passou por isso.
Ainda não consigo enxergar com a vista embaçada, porém, os braços de Thomas me erguem e me colocam na cama. Em seguida, ele se deita ao meu lado, puxando-me para os seus braços. Deito a cabeça contra o seu peito e finalmente tenho um pouco de paz.
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Assim que abro os olhos me deparo com um céu cinza e o som contínuo da chuva.
Não tive pesadelos. Isso poderia ser considerado bom se não fosse errado. Sei que Thomas estava certo noite passada. Preciso arranjar uma forma de manter um pouco de paz. Talvez se não passar o dia inteiro dentro do quarto e tentar ocupar minha mente, acredito que isso pode ser de grande ajuda. Na verdade, havia tantas coisas que tinha de pensar sobre meu futuro que poderia passar o dia inteiro ocupando minha mente.
Thomas começa a despertar e saio de meu travesseiro improvisado, entretanto, continuo deitada, observando seus movimentos. Quando seus olhos se abrem e encontram os meus, ele sorri. É impossível não retribuir.
— Está acordada a muito tempo? — pergunta ao se espreguiçar.
— Bom dia para você também — zombo.
Ele dá uma gargalhada.
— Bom dia. — Seu sorriso se amplia assim como o meu. — Acordou de bom hu...
Uma batida na perto o impede de continuar. Instantaneamente, sento-me na cama. O doutor, que me atendeu há poucos dias, entra no quarto e parece perturbado, por esse motivo não nota minha presença.
— A garota não está no quarto, já procuramos em to... — Seus olhos caem sobre mim e se arregalam de espanto. — Acho que ela está bem. Bom, vou me retirar.
Antes de sair, ele direciona um olhar reprovador para Thomas.
Ficamos em silêncio por um bom tempo, tentando assimilar o que aconteceu.
— Me desculpe — suspiro.
Isso tudo é minha culpa. Se tivesse permitido que ele saísse noite passada, se tivesse ficado em meu quarto, sem tentativas suicidas não estaria causando problemas para Thomas.
Se não tivesse se apaixonado por Juan, nada disso estaria acontecendo.
— Não precisa se desculpar. Eu permiti que isso acontecesse. — Ele se levanta. — Devo conversar com Edward e explicar a situação. — Ele se aproxima de mim e pega minhas mãos. — Quero que tome o desjejum conosco.
— Conosco?
— Sim, eu, Edward e minha irmã.
— Irmã? — pergunto confusa.
Nunca ouvi falar de outros filhos na realeza. A não ser que seja um bastardo, na verdade, bastarda.
— Sim, meu pai não foi fiel a minha mãe. Nasceu uma menina, antes de mim. Ele não assumiu perante o reino como filha bastarda, mas, minha mãe cuidou de Thalia desde o nascimento. Já que a mãe dela teve complicações no parto e faleceu. Mamãe sempre cuidou dela como se fosse sua filha de verdade. — É notável o carinho que tem pela mãe.
— Atitude generosa da rainha.
Sou sincera, pois estou verdadeiramente admirada. Não sei se teria sangue frio para uma situação dessa.
— Sim, foi. — O sorriso em sua face se desfaz e a tristeza toma o lugar. — Vou pegá-la em seu quarto assim que estiver pronto.
Aceno ao me levantar. Saio do quarto e me recordo que não faço ideia de para onde ir, penso em voltar até Thomas, porém, encontro Geneviève em um dos corredores.
— Pelos céus, menina, onde estava? — questiona colocando as mãos nos quadris.
— Desculpe. — Parece que essa palavra tem feito parte de mim, sinto-me culpada por causar tantos transtornos às pessoas.
Geneviève me leva para o quarto, prepara o meu banho colocando uma loção com o mesmo aroma que senti na camisola da antiga rainha. Apesar de ter dormido bem depois que encontrei Thomas, o corpo ainda estava tenso e graças a água quente sinto-o relaxar. Quando a água começa a esfriar, saio rapidamente e começo a me vestir com a ajuda de Geneviève.
— Onde dormiu? — pergunta, enquanto está atando o espartilho.
— Acho que sabe.
— Sei. E também sei que isso não pode se repetir — censura. — Não sei o que a levou até o quarto do rei, porém, nem que tenha que prender você na cama, isso não acontecerá de novo.
— Não vai mesmo — afirmo com firmeza. — Passei dos limites ontem a noite. Não estava bem, ainda assim não é desculpa.
Ela não espera que continue, e agradeço por isso. Aprendi a minha vida inteira que a vida era algo sagrada que Deus havia nos dado, contudo, acabei esquecendo mais uma vez o que me foi ensinado. Tirar a minha vida poderia acabar com a dor que estou sentindo no momento. Entretanto, não fui criada para lidar com o caminho mais fácil e acho que finalmente estou absorvendo tudo que meus pais haviam transmitido para mim. Ao invés de tirar a minha vida, tenho que colocar em prática tudo que eles passaram para mim, assim, mesmo que eles tenham partido, haverá uma forma deles continuarem vivos. A partir de seus ensinamentos e do amor que sinto por eles.
No instante que visto a última peça de roupa, alguém bate na porta e não preciso que ela seja aberta para saber que é Thomas. Geneviève vai abrir a porta e a cabeça de Thomas aparece com um sorriso envergonhado.
— Vamos?
Apenas aceno.
Encaixo o braço no de Thomas e seguimos para a sala de jantar. Assim que chegamos encontramos o doutor e uma mulher, na qual dever ser a irmã de Thomas.
Ela não se parece com ele. Seus cabelos são castanho escuro, seu nariz é fino e delicado. Quando os meus olhos encontram os seus, noto que está bastante desgostosa de algo, porém, me perco tentando decifrar a cor deles. Talvez cinzas.
Dr. Piccoli se levanta para nos cumprimentar.
— Giovanna, creio que se lembra de Edward, cuidou de você há alguns dias.
Aceno.
— Dr. Piccoli. — Inclino a cabeça em cumprimento e ele retribui com um sorriso simpático.
— E está, é minha irmã, Thalia — afirma, olhando para a mulher agora de pé com os braços cruzados.
— Senhorita.
Repito o cumprimento que dirigi ao doutor, entretanto, ela não retribuí.
— Senhora — murmura, formando um sorriso arrogante nos lábios. — Senhora Piccoli.
Ela se aproxima do doutor e encaixa o seu braço no dele.
— Perdão, eu não sabia.
— Não há porquê pedir perdão, Giovanna — Thomas afirma, fuzilando a irmã com os olhos.
O sorriso na face de Thalia de amplia.
— Assim como não sabia que o quarto em que dormiu noite passada era do meu irmão? — cospe.
Coro.
— Thalia — Dr. Piccoli a repreende.
— Estou falando alguma mentira querido? — ela se direciona ao marido com suavidade, mas ironia continua intacta. — Qual será seu próximo plano? — Se direciona a mim novamente. — Obrigar meu irmão a se casar por destruir sua honra? Ou engravidar, para que ele tenha compaixão e se case com você?
Sinto o impacto de suas palavras sobre a minha pele, como uma pancada repentina. Poderia culpar o fato de ser a irmã mais velha que anseia cuidar do irmão mais novo. No entanto, ela não me conhece, nunca a tinha visto até hoje, contudo, ela se sente no direito de me julgar sem nunca ter me visto.
Posso culpar algum tipo de instinto. Era do meu desejo casar com Thomas por puro interesse. Talvez existisse uma aura negra a minha volta e que apenas ela poderia enxergar. Apenas isso explicava sua reação.
Seja qual for o motivo, ela me detestava, era um fato.
— Eu… — tento dizer algo, porém, não há nada a dizer. O sentimento de humilhação recaí sobre mim ao ponto de sentir minha pele queimar com a vergonha. Antes que possa tentar murmura algo mais, viro-me e corro em direção ao quarto que me foi designado.
Apesar do ruído dos sapatos contra o piso, não deixo de ouvir a discussão que vem do aposento em que estava.
— Você passou dos limites — Thomas ruge, fora de sim.
— Só estou tentando lhe proteger — Thalia berra.
— Não preciso de sua proteção. Preciso que aprenda a controlar sua língua, sem desferir julgamentos a meus hóspedes — ele vocifera.
— Thomas, tem que entender…
Assim que adentro ao quarto deixo de ouvir os gritos dos irmãos. Lanço-me sobre a cama, permitindo que a dor da humilhação me assole. Deixando que as lágrimas voltem a rolar pela minha e me perguntando quando pararei de chorar.
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