Notas iniciais
Oi, gente... Tem um tempinho já, né? Mas aqui estou novamente para trazer um novo capítulo para vocês. Ironicamente, estamos na época do Natal e do Fim do Ano e é exatamente essa época na qual a história está nesse momento. Espero que gostem... ^^ Enjoy...

POV. CHRIS (Brooklyn — 1985)

As férias de fim de ano sempre foram minhas preferidas. Duas semanas de liberdade da escola e das pestes que eu aturava lá… Sem trabalhos nem provas e, principalmente, sem a louca da srta. Morello. Fim de ano também era sinônimo de Natal e, óbvio, Natal é sinônimo de presentes, mas como há três anos eu não recebia presentes dos meus pais, eu ficava feliz só com as férias mesmo. Porém, parecia que nem isso eu ia ter naquele ano…

“Bem, turma, essas férias de inverno vocês terão uma tarefa para casa.” Ela falou isso tão animada que até pareceu uma coisa boa, mas logo a turma inteira grunhiu de frustração. “Não será nada complicado; um presente meu para vocês. Sua tarefa será ajudar um necessitado para que ele tenha um Natal feliz. Boa sorte a todos e boas festas.”

Todo mundo se entreolhou e, quando o sinal tocou, pegamos nossas coisas e saímos da sala. Lizzy suspirou e revirou os olhos.

“Que ideia é essa de repente? Ela nunca passou tarefa de férias para nós.” Eu e Greg demos de ombros.

“Não sei”, eu disse. “Mas acho que devemos agradecer por não ser uma atividade para cada matéria.” Eles concordaram. “Já sabe o que vai fazer, Greg?”

“Acho que o de sempre: vou ao asilo, vestido de menino Jesus, tirar fotos com os idosos.”

“Parece uma aventura”, debochei um pouco e ele me deu um leve soco no braço.

“Não enche. Pelo menos já tenho o que fazer. E vocês?” Lizzy fez uma careta, até que seu rosto se iluminou de repente.

“Sua ideia do asilo me deu uma ideia, Greg. Vou arrecadar alimentos e agasalhos na vizinhança e levar ao orfanato local.” Ótima ideia.

“Pena que a srta. Morello não deixou fazer de dupla”, disse, meio chateado. “Agora tenho que me virar para pensar em algo.”

Na calçada nos separamos; Greg pegou a rua lateral e eu e Lizzy seguimos para o ponto do ônibus.

“Não conseguiu pensar em nada ainda?”, Lizzy me perguntou enquanto dobrávamos a esquina de casa.

“Não”, neguei com a cabeça.

Eu tinha ficado quieto o caminho inteiro da escola até em casa para ver se tinha alguma ideia, mas nada. Grunhi, frustrado, mas logo me acalmei. Eu vou pensar em algo… Tenho duas semanas para isso, ent--

Parei meu raciocínio pela metade quando vi alguém familiar na minha frente. Golpe Baixo remexia uma lixeira enquanto cantarolava algo muito parecido com as músicas do Billy Ocean. Olhei para a Lizzy e sorri.

“Acho que já sei quem vou ajudar.” Me adiantei e fui falar com ele.

“E aí, Golpe Baixo? Como vai passar o Natal?” Ele deu de ombros.

“Como sempre. E você?”

“Tenho uma tarefa da escola para o fim de ano. Tenho que ajudar uma pessoa a ter um Natal feliz. Quer ajuda?”

“Não. Eu já tenho tudo o que preciso. Mas eu queria um presente para a minha mãe…” Franzi o cenho, surpreso.

“Para a sua mãe? Você tem mãe?”

“Tenho.” Ele pareceu um pouco triste. “Mas nunca encontro nada para dar a ela.”

“Eu posso te ajudar nisso.” Ele sorriu.

“Sério? Valeu, Chris.”

“De nada. Vou para casa agora, mas vou pensar em um jeito de te ajudar.” Ele assentiu e eu fui na direção da Lizzy, que me esperava alguns passos à frente.

“E aí? Vai ajudá-lo?”

“Parece que sim. Ele quer um presente para a mãe. Mas, e você? Orfanato mesmo?”

“Sim. Vou falar com o meu pai sobre isso. Acho que ele pode me ajudar.” Assenti e beijei seu rosto.

“Até mais tarde.” Ela sorriu e eu entrei.



Como todo mundo sabe, meu pai faz praticamente qualquer coisa para economizar, e minha mãe faz praticamente qualquer coisa para mostrar que tem dinheiro — mesmo não tendo. Todo Natal, meu pai arranjava um jeito de economizar o que minha mãe queria gastar e quem sempre pagava o pato era eu. Depois das duas primeiras vezes, isso deixou de me surpreender, então eu fiquei só imaginando qual seria o jeito de não gastar que o meu pai inventaria naquele ano. Só não imaginei que fosse tão radical…

“Kwanzaa? O que é isso, pai?”

Todos estavam reunidos na sala depois do jantar, simplesmente para escutar a ideia do meu pai.

“Bom, Kwanzaa é um cerimônia africana parecida com o Natal, mas em vez de presentes, se cultua a natureza.”

Em pé, encostado do portal da sala, observei as expressões confusas dos outros três. Isso vai ser engraçado…

Drew e Tonya foram os primeiros a se pronunciar.

“Então, a gente não vai ganhar presentes?” A cara do meu pai dizia tudo. Cara de tacho.

“Não. Afinal, o Natal não tem nada a ver com presentes.”

“Jullius”, minha mãe começou, “espero que isso não tenha nada a ver com você estar tentando economizar… porque se tiver…” Ela deixou a ameaça no ar e eu vi meu pai engolir em seco. Mas para proteger seu suado dinheirinho, ele enfrentava qualquer coisa.

“Claro que não. Quero… experimentar uma coisa diferente esse ano. Você topam?”

Observei os outros três se entreolharem, realmente me divertindo com aquilo.

“Mas, pai”, Tonya começou a reclamar, “eu queria presentes.”

“Pensando por um lado, acho que vai ser legal ter um Natal diferente”, Drew falou, me deixando um pouco surpreso.

Todos olharam para minha mãe, esperando a reação final. Depois de um suspiro, ela falou.

“Ok, então. Teremos Kwanzaa.”

Segurei a risada mordendo a parte de dentro da bochecha e fui saindo de fininho pela porta da sala de jantar. Mas quando estava com a mão na maçaneta, escuto minha mãe me chamar.

“E você, Chris? Não vai dizer nada?”

Voltei dois passos para que pudesse vê-los e dei de ombros.

“Não. Natal, Kwanzaa, para mim não faz diferença. Vou dormir. Boa noite.”

“Kwanzaa? Isso existe mesmo?” Ri da expressão da Lizzy quando contei a ela sobre a comédia que seria o Natal na minha casa naquele ano.

Estávamos arrecadando alimentos e agasalhos na vizinhança para levar ao orfanato que ela queria ajudar. Depois de terminar o trabalho dela, ela me ajudaria com o meu. O pai dela não pôde nos ajudar por causa de uma crise de gastrite. Não era forte, mas a sra. Jackson achou melhor ele ficar em casa.

“Pois é. Meu pai inventou essa, então ninguém lá em casa vai ganhar presente.”

“Seus irmãos reclamaram?” Neguei.

“Não tanto quanto eu achei que reclamariam. Drew até aceitou bem; Tonya foi quem ficou de birra.” Ela parou de andar e ficou na minha frente, me encarando.

“E você?” Dei um riso fraco.

“Sabe que não me importo mais. Para mim, faz muito tempo que Natal não significa presente.” Vi dúvida em seus olhos, mas ela decidiu não me pressionar.

Depois que já tínhamos o porta-malas do carro do pai dela cheio, nos sentamos nos degraus da calçada para descansar.

“E o seu plano com o Golpe Baixo?”

“Vou na casa dele antes de ir para o Doc’s. Mas, pensando melhor, como vou ajudá-lo a comprar um presente para alguém que nem conheço?”

“A gente podia adiantar isso. Sabe onde ela mora?”

“Ele deve saber.”

“Quer ir lá agora?”

Olhei o relógio: 11:20h. Dá tempo…

“Pode ser.”

Levantamos e fomos descendo a rua.

A “casa” do Golpe Baixo é o que se pode chamar de ecológica. Ele vivia em uma caixa de papelão. Pelo menos, era isso que se podia supor quando se via aquela coisa de fora. Mas quando ele nos convidou para entrar, percebemos que a caixa só encobria um buraco relativamente grande na parede de um prédio que dava para um porão. Lá havia um sofá, uma TV, alguns outros móveis… E estava até arrumada para ser a casa de alguém como o Golpe Baixo.

“E aí, Golpe Baixo? Já pensou em algum presente para a sua mãe?” Ele me olhou como se eu tivesse duas cabeças.

“Não. Você disse que ia pensar.” Ai, isso vai ser complicado…

“Sim, mas é você quem conhece ela melhor.”

Impaciente com o bate boca, Lizzy interviu.

“Pode ser um relógio?” Encarei ela, hesitante.

“Só o relógio?” Ela pensou um pouco.

“Podíamos colocar chocolates também. Todo mundo gosta de chocolate.” Considerei.

“É uma boa.” Virei para o Golpe Baixo. “Está bem assim?”

“É. Pode ser.” Sorri, aliviado por termos conseguido encontrar uma solução.

“Beleza. Eu vou indo agora porque vou trabalhar, mas amanhã cedo eu passo por aqui.”

“Não tão cedo”, Golpe baixo disse. “Eu quero dormir.” Encarei ele, cético.

“Você quer ajuda com o presente ou não?”

“Ok”, ele falou com cara de derrota.

“Beleza, então. Até amanhã.”

Lizzy e eu demos ‘tchau’ e saímos. Subimos a rua até em casa; lá ela entrou e eu segui para o Doc’s.

Na manhã seguinte, Lizzy e eu levantamos cedo e, como o pai dela já estava melhor, ele nos levou ao orfanato para entregar as coisas que havíamos arrecadado. A cara da diretora do orfanato foi cômica ao ver o porta-malas cheio, e ela perguntou de que empresa nós vínhamos. Esclarecemos que não era empresa nenhuma, apenas um trabalho da escola. Ela passou uns dez minutos agradecendo e disse que a ajuda havia chegado na hora certa. Depois disso, nos despedimos rápido e voltamos para casa.

Chegamos em casa ainda cedo e fomos logo até a casa do Golpe Baixo. Ele ainda estava acordando plena 9:30 da manhã. Pelo menos não tivemos que chutar ele da cama. Já é uma boa.

Pouco depois já estávamos na rua, procurando o relógio que a Lizzy tinha sugerido. Fomos para um dos limites do bairro onde a maioria das lojas se concentrava. Não estava nem um pouco fácil andar naquele lugar: estava lotado de pessoas que, aparentemente, haviam deixado para comprar os presentes de Natal de última hora.

Depois de andarmos alguns minutos e sermos espremidos tentando olhar as vitrines, Golpe Baixo acenou para mim e para a Lizzy de uma loja mais na frente. E, graças a Deus, foi naquela loja mesmo. Em pouco tempo, já saíamos de lá com um relógio prata com detalhes em ouro, um caixa de chocolates, e eu e Lizzy nos perguntávamos como Golpe Baixo tinha arranjado dinheiro para um relógio tão caro.

Perto de nossas casas, nos separamos. Ele seguiu para o beco no fim da rua e eu e a Lizzy para nossa calçada. Nos sentamos em silêncio até que ela puxou assunto, observando Golpe Baixo descer a rua.

“Sabe de algo que percebi agora?” Neguei com a cabeça. “Ele não pode ir visitar a mãe vestido daquele jeito. E sem tomar um banho.” Olhei para ela com minha melhor cara de assustado.

“Acabei de pensar nisso.” Nos encaramos e rimos. “A cada ano que passa você lê mais minha mente. Tenho que ter cuidado com isso.” Ela me olhou, desconfiada.

“Por quê? Está me escondendo alguma coisa?”

“Não. Apenas precaução.” Ela sorriu e deixamos o assunto passar.

Na véspera de Natal, acordei cedo — um milagre, diga-se de passagem -, mas foi por que tinha combinado com a Lizzy e alguns amigos de fazermos um mutirão de ajuda para o Golpe Baixo. Doc, Wanessa, Many, Perigo e até o Jerome ajudou com algumas roupas. De um estabelecimento para o outro, passamos praticamente o dia inteiro. Nenhum de nós almoçou, então quando tudo terminou — quase 16h — dissemos ao Golpe Baixo para nos esperar em casa que só íamos dar uma passada em nossas casas e já íamos para lá.

“Você conseguiu o endereço?” Perguntei para a Lizzy enquanto corríamos rua acima.

“Sim.” Quando alcançamos a calçada de casa ela tirou um pedaço de papel do bolso. “Nem foi tão difícil: tinha em uma agenda. O difícil foi achar a bendita agenda.” Ri da cara de exausta que ela fez.

“Ótimo. Vou só comer alguma coisa e trocar de roupa. Nos encontramos aqui em… 1 hora?” Ela assentiu e nós entramos em nossas casas.

Surpreso fiquei eu quando entrei em casa — mais precisamente na sala — e encontrei todos juntos lá, arrumando legumes e frutas em tigelas na mesa de centro. Sabendo que alguma coisa ia sobrar para mim, dei “oi” para todo mundo e fui logo até a cozinha procurar algo para comer.

Quando estava preparando meu sanduíche, minha mãe apareceu na porta da cozinha.

“Se for sair, chegue cedo. Vamos celebrar o Kwanzaa aqui em casa.” Respirei fundo e soltei a bomba.

“Não vou poder ficar em casa, mãe. Tenho que levar o Golpe Baixo na casa da mãe dele.” Ela ergueu uma sobrancelha.

“Por que você?”

“É um trabalho da escola. Não sei que horas vou voltar.” Resolvi não falar que a Lizzy ia comigo porque a mãe poderia tentar um complô com os Jacksons enquanto eu trocava de roupa.

“Então é assim? Vai deixar sua família passar o Natal sozinha?”

“Vocês não vão ficar sozinhos, nem eu. Mas eu tenho que fazer isso.” Ela me encarou por alguns segundos, ainda desconfiada, mas acabou deixando para lá.

Suspirei de alívio quando ela deu as costas e voltou para a sala. Terminei logo o meu sanduíche e subi para o quarto. Estava acabando de vestir o casaco quando o Drew entrou no quarto, rindo.

“O que foi?” Ele caiu deitado na cama, tentando recuperar o fôlego.

“A… Tonya… se… ferrou…” E voltou a gargalhar, largado na cama.

“Como assim?” perguntei curioso, rindo de canto.

“A mãe descobriu que ela roubou um presente para a amiga dela porque o papai não deu dinheiro para ela comprar. A mãe da menina veio entregar o ‘presente’ agora, dizendo que não podia aceitar porque era muito caro.” Ele voltou a gargalhar, mas eu tive mais consciência e fiquei calado.

A mãe deve estar furiosa; o que a Tonya fez foi muito sério. Surpreso de não estar ouvindo os gritos dela daqui…

“Mas… o que a mãe fez?”

“Ela está conversando com a Tonya lá em baixo e, pela cara que ela fez, o papai está bem encrencado também. Escutei uma parte da conversa. Ela dizia que esse foi o pior Natal que tivemos: você vai passar o Natal fora de casa, Tonya roubou e o papai mentiu…” Fiz uma careta.

“Realmente não parece o melhor Natal… Mas mesmo se fosse Natal, com presentes e tudo, eu ainda não ficaria em casa. Tenho o trabalho da escola para fazer e eu não ia ganhar presentes mesmo. Para mim não faz diferença.” Ele assentiu em compreensão.

“Então é melhor você ir logo, antes que a mamãe mude de ideia e te amarre em casa.”

“Melhor mesmo.” Terminei de amarrar as botas e saí do quarto.

Ao descer as escadas até o corredor que dava para a sala e a cozinha, pude escutar a voz da minha mãe brigando com o meu pai. Na ponta dos pés, saí antes que ela lembrasse que eu estava em casa.

POV. LIZZY

Uma hora depois de entrar em casa — já cheia e de roupa trocada — desci para encontrar o Chris já sentado na calçada me esperando. O que eu não previ foi que a Tasha estaria lá com ele. Eles não me viram, então fiquei olhando e escutando pela brecha da porta da rua.

“Ah… obrigado, Tasha. Não precisava.” Rolei os olhos, percebendo que mesmo sem ver seu rosto eu sabia que ele estava pulando por dentro.

“Precisava sim. É para dizer que eu lembro de você.”

Meus olhos se arregalaram quando ela se inclinou para ele e, por um segundo, eu achei que ela o estivesse beijando de verdade. Mas ela logo se afastou e eu percebi que o beijo tinha sido no rosto. Um leve ofego de alívio saiu da minha boca.

Depois disso, ela correu para casa, deixando ele sozinho. Continuei observando-o até que o ouvi suspirar e resmungar algo como: “Mesmo lembrando de mim, ela não larga o Robert…”. Não contive o sorriso ao perceber que ele meio que havia percebido o ‘joguinho’ dela. Talvez assim ele comece a desistir dela… É uma esperança boba, mas é uma esperança…

Afastando esses pensamentos, fiz um barulho desnecessário abrindo e fechando a porta e dando tempo para que ele, se quisesse, escondesse o presente. Mas quando eu virei para olhá-lo, o presente ainda estava em suas mãos e ele me olhava.

“Oi. Que cara triste é essa?” Ele deu de ombros.

“Não sei.” Sentando ao lado dele, pude ver que era um porta-retratos pequeno com uma foto dele e da Tasha juntos. Meu estômago queimou de raiva e eu me esforcei para manter a expressão e a voz calmas.

“Bonito presente. Quando vocês tiraram essa foto?” Ele olhou o porta-retratos e sorriu de lado.

“Em um fim de semana que encontrei ela e as amigas na sorveteria. A Honda estava com uma câmera e acabou tirando. Nem me lembrava mais. Achei que ela não tinha guardado.” Virei o rosto para o outro lado e encarei a rua, não suportando vê-lo sorrir daquele jeito ao lembrar dela.

Boa jogada, Tasha… Muito boa…

“Bom”, eu comecei, me acalmando, “não é melhor irmos buscar o Golpe Baixo? Já são mais de 17h.”

Ele assentiu e guardou o presente no bolso grande do casaco e nós começamos descer a rua. Fomos em silêncio o caminho todo. Eu não sentia a mínima vontade de conversar, e ele, aparentemente, sentia o mesmo.

Achar a casa da mãe do Golpe Baixo foi fácil, até porque era uma casa enorme. Casa não, mansão. Era um apartamento bem luxuoso em um dos melhores bairros da cidade. Ela ficou agradavelmente surpresa em nos ver e logo abraçou o filho. Agradeceu por termos levado ele para passar o Natal com ela, dizendo que há muitos meses não se viam. Segundo ela, ele gostava muito de ser independente, por isso não vivia com ela. Mas ele era bem instruído; até piano tocava.

Vez por outra, eu e Chris trocávamos alguns olhares chocados, mas tudo o que a mulher dizia parecia ser verdade. Aparentemente, Golpe Baixo era tão gênio que ficou meio louco.

Ela nos convidou para o jantar e nós aceitamos. Golpe Baixo — ou melhor Edgar — entregou o presente dela e ela adorou. Internamente, fiquei feliz por ter sido eu que havia escolhido o presente.

A noite acabou passando rápido, até porque não podíamos demorar. Logo nos despedimos e Golpe Baixo resolveu ir com a gente. Ela entregou a ele uma maleta e dois cartões de Natal para mim e para o Chris. Novamente nos agradeceu e disse estar feliz por saber que o filho tinha amigos com quem contar. Confesso que saí de lá mais leve do que em vários Natais que passei em casa. Pelo leve sorriso no rosto do Chris, parecia que ele também.

Depois de deixarmos o Golpe Baixo em casa, subimos novamente a rua para casa. Eu ainda não me sentia confortável o suficiente para falar, e ele percebeu.

“Lizzy, aconteceu alguma coisa?”

“Não. Só… não estou me sentindo muito bem.” Ele me olhou, preocupado.

“Está doente?” Neguei.

“Não… Deixa para lá.” Observei ele estreitar os olhos na intenção de insistir, mas cortei o assunto. “Meus pais pediram para você ir lá em casa.”

“Agora?” Assenti, me sentindo mais feliz.

“Sim”, segurei sua mão e o puxei, correndo. “Vem logo.”

Entramos na minha casa correndo e subimos as escadas. Mal posso esperar para ver a cara dele…

POV. CHRIS

Os pais dela estava sentados na sala, próximos a uma árvore de Natal, conversando. Quando entramos, eles se levantaram e me abraçaram, desejando Feliz Natal.

“Eu falei com seu pai mais cedo, filho, e ele me disse que vocês estavam comemorando algo chamado Kwanzaa e me deu um rabanete.” Acabei rindo da careta que o sr. Jackson fez.

“Sim. É a invenção dele desse ano.”

“Imaginei”, ele disse, também rindo.

Tomei um leve susto quando a sra. Jackson pegou minha mãos. “Nós chamamos você aqui porque queremos te dar algo.” Senti minhas bochechas queimarem de vergonha.

“Não precisa, sra. Jackson.” Ela negou.

“Fazemos questão que aceite.”

Dizendo isso, ela soltou minhas mãos e foi até a base da árvore de Natal, pegou um dos presentes e me entregou. Meio sem jeito, eu abri a embalagem e encontrei o tênis de basquete que eu vinha querendo desde o começo do ano e nunca deu para comprar. Olhei para os dois adultos na minha frente com uma expressão completamente chocada.

“Eu… ah… não sei o que dizer…” Escutei a risada da Lizzy atrás de mim.

“Não diga, só aceite.” Os pais dela concordaram e eu assenti.

“Muito obrigado mesmo.”

“Não tem de quê, filho.”

“É melhor eu ir. Já está meio tarde.” Eles assentiram.

“Sim. Feliz Natal.”

“Feliz Natal.”

Lizzy me acompanhou até a porta com um sorrisinho sacana no rosto. No último degrau, virei para olhá-la.

“Você sabia, não é?” Pelo jeito que ela sorriu, eu tive minha resposta. “Muito sacana você…” Ela riu e eu a acompanhei. “Mas você não é a única que sabe fazer surpresas. Tem algo te esperando no seu quarto.” Ela me olhou bastante surpresa.

“O que é?” Pensei em não responder, mas como eu já sabia o que era meu presente, era justo que ela soubesse o dela.

“O novo LP do Bon Jovi.”

Em um segundo eu estava livre, no outro ela me abraçava loucamente e beijava meu rosto.

“Obrigada, obrigada, obrigada…” Abracei-a de volta, rindo com a euforia dela e adorando seu cheiro.

“Boba. Obrigado pelo presente. Sei que tem seu dedo nele.” Escutei seu riso e ela se afastou para me olhar.

“Claro que tem.”

Seu rosto se aproximou do meu, e eu fechei os olhos para aproveitar seu beijo em meu rosto. Senti meu estômago gelar e retribui o beijo quando ela se afastou.

“Feliz Natal, Lizzy.” Ela sorriu.

“Feliz Natal, Chris.”

Enquanto eu subia as escadas, pensei que embora eu não recebesse presentes dos meus pais, eu nunca fiquei sozinho nessa época do ano. Eles estariam lá se eu precisasse; a Lizzy, o Greg, a Tasha e, agora, o sr. e a sra Jackson. Sorri ao perceber que melhor do que qualquer outra coisa, eles eram meus presentes.


***

Notas finais
E aí? Gostaram? O que acharam? Reviews!