Nem Todo Mundo Odeia o Chris - 3ª Temporada
8 Todo Mundo Odeia Salário Mínimo
Notas iniciais
POV. CHRIS (Brooklyn — 1985)
Quando eu era adolescente, não era tão difícil arranjar emprego como é hoje em dia. Era um acordo mútuo, sem muita burocracia e quase nenhum documento. Foi mais ou menos assim que eu consegui o trabalho no Doc's. A “garantia” do emprego era que a vaga era sua enquanto você trabalhasse direito. Normalmente, isso garantia o bom desempenho do funcionário, mas só até certo ponto.
Eu já trabalhava no Doc's há quase dois anos quando o governo resolveu mexer no sistema que, aparentemente, funcionava bem e aprovou a lei do salário mínimo. A maioria dos empregados adorou a novidade, mas os chefes não ficaram nada felizes com a lei. Ninguém gosta de perder lucro, muito menos eles.
Como eu trabalhava só cinco horas diárias, não pensei que a história do salário mínimo serviria para mim até que meu pai puxou o assunto na hora do jantar.
“Chris, já conversou com o Doc sobre o salário mínimo?” Parei o garfo a meio caminho da boca e franzi o cenho.
“Serve para mim também? Mas eu só trabalho 25 horas por semana.” Ele balançou a cabeça.
“Serve para todo mundo que tenha um trabalho fixo e não tenha sindicato. Infelizmente, eu tenho, então não servirá para mim. Mas você deve falar com ele. Se tem uma lei que diz que você deve ganhar aquilo, você tem que ganhar aquilo.” Minha mãe assentiu.
“Isso mesmo. Nós já temos poucos direitos, imagine se formos abrir mão dos que temos.”
“Hum.” Resmunguei e não disse mais nada.
O Doc era gente boa mas, ele também era dono de negócio, por isso não achei que pressionar ele fosse uma boa ideia. Até porque eu gostava do emprego. Lá eu fazia o meu horário e ele não descontava do meu pagamento se eu tivesse uma boa desculpa para atraso ou falta. E, principalmente, o Doc era meu amigo.
Pensando nisso, eu achei melhor procurar me informar mais sobre o assunto para depois ir falar com ele, se fosse necessário. Minha oportunidade de me informar apareceu logo no dia seguinte, quando vi o sr. Jackson chegar do trabalho mais ou menos umas 18:30h. Eu estava voltando do Doc’s quando vi ele estacionar e sair do carro. Apressei o passo com a intenção de falar com ele.
“Sr. Jackson?” Ele virou e sorriu quando viu que era eu.
“Oi, filho.” Me aproximei e ele pôs a mão em meu ombro. “Chegando do trabalho agora também?”
“Sim. O senhor tem um minuto?”
“Tenho. Por quê?”
“Queria falar sobre algo que está me incomodando.”
Ele assentiu e sentou-se em um dos degraus da escada, gesticulando para que eu me sentasse ao seu lado.
“Qual é o problema?”, ele perguntou logo após eu me sentar.
“Bem, é que… O senhor sabe da lei do salário mínimo, não é?”
“Claro. Não se fala em outra coisa nas empresas e nos noticiários. Eu mesmo tive que recalcular os salários e os benefícios de todos lá na empresa. Mas por quê?”
“Meu pai falou ontem à noite que eu tenho que falar com o Doc para ele me pagar o salário mínimo porque é meu direito, mas eu queria outra opinião.” Ele pensou um pouco.
“Por que outra opinião? Não tem certeza sobre a lei?”
“Não é isso. É que… não sei se quero pressionar o Doc, mesmo sendo meu direito…” Ele franziu as sobrancelhas, mostrando-se surpreso.
“Me explique a situação.”
[...]
Olhei o relógio e percebi o quanto estava tarde. Cara, eu sou muito tapado. Ele chegou do trabalho cansado e eu aqui alugando ele…
“Você entendeu a explicação, Chris?”
“Entendi, senhor. Muito obrigado e desculpe por ocupar tanto o seu tempo.” Ele fez um gesto, dispensando minhas desculpas.
“Imagina. Mas sua mãe deve estar preocupada. É melhor você entrar.” Assenti.
“Obrigado, sr. Jackson, e boa noite.”
“De nada, filho.”
Felizmente não estava tão tarde quanto eu pensei. Meu pai já havia chegado, e Drew e Tonya estavam assistindo TV com ele. Assim que entrei pela porta da sala de jantar, minha mãe ergueu a cabeça da mesa que ela arrumava.
“Ótimo que tenha chegado, Chris. Me ajude a pôr a mesa. Não posso fazer muita coisa ou vai estragar meu penteado.” Fiquei estático por alguns segundos, mas logo suspirei, colocando minha mochila em um canto e indo ajudá-la.
Claro que sou eu. Não tem mais ninguém em casa…
O bendito penteado parecia um tsunami, e eu não estou brincando. Aparentemente, depois de ela passar horas implorando, a Wanessa finalmente tinha deixado ela ser a modelo de cabelo do salão.
Depois da mesa posta, todos sentamos para jantar. Após metade do jantar correr em silêncio, meu pai novamente puxou o assunto do salário mínimo.
“Chris, já falou com o Doc?” Meu corpo ficou levemente tenso e eu não levantei os olhos do meu prato.
“Não. Ainda não achei o momento certo.”
“Hum. É melhor não ficar adiando esse tipo de assunto.”
Minha mãe assentiu. “Concordo com seu pai. Assuntos assim são iguais a curativos: é melhor tirar de uma vez.”
“Hum.” Resmunguei e fiquei novamente calado.
Os dias que se seguiram foram de forma bem parecida; aula, trabalho, jantar e a pergunta que meu pai sempre fazia: “Você já falou com o Doc?”. Eu murmurava que não e desconversava, mas ele sempre pressionava que eu falasse logo, com o ocasional apoio da minha mãe. A única coisa diferente é que eu ficava mais tenso a cada vez que aquela pergunta era repetida. Por não querer pressionar o Doc, eu estava sendo pressionado. E como eu não conseguia disfarçar muito bem quando estava sob pressão, a Lizzy percebeu.
Era sábado de manhã e estávamos sentados na calçada (depois de eu voltar da lavanderia), olhando o movimento da rua e jogando conversa fora.
“Me conta o que está te incomodando?” Olhei para ela rapidamente, meio surpreso ao me dar conta que não tinha escutado nada do que ela vinha falando antes.
“Por que acha que tem algo me incomodando?”
“Você está aéreo, o que é estranho porque eu estava falando de beisebol. O que foi?”
Cocei levemente a cabeça, suspirando. Eu precisava falar com alguém, e ela era a pessoa certa.
“Sabe a lei do salário mínimo?”
“Sim.”
“Descobri que serve para mim e agora meu pai está me pressionando para eu pedir ao Doc que me pague segundo a lei.” Observei enquanto ela franzia as sobrancelhas e me olhava confusa.
“Mas isso é uma coisa boa, não é? Você ganhar mais? Não está feliz com isso?”
“Ficaria se fosse possível, mas só eu sei como anda o lugar onde eu trabalho, Lizzy. Entende?” Seus olhos se arregalaram levemente e ela assentiu devagar.
“Acho que entendo. Mas por que não explicou isso para o seu pai?”
“Não acho que ele vá entender. Vai me dizer que estou sendo idiota, mas é a minha decisão. Não vou pressionar o Doc.”
Pelo canto dos olhos pude ver ela me olhar sem dizer nada. Após alguns segundos, ela se inclinou e apoiou a cabeça em meu ombro. Dei um discreto sorriso, sabendo do seu apoio mesmo sem palavra alguma.
“Faça o que achar certo. Não se sentirá bem a menos que faça.” Assenti, já me sentindo mais leve.
O fim de semana passou logo, junto com meu alívio por meu pai ter deixado o assunto do salário de lado pelo menos naqueles dois dias. A semana recomeçou e lá estava ele me pressionando outra vez. Eu sabia bem que podia aguentar coisas do gênero, mas também sabia que uma hora eu ia explodir…
POV. LIZZY
Soltei um suspiro alto e encostei a cabeça na cabeceira da cama, fechando os olhos. Estava há horas naquela tarefa maldita e infinita. Geometria não é de Deus… Foi o jeito que o demônio achou para nos fazer odiar a forma de todas as coisas...
Minha cabeça pesava um pouco, como se houvesse uma mão gigante em cima dela. Abri os olhos e, mentalmente, decidi dar uma pausa naquele inferno particular. Levantei da cama e me alonguei, estalando várias articulações. Dei uma volta pelo quarto para esticar as pernas e acabei parando em frente ao meu mural de fotos. Sorri ao olhar para a mais recente delas. Era do Dia Mais Doce e mostrava eu, Chris e Greg todos sujos de chocolate depois de comermos os biscoitos.
Pensar no Chris me fez ficar levemente preocupada. Será que ele já resolveu aquele assunto com o pai dele? Nunca mais havíamos tocado no assunto desde nossa conversa no sábado pela manhã. Era sexta e eu havia visto ele ficar mais tenso no decorrer da semana. Ele está acostumado a ser pressionado pelos outros, não pelos pais. Eu não fazia a menor ideia do resultado daquilo, mas imaginei que não seria bom.
A fome bateu e eu desci até a cozinha. Estava vazia; minha mãe tinha ido às compras. Peguei uma maçã na geladeira e me sentei no sofá, ligando a TV. Fiquei mudando de canal, sem realmente prestar atenção em nada, até que o som da porta atrás de mim se abrindo me despertou.
“Mãe?” A porta fechou.
“Sim.” Ela apareceu na sala e foi na direção da cozinha. “Terminou a tarefa?” Fiz uma careta.
“Não. Dei uma pausa. Quer ajuda?” Ouvi ela colocar as sacolas no balcão.
“Claro.”
Levantei e entrei na cozinha, já vendo ela tirar as compras das sacolas. Comecei a ajudá-la em silêncio, mas logo me senti observada. Tentei ignorar, mas minha mãe não ia deixar passar.
“Me conta o que está te incomodando?” Arregalei os olhos levemente com o eco da minha pergunta ao Chris no sábado.
Por um instante eu considerei mentir, dizer que não era nada ou mesmo inventar algo, mas logo descartei a ideia. Estávamos nos dando bem e eu não iria estragar isso com uma mentira boba. Desistindo, suspirei.
“É o Chris…”
Sem parar o que estava fazendo, ela seguiu com a conversa.
“O que tem ele? Vocês brigaram?”
“Não. Os pais dele estão pressionando ele sobre pedir ao Doc que lhe pague o salário mínimo, mas ele não quer pedir.”
“Hum.” Ficamos em silêncio até ela quebrá-lo novamente. “Seu pai me contou que, na semana passada, o Chris veio falar com ele.” Parei imediatamente de guardar as compras, minha atenção toda no que minha mãe falava. Chris não me contou isso… “Ele queria falar sobre o salário mínimo. Perguntou como funcionava e quais seriam as consequências para o Doc se ele pedisse.”
“Ele me falou algo a respeito, mas não foi muito claro.” Ela assentiu.
“Pelo que seu pai me contou, ele ficou preocupado com o Doc quando ouviu a explicação de tudo.” Também assenti.
“Espero que ele encontre uma forma pacífica para resolver isso.”
A conversa morreu ali e não falamos mais no assunto.
Depois do jantar, subi logo para o meu quarto. Ainda tinha aquela maldita tarefa de Geometria para terminar; queria me livrar logo daquilo. Peguei meu livro e meu caderno e fui me sentar no sofazinho, ficando atenta a qualquer barulho vindo do outro lado que indicasse que o Chris estava no quarto.
Passou meia hora e o silêncio continuava até que ouvi passos do outro lado. Um resmungo abafado e logo depois o barulho de um corpo caindo em cima da cama. Esperei alguns instantes para ter certeza que era ele e, pouco depois, ouvi outro resmungo.
“Porcaria…” É ele…
Mas quando abri a boca para falar, ouvi passos pesados e a voz do pai dele.
“Senta. Precisamos conversar.” Ouvi o barulho de algo se mexendo e deduzi que o Chris e o sr. Jullius haviam sentado.
Novamente, minha consciência me trouxe o dilema sobre escutar ou não a conversa, mas lembrando que o Chris quis que eu escutasse da última vez, não me mexi. A voz do pai dele continuou.
“Pode me explicar porque eu tive que passar meia hora tentando acalmar sua mãe para ela não te dar uma surra? Que reação foi aquela, Chris?”
“Não foi nada. Eu só não quero falar com o Doc sobre o assunto e vocês ficam me pressionando. Será que dá para entender que, se eu estou fazendo isso, eu tenho um bom motivo?” A voz dele estava bastante frustrada e, se eu percebi, o pai dele com certeza também percebeu.
“E que motivo é esse? Tem que fazer segredo?” Fez-se silêncio outra vez até que o Chris falou.
“Não é algo meu para que eu possa contar. Eu conversei com o sr. Jackson e ele me explicou várias coisas sobre o assunto. Depois de pensar um pouco, preferi não falar com o Doc por seria melhor assim.” Ouvi o sr. Jullius bufar de irritação.
“Contou para o Arthur e não pode contar para mim? Que lógica é essa? Até onde eu sei, EU sou seu pai.” Ouvi o Chris suspirar.
“Ok. Apenas me prometa que não vai contar para a mãe. Ela diz que sabe guardar segredos, mas a Wanessa extrai segredos até do Papa.” O sr. Jullius provavelmente assentiu, e o Chris continuou. “Digamos que o Doc não está nas melhores condições financeiras. Por mais que a diferença entre o que eu ganho por hora hoje e o valor que a lei diz seja de apenas U$ 0,35, não é só isso que ele teria que me pagar.”
“Sim. Seria o aumento mais os benefícios e os impostos adicionais.”
“Exato. E o Doc não está em condições de me dar isso ou ele acabaria fechando a loja. Não reclamo de ganhar menos, eu gosto do emprego. Jamais vou encontrar outro emprego tão conveniente quanto esse. E eu gosto do Doc e não quero prejudicá-lo só para ganhar um pouco mais.”
O silêncio voltou, e eu imaginei os dois se encarando. Quando senti meus pulmões queimando foi que me dei conta que havia prendido a respiração. Soltei o ar devagar e ouvi o barulho de alguém levantando; novamente ouvi a voz do sr. Jullius.
“Poderia ter explicado antes. Teria facilitado muita coisa.”
“Já disse: não era algo meu para que eu contasse. Mas… obrigado, pai.”
“Apenas mantenha o emprego e seus princípios.”
Os passos pesados se afastaram e eu me recostei mais no sofazinho, pensando em tudo o que ouvi.
Acabei me assustando quando ouvi a voz do Chris me chamar.
“Lizzy?” Me recuperei do susto e respondi.
“Oi. Como soube que eu estava aqui?”
“Você suspirou.” Sorri de lado.
“Desculpe ter ouvido a conversa. Não era minha intenção.” Ouvi ele rir.
“É claro que era. Mas eu não me importo. Acho que agora você sabe o que eu quis insinuar no sábado.”
“Sim. Não vou perguntar poque não me contou; já sei a resposta.”
“É. Pelo menos meu pai entendeu.”
“Eu te disse que ele entenderia. Até sua mãe entenderia se você tivesse a paciência de explicar.” Ele riu, e eu percebi que ele estava mais leve.
“Paciência não é algo que eu tenha muito, então prefiro guardar para os momentos certos.”
“Ei, a impaciente de nós dois sou eu. E briguenta também.”
“E estressada.” Ele completou, com aquele sorriso sacana, eu tive certeza. Estreitei os olhos para a parede, como se eu pudesse vê-lo rindo às minhas custas. Safado… Mas decidi deixar para lá. Ele precisava relaxar...
“Se sente melhor?” Perguntei, mudando de assunto.
“Sim. Bem mais leve. Deu até fome.”
“Você não jantou?”
“Não. A confusão se instalou antes que eu comesse. Acho que vou na cozinha ver o que sobrou do jantar.”
“Vai lá. Mas lembra que tem a tarefa de Geometria para fazer.” Ouvi ele choramingar.
“Droga. Eu tinha esquecido. Deixa eu copiar do seu amanhã no ônibus?” Não resisti rir ao ouvir aquilo.
“Ok. Mas sabe que meus cálculos em Geometria são tão confiáveis quanto a Tonya na cozinha.” Sua risada veio outra vez.
“Sei, mas pelo menos vou ter feito alguma coisa.” Balancei a cabeça ainda rindo.
“Pois vai comer, trapaceiro.”
“Vou mesmo. Boa noite, ruivinha.”
Senti meu rosto esquentar e sorri, feliz.
***
Fale com o autor