Notas iniciais
Que recomecem os jogos... Leitura Anterior: O Coração de um Nerd - Capítulo 9

POV. CHRIS (Brooklyn — 1986)

Já havia passado da metade de junho, o que significava que eu, Lizzy e Greg estávamos mais que de férias. O senso de liberdade e a possibilidade de nunca mais ver o Caruzo na minha frente eram ótimos. O que ainda nos restava fazer na Corleone era pegar alguns documentos de transferência para levarmos à próxima escola que iríamos frequentar. Não sei por qual milagre, consegui convencer minha mãe a deixar que eu escolhesse a escola para onde eu iria. Acho que o A- no meu boletim final foi um ótimo argumento de persuasão. Mas mesmo depois de três semanas sem aula, eu e Lizzy ainda não havíamos decidido para onde ir. Greg também não, e era esse o tópico da conversa na lanchonete da esquina da Corleone.

Lizzy e eu tínhamos ido pegar justamente os benditos documentos quando encontramos Greg lá por acaso. Começamos a conversar e então decidimos comer algo, pois já era quase meio dia.

“Você já decidiu se vai para a Academia de Ciências do Bronxs mesmo?” perguntei ao Greg.

“Já. Tive uma conversa com a Meggie e ela me incentivou a ir. Meu pai é da mesma opinião.”

“E nós também”, Lizzy disse, falando por nós dois. “Não queria que a gente se separasse assim, mas se é o melhor pra você, vai em frente.”

Ele nos encarou, ainda hesitante, e eu assenti para que ele soubesse que eu concordava com o que Lizzy tinha dito.

“A gente não vai deixar de ser amigos porque vamos para escolas diferentes. Já sobrevivemos a coisas piores”, falei sorrindo de canto e eles entenderam o que eu queria dizer.

Já tínhamos passado por muitos perrengues juntos. Brigas internas, novatos vindos direto do inferno, o Caruzo, avós loucas, eleição de grêmio, cassação de mandato; isso pra falar o mínimo. 12 km não iam separar a gente.

“Mas e vocês?” Greg perguntou. “Já sabem para onde vão e no que vão focar?”

Troquei um olhar rápido com a Lizzy e comentei:

“A gente ainda não encontrou nenhuma escola que pareça legal. Estamos procurando.” Lizzy assentiu. “Da minha parte, ainda não tenho área específica para focar, então vou acabar indo atrás de coisas que me interessam.”

“Passando algum tempo com a Cibele, acabei me interessando pelo modo como eles administram a empresa. Parece tão interessante como eles conseguem resolver praticamente tudo de uma sala com um computador.” Eu e Greg rimos na animação dela.

“Você devia ir atrás disso se te interessa tanto”, disse Greg.

“É o que comecei a fazer. Pedi pro David me indicar uns livros sobre o assunto e…” A voz dela morreu de repente e estranhei. Toquei sua mão e apertei-a de leve.

“O que foi, Liz?”

“É que… eu fiquei sabendo de um programa de estágio em gestão de empresas e me inscrevi. Queria muito conseguir, mas a verdade é que tem muita gente bem mais qualificada do que eu. Não acho que vá dar certo”, ela falou um pouco desanimada.

“Pelo menos você vai ter tentado.” Sorri de canto e beijei seu rosto, sentindo ela relaxar o corpo um pouco.

“Programa de estágio é tipo emprego,” Greg comentou, “a gente quase nunca é aceito no primeiro.” Assentimos.

Lizzy ficou um pouco mais animada, mas preferiu mudar de assunto.

“Falando em emprego, você trabalhou esse fim de semana, Greg?” Ele ergueu os olhos pra ela, mas estava levemente desconfiado.

“Não, por quê?” Lizzy deu de ombros.

“Curiosidade. Te liguei no sábado à noite para avisar que eu e Chris viríamos na Corleone hoje, mas ninguém atendeu.” Ela olhou pra ele de forma sugestiva. “Você estava com a Meggie?”

Observei divertido enquanto via o rosto do Greg ficar gradativamente vermelho. Mordi o interior da minha bochecha para não rir. Não queria atrapalhar a sessão investigativa da Lizzy.

Com o rosto todo vermelho ele baixou os olhos para o prato já vazio à sua frente e assentiu levemente. Vi a expressão de vitória da Lizzy enquanto ela continuava com um tom interessado.

“Ah, eu nem consegui falar com a Meggie essa semana de tão ocupada que ela tava. Como você conseguiu convencer ela a sair?”

Alguns breves segundos de silêncio depois, Greg suspirou em derrota e respondeu em voz baixa.

“Não saímos. Eu fui… fui d-dormir na casa dela.”

“O-O QUE?” Eu e Lizzy dissemos ao mesmo tempo. Ela logo continuou. “Sério?!” Ele assentiu, mas se apressou em acrescentar.

“M-mas não aconteceu nada! Ela estava trabalhando demais porque o irmão tinha viajado e eu fiquei preocupado. Como eu também estava sozinho em casa, f-fui lá para não deixar ela sozinha. Mariah também não estava, então…” Ele parou de falar com o rosto demonstrando o quanto ele estava constrangido com a situação. Obviamente isso deixava tudo muito mais engraçado. Então resolvi dar minha contribuição.

“Então… você foi lá dormir com ela enquanto o irmão dela e a governanta estavam fora?”

Lizzy soltou um risinho sacana ao meu lado e Greg olhou pra gente praticamente pedindo misericórdia. Lutei para não rir enquanto continuava.

“Quanto tempo você passou lá? Só por curiosidade.”

Eu sabia que era uma leve tortura, mas também sabia que ele não esconderia nada da gente. Greg era assim.

Ele desviou os olhos da gente e com o rosto vermelho já emburrado e respondeu:

“D-de sexta à noite até domingo de manhã. M-mas eu juro que não aconteceu nada.”

Lizzy escondeu o rosto no meu ombro em um acesso de risos silencioso e eu assenti para o Greg dizendo que acreditava nele com minha melhor cara de pau.

Ele olhou pra gente com os olhos estreitos e a cara emburrada ainda.

“Vocês não valem nada.”

Lizzy não aguentou mais rir em silêncio e eu a acompanhei, já cansado de segurar o meu riso. Greg encarava a gente ultrajado. Entre risos, Lizzy conseguiu dizer:

“A gente acredita em você, Greg. Sério. Mas é muito engraçado como você fica constrangido.” E continuamos rindo.

Greg revirou os olhos, mas também achava engraçado. Então ele resolveu soltar a pérola do dia.

“Se dormir juntos significa tanto assim, vocês já devem estar casados né?” Ele soltou, com um sorriso sacana.

Lizzy e eu imediatamente paramos de rir e trocamos um olhar constrangido. Greg aproveitou a deixa pra rir da gente.

“Não é inteligente zoar alguém que sabe tudo sobre o relacionamento de vocês.”

Desviei os olhos da Lizzy e tossi de leve.

“Vamos mudar de assunto?”

Greg riu ainda mais.

POV. LIZZY

Depois de voltarmos da Corleone, Chris e eu ainda fomos rever a lista das escolas que tínhamos pesquisado. Das oito que listamos já tínhamos descartado cinco que não gostamos, então só faltava mais três. Combinamos de visitar uma por dia durante a semana seguinte. Também acertamos de ir com o Greg para o exame de admissão da Academia de Ciências do Bronxs. Chris sugeriu porque achou que Greg precisaria do apoio moral e eu concordei.

Assim os dias passaram e a primeira semana de julho chegou, trazendo com ela nossa escolha de escola (finalmente) e os resultados do exame do Greg. Para surpresa de ninguém, ele passou. E com a melhor nota do exame, diga-se de passagem. E a melhor notícia de tudo isso é que a escola que eu e o Chris escolhemos, Tattaglia, era a mais conveniente para nós três. Ela ficava a uma distância média da nossa casa e da ACB. Então não ficaríamos tão longe do Greg assim.

Quando ele soube, ficou bem animado. Tínhamos ido na casa dele, logo depois de ele nos ligar para contar o resultado do exame.

“Quer dizer que se eu der um grito vocês aparecem?” Chris deu de ombros, rindo.

“Provavelmente. Mas não arranja briga com os outros nerds. Não tô afim de resolver disputa de xadrez no soco.”

“Por quê? Ia ser mais divertido que xadrez mesmo”, comentei também rindo.

“Ah, qual é. Xadrez é legal, gente”, Greg retrucou fingindo revolta. Chris riu em descrença.

“Eu sei jogar xadrez e eu já joguei com você. Não foi nada divertido perder 15 vezes. Parece que você tem a Força Jedi te dizendo tudo o que vou fazer.” Greg riu do exagero do Chris.

Fui interrompida de comentar pelo barulho da campainha. Greg foi atender a porta já sabendo quem era. Meggie tinha vindo também, mas nem entrou. Disse que deveríamos sair pra comemorar e já foi puxando o Greg porta a fora.

Chris e eu seguimos o Porsche branco dela com meu Camaro, sem nem saber pra onde ela nos levava. Ela acabou subindo pela Central Park e dando uma volta pela Henry Hudson Parkway.

“Ela sempre foi impulsiva assim?” Chris perguntou após alguns minutos.

“Sempre. Acho que é a forma dela de ser livre mesmo com um pai tão controlador.” Ele assentiu e não disse mais nada.

Segui Meggie quando ela estacionou perto do que parecia ser um café às margens do Rio Hudson. Ela desceu com o Greg e acenou para mim e o Chris, depois apontou em direção ao rio. Aí eu entendi o que ela queria.

Em frente ao café se estendia o Pier I. O espigão entrava no rio por cerca de 100 metros, dando uma bela visão do rio. Caminhamos os quatro até a ponta do espigão e ficamos apreciando a vista; Greg segurava a mão de Meggie e Chris segurava a minha. A maioria das pessoas estava no café; só algumas poucas ocupavam o píer para tirar algumas fotos.

Era por volta de 16h, então o sol já se escondia no meio dos prédios altos de Nova Jersey, do outro lado do rio. A cada minuto que passava o céu ia se tingindo cada vez mais de tons de laranja, rosa e azul escuro. Era uma das coisas mais bonitas que já vi na vida.

De repente, Chris se encosta no guarda-corpo do píer e me puxa pra ele, me abraçando pela cintura. Surpresa, dou uma breve olhada para Greg e Meggie, mas eles estavam muito ocupados no seu próprio mundinho. Ergo o rosto para olhar o Chris e ele sorri de canto, acariciando meu rosto de leve. Sinto meu rosto esquentar e abaixo um pouco os olhos.

“O que foi?” murmuro baixo para que só ele possa ouvir.

Ele ri de leve. “Você é linda. Não me canso de te dizer isso.”

Com o rosto ainda queimando, tomei coragem e ergui o rosto de novo para tocar seus lábios com os meus. Ele suspirou e apertou minha cintura. Levei minhas mãos até sua nuca, fazendo um carinho suave. Seu peito vibrou com um ronronar baixo e eu reprimi um sorriso. Eu amava quando ele fazia isso, mesmo que ele morresse jurando que não fazia. O beijo continuou calmo; não tínhamos pressa. Só queríamos sentir um ao outro e aproveitar o momento. Quando o ar faltou, ele beijou minha bochecha e me apertou mais contra ele, escondendo o rosto na curva do meu pescoço. Fiz o mesmo mas ainda continuei acariciando sua nuca. A vibração baixa no seu peito voltou e dessa vez não tive como não rir. Sem se mexer nem me soltar, ouço sua voz baixa no meu ouvido.

“Qual a graça?”

“Você, ronronando”, respondi no mesmo tom baixo, quase sussurrado.

Senti sua respiração quente bater contra o meu pescoço quando ele bufou em descrença.

“Eu não ronrono.”

Acostumada com suas negativas, apenas concordo sorrindo.

“Claro que não.”

Ele riu de leve e me afastou um pouco para me olhar, ficando sério logo depois.

“Nunca quero me separar de você, Liz. Eu nunca fui tão feliz quanto nessas semanas que estamos juntos. Ter você comigo significa muito pra mim.”

Senti minha garganta apertar e meus olhos arderem, mas eu não iria chorar. Engolindo o nó na minha garganta, tentei responder:

“Você significa muito pra mim também.”

Vi sua boca e seus olhos sorrirem pra mim. Logo depois ele me abraçou de novo, voltando a esconder o rosto na curva do meu pescoço. Senti meu coração se agitar de felicidade no meu peito. Eu realmente nunca tinha estado tão feliz. Não queria que nada separasse a gente.

Eu só devia ter lembrado que quando mais velho a gente fica, mais escolhas difíceis temos que fazer.

Dois dias depois da ida ao píer, recebi uma ligação que podia mudar tudo o que eu tinha planejado dalí pra frente.

“Alô?”

Tenho uma notícia boa pra você. Posso ir na sua casa?” Reconheci a voz do Daniel de imediato.

“Oi, Dan. Pode sim. O que foi?”

Só vou te contar pessoalmente. Chego já aí.” E desligou.

Passei uns bons minutos tentando imaginar o que seria, até que uma luz apareceu no meu cérebro. Ainda assim duvidei.

O programa de estágio. Não… Não é nem possível que seja aquilo… Tinha tanta gente melhor do que eu que nem realmente acreditei que fosse passar. Será possível?

Fiquei em um estado de ansiedade até o Dan chegar. Foi ele quem tinha me contado sobre o estágio e quem me incentivou a me inscrever mesmo quando eu não acreditava. A verdade é que o estágio era parcialmente financiado pela Scottrade, a empresa da família dele. Quando soube do tema do estágio, ele me ligou, já que eu havia falado a ele antes como fiquei interessada no gerenciamento da empresa da minha irmã. Fiquei grata a ele pelo apoio, mas mesmo assim duvidei.

Olhei o relógio: 18:55. Ele está demorando. Estava a ponto de roer as unhas quando a campainha tocou. Corri até a porta e abri. A primeira coisa que vi foi seu sorriso.

“Então? Ansiosa?” Dan perguntou, entrando e beijando minha testa.

“O que você acha? É sobre o estágio?”

Ele sentou no sofá e me puxou para sentar do seu lado.

“É sim. Não vou te enrolar. Você passou.”

Devo ter ficado petrificada, porque alguns segundos depois ele me olhou estranho e me cutucou.

“Lizzy? Tudo bem?” Assenti levemente.

“Acho que sim. Só estou muito surpresa. Não pensei que fosse passar nunca.” Ele riu de canto.

“Eu disse que você conseguiria. Conheço você.” Olhei em seus olhos agradecida enquanto sentia ele segurar minha mão. “E não se preocupe, posso te ajudar com tudo: passagens, estadia, dicas sobre a cidade.”

Nesse instante, percebi o que aquela notícia representava além da minha felicidade de ter conseguido passar. Meu sorriso vacilou um pouco e eu baixei os olhos para o meu colo, com ainda mais dúvidas na minha cabeça.

“Lizzy, o que foi?”

“E-eu não sei, Dan. Acho que não posso fazer isso com o Chris.” Senti sua mão tremer levemente na minha.

“Então vai desistir do seu sonho por causa dele?” Ergui a cabeça e olhei-o nos olhos, já um pouco mais firme.

“É algo que posso realizar depois. Não é como se me faltasse dinheiro.”

“Sei que pode, mas o programa de estágio talvez nunca mais se repita. Você não tem garantias. É uma oportunidade que não volta, Lizzy.” Ele me disse em tom de alerta.

Suspirei, meu cérebro fritando sem saber o que decidir. Então tomei a decisão que me daria paz por um curto espaço de tempo: adiei a decisão.

“Quando eu teria que te dar a resposta?”

“No mais tardar, amanhã.” Assenti, um pouco aliviada por ter mais algum tempo para pensar e também conversar com o Chris.

“Ok. Vou pensar, prometo.”

Nesse momento, ouço a porta da segunda sala se abrir e o Chris aparecer. Sem nem olhar para Dan, ele apenas ficou parado me encarando. Pela expressão no seu rosto eu sabia que ele tinha escutado algo e não estava feliz com o que tinha ouvido. Sem tirar os olhos do Chris, falei:

“Dan, pode nos deixar a sós por favor?”

Ouvi seu suspiro, então ele se levantou e passou pelo Chris, indo até a porta. Antes de sair, disse:

“Espero sua resposta e espero que faça a escolha certa.” Então saiu, fechando a porta atrás de si.

Chris e eu ficamos em um silêncio desconfortável por alguns minutos, nenhum dos dois ousando sequer se mexer. Até que eu respirei fundo e pedi em um tom baixo.

“Senta.”

Lentamente ele veio sentar ao meu lado, ainda com os olhos nos meus.

“Pode me explicar?”, perguntou em um tom calmo.

Assenti e comecei a contar.

“Há umas duas semanas Daniel me falou de um programa de estágio para alunos interessados em negócios. Fiquei curiosa e, por incentivo dele, acabei me inscrevendo. Falei isso para você e o Greg no dia que nos encontramos na Corleone.” Ele assentiu, lembrando daquele dia. “Não entrei em detalhes porque não acreditava que passaria. Não queria criar esperanças ou discussões à toa. Ele veio me dizer hoje que eu consegui uma vaga.”

“E isso não é bom? Não era o que você queria?” Chris pergunta em um leve tom de preocupação.

“Era. Só que o estágio não é em Nova York… É em Londres o verão todo.”

Observo a compreensão se espalhar pelo seu rosto e reconheço uma pontada de dor nos seus olhos. O nó na minha garganta volta e eu luto para não começar a chorar. Não queria magoá-lo e me senti uma estúpida egoísta por isso.

“Londres? Por dois meses?” Assenti, ainda lutando com as lágrimas. “E quando você teria que ir?”

“Domingo seria o último dia possível.”

“Daqui a 6 dias…”, ouço ele murmurar. Depois disso silêncio.

Chris não me olhava mais e eu sentia a culpa me corroer mais a cada instante. Eu não tinha planejado aquilo. Não era para eu ter conseguido a vaga. Eu não queria ir se fosse para deixá-lo assim e ter meu coração esmagado a cada dia que eu passasse longe dele. Voltei a lembrar do pôr do sol no píer e do que ele tinha me dito então. Que nunca queria que a gente se separasse. Sem perceber, eu tinha começado a chorar em silêncio. As lágrimas rolando lentamente pelo meu rosto.

Fui tirada dos meus pensamentos ao ouvir sua voz.

“Vá.” Ele tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça apoiada nas mãos que cobriam parcialmente sua boca.

Pensei não ter ouvido direito, sentindo a dor no meu coração aumentar.

“O-o quê?” perguntei com a voz levemente embargada.

Ele endireitou a postura, me olhando nos olhos e repetiu:

“Vá.”

Minha visão ficou desfocada devido às lágrimas e eu perguntei em um fio de voz:

“V-você está t-terminando comigo?”

Antes que eu tivesse tempo de respirar direito, Chris me puxou pelos braços e me beijou. Não era nada parecido com os beijos calmos que sempre trocávamos. Era confuso, desesperado. Sua língua entrou em contato com a minha, roubando meu fôlego, e eu segurei seus ombros com força, soltando um gemido baixo. Sua mão esquerda segurava meu rosto, não permitindo que eu me afastasse. Eu sentia meus pulmões queimarem implorando por ar, mas não queria parar. Não queria que ele se afastasse. Nunca.

Quando ele enfim encerrou o beijo, nós dois respirávamos com muita dificuldade. Ele encostou sua cabeça no meu ombro, ainda segurando meus braços. Respirei fundo, também tentando recuperar meu raciocínio, e ouvi ele murmurar algo contra o meu pescoço.

“O que?” Ele ergueu a cabeça e me encarou com os olhos demonstrando uma ponta de agonia.

“Claro que não tô terminando com você.”

“Então por que me diz para ir?”

“Porque não quero que desista do que sonha por minha causa. Não é justo, Lizzy.” Ele disse, em um tom angustiado. Então fechou os olhos e respirou fundo.

Quando os abriu novamente, sua expressão estava menos angustiada, mas permanecia triste. Sua mão subiu do meu braço para acariciar meu rosto como ele sempre fazia. Senti seus dedos limpando minhas lágrimas e vi seu leve sorriso de lado.

“Vá. Eu vou estar aqui quando voltar.”

Senti vontade de chorar novamente, mas não o fiz. Ele era compreensivo demais comigo. Eu não merecia isso.

Cedi ao desejo de abraçá-lo e ficamos assim por um tempo, até ele me afastar um pouco e me dar um leve beijo. Quando nos olhamos, percebi que ele estava levemente animado.

“Mas eu tenho duas condições.” Olhei-o curiosa.

“Que condições?” Ele me abraçou, já com um leve sorriso sacana, e me puxou pra si, me sentando de lado no seu colo.

“Vou te ajudar com as coisas da viagem, mas você vai passar o resto do tempo livre comigo.” Sorri, me sentindo um pouco mais leve de toda aquela tensão.

“Eu aceito, mas e o Doc’s?” Ele deu de ombros, beijando meu pescoço e conscientemente arrepiando todos os pelos do meu corpo.

“Ah eu peço ao Drew pra me substituir.”

“Claro. E qual é a segunda condição?”

Ele largou meu pescoço e me olhou nos olhos.

“Sai comigo para jantar?” Fiquei surpresa e levemente muda.

“É sério?”

“E por que não seria? Sim?” Assenti, feliz, e passei os braços pelos seus ombros.

“Claro que sim. Quando?”

“Sexta, pode ser?” Concordei, sorrindo como uma idiota.

“Pode. Já estou ansiosa.”

Ele sorriu e me beijou com carinho, como costumava fazer sempre.

Ficamos mais algum tempo juntos, falando sobre o que iríamos fazer durante aquela semana, até que ele teve que ir. Apesar do peso no coração por causa da despedida próxima, não tive como não ficar animada por ter uma semana inteira com a atenção dele só pra mim. Vai ser um sonho, mesmo que o motivo não seja dos melhores…

Depois do jantar, fui até o telefone, decidida, e liguei pro Dan. Ele atendeu no terceiro toque.

Alô?

“Oi, Dan.”

Lizzy? Aconteceu alguma coisa?

“Sim. Eu vou pra Londres.”

***

Notas finais
Quando os coitados se acertam, acontece m**da! Não é possível! Gostaram do retorno? Teremos só mais dois caps para encerrar a temporada; dois extras com um enredo todo meu. Então se preparem para cuspir arco-íris e chorar ao mesmo tempo... ;) Próxima Leitura: O Coração de um Nerd - Capítulo 10