Notas iniciais
Demorou pra caramba!!!!!! Eu nunca tive tanta dificuldade em fazer um capítulo de história na minha vida! Mas por vcs eu faço qualquer sacrifício, suas bonitas... Espero que gostem...

POV. CHRIS (Brooklin – 1985)

Como em toda escola, na minha também faltavam coisas. Algumas vezes faltava água, outras vezes era blackout, mas o que mais faltava era professor. Ok, não exatamente faltava de pedir demissão ou ser demitido e tal, mas grande parte deles viajava muito. Férias, atestado médico e outras desculpas esfarrapadas. Normalmente a coordenação arranjava substitutos a tempo, mas isso não queria dizer que eram bons substitutos. Eles não tinham moral nenhuma e a gente fazia A ZONA. Por isso era muito legal quando algum professor viajava. Era a liberdade... mas daquela vez foi diferente, principalmente pra mim.

Quando eu e a Lizzy chegamos pra aula na terça, o Greg veio correndo na nossa direção com um sorriso enorme.

“Vocês estão sabendo?” A Lizzy riu.

“Fala, fofoqueiro.” Realmente, eu nunca vi um ser humano do sexo masculino pra gostar tanto de fofoca como o Greg. Ele fechou a cara pra ela.

“Ok, não conto mais.” E se virou pra pegar os livros no armário. Eu e a Lizzy rimos.

“Desculpa, Greg. Não resisti.” Minha vez...

“É, Greg. Você tem que parar de se conter e libertar sua fofoqueira interior. Não tenha vergonha!”

“Não tem a mínima graça, seu idiota!” A Lizzy tava da cor do cabelo de tanto rir, mas eu ainda me segurava sério.

“E não é pra ter graça; isso é sério. Dizem que reprimir o que você é causa calvície, e você não ia ficar nada bonito careca.” Ele me olhava com cara de homicida e a Lizzy tapava a boca pra rir baixo. Então, para a minha infelicidade, ele resolveu entrar na brincadeira.

“Pois é. Mas sabia que estudos comprovam que quando você tira muita onda com a cara dos amigos, acaba ficando sujo na rodinha.” Como é????

“Ei, ei, ei! Olha a sacanagem aê!” Agora o Greg ria às minhas custas e eu não tava vendo mais graça nenhuma naquilo tudo. A Lizzy, coitada, nem respirava mais.

“Pelo amor de Deus, parem com isso vocês dois. Querem me matar sem ar?” Ela arfava sem conseguir respirar.

“É, tá na hora de parar com a brincadeira.”

“Ah, agora que o zoado é você, tá querendo parar?” Dei de ombros.

“Que seja. Qual era o assunto?”

“A Srta. Morello viajou pra África. Foi numa ação beneficente.” Sorri com malícia.

“Imagina o benefício que ela vai fazer por lá.” A Lizzy me deu um tapa no braço com cara de ‘sem sarcasmo, por favor’. “Ok. Então a gente vai ter um tempo de liberdade. Tá ótimo! Eles só arranjam substitutos idiotas mesmo.” Ele rolou os olhos, impaciente.

“Se fosse um substituto comum não teria novidade nenhuma, mas dizem que esse é linha dura.” A Lizzy ergueu uma sobrancelha.

“Sério? E como ele é?” Ele riu.

“Essa é a melhor parte, pelo menos pra você, Chris: ele é negro.” O QUÊ????

“Como é que é? Negro?” Ele assentiu.

“Vi quando ele tava falando como a vice diretora.” Olhei pra Lizzy sem saber o que pensar. Um professor negro? Será que é uma boa pra mim? Ela sorriu e deu de ombros.

“Acho que a gente vai ter que descobrir se ele é legal. Vamos pra aula?” Nós assentimos e fomos.

Fiquei sem ação quando vi ele entrar na sala. Ele era negro mesmo! Observei enquanto ele se apresentava e vi o Caruzo rir. O que se seguiu eu pensei que nunca veria acontecer a não ser nos meus sonhos: o Caruzo foi humilhado pelo professor. Ganhou meu respeito na hora e vi que a Lizzy tinha gostado dele também quando ela me cutucou de leve nas costas. Olhei pro Greg e ele tava surpreso. Na verdade todo mundo na sala tava. Se ele pode humilhar o Caruzo, vai ser meu professor preferido.

Ele começou a explicar como dava aula e incrivelmente eu não fiquei com sono. A matéria parecia magicamente mais fácil e mais interessante. Fiquei chocado. No final da aula ele disse que tinham dito pra ele entregar os testes que a Srta. Morello tinha feito na sexta passada. Fomos saindo pro intervalo e cada um foi passando na mesa dele pra pegar seu teste corrigido. O Greg ficou com um A+ (como sempre) e a Lizzy ficou com um A-; eles pegaram os testes e saíram pra me esperar lá fora. Quando chegou minha vez e eu vi o B- no meu teste, quase pulei de felicidade. Mas quando estendi a mão pra pegar, ele puxou de mim.

“Está feliz com esse resultado, Chris?”

“Claro. Normalmente eu não me dou bem nessa matéria.”

“Você não vai chegar a lugar nenhum sendo sempre o segundo.”

“Passar de ano pra mim tá ótimo.” Obviamente aquela não foi minha melhor resposta. Ele abriu a bolsa, pegou uma caneta e mudou o meu B- pra F.

“B-? F. Para mim é a mesma coisa.”

“Pra mim não é! Com um F eu repito de ano!” Ele é louco??? Provavelmente, porque fingiu não me ouvir.

“Quero que vá a secretaria e peça a vice diretora para ligar para sua mãe. Vai ficar aqui essa tarde para estudar.” O QUÊ?????

“Mas eu trabalho à tarde!” Ele simplesmente me olhou.

“Desmarque. Agora vá. Vou ficar aqui com você.” Eu não sabia o que estava sentindo mais, se era surpresa ou raiva.

“Por que tá fazendo isso?”

“Por que de vez em quando eu encontro alguém que precisa da minha ajuda. E esse alguém agora é você. Agora vá.” Sem reação eu saí pra encontrar a Lizzy e o Greg na porta da sala.

“O que foi, Chris? Porque demorou tanto? Eu já tava fazendo bolão com o Greg pra apostar qual seria sua nota.” O Greg riu, mas eu não. Ela notou e mudou de expressão. “O que foi?”

“Você vai pra casa sozinha hoje. Vou ficar aqui.”

“O quê? Por quê?” Eles disseram juntos.

“Ele te deixou em detenção? Sua nota foi tão ruim assim?”

“Não, Greg. Não foi isso.” Respirei fundo e expliquei tudo pra ele enquanto íamos na direção da secretaria. Eles mal acreditaram. A Lizzy era a mais revoltada.

“Ele não pode fazer isso! Mudar a nota de outro professor.”

“Na verdade ele pode.”

“Porque, Greg?”

“É só uma nota. Nem era um teste muito importante, então ele pode.”

“Podendo ou não podendo, eu vou ter que ficar aqui.” Eu tava com tanta raiva que minha cabeça tava começando a doer, mas eu não ia demonstrar ou a Lizzy era capaz de fazer um escândalo. Tentei parecer o mais indiferente possível. “Lizzy, quando for pra casa pode ir no Doc avisar que não vou poder ir trabalhar hoje e pedir ao Drew pra cobrir meu horário?”

“Claro. Mas fala logo com a vice diretora pra gente poder comer alguma coisa.” Assenti e entrei.

Minha mãe não reclamou depois que expliquei tudo. Ela até ficou feliz pelo professor se interessar que eu aprendesse. Só os loucos se entendem. Que ela nunca conheça ele; iam virar melhores amigos.

No segundo horário a aula tinha perdido toda a graça. Não prestei atenção em nada. A ideia de ficar uma tarde inteira na escola, tendo aula extra com aquele professor que agora eu detestava, era deprimente. A aula se arrastava pra passar e eu tava começando a ficar entediado. Quando finalmente terminou eu fui me despedir do Greg e da Lizzy.

“Boa sorte, cara.”

“Valeu. Vou precisar muito.” A Lizzy chegou mais perto de mim.

“Quando chegar em casa, me chama se não estiver muito cansado.” Assenti. Ela me abraçou e beijou meu rosto. “Até mais tarde.” Eles foram e eu fui comer alguma coisa antes de ir pra sala. Ele já tava lá. Mal eu entrei na sala, ele já me entregou um papel. Eu pensei que era algum teste, mas quando olhei melhor vi que era o currículo dele.

“Este é o meu currículo.” Harvard, Oxford, Stanford... Até que ele não é mal, mas porque é substituto?

“Por quê tá me mostrando isso?”

“Quero que fique com ele pra servir de inspiração. Agora sente-se. Vamos começar.” Rolei os olhos e escolhi uma cadeira.

Foi a tarde mais cansativa da minha vida, incluindo aquelas que eu carregava caixas e caixas de produtos no Doc’s. Ele praticamente torceu meu cérebro e virou pelo avesso. Minha cabeça já tava doendo de raiva, mas no final da tarde tava doendo de cansaço.

Cheguei em casa mais cansado do que já tinha estado em anos. Tava até sem fome. Passei direto pro meu quarto e caí na cama. O sono já tava me chamando, mas eu precisava chamar alguém antes. Cheguei perto do buraco na parede e chamei.

“Lizzy?” Ela respondeu na hora.

“Oi. To aqui. Chegou agora?” Tava até sem forças pra falar.

“Aham.”

“Conheço essa voz cansada. Deve ter sido puxado.”

“Muito. Vou ficar amanhã de novo.”

“O quê??!! Uma tarde de tortura é o suficiente!”

“Parece que pra ele não. Fez o que eu te pedi?”

“Fiz. O Drew achou ótimo. Parecia que os olhos dele tinham se transformado na cifra do dólar.” Ri involuntariamente e me senti melhor.

“Eu quero esquecer essa tortura. Fala de qualquer coisa, por favor.” Ela pensou um pouco, mas pareceu não encontrar assunto.

“Eu não sei... só se... Um amigo meu vem me visitar na segunda.” Imediatamente o sono passou. Amigo?

“Que amigo?”

“Um que eu não vejo tem muito tempo. Ele mora na Inglaterra, mas o pai dele vem resolver uns negócios aqui e ele vai aproveitar pra me ver.”

“Inglaterra?” Detesto ingleses. Todos arrogantes, com aqueles narizes empinados...

“É. Ele é americano, mas mora lá.” Menos mau.

“Ah tá.”

“Você tá muito cansado. Quer ir dormir?”

“Quero sim. Desculpa.” Ela riu.

“Tudo bem. Amanhã a gente conversa. Boa noite.”

“Boa noite.”

A mãe veio ver se eu ainda tava vivo quando deu a hora do jantar. Implorei pra ela me deixar dormir, mas ela me carregou escada abaixo, exigindo – leia-se gritando – que eu tinha que comer e tomar banho pra poder dormir. Depois de fazer o que ela queria eu pude, finalmente, dormir em paz.

No outro dia eu continuava irritado com o Sr. Newton. Sacanagem ele fazer aquilo comigo e ainda usar a desculpa ridícula de que era pra me ajudar. Ajudar? Sei. Ele tá é me tirando o pingo que paz que eu tenho, isso sim.

A quarta e a quinta se passaram do mesmo jeito da terça. O dia na escola, o Drew ia pro Doc no meu lugar, eu chegava morto de cansado e só conseguia trocar umas palavras com a Lizzy, comer, tomar banho e dormir. Mas apesar de eu dormir cedo eu não me sentia descansado no dia seguinte.

“É porque não é seu corpo que tá cansado, é seu cérebro.” Era quarta e eu tava jogado na cama depois do jantar, conversando com a Lizzy. Já tinha feito tudo que precisava, só faltava dormir.

“E como se não bastasse ele secar meu cérebro e me prender na escola à tarde por dois dias seguidos, ele ainda me faz usar essa blusa ridícula.”

“Que blusa?” Olhei pra aquela porcaria dobrada na cabeceira da minha cama.

“Ele me deu uma blusa com um B- enorme na frente e eu tenho que usar até o dia do teste, na segunda.”

“Mas isso já é humilhação!”

“A desculpa que ele usa é que é pra me ajudar.”

“Ridículo!”

“Mas eu não quero falar disso. Já é o suficiente ficar o dia todo olhando pra cara dele.”

“Ok. Vai dormir logo se não amanhã você vai estar com cara de defunto.” Eu ri.

“Tudo bem. Boa noite.”

“Boa noite.” Mal me mexi e já dormi.

Na quinta eu até que tava me sentindo um pouco melhor, mas aquela blusa tinha zerado a minha paciência. Eu já tava bem estressado com o Sr. Newton e queria fazer alguma coisa pra me livrar dele, mas eu não queria que a Lizzy soubesse. Conversar com o diretor e pedir pro Sr. Newton parar de marcação comigo tudo bem, mas me livrar dele do jeito que eu tava pensando em fazer, eu sabia que ela não ia gostar nada. Aproveitei no intervalo quando ela foi no banheiro e falei tudo pro Greg.

“Eu tenho que me livrar dele, Greg. Essa camisa foi a gota pra mim.” Ele me olhou meio surpreso.

“Pensei que fosse aguentar mais. Você nunca se estressa com pouco.” Eu até entendi o ponto de vista dele. Eu já tinha passado por coisas piores e ficado calado. Mas não mais.

“Depois de conviver três anos com a Lizzy você acha que eu ainda vou deixar alguém pisar em mim assim?” Ele riu.

“Suponho que não. Vai fazer o quê? Já tem um plano?”

“Acho que sim, mas... tem uma brecha.” E eu não vou pedir a ajuda da Lizzy. Ela ia me esfolar...

“Que brecha? Qual é a ideia?”

“Lembra que ele me deu o currículo pra me inspirar?”

“Sei. E daí?”

“Pensei em mandar pra outra escola. É estranho que com um currículo daquele ele seja só um substituto.”

“Tem razão, é estranho. Mas qual é a brecha?”

“Se ele lembrar e pedir o currículo e eu disser que não tenho mais ou perdi, ele vai sacar que fui eu e vai me torrar a paciência mais ainda.”

“É mesmo.” Ele desviou os olhos pra longe e ficou pensando. “Você podia... fazer uma cópia.” É brilhante!

“Mas como?”

“Tem o Fisher.” Como eu pude esquecer o Fisher?

“É mesmo. Valeu pela ideia. Vou falar com o Fisher.”

O Fisher era um tipo de mafioso na Corleone. Tudo de ilegal que você quisesse ele tinha ou fazia. Eu não queria nada ilegal, era só uma cópia, mas mesmo assim fui falar com ele. Como sempre, ele tava bem escondido.

“Fisher.”

“O que é?”

“Preciso de um favor. Quero uma cópia disso.” E entreguei o currículo pra ele. Ele analisou a folha e depois me olhou.

“E o que eu ganho com isso?”

“Não sei. Diz o que você quer.” Ele pensou um pouco.

“Faz minha redação de História.” O QUÊ?? Aquele “livro” que o professor mandou a gente escrever? Ok. Tudo pra me livrar daquele mala.

“Tudo bem. Me entrega quando?”

“Hoje depois da aula. E quero minha redação pronta até amanhã.” Explorador.

“Tá. Eu dou um jeito.”

“Acordo?” E estendeu a mão pra mim.

“Acordo.” Apertei sua mão.

Depois da aula, a Lizzy foi embora com o Greg e eu fui pegar a cópia com o Fisher. Tava perfeita!

“E não esquece a minha redação.”

“Não vou. Valeu.”

Como eu tinha tempo antes da aula, resolvi acabar logo com aquilo. Fui ao correio mais próximo e mandei a cópia pra uma escola pouco conhecida, mas boa. Agora é só esperar o resultado. É claro que eles não vão recusar um cara com um currículo daquele... Mas só por garantia resolvi mandar uma carta de demissão em nome dele pra Corleone. Assim não tem como não dar certo...

Quando cheguei em casa, o cansaço ocupava até a parte interna dos meus ossos. Eu ainda tinha que fazer a redação do Fisher e terminar a minha. Graças a Deus a Lizzy tinha me convencido a começar a minha logo, pra não ficar com muita coisa acumulada. Pra me livrar logo, fiz tudo o que tinha que fazer na cozinha, tomei banho e subi pro meu quarto e comecei a escrever.

Suspirei alto quando terminei a redação do Fisher e olhei pro relógio: 22:27h. Tá tarde, mas eu tenho que terminar a minha. Olhei pra cama ao lado e vi o Drew ferrado no sono. Finalmente! Cheguei mais perto do buraco e chamei.

“Lizzy...”

“Oi. Pensei que não fosse me chamar.”

“O Drew tava acordado.”

“Imaginei. Escutei ele ressonar e pensei que fosse você.” Ri de leve.

“Bem que eu queria estar dormindo, mas tenho que terminar minha redação pra amanhã. Já entregou a sua?”

“Entreguei hoje já que viajo amanhã cedo.” Fiz uma careta e fiquei calado; ela acabou percebendo. “Não fica emburrado.”

“Então volta logo. Eu sinto a sua falta.” Ouvi ela rir.

“Também sinto a sua.” A voz dela veio abafada como se escondesse um bocejo. “Não esquece de estudar pro teste de segunda. Ele repetiu a semana inteira que é criticamente importante.”

“Eu sei. Boa viagem.”

“Obrigada. Dorme bem.”

POV. LIZZY

“Ainda vai demorar, pai?”

“Só uns 10 minutos. Por quê?”

“Eu vou lá no Chris deixar uma coisa. Não demoro. Encontro vocês no carro.” Ele assentiu e eu saí. Ele foi pra escola, mas com sorte a dona Rochelle tá em casa.

Eu tinha acordado cedo na sexta pra dar os retoques finais naquele negócio e agora eu tinha que entregar. Bati na porta e, não demorou muito, a mãe dele atendeu.

“Oi, fofa. Tudo bem? O Chris foi pra escola, pensei que tinha ido com ele.”

“Oi, dona Rochelle. Hoje eu vou visitar minha irmã. Eu vim aqui deixar isso pra ele.” E entreguei o bloco de notas que eu passei grande parte da noite preparando pra ele. “Será que poderia entregar pra ele?” Ela olhou o bloco, curiosa.

“Claro, mas o que é?” Sorri. É claro que ela ia querer saber o que é.

“É que a gente tem prova na segunda e como eu não vou estar aqui pra estudar com ele, eu fiz esse resumo pra ele.”

“Ah sim. Tudo bem, eu entrego pra ele.”

“Obrigada. Tchau, dona Rochelle.”

“Tchau, querida. Boa viagem.”

Desci e já encontrei meus pais no carro. Volto logo, Chris.

POV. CHRIS

Apesar de estar muito cansado, da Lizzy ter viajado e de ter passado grande parte da noite fazendo redação, eu me senti melhor na sexta. Eu ia ter um final de semana inteiro sem o mala do substituto. Eu só precisava aguentar só mais uma tarde com ele...

“Chris?” Pensei nele e ele me chama... Só pode ser macumba...

“Sim, professor.”

“Não precisa ficar hoje depois da aula. Pode ir pra casa.” Todo mundo já tinha saído da sala e só o Greg me esperava na porta.

“Como é?”

“Quero que estude em casa durante o final de semana. E devo dizer que se não passar no teste vou recomendar que repita a oitava série.” O QUÊ??? Fiquei com tanta raiva que não consegui dizer nada. “O que eu acho que provavelmente terei que fazer, pois acho que não vai conseguir passar.” Sabe aquela calma que só a raiva te dá? Foi exatamente como me senti.

“Acha que eu não passo?”

“Tenho quase certeza.” Cheguei mais perto dele e o encarei.

“Pois vamos ver.” Peguei meus livros e saí da sala fumaçando de raiva.

Fui o caminho pra casa remoendo aquilo que ele disse. Eu vou passar, nem que seja só pra esfregar na cara dele que eu consegui. Nem que pra isso que tenha que passar o final de semana inteiro estudando.

Como o anjo que é, a Lizzy me ajudou mesmo sem estar perto. Ela tinha deixado um bloco de notas com o resumo da matéria que ia cair na prova. Então eu passei os dois dias seguintes quase sem sair do meu quarto. A mãe até pensou que eu tava doente pra estudar tanto e eu mesmo me surpreendi comigo. Mas toda vez que eu pensava em desistir, eu lembrava do que ele tinha dito e a raiva me dava forças pra continuar. Nisso o final de semana passou rápido e a Lizzy chegou no domingo à noite. Mas ela acabou chegando tarde e não deu pra gente se falar.

Compensamos no caminho pra escola. Contei o que tinha acontecido pra ela e ela me deu os parabéns por estudar tanto, mas a surpresa aguardava a gente na escola: a Srta. Morello tinha voltado. Tradução: sem teste e sem chance de esfregar na cara do Sr. Newton que eu podia passar. Eu tinha estudado pra nada! Fiquei emburrado a manhã inteira. Pelo menos a Lizzy e o Greg entenderam. No final das contas foi um dia de aula normal como eu não tinha há dias.

POV. LIZZY

Apesar do fiasco do teste e da gente ter estudado de graça, o Chris nem pareceu tão irritado como eu achei que ele ficaria. E nem tão feliz por ter se livrado do Sr. Newton. Mas apesar de tudo eu to feliz! Por quê? Meu amigo vem me visitar hoje à tarde. Ele não vai poder demorar muito; vai passar só pra me ver antes de embarcar pra Inglaterra de novo, mas vai ser ótimo! Faz tanto tempo que eu não vejo ele...

Logo depois do almoço eu fiquei na sala perto da janela esperando ele chegar. Eu tava tão ansiosa que nem conseguia ficar sentada. Cada vez que eu escutava o barulho de um carro eu corria pra janela. Meu pai até ficou fazendo hora com a minha cara.

“O que é isso, Lizzy? Novo esporte? Corrida até a janela?”

“Eu to ansiosa. Fico imaginando como será que ele está...” Naquele momento ouvi uma buzina lá embaixo. Corri pra janela e vi um carro preto e grande parado em frente à minha casa. É ele! Desci correndo as escadas e abri a porta da rua, dando de cara com o garoto alto, moreno, de olhos azuis que eu mais adorava no mundo.

“DANIEL!!!!!!!!!”

POV. CHRIS

Não, eu não tinha ido trabalhar. O Drew tava gostando tanto de ficar no meu lugar – leia-se ganhar dinheiro – que me implorou pra deixar ele ir só mais esse dia. Como eu tava cansado pra caramba da correria dos últimos dias eu deixei ele ir e fiquei em casa vagabundando. A mãe tava em casa, mas me deixou assistir TV numa boa. Tudo tava bem até que... Tonya.

“Hummm. Não tá estudando? Deve ser uma miragem...” Revirei os olhos e olhei pra ela.

“Olha, Tonya, eu não to num dia bom, então... me deixa em paz.”

“Ok. Mas você devia ser legal comigo porque eu sei uma coisa que você não sabe...” E virou as costas, saindo da sala e eu voltei os olhos pra TV.

“Nunca fui muito interessado em fofoca.”

“Nem se for sobre a Lizzy?” Olhei rápido pra ela.

“Ei, ei, ei, volta aqui.” Ela voltou e sentou na poltrona do papai com um sorriso safado no rosto.

“Eu sabia que ia ficar interessado.”

“Para de enrolar e fala logo.” Ela olhou pra janela se fazendo de sonsa.

“Eu não. Você só sabe me destratar e não tá interessado em fofocas...”

“Dá pra parar de brincar com a minha cara e falar logo?”

“Qual é a palavra mágica?” Cerrei os dentes. Você ainda vai me pagar por isso...

“Por favor?” Ela sorriu.

“Ok, já que insiste... Foi só uma coisa que eu vi...”

“O quê?”

“Um garoto chegando quase agora na casa dela.” Imediatamente lembrei o que a Lizzy tinha me dito sobre o amigo que vinha visitar ela e sorri.

“Ah, qual é? O Golpe Baixo tem informação melhor que essa. Até eu já sabia. É um amigo dela que veio visitar; ela já tinha me falado.”

“Ah, foi? Ela falou que ele é mais velho? Bonito? Bonito não, lindo!” Senti uma pontada no meu ego (mais velho e bonito?), mas eu não precisava mostrar aquilo.

“Espera só o papai saber que você tá falando isso do amigo da vizinha.” Ela deu de ombros.

“Pelo menos eu só falei. Não fui eu que corri escada a baixo e agarrei ele na frente da rua inteira.” O QUÊ???

“Como é?” Ela riu e fez uma imitação da Lizzy.

AH, DAN, QUE BOM TE VER! FAZ TANTO TEMPO! Queria ver sua cara olhando aquilo. Eu teria me retorcido de rir te vendo se roer de ciúmes.”

“Não é ciúmes!”

“E é o quê? Farofa?” E saiu da sala, rindo.

Fiquei olhando pra TV sem assistir. Eu tava morrendo de vontade de ir lá ver esse cara, ver como ela tava com ele. Não! Por quê eu to me incomodando tanto? É só um amigo que ela não vê faz tempo. Só isso! Mas eu não consegui ficar quieto. Fui até a janela bem em tempo de ver um garoto alto e de cabelos pretos entrando num carro e a Lizzy acenando enquanto o carro ia embora. Parece que ele já foi. Mesmo assim... Eu tive que chamar.

“Lizzy!” Ela fez sinal de que ia subir e entrou aqui em casa. Mas uma surpresa me esperava quando eu abri a porta pra esperar ela: o Sr. Newton.

“Olá, Chris. Vim para aplicar o teste.” A Lizzy chegou onde a gente tava bem em tempo de ouvir.

“O quê? Em casa?”

“Sim. Não tem problemas quanto a isso.” Pra piorar a minha mãe apareceu.

“Oi. Quem é o senhor?” Achei melhor deixar os dois conversando – talvez se esqueçam de mim – e fiz sinal pra Lizzy em direção à porta da cozinha. Arrodeei e ela já me esperava lá.

“Que ideia é essa dele?”

“Não sei, mas é perseguição comigo!”

“Chris!” Era minha mãe. Fui atender.

“Senhora.”

“Acho melhor fazer essa prova e passar, garoto.” Inferno!

“Eu quero fazer também.” Lizzy?

“Sem problemas. Eu trouxe mais de um teste. Podemos?”

No final das contas uma parte de mim achou bom. Assim eu ia poder mostrar pra ele que eu podia passar. Eu nunca levei uma prova tão a sério na minha vida. Foi uma hora de tensão. A gente terminou a prova e ele foi corrigir. Corrigiu primeiro a da Lizzy e ela ficou com A-. Quando ele começou a corrigir a minha eu já tinha rezado pra todos os deuses que eu conhecia e até pros que eu não conhecia. Eu tenho que passar! Ele já me humilhou demais pra eu perder mais essa...

“Você passou.” Passei?

“Sério? Quanto?” Ele virou a prova pra mim e eu vi o que jamais pensei que veria em nenhuma prova minha: A+.

“A+. Você conseguiu, Chris.” Finalmente o momento que eu esperei o final de semana inteiro.

“É, e você perdeu.”

“Porque fui demitido quando a sua professora voltou?”

“Não. Porque eu consegui passar e você disse que eu não ia conseguir.”

“Eu sabia que você conseguiria. Aquilo que eu disse foi um teste, Chris. Nos três dias que passei com você descobri uma coisa a seu respeito: você dá mais de si quando tem um desafio.” De repente toda a minha raiva dele desapareceu. Aquilo foi um teste? Só então eu percebi que o Sr. Newton queria realmente me ajudar... “Parabéns, Chris. Você merece.” Olhei enquanto ele agradecia minha mãe – que tava morta de feliz – e ia embora. Senti a Lizzy segurar minha mão.

“Acho que ele só queria o seu bem, no final das contas.”

“Parece que sim.” Falando sério, eu me senti meio deprimido por ter feito ele perder o emprego, mas acabei me consolando pelo fato de que ele provavelmente tinha sido chamado pela escola pra onde eu enviei o currículo dele.

“Anda, vem comigo.” A Lizzy saiu me puxando quando a gente começou a escutar minha mãe cantarolar meu bebê tirou um A.

“Vamos pra onde?”

“Você tirou uma nota maior que a minha. Eu tenho que te pagar um sorvete...” Sorri e a gente saiu pra rua, descendo o quarteirão na direção da sorveteria.

***

Notas finais
Reviews, gente! Pra autora saber que vocês ainda estão aí!