Nem Todo Mundo Odeia O Chris - 2ª Temporada
10 Todo Mundo Odeia o Papai Noel
Notas iniciais
POV. CHRIS (Brooklin – 1984)
Natal era uma época mágica e, pra mim, aquele Natal foi bem diferente e estranho, mas bem legal. Eu tinha um by Browse to Save\">emprego, então eu ia poder comprar presentes decentes pra quem eu quisesse. Mas nem tudo são flores. Junto com os presentes e o tempo livre pra ficar com a Lizzy, o Natal trouxe um emprego de duende fotógrafo em uma loja onde meu pai era Papai Noel – sim, foi ele que arranjou – e a gripe. Tava quase virando epidemia; tanto que começaram as campanhas de vacinação, mas já tinha começado há várias semanas e eu ainda não tinha ido me vacinar. Como sempre o último; até que alguém se lembrou da minha pessoa.
“Chris, você já foi se vacinar?” Eu tava sentado na calçada com a Lizzy, só jogando conversa fora. Benditas férias!
“Não. Minha mãe quer me levar na próxima segunda.”
“Vai demorar.” Fiz uma careta.
“Eu sei. Você já foi?” Ela negou.
“Amanhã meu pai fica de férias do trabalho e vai me levar, já que a mãe não pode ver uma agulha que desmaia.” Eu ri.
“É sério?”
“Muito.”
Nessa hora meu pai vinha chegando e o pai da Lizzy estacionou o by safesaver\">carro e desceu.
“Jullius!”
“Arthur!” Eles começaram a conversar e a Lizzy me olhou com uma cara de ‘tenho um plano’. Ela me puxou pela camisa e correu pro pai dela.
“Pai! Pai! – Desculpa interromper, Sr. Jullius. – Pai, amanhã você vai me levar pro posto de vacina?”
“Vou, já que sua mãe não consegue ir. Ah, aproveite e peça a ela o seu cartão de vacina.” A Lizzy assentiu, impaciente.
“Ok. O que eu queria perguntar é se a gente pode levar o Chris.” Ela olhou pros dois com aquela cara de ‘por favor’ que só ela sabe fazer. “O Chris disse que a dona Rochelle só vai poder levar ele na segunda e como o Sr. Jullius vai estar trabalhando...” Os nossos pais se olharam e deram de ombros.
“Eu não vejo problema nenhum.” Sr. Jackson. by Browse to Save\">Beleza!
“Nem eu. Chris, já tá na hora do jantar. Suba e diga pra sua mãe que eu já estou indo.” Assenti e puxei a Lizzy pra um lado; eles continuaram conversando.
“Valeu. Daqui pra segunda eu já teria pegado gripe.”
“Que nada. O pai vai levar a gente amanhã cedo, então não atrasa.”
“Pode deixar.” Ela chegou mais perto e beijou meu rosto. Por que eu me sinto um idiota quando ela faz isso? Ou quando ela sorri desse jeito... Pisquei duas vezes pra voltar à realidade. “Até amanhã.” Devolvi o beijo e, feliz, observei ela corar.
“Até.” Olhei ela entrar e entrei também.
“Mãe!” Fui achar ela na cozinha.
“O que é isso, garoto?” Pra quê os gritos?! Quer deixar todo mundo surdo?!” Tradução: só eu posso gritar aqui!
“Foi mal. A senhora sabe onde tá o meu cartão de vacina?”
“Pra quê? Eu só vou te levar na segunda.” Fiz minha melhor cara de obediente.
“Se a senhora deixar eu vou com a Lizzy e o pai dela amanhã.” Ela me olhou desconfiada.
“Tenho que falar com o seu pai.”
“Ele tá lá embaixo conversando com o Sr. Jackson e disse que não tinha problema.” Sorri com minha cara de pau expert. Ela me analisou por alguns segundos e depois deu de ombros.
“Tá bem. O cartão tá na segunda gaveta do guarda roupa, mas depois você pega. Me ajuda a por a mesa e vai chamar seus irmãos.” Assenti e fui ao armário pegar os pratos.
No dia seguinte acordei bem cedo pra não atrasar. Tomei banho, comi alguma coisa e fui bater na porta da Lizzy. Ela abriu e me fez entrar.
“Desculpa, eu não to pronta ainda.” A gente subiu as escadas até a sala e eu notei como ela tava vestida: um short e uma blusa brancos. Desviei os olhos pra não pensar coisas indevidas e tentei continuar a conversa.
“Por quê?” Ela pegou uma xícara de cima da mesa e levou até a pia.
“Dormi demais e o despertador não tocou. Mas só falta eu tomar banho. Não demoro.”
A gente subiu pro quarto dela, ela pegou uma roupa e foi tomar banho. Mulheres e banheiros tem uma relação de amor profundo. Ela vai demorar séculos lá dentro... Mas pra minha surpresa ela saiu de lá pronta em menos de quinze minutos.
“Já?” Ela me olhou com cara de dúvida.
“Por quê?”
“Mulheres... banheiros...” Ela riu.
“Não sei o que elas tanto fazem lá dentro. É só tomar banho. Eu demoro no máximo, vinte minutos.” Uau!
“Sério? A Tonya é um século e minha mãe, um milênio.”
“Fico imaginando sua cara tendo que esperar.” Fiz uma careta.
“Pois é.” Ela me olhou meio esquisita.
“Por que sua voz tá tão grave?” Dei de ombros.
“Sei lá. Puberdade?” Ela riu alto.
Ouvimos uma batida na porta e o pai dela colocou a cabeça pra dentro.
“Bom dia. Todo mundo pronto?”
“Tudo pronto, pai. Vamos, Chris?”
“Vamos.”
POV. LIZZY
No final das contas não importou a gente chegar lá cedo; a fila já tava enorme. Desci do carro depois do Chris e ouvi ele gemer e olhar o relógio.
“É sério? São sete da manhã!” Meu pai fechou o carro e foi na frente.
“É melhor nós irmos para a fila. Está chegando mais gente.”
Pra resumir um pouco a saga da vacina, a gente ficou em pé naquela fila por duas horas. Muita gente ficava olhando pra mim e pro pai por nós sermos brancos, já que lá só tinha negros. Mas quando viram o Chris com a gente, pararam de olhar. A gente tava quase na porta quando aconteceu algo que praticamente arruinou minha semana.
Meu pai tava na frente, depois eu e atrás de mim o Chris. Como a gente ficou conversando, eu inconscientemente troquei de lugar com o Chris, ficando atrás. O desastre aconteceu quando o cara que tava atrás espirrou em mim. Todo mundo olhou e eu me retraí como se tivessem jogado um balde d´água em mim. Meu pai olhou pro cara com uma expressão de ódio total. Mas quando eu ia virar e xingar o cara com todos os palavrões que eu conhecia, alguém foi na minha frente.
“Seu idiota, imbecil! Olha o que você fez?!” Quando percebi que era o Chris, eu fiquei paralisada. É ele mesmo? Ele virou pra mim e me abraçou, ficando de costas pro idiota e protegendo meu corpo com o dele.
“Desculpa, cara. Eu devia ter virado. Foi mal aí pela sua namorada.” Arfei quando ouvi isso e senti o Chris tremer, mas ele não negou. Tentei ver seu rosto, mas ele me abraçava forte, prendendo meus braços entre nós dois e minha cabeça em seu pescoço.
Ouvi meu pai discutindo com o imbecil, mas não liguei. Eu queria saber de outra coisa. Me remexi e o Chris afrouxou o abraço, me afastando um pouco; então u pude ver seu rosto. Tinha raiva, mas também tinha preocupação lá. Minha raiva de repente sumiu e eu quis pular de felicidade. Minha parte apaixonada/idiota disse: Ele se preocupa comigo... Mas logo meu lado racional botou moral na situação: É claro que ele se preocupa, estúpida! Ele é seu melhor amigo! Deixei essa discussão inútil pra depois e tentei acalmar ele.
“Eu to bem.”
“Você pode ficar doente.” Lee me olhava como se esperasse que eu fosse ter um AVC a qualquer instante.
“A gente vai tomar a vacina daqui a pouco. Não precisa se preocupar.” Ele assentiu, mas a preocupação continuava lá. É melhor eu deixar pra lá. Ele não vai se acalmar até ver que eu não vou ficar doente.
A gente tomou a vacina e foi pra casa. Eles dois agiam como se eu fosse morrer a qualquer momento. O Chris não largou minha mãe e me perguntou se eu tava bem pelo menos umas quatro vezes. Chegamos e eu entrei. Corri pro meu quarto com o pensamento de tomar uma aspirina e ir deitar. Tomei o remédio e me larguei na cama. Como eu tinha acordado cedo, acabei dormindo.
POV. CHRIS
Passei o dia nervoso, pensando se ela tinha ficado doente ou não. À tarde, passou Rocky na TV e eu não consegui assistir. Fui pro meu quarto e tentei ler um livro que ela tinha me emprestado. Eu só quis porque era fino e engraçado – isso foi o que eu disse a ela – mas eu tava começando a gostar de ler. Apesar disso, não consegui sair da mesma página. Até minha mãe achou estranho eu ficar quieto e veio falar comigo.
“Chris? Tá passando Rocky; não vai assistir?”
“Vou não, mãe.” Ela estranhou ainda mais. Chegou perto da cama e pôs a mão na minha testa.
“Tá doente? Pegou gripe e não me contou?” Rolei os olhos.
“Não, mãe. To preocupado com alguém, só isso.”
“Lizzy?” Assenti. “Ela tá doente?”
“To achando que vai ficar. Um idiota espirrou nela na fila do posto.”
“Se você ficar doente eu te dou uma surra, então é melhor ficar longe.” O quêê??
“Não mesmo!” Ela me lançou o olhar da morte e eu gelei.
“Como é, garoto?” Respirei coragem e falei.
“Não vou ficar longe agora que ela precisa de mim. Quem tipo de melhor amigo eu seria?” Ela ficou me encarando, mas depois suspirou. Respirei aliviado; não iria morrer daquela vez.
“Meu filho, você pode ficar doente. Os remédios são caros e nem eu nem seu pai temos dinheiro pra pagar. A Lizzy tem os pais pra cuidarem dela.”
“Eu não ligo pra ficar doente. Eu trabalho; se precisar eu compro os remédios. Mãe, por favor. Eu preciso ficar lá com ela.” Eu não ia desistir; só queria que ela entendesse isso. Ela tentou uma última vez.
“Chris, gripe é coisa séria...”
“Eu sei. Por favor?” Ela pensou um pouco enquanto eu olhava pra ela com a minha melhor cara de cachorro sem dono.
“Tá, pode ir. Mas se voltar doente, vai comprar os remédios e ainda vai levar uma surra.” Sorri.
“Valeu, mãe.” Ela me olhou desconfiada e foi descendo.
“Hum, sei. Agora desce e me ajuda com o jantar. Já ficou vagabundando tempo demais.” Esperei ela descer e virei pro buraco na parede.
“Lizzy!” Sem resposta. “Ta aí?” Silêncio. “Ok.”
Peguei um papel e escrevi que assim que eu pudesse ia visitar ela, coloquei o papel no buraco e desci pra ajudar minha mãe.
Apesar de ter me deixado ir, minha mãe me ocupou o resto do dia inteiro. Passei a tarde com ela na cozinha, lavando louça, enxugando, guardando, arrumei a mesa... Ela sempre tinha me ocupado, mas assim já era demais. Só então eu saquei. Ela tá jogando. Disse que eu podia, mas tá me ocupando pra não me deixar com tempo pra ir. Mas quando eu percebi isso já era tarde – depois do jantar – e não dava mais pra eu ir na Lizzy. Que seja. Eu vou amanhã cedo. E ela pode nem ter ficado doente... Tomara que não...
Subi pro quarto e olhei o buraco na parede. O papel que eu tinha colocado não tava mais lá. Beleza. Ela pegou. Fiquei escutando; silêncio. Mas quando eu ia levantar pensei ter ouvido um espirro. Cheguei mais perto, mas não tinha barulho nenhum. De repente eu ouvi de novo; alto e claro. Droga! Não aguentei e chamei.
“Lizzy!” Logo a resposta veio.
“Oi.” A voz tava meio abafada, mas não era por causa da parede.
“Você ficou doente. Por que não me chamou?” Ela suspirou.
“Virou médico agora.” Rolei os olhos e suspirei. A intenção dela era tão clara...
“Não vai funcionar.”
“O quê?”
“Você me tratar mal pra eu ficar com raiva e não ir te ver.” Ouvi ela fungar.
“Você pode ficar doente também.” Como eu pensei. Eu a conhecia bem demais.
“Mas eu não em importo! Vou te ver amanhã.”
“Não! Manhã meu pai vai sair e eu vou ficar só com a mãe.” Dei de ombros.
“Eu não ligo. Eu só quero ver você. Era pra eu ter ido hoje, mas a mãe ficou me ocupando.” De repente a voz dela ficou quase infantil.
“Você vem mesmo?” Sorri.
“Claro que sim, boba. Fica bem, tá?”
“Tá bom. É melhor eu ir tomar meu remédio, se não eu perco a hora.”
“Ok. Vai lá. Boa noite.”
“Boa noite.”
No dia seguinte eu não pude visitar a Lizzy logo cedo porque eu tive que ir trabalhar. Não, não foi no Doc’s. Sim, eu fui trabalhar no DOMINGO. E sim, foi o bendito emprego que meu pai arranjou. Eu fiquei ridículo com aquela roupa verde de duende e escutar minha mãe falando ‘meu bebê fofinho’ foi o fim. O Drew e a Tonya passaram o café da manhã inteiro zoando com a minha cara, mas eu me vinguei. Quando a mãe foi levar a louça pra pia, eu dei dois chutes neles por baixo da mesa.
“Aiiii!!!” A mãe colocou a cabeça na porta pra ver o que era.
“O que é que tá acontecendo aí? Eu não posso nem virar as costas?” A Tonya foi a dedo duro, como sempre.
“O Chris chutou a gente!”
“Mentira! Quero ver você provar!”
“Podem parar ou eu vou chutar os dois!” A Tonya me deu língua e virou a cara.
Resumindo: passei o dia inteiro de cara amarrada, tirando fotos do meu pai com um monte de pivetes. Pelas coisas que ele tava falando pras crianças – “Presente custa caro” – ele não ia durar muito nesse emprego não. Mas em segundo nenhum eu parei de me pensar na Lizzy. Tava preocupado com ela; ainda mais porque o Sr. Jackson ia sair e ela ia ficar sozinha com a mãe dela. Infelizmente, pra minha impaciência, o tempo passou se arrastando e cada minuto parecia um era. Das oito da manhã até a uma da tarde... Ai, que saco!
Cheguei em casa louco por um banho e fui logo comer alguma coisa. Quando eu ia sair pra ir na Lizzy, minha mãe...
“Onde você vai?” parei na porta lateral e olhei pra ela.
“Visitar a Lizzy.” Ah, não! Lá vem!
“Mas eu preciso de você pra...” Rolei os olhos e suspirei.
“Mãe...”
“... e depois você tem que me ajudar com...”
“Mãe...”
“... você sabe que seus irmãos não me ajudam...”
“Mãe! A senhora prometeu.” Ela parou um pouco, mas depois entregou o jogo.
“Chris, se você ficar doente...”
“Eu não vou. Prometo. Posso ir agora?” Ela suspirou, desistindo.
“Vai.”
Desci as escadas correndo e saí; felizmente a porta do 604 tava aberta. Subi outra vez e parei na porta. Calma. Eu não vou arrumar confusão. Eu só vim pra ver a Lizzy. Respirei fundo e bati na porta. Alguns segundos depois a mãe dela abriu. Quando viu que era eu ela ficou meio paralisada, mas o olhar de desdém de sempre continuava lá.
“Você?” Calma. É pela Lizzy.
“Eu vim pra ver a Lizzy.”
“Vai embora! Eu não quero você na minha casa!”
“É só me deixar ver ela que eu vou embora.” Ela ergueu o queixo, me olhando de cima. Foi meio inútil, pois eu era mais alto.
“Quem você pensa que é para vir na minha casa e me enfrentar desse jeito?”
“Eu não vim enfrentar ninguém; só quero visitar a Lizzy.”
“Meu marido pode apoiar essa amizade ridícula de você dois, mas eu não! Fora daqui!” E antes que eu pudesse fazer alguma coisa, ela bateu a porta na minha cara.
Lentamente minha cabeça começou a latejar por causa da raiva. Minha amizade com a Lizzy não é ridícula! Olhei pro lado e vi a escada que dava pro andar de cima. Dei uma de pivete de oito anos e subi. Você pode me odiar, mas isso não vai me afastar da Lizzy. Nunca! Tomei cuidado pra não fazer barulho nenhum. Pois por mais que eu não ligasse pra mãe dela, eu não queria arranjar briga com o Sr. Jackson. Eu gostava do coroa e ele era meu único apoio com a Lizzy naquela casa. Se a Sra. Jackson descobrisse que subi e contasse pra ele...
Cheguei no quarto da Lizzy e bati levemente na porta. Sem resposta. Devagar, girei a maçaneta e a porta abriu. Coloquei a cabeça pra dentro e vi ela deitada na cama. Entrei, fechando a porta, e fui na direção da cama. Ela dormia – toda enrolada – e eu não consegui evitar um sorriso. Me abaixei perto da cama e fiquei olhando. Inconscientemente sussurrei.
“Tava tão preocupado com você.” Ergui minha mão e afastei uma mecha de cabelo do seu rosto. “Não posso demorar muito ou sua mãe me descobre aqui. Depois eu volto.” Me inclinei e beijei seu rosto. “Fica bem.”
Minhas pernas pesavam quando eu levantei pra ir embora. Eu não queria ir, mas eu precisava. Eu devia estar com uma cara horrível quando entrei em casa, porque minha mãe notou.
“Que cara é essa, garoto? Ela piorou?” Eu não vou contar pra ela que eu invadi o quarto da Lizzy.
“Não consegui ver ela. A mãe dela me expulsou.”
“Tá vendo?! Por isso eu não queria que você fosse!” Nem era por isso, mas eu deixei pra lá.
“Tanto faz. Vou esperar o Sr. Jackson chegar, aí eu quero ver ela me botar pra fora.”
“Não arranje confusão. Não quero a vizinhança comentando.”
“Não vou arrumar briga. Precisa de mim pra alguma coisa?”
“Não, mas vou precisar do Drew. Chama ele pra mim. E guarda sua roupa que tá na cama.”
Depois que o Drew desceu resmungando, eu coloquei a pilha de roupa na cadeira e me larguei na cama. Eu queria ter falado com ela, mas foi melhor deixar ela dormindo. Deve estar cansada. De repente um planinho maquiavélico começou a se formar e eu fiquei pensando nas consequências. Não seria tão difícil. Eu já fiz isso uma vez, não vou morrer se fizer outra. Mas e se o Sr. Jackson descobrisse? Ou eu posso esperar o Sr. Jackson chegar e pedir a ele. É mais simples e menos arriscado. Mas minha bolhinha de felicidade foi espocada por um grito... da minha mãe, pra ser mais exato. A notícia ruim não veio dela, mas foi quase...
“CHRIIIIIISSS!!! Seu pai tá no telefone e quer falar com você!!!” Desci e atendi.
“Oi, pai.”
“Chris, eu preciso de você agora!”
“O que foi?” No mínimo eu pensei que tinha acontecido uma coisa grave, mas ele me contou a bomba como se fosse uma maravilha.
“O outro cara que ia fazer o Papai Noel ficou doente. Gripe. Aí eles me chamaram pra cobrir o turno. Vem agora!” Whaaaatttt??? Eu acabei de chegar! Olhei o relógio: 14:47h.
“O quêêêê???? Agora? Pra ficar até que horas?”
“Até fechar o turno, às nove.” Nove? Ah, o mundo conspira contra mim. Lá se foi a parte simples do meu plano por água a baixo. Meu ânimo era de levantar defunto... só que não.
“Tá. To indo.” Decididamente, hoje não é o meu dia. To começando a odiar Papai Noel, mesmo sabendo que ele não existe. Troquei de roupa e fui.
Resumindo: foram mais cinco horas lentas e torturantes. Piorava tudo a quase certeza de que eu não ia ver a Lizzy. Quase certeza porque eu ainda tinha o meu plano, mas tava com medo de arriscar. Mas se eu arrisquei da outra vez só pra entregar uma travessa de macarrão com queijo, eu arrisco agora pra saber como ela tá e fica com ela pelo menos um pouco. Que se dane o risco! Eu vou!
Cheguei em casa quase 10 da noite, muito cansado e meio com sono. Eu não tinha comido nada, mas a ansiedade não me deixou ter fome. Tomei banho e me deitei. Tentei me manter acordado, mas o cansaço acabou vencendo e eu adormeci. Acordei com um susto e olhei pro relógio: 23:40h. Sorri; era exatamente essa a hora que eu queria. Levantei – a casa toda em silêncio – e fiz o caminho pro 604. Entrei e subi até o quarto da Lizzy. Abri a porta e me deparei com ela deitada na cama, me encarando com um livro na mão. Sua expressão era de susto, mas ela logo sorriu.
“Chris!” A voz dela saiu baixa e rouca.
“Oi.” Fechei a porta e fui na direção dela. “Tá melhor?”
“Um pouco. E você? Veio agora por causa do trabalho?”
“Também. Eu vim mais cedo, mas você tava dormindo.” Fiz um gesto pra ela afastar e me sentei do seu lado, ela ainda deitada.
“E a minha mãe?” Por menos que eu gostasse da mãe dela, eu não queria criar intriga.
“Ela foi..." Cacei desesperadamente uma palavra. “... gentil.” Ela me olhou, cética.
“Sério? Não mente pra mim. O que ela fez?” Suspirei.
“Ela... bateuaportanaminhacara.”
“O quê?” Desisti.
“Ela bateu a porta na minha cara, mas... sério... não importa.” Ela trincou os dentes, com raiva.
“Claro que importa! Ela não pode...” Interrompi.
“Lizzy. Me promete que não vai falar nada.”
“Mas...”
“Primeiro: como você vai explicar como falou comigo? Segundo: você tá doente e não pode se alterar. E terceiro: se ela for falar pro seu pai que você discutiu com ela por minha causa, não vai prestar. A gente nunca enfrentou e sempre foi melhor assim. Ignora. Promete?” Ela me olhou impotente e desistiu.
“Ok. Eu prometo.” Ouvimos um barulho e ela pôs as mãos no estômago.
“Você comeu?” Ela olhou pro outro lado da cama, onde tinha uma mesinha com uma bandeja de lanche intocada em cima. “Você não comeu?! Lizzy!” Ela me deu um olhar de culpa.
“Foi mal. É que eu não consigo comer bem. Minha garganta arranha e meu nariz tá tampado.”
“Mais um motivo pra você comer: ficar boa logo.”
Levantei e arrodeei a cama, indo pegar a bandeja. Me sentei de novo perto dela, com a bandeja apoiada nas pernas.
“Anda, senta, por favor.” Ela sentou, se encostando na cabeceira da cama. “Come só um pouco.”
“Só se você comer comigo.” Eu ri.
“Tá certo.” Peguei um pãozinho da bandeja e comi. “Sua vez.” Ela me olhou e sorriu; depois abriu a boca e ficou esperando. “É sério?” Ela assentiu e eu senti um frio na barriga. “Ok.” Falei normal, mas a coragem falhava.
Peguei outro pãozinho e levei na direção dela. Ela se aproximou e pegou com a boca, sem deixar de olhar pra mim. Nisso, a língua dela roçou de leve nos meus dedos e eu tremi. Por quê ela faz isso? Eu sou o melhor amigo dela, mas também sou homem e a gente não é mais criança... Recuei meio rápido e ela pareceu ficar triste, mas logo se recuperou.
“O que foi? Não posso mais brincar?” Que brincadeira é essa?
“Claro, desde que coma.”
A gente continuou conversando e comendo até que eu percebi que já devia ser bem tarde. Era 01:35h da manhã.
“Eu tenho que ir, Lizzy.” Ela fez cara de choro e segurou minha mão.
“Não, por favor, fica aqui.” Gruni de frustração.
“Eu quero ficar, mas não posso.”
“Então... fica... até eu dormir.” Olhei pra ela e estreitei os olhos.
“Aí você não vai dormir.”
“Vou sim, juro.” Encarei ela, sem saber o que fazer. Eu não vou conseguir negar isso.
“Ok. Mas quando você dormir eu vou pra casa.”
“Tá certo.”
Virei e me encostei na cabeceira da cama, ficando meio deitado meio sentado. Pra minha surpresa, ela me abraçou e encostou a cabeça no meu peito. Sorri e segurei ela pela cintura.
“Chris?”
“Oi.”
“Já é 25 de dezembro.” Sorri.
“É mesmo. Feliz Natal, Lizzy.” Ouvi ela rir.
“Feliz Natal, Chris.” Ela me apertou um pouco e eu beijei o alto de sua cabeça, ouvindo ela suspirar.
Não era minha intenção dormir, mas eu tava cansado e, depois de comer e deitar com ela, sentindo seu cheiro, é claro que eu acabei dormindo. Acordei de repente e vi que ela nem tinha se mexido. Olhei o relógio e eram 04:27h. Beleza! Dá pra eu ir pra casa e ninguém descobrir nada. Levantei com cuidado pra não acordar ela. Me inclinei sobre a cama e acariciei e beijei seu rosto. Ela resmungou, se mexeu e eu sorri.
“Bom dia, pequena.” Saí do quarto dela e fui pra casa. No meu quarto, me larguei na minha cama com um sorriso enorme no rosto.
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