Nem Sempre é Para Sempre
1 Capítulo Único - Um Momento Triste
Notas iniciais
Como o de costume, levantei-me cedo naquela manhã. Um pouco receosa, entrei debaixo da água do chuveiro e ali em baixo pensei o que faria no dia. Com certeza iria escrever um pouco, aquela era uma atividade que nunca me cansaria.
Depois de me secar, procurei um vestido e prende meus cabelos em um coque. Preparei um pouco de café e me sentei na varanda da cozinha, uma sensação estranha fluindo por meu corpo.
Depois de ficar observando o sol ficar cada vez mais forte e quente, terminei os últimos goles de meu café e permanece sentada ali. Ainda teria que ir ao supermercado comprar leite, frutas e papel-higiênico, coisas que já estavam em falta a dois dias. Faltava também ir a lavanderia pegar o terno de papai.
Balancei a cabeça. Não, definitivamente não era aquilo que eu queria fazer e nem o que meu cérebro mandava.
Eu sentia que não. Fui para dentro e decidi escrever um pouco. Sempre me acalmava e me ajudava a pensar com mais clareza.
Fiquei uns bons dez minutos olhando para o teclado do meu notebook e nada me veio a escrever. Passei as pontas dos dedos ali, sentido as pequenas teclas.
Decidi sair um pouco para tomar um ar e aproveitar para tentar saber que sensação estranha era aquela.
Procurei um par de sapatilhas e coloquei no ombro minha surrada — mas que eu amava -, bolsa de tricô. Tranquei a porta e suguei o máximo de ar que eu pude e senti meus pulmões agradecerem por tal ato. Fazia tempo que eu não saia de casa.
Caminhei até o parque coberto por arvores que tinha em frente e sentei-me em um banco. Comprei uma garrafa de água para me refrescar.
Foi quando minha atenção chegou a um casal. O que mais me prendeu foi que ele estava de cadeiras de rodas. A moça — cabelos castanhos e armados, uma pele branca e um doce sorriso -, estava sentada no colo dele enquanto o mesmo usava sua cadeira motorizada para movimentá-los.
Como o parque tinha uma área sem gramas, um longo caminho de pedras, não teve dificuldades para ele.
Ela sorria muito.
Ele, porém, não tinha um certo brilho nos olhos.
Ela, eu vi, qualquer pessoa poderia ver, estava incondicionalmente apaixonada por ele.
Ele, não que o sentimento não fosse recíproco, mas tinha alguma coisa errada.
"A sua mãe disse que poderia disponibilizar da casa de campo para a realização do casamento." Escutei ela falar.
Discretamente, olhei sua mão e ali brilhava um discreto anel de noivado.
"Acho que não precisa tanto." Ele falou.
"Então se não for na casa de campo dos seus pais, onde vai ser?" Ela perguntou. A todo momento eu lutava contra minha mente para ir embora, mas eu já não conseguia mais. O jeito rígido dele estava me intrigando. "Oh, poderia ser no chalé do seu irmão!"
"Acho que não." Ele franziu a testa incomodado com algo. Não passou despercebido pela moça em seu colo. A morena colocou as mãos no rosto dele.
"O que foi? Está com dor?"
"Precisamos conversar." O homem tirou as mãos dela de seu rosto. A semblante alegre da moça caiu. "Andei pensando sobre o casamento... e acho que não é uma boa ideia."
Aquele assunto estava estranho até para mim. A morena arfou como se sentisse uma dor física.
"Como assim?" Seus lábios tremiam de medo. "O que quer dizer com isso?"
"Não quero mais me casar."
Pude ver algumas lágrimas molhando as bochechas dela enquanto a mesma não desviava o olhar do homem.
"Depois do acidente está tudo mais complicado..."
"Nós não precisamos ficar complicados..." Ela tocou de novo o rosto dele. O vi inclinar o rosto junto com a mão, como se o toque dela fosse divino.
"Já está tudo complicado, Hermione." Ele soou frio. "Não quero te prender a mim, eu estando nessa maldita cadeira. Meu pedido de casamento foi um erro."
"Sou um erro para você, é isso?" Falou ela magoada.
"Não, você não é um erro." O homem segurou os pulsos dela. "Você merece coisa melhor do que se prender a uma pessoa que não pode te oferecer nem o simples prazer de acompanhá-la a onde for!"
"Você pode!" A morena estava ficando levemente furiosa e vermelha. Ela encostou a testa na dele e fechou os olhos. Tive que me controlar para não me aproximar mais para escultar o que ela sussurrava. "Eu posso te fazer feliz..."
"Sei que pode... Mas me dê a chance de te proporcionar a felicidade também. Mas não ao meu lado"
"Por favor..." Ela suplicou, a voz carregada de dor. "Não faz isso. Você não está me dando uma chance, não está NOS dando uma chance!"
"Não, Hermione." Ele a afastou e tirou um anel de sua mão direita, deixando-a chocada. Ela saiu de seu colo e ficou de frente para ele. "Eu vou te amar para sempre."
E foi embora.
Ela ficou com parada, olhando para a mão em que o ex-noivo deixara o anel com ela.
Me aproximei e lhe toquei o ombro.
"Está tudo bem?" Sabia que uma pergunta idiota, mas...
"Não." Respondeu sem me olhar. "Não está nada bem e nunca estará."
Virou-se sem esboçar nenhum sentimento e foi-se embora.
Agora eu sabia o que eu tanto sentia. Dei meia-volta e caminhei para a minha casa, os dedos coçando para escrever.
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