Neko no Noroi
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Eu tive esse sonho já inúmeras vezes. Um lugar deserto e escuro. Lembrava-me meu próprio interior, quieto e tranquilo. Logo essa tranquilidade se quebra, lentamente as paredes começam a vibrar como pequenas ondulações na água. Começa a desabar o teto e eu corro. Corro sempre em frente, como se não houvesse um amanhã. Então eu tropeço e caio. Desesperado para voltar a correr, vejo uma mão estendida para mim, em sinal de ajuda... E acordo. Pergunto-me de quem era aquela mão...?
Achei melhor esperar o amanhecer, assim seria mais fácil achar alguém pelo caminho ou caso as pessoas que me compraram cheguem até esta sede, o que duvido, obteria ótimas informações.
Bem, nada aconteceu. Invadi a cozinha e comi alguma coisa, depois parti. Era por volta das dez horas da manhã e não importava para onde andasse, só tinha mato. E também não conseguia sentir o cheiro da cidade.
Achei um pequeno rio, o que era muito útil, já que estava com sangue seco por todo o corpo e a camisa que usava era uma três vezes maior do que eu – havia roubado de alguém que não precisaria mais. Despi-me e entrei. A água gelada era ótima, mesmo que eu não gostasse muito de água.
— PERVERTIDO~! – Repentinamente ouvi um grito.
Quê? Onde? De onde ela havia surgido?! Não tinha cheiro, nem presença!
O contorno de uma garota apareceu a uns quinze metros de distância. Não era muito visível, quer dizer, eu não conseguia ver bem, mas ela tinha um curto cabelo castanho, extremamente liso. Estava nua, mas já cobria seu corpo com as mãos, então não vi nada de mais. Porém, isto não estava certo... Mesmo de longe, conseguia ver algo se mexendo.
Eu me virei e sai, colocando de volta as minhas roupas, agora molhadas, e indo atrás de uma árvore.
— Eu não sou nenhum tipo de pervertido, então saia daí e se vista.
Depois de algum tempo, ela veio até mim e disse, já vestida:
— Só não fugi por que estou perdida! – E cruzou os braços, em protesto.
— Que coisa... – Ela não estava numa situação muito diferente da minha...
Repentinamente ela se aproximou e me olhou nos olhos, como estava ainda com a roupa que roubei, porém molhada, já que tentei tirar as manchas de sangue, algumas das cicatrizes eram visíveis, porém nada comprometedor. Ela me encarou por um longo período, e então falou baixo para si mesma:
— Sabia que nos atraíamos, mas nunca imaginei que era tão forte assim...
— O quê? – Ouvi perfeitamente, mas perguntei para ver se ela explicava.
— Ah, nada não. – E sorriu.
O que se atraía...?
Ela, sem nem ao menos perguntar meu nome, agarrou-me pelo braço e me puxou.
— Fiz uma cabana aqui perto ontem, então vamos buscar minhas coisas e partir. Ainda tenho que chegar às Terras Centrais hoje.
Mas que tipo de pessoa acha alguém no meio da floresta e simplesmente puxa ela por aí querendo que viagem juntos, sem nem saber para onde ela iria?! Já é suficientemente estranho encontrar alguém pelado do seu lado num rio...
Enfim, ela guardou as suas coisas, sem se dar a importância de pedir a minha opinião e partimos.
— Ei, para onde você está indo? – Disse, seguindo-a. Ainda havia algo de estranho nela, talvez até fosse um representando dos que me compraram.
— Para o oeste! – E apontou para frente. – Mais 3 quilômetros ao oeste e devemos chegar às Terras Centrais.
— O oeste é para lá. – E apontei para a direita.
Ela imediatamente virou-se num passo longo e, como se nada tivesse acontecido, voltou a caminhar para o verdadeiro oeste.
— Onde você mora? – Ela disse, ainda olhando para frente, assoviando.
— Momentaneamente nas Terras Centrais.
— Oh~ E o que está fazendo aqui na floresta? Quer dizer, como não sabe chegar até a sua casa, criança perdida? – Ela parecia ter uns dezoito anos, então devia considerar-me uma criança.
— É que não faz um mês que moro lá. Na verdade, nem sei onde estou agora.
— Ah! – Ela parecia pensar um pouco. Pela primeira vez desde o começo da nossa caminhada, ela se virou para mim e disse, sem parar de andar. – Quantos anos você tem?
— Treze. – Foi a idade que me deram ao vir para as Terras Centrais.
Até eu, um ser sem contato com a sociedade, sei que primeiro pergunta-se o nome das pessoas antes de fazer esse tipo de questionário...
Ela parecia decepcionada com a resposta, virou a cabeça e continuou a andar num ritmo acelerado. Nada mais disse até que, de longe, viu o portão principal das Terras Centrais, o qual eu, com minha visão embasada, não havia visto.
— Chegamos! – Entusiasmada, começou a correr em direção a ele.
O portão, enorme, erguia-se imponente sobre nós, com todas as suas entradas devidamente fechadas e supervisionadas, seus detalhes em dourado – ainda não sei se é ouro de verdade – esculpido parte em pedra, parte em madeira; era magnífico. Quase tão majestoso quanto a sede do governo... Pensando nisso... O governo me lembra de Yoshifumi-san... E isso me lembra...
— PEGUEM AQUELE GAROTO!
Ferrou.
Quando me dei conta, já estava com as mãos algemadas e na sala de Yoshifumi-san, com ele sorrindo sadicamente do outro lado de sua poltrona.
— Então... Por que saiu das Terras Centrais? Pior que isso, por que desapareceu por dois dias sem falar nada?
Eu sorri de volta, como um gesto de “não é minha culpa” e tentei explicar:
— Bem, eu fui raptado, sabe...
— Não interessa, por que se deixou ser capturado então?
— Como ia dizendo, eu não estava prestando atenção...
— Isso é mentira, você está sempre atento.
— É que eu estava cuidando de uns gatos...
— Você não pararia para cuidar de nada, nem mesmo de sua própria espécie.
Fiquei quieto, deixe-o pensar o que quiser.
Um silêncio inquietante se apossou, ele pegou algumas folhas e virou-as, ainda sem falar, até a quarta ou quinta, quando disse, suspirando:
— Essa pode passar, mas não cometa esse tipo de erro mais vezes. Aliás, quem foi que te raptou?
— Aqueles que atacaram o senhor de terras traficante...
— E te atacaram por quê?
— Pelo cartaz de procurado, eles não sabiam mais do que o meu preço, muito menos sobre quem pedia minha cabeça.
— E o que fez?
— Matei todos.
— Certo. – Virou mais uma folha e exclamou. – Achei! Garu-chan, aqui. – E me entregou a folha. – Achamos uma base deles no extremo leste das Terras Altas ao Leste.
Li por cima e dobrei porcamente, pois minhas mãos ainda estavam algemadas, depois leria com mais atenção.
— Agora, você não tem que ir? Parece que tem os Viginti fizeram a maior comoção enquanto você estava fora, me deu muita dor de cabeça acalmá-los... – E sorriu.
Tirou minhas algemas, sorrindo como se estivesse me metralhado mentalmente. Sai o mais rápido que consegui. Aquele sorriso era medonho.
Na porta, encontro encostada à parede do edifício aquela estranha garota que não se importava em perguntar meu nome.
— Ei, você foi rápido! Achei que tivessem lhe prendido, já que houve a maior comoção pra lhe capturarem.
— Bem, foi algo do tipo. – Disse, indiferentemente. Agora já sabia o caminho, então seguia em direção ao alojamento, com ela me seguindo também.
— Aonde você vai?
— Na minha “casa”.
— Ah~ — E continuou me seguindo.
O alojamento é grande e os Viginti são bonzinhos, então não teria problema em levá-la. Claro que tem uma razão: ela era suspeita. Desde que não conseguia sentir sua presença, até o modo como nos conhecemos, tudo parecia suspeito de mais para deixar passar. Se fosse uma assassina, confio em minhas habilidades, uma vez que não me atacou quando estava desprevenido, agora não teria mais chances para.
Abri a porta, entrei e deixei-a aberta, ela me seguiu e, depois de entrar, fechou-a. Depois do primeiro passo lá dentro, já ouvia barulhos, quase como os de uma manada se aproximando:
— G-A-R-U!!! – Era a voz da Mayumi, gritando raivosamente meu nome. – COMO TEM A AUDÁCIA DE VOLTAR AQUI DESSE JEITO-
E ficou muda ao nos ver. Com expressão de desentendida, encarou a garota e, com uma reação muito lenta, gritou:
— O QUÊÊÊ?! Q-Quem é ela?!
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