Neko no Noroi
7 Capítulo 7
Eu deixei de ser uma criança, para ser uma máquina. Uma máquina que só visa à própria sobrevivência. Meus pais me criaram de tal forma que não hesitaria de matar até mesmo a eles se isso fosse necessário. Dia e noite treinavam meu corpo para ser resistente a dor, a choques, a venenos, a cansaço... Não é exatamente o que pais normais fariam, certo? Mas o que você faria se milhares de assassinos desejassem seu filho morto?
O quarto era pequeno e fechado, bastante escuro também, o que pra mim não fazia diferença, pois enxergava perfeitamente. Estava muito frio, principalmente porque eu estava molhado, sem blusa e acorrentado numa posição desconfortável, pendurado com os braços pra cima numa corda grossa que se erguia até o teto. Ao acordar, me ajoelhei, dando uma folga para os meus pulsos já machucados. Bem, ajoelhar é um termo, pois meu corpo estava tão mole que eu mais deslizei do que propriamente dito ajoelhei...
— Ei, o garoto acordou. – Uma voz vinha de trás. Na medida do possível, me virei para ver quem eu teria de matar quando conseguisse me mexer perfeitamente. Já comecei a mexer no céu da minha boca, só esperando uma oportunidade...
Obviamente não o conhecia, aliás, por que conheceria alguém que me sequestrou? Também é óbvio que, se me sequestraram, ou querem o poder da minha maldição ou são contratados por pessoas que o querem, tão óbvio quanto o fato de eles estarem relacionados com o grupo que nos atacou nas Terras Baixas ao Leste, quando protegíamos o senhor de terras. Afinal, nenhuma outra pessoa do submundo me viu depois de eu ter destruído as Terras Altas ao Sul.
Logo que o homem relatou meu despertar, um gordão entrou por uma porta enferrujada que estava bem à minha frente. Quando ele abriu a porta, uma luz sintética entrou, então suponho que já seja noite... Talvez tenha dormido por umas três horas ou mais. Próximo passo é descobrir onde eu estou. Tem cheiro de mato e ouço alguns insetos, então na cidade não estamos mais... Tomara que não tenham me tirado das Terras Centrais, seria problemático descobrir o caminha de volta...
— Oh, então é ele? – Disse, ao fechar a porta, se achando importante.
Andou até a minha direção com um ar esnobe e segurou meu queixo, deixando-me de frente para ele.
— É realmente nojento! – Eu então abri os olhos e o encarei. Quando ele percebeu que o olhava, tremulou levemente, assustando com meus olhos de gato vermelhos. Porém, antes dele ter tempo de recuar instintivamente, o outro homem que estava lá foi até seu lado e disse:
— Até eles chegarem, tenha a certeza de conseguir tudo o que ele sabe, mas não deixe marcas! – Então foram contratados.
— Pode deixar. – Ele respondeu desviando o olhar dos meus olhos.
O outro homem saiu da sala e então ficamos sós, eu e meu torturador.
— Ei, tio, já que você não pode me matar, que tal brincarmos um pouco? – E o encarei.
Ele deu um passo para trás, mas logo voou em minha direção e deu-me um soco no rosto, esbravejando:
— Quem vai brincar aqui sou eu! – Eu ergui minha cabeça e sorri, com o canto da boca sangrando.
Ele ficou bem irritado. Sempre foi fato que um torturador tem que ser calmo, uma pessoa mentalmente instável é facilmente controlada... Ele acha mesmo que é só questão de força e dor?!
Bufou algumas vezes até puxar uma cadeira de madeira e se sentar na minha frente, perguntando:
— Ei, você sabe alguns segredos das Terras Centrais, não? Quero muito bater em você, mas tenho que dizer isso por cortesia... Então, se quiser falar agora, talvez te bata menos.
- Hm, lá foi bem difícil de me segurar durante o interrogatório... – Certamente, quase matei o torturador. – Eles eram muito bons, diferente de você.
Ele parecia inquieto na cadeira, então levantou-se e chutou minha barriga algumas vezes. Doía, mas era bem suportável.
— Garoto arrogante de merda! – E continuou me chutando por um tempo, até bufar novamente. – Vamos, fale tudo logo! – E foi até o canto da sala, pegando um balde e jogando aquela água fria sobre mim.
Sinceramente, sentia mais o frio do que os hematomas em si...
— Aposto que você sofria bullying na escola... Com esse seu tamanho. – Ainda me sentia um pouco dormente.
Ele, a cada palavra minha mais irritado, pegou um marrete e espancou meu rosto. Isso por que o outro disse que não era para deixar marcas... Esse tipo de pessoa é a mais fácil: um péssimo sadista. Aquele que não sabe torturar, aquele que se estressa facilmente, aquele que nem ao menos sabe alguma técnica decente para extrair informação...
Cuspi algo de sangue e então ele riu alto e gritou:
— Hahaha! Quem era que ia brincar mesmo?!
— Ei, você sabe que não pode me matar, certo? – Disse, calmamente. – Que só o meu cabelo já vale mais que a sua vida...
— Então vou te deixar perto disso, pivete de bosta! – Ele colocou um soco inglês e voltou a me socar no rosto. Agora doía consideravelmente mais, já que ele insistia no lado esquerdo da minha face.
Já sangrava há algum tempo quando ele, ofegante, decidiu parar para respirar. Eu, já mais acordado da dormência de antes, levantei meu rosto e o encarei por um bom momento, suava litros, parecia cada vez mais irritado e, olhando minha indiferença, sussurrou num tom indignado:
— Quem é você...? – Então aumentou seu tom de voz. – Diga alguma coisa logo! Grite! Implore perdão! Porra, chore pela sua mãe!
Finalmente consegui pleno controle sobre meu corpo e o momento perfeito pra fuga era esse. Sinto muito, gordão, foi legal brincar com você, mas isso terá que acabar...
— Ei, tio, você já viu minha tatuagem? – E me levantei, mostrando meu abdome. O gato estava em minhas costas, andando sorrateiramente em direção à minha barriga.
Ele estava paralisado, em pânico. Sorri.
— Sabe, eu estou amarrado, mas mesmo assim ela se mexe. Será que também não poderia sair livremente por aí?
E lancei uma agulha no ponto vital do seu pescoço. Ele caiu morto logo após, estava em pânico demais para ter desviado.
Agora que estava sozinho e meu corpo me obedecia perfeitamente, o único problema eram as cordas que prendiam meus braços. Sorte minha que eu sempre levava algumas agulhas escondidas por dentro do céu da boca... Depois de se acostumar, elas não incomodam mais, além de serem práticas, pequenas e fáceis de utilizar.
Mesmo levantado, minha boca não alcançava minhas mãos, então ergui meu corpo, me equilibrando pelos pulsos e joguei meu peso para cima, ficando de ponta-cabeça. Quando minhas pernas tocaram a corda, segurei-me lá com elas e fui descendo, ainda de ponta-cabeça, até a agulha que estava na ponta da minha boca chegar ao amarrilho da minha mão. Demorou um pouco para conseguir cortar a corda, considerando a arma ineficaz...
Quando me soltei, larguei a corda e dei um mortal no ar, parando de pé no chão e descobrindo que os socos do gordão inútil realmente doeram... Bem, pelo menos era só um irritadinho sem técnica. Uma ou duas horas de sono arrumariam isso, vendo a recuperação rápida que a maldição me condena. Às vezes, até ela pode ser útil.
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