Neko no Noroi

14 Capítulo 14


Bem, se me perguntarem o que acabou de acontecer, posso afirmar que não entendi nada. Na minha frente, aquele que eu achava ser o “Cão” e lutei logo no princípio, estava estirado morto. Na verdade, acho que ele nunca chegou a estar vivo, pelo menos não desde que eu o conheci... Isso pode ser estranho, mas ele nunca teve presença alguma, nenhum som, nenhum calor, nada. A espada que sumiu, penso ser ou uma ilusão ou um teletransporte, já que agora só havia uma e era a que tinha quase me decapitado.

E, por último, quem quase me decapitou. Esse estava vivo, mas desacordado... Tomara que não seja coma, ainda necessito das informações.

Por eu não ser médico, por ele não acordar, por não ter as mesmas capacidades regenerativas que eu, pelo tempo que podia deixar os Viginti presos e pelo fato de que o pequeno corte no meu pescoço ardia levemente – o que é estranho sendo em mim – decidi amarrar e carregar o corpo morto, o estranho que me atacara e a espada e voltar para onde era o acampamento.

Hm, onde era mesmo? Se não me engano, por aqui... Não é longe... Bem, não posso dizer que me perdi, só peguei um caminho mais longo, já que cheguei onde queria. Larguei o corpo desacordado e o morto em um canto enquanto entrava na barraca onde tinha deixado Kanro, ele parecia dormir confortavelmente. Desamarrei-o e imitei novamente sua voz, abrindo a mesma porta de algumas horas atrás.

Ryuu estava encostado em Mayumi, um de costas pro outro, enquanto que ela roncava ruidosamente e, para minha surpresa, Tisha estava sentada ao lado deles, bem acordada e me encarando, enquanto me aproximava. Não pude deixar de pensar que essa foi a primeira vez que ela olhava para frente ao invés de um livro, talvez estivesse realmente entediada – ah, mas sua expressão era igualmente neutra.

– Er, Tisha-san já acordou...? – Agora finjo uma amizade ou ignoro-a? Quem eu quero agora é Mayumi, a única médica.

Ela lentamente ergueu o braço e deslizou, apontando para seu próprio pescoço e, sem tirar os olhos de mim, disse:

– Outra maldição?

– O quê?

Apressei-me em correr o resto daquela longa escada e chegar até aquele chão infinito espelhado que finalmente se mostrou útil. A imagem não era nítida, mas dava para perceber claramente um anel com grossas palavras escrito em volta do meu pescoço e ele ia se ramificando em mais e mais palavras que se espalhavam sobre minha pele.

Droga! O quê é isso?! Elas estão se escrevendo por todos os lados! Agora já cobrem quase todo o meu pescoço e uma boa parte de minha bochecha esquerda.

– Tisha-san, por acaso sabe o que é isso?

Ela acenou que não. Fui até onde Mayumi estava e a balancei, se Tisha já tinha acordado, aposto que os outros já estão a ponto de acordar também.

– Ei, Mayumi-san, Mayumi-san! – Sua bolha de sono pareceu estourar e ela abriu os olhos com uma cara de boba.

– Hãm... Garu? – Ela ainda não havia me visto, estava sentando-se de costas pra mim e olhando lentamente ao redor. – Onde a gente está?

– Er... Depois eu explico, temos coisas mais importantes para nos preocuparmos agora... – Dramatizei.

Ela se virou com uma cara amassada de sono e me encarou por um segundo. Então gritou a apontou para meu rosto. Uma reação um tanto quanto lenta...

– G-G-G-Garu... O-O que é isso em você?!

– Podemos conversar depois? Só me siga, por favor... – Suspirei e subi a escada que conectava a nossa dimensão. Ela me seguiu obedientemente, por mais incrível que pareça. Tisha também nos seguiu, deixando ao fundo o ronco solitário de Ryuu.

Chegamos até a superfície e fui direto onde o corpo desmaiado estava, verifiquei se ainda havia pulso, e havia, então me direcionei a Mayumi:

– Eu preciso que ele acorde.

– “Você precisa que ele acorde”... Puf, desculpe-me, centro do universo, mas nem tudo é possível! – Debochou. Aproximou-se dele e tomou um ar sério. – Mas faremos o possível.

Ela começou a apalpá-lo e cuidar de suas feridas, pediu pequenas coisas como pano molhado e a bolsa de primeiros socorros; não demorou muito para seu veredito:

– Ele não vai acordar tão cedo, estimo uns dois dias...

– Droga! – Sussurrei.

– O que aconteceu aqui, Garu? – Disse mais autoritária.

– Aconteceu que eu não sei o que é isso! – E apontei para meu próprio pescoço. Pelo canto do olho já via alguns símbolos em minha bochecha e nariz.

– Tisha, você não consegue ler isso? Alguns dos seus livros têm os mesmos símbolos...

– Sim, consigo, é só uma língua morta.

Você tinha dito que não sabia o que era, maldita!

– “Só um amaldiçoado pode lançar uma maldição. O sangue deste me fará acordar e pela espada correrei até outro alcançar. Escreverei sobre sua pele seus segredos e logo que acabar, eles irão lhe matar. Lembre-se de quem lhe amaldiçoou, sozinho ele pode lhe libertar, mas se longe ele estiver, seu sangue na espada me fará retornar.” É o que está no pescoço.

– O que isso quer dizer? – Disse Mayumi.

Está confuso demais! É ambiguidade demais para um texto só! A quem se refere o “lhe”? A mim ou a quem me amaldiçoou? O que está sendo escrito sobre minha pele são meus segredos?

– Mayumi-san, você consegue ler alguma coisa? – Perguntei.

– Não, nem um pouco...

– Tisha-san, o que está sendo escrito na minha pele, você pode ler?

– Sim, posso.

– E o que diz?

– Seus segredos, pelo jeito. – Ficamos um segundo em silêncio até ela continuar, sempre falando em baixo tom e olhando fixamente para um ponto. – Toda maldição tem algo que denuncia o amaldiçoado. Normalmente é alguma tatuagem sobre a pele que diz coisas sobre a própria maldição. E ela nunca mente. Então, se ela disse que “escreverá sobre sua pele seus segredos e logo que acabar, irá lhe matar”, é isso o que ela vai fazer.

Vendo pelo lado positivo, eu tenho tantos segredos que demorará uma eternidade para escrevê-los...

– Pera aí, então isso vai matar o Garu?! – Gritou Mayumi.

Tisha afirmou, sem sentimento algum.

– Se ela nunca mente, quem lançou a maldição pode tirá-la ou então meu sangue sobre a espada? – Ignorei Mayumi.

– Provavelmente, se tiver interpretado certo.

Não pense errado. Eu não confio cegamente no que ela diz, aliás, eu não confio em nada. Porém faz suficiente sentido para que eu arrisque. Nada até então parecia anormal, a história da marca das maldições é aceitável e que elas não mentem também, mas o que está escrito é duvidoso, sendo que Tisha pode estar lendo errado ou me enganando, o que é mais provável.

Nessa situação, não tenho tempo para esperar o desmaiado acordar, nem para ir até as Terras Centrais, procurando uma segunda opinião, que também seria duvidosa... Se fosse analisar a personalidade de Tisha, eu diria que ela está falando a verdade, algo como 64% de chance de dar certo. As chances são altas e é melhor do que ficar parado. Aliás, mesmo ferido teria meus métodos para uma possível ameaça vinda dos Viginti ou de quem quer que possa me atacar enquanto isso.

– Espada? Que espada? – Ouvia Mayumi falando enquanto eu ia em direção à barraca onde Kanro estava amarrado.

– Ei, Kanro-san, acorde. – Balançava o enorme garoto. – Kanro-san! – Insisti.

A princípio ele não se mexeu, durou umas boas chacoalhadas até soltar o primeiro grunhido, outras pares para abrir os olhos. Quando tentou falar, embaralhou tudo por causa do efeito anestésico.

– Kanro-san, só me escute. Eu preciso que você mantenha Mayumi-san, Tisha-san e Ryuu-san longe de mim por um tempo, provavelmente não dure mais do que trinte minutos, porém nesse tempo vocês não podem se aproximar, entendeu? É realmente muito perigoso. – Ele me olhou sem entender, fixando também na nova maldição. – Talvez não consiga me manter acordado, então você é o mais sensato daqui... Lá fora tem dois inimigos potencialmente perigosos, um deles está inconsciente e outro fisicamente morto, mas ainda é duvidoso se ele pode ou não atacar. Quando conseguir se mover, a primeira coisa que quero que faça é prendê-los na dimensão que achar mais conveniente e não abrir essa porta em hipótese alguma, para ninguém além de mim.

Virei-me para sair, quando fui interrompido por um puxão na manga de minha blusa. Impressionante, ele já conseguia se mover, mesmo que pouco.

– Garu-kun, eu sempre tolerei seu egoísmo porque isso não nos afetava, mas se um capricho seu puser May-chan e os outros em perigo, não pense que deixarei barato!

Virei e sorri. Inesperado, mas veio a calhar.

– Por isso mesmo que conto com você para seguir o que lhe pedi. – Continuei andando e, de costas, falei. – Alias, Ryuu-san está dormindo onde nós normalmente treinamos, deve acordar logo, então não se esqueça de tirar ele de lá.

Voltei até onde estava Mayumi, ajoelhada e cutucando a espada de longe, sem entender muita coisa.

– Garu, é isso daqui? – E olhou para mim. – Onde você esteve? O que aconteceu?

Suspirei.

– Vocês duas, não importa o que aconteça, não relem em mim até tudo voltar ao normal. Ouviu, Mayumi-san? – Reforcei em quem certamente desobedeceria.

– Por que eu?! – Gritou nervosa. – Não! Antes disso, o que foi que...?

Ignorei-a novamente, calculando um lugar onde não atingiria nenhum órgão vital ou algum nervo importante. Seria por volta de quinze centímetros de largura e cinco de profundidade. Certamente aquilo iria aparecer.

Na área abdominal, entre o nervo iliohipogástrico e as veias intercostais do lado esquerdo, abaixo o suficiente da última costela falsa para não relar na primeira flutuante, perfurando diagonalmente a parte frontal do cólon descendente e do jejuno, levando em conta a contaminação e a perda de sangue, este é o lugar de menor dano.

\"\"

Notas finais
É um personagem bem parecido com como eu imagino o Garu, gostaram? Eu que pintei! Na verdade o cabelo dele é maior pra esconder os olhos, mas imaginem, ok?
Ah, quem descobrir de que mangá eu peguei essa imagem recebe um beijo na testa! Dica: é muito bom, u_u.