Neko no Noroi

3 Capítulo 3


O primeiro dia com certeza foi o mais perturbador, afinal pessoas não gostam de mudanças quando estão cômodas com seus pequenos mundos perfeitos, e eu era a mudança. Achei até que poderiam ter me desmascarado e eu não poderia mais fazer o papel de bonzinho enquanto me aproveitava da situação, mas depois de um tempo eu percebi que ninguém tinha notado nada e então continuamos nossas “felizes” vidas como uma equipe de elite.

Minha rotina era basicamente acordar quando ouvia o café-da-manhã – não lembro se comentei, mas tenho sentidos apurados, menos a visão, quer dizer, eu não enxergo perfeitamente de longe, mas no escuro ela é perfeita – depois de comer saia para tentar reunir alguma informação e me localizar na cidade – não podia deixar Yoshifumi-san fazer todo o trabalho, também tenho de conseguir achar o que quero por mim mesmo e ir além do que ele consegue fazer – voltava para o almoço e então fazia algo com os Viginti, como por exemplo os treinos, quando não aulas teóricas, etc etc, também tinha a janta e a noite saía para informações, a noite sempre fica mais fácil de conseguir as coisas, talvez por que eu seja um “animal” naturalmente noturno.

Passou-se quase um mês e nada animador surgiu, mesmo que eu procurasse intensamente, as boas informações não eram fáceis de achar, principalmente sobre o que quero saber – um segredo tão obscuro quanto a verdade. Satore-san também raramente aparecia, sempre vinha perto de uma refeição e saia logo que acabava, sumindo de repente e fazendo com que Mayumi corresse atrás dele. Aparentemente não havia falado nada que não podia, isso é bom. Porém este pareceu um tempo perdido... Até que, em uma das raras vezes que Satore-san vinha para o dormitório, ele anunciou:

— Temos uma missão! – E sorriu.

Os Viginti, como já havia comentado, era um grupo de elite que estava sendo treinado para futuramente proteger as Terras Centrais. Vez ou outra eram convocados pra missões, que consistiam basicamente em uma amostra do que fariam mais tarde, claro que mais simples e com supervisão. Era fácil convocar a ajuda do governo, pelo que sei, você pode entrar com um pedido ou uma contratação; o primeiro podia não ser aceito, já o segundo pagava-se uma taxa para o serviço. Como sempre, o dinheiro controla o mundo.

Não sei como, mas Satore-san convenceu Yoshifumi-san a me deixar sair das Terras Centrais. Bem, desde que “negociei” minha situação com Yoshifumi-san, ele impôs várias coisas, uma delas é que não poderia sair das Terras Centrais sem autorização e supervisão. Entendo seu ponto de vista, sou um perigo e devo ser controlado.

Sairíamos na semana seguinte, o pedido era de um grande senhor de terras que queria uma escolta para suas férias nas fontes termais das Terras Baixas ao Leste. Não era longe e o lugar também não era interessante a meu ver. Uma típica vila rural baseada no turismo e na agricultura. Seria difícil achar algo vantajoso para mim lá...

Enfim partimos. Mayumi e Ryuu estavam cantarolando felizmente na frente – vale lembrar que Mayumi ficou realmente muito animada quando Satore-san mencionou sobre as termas – Kanro um pouco atrás conversava com Satore-san, também animado, mas não ao nível extremo como Mayumi e Ryuu; sobre Tisha, nem comento, ela virou a página de seu livro. A nossa frente, o senhor de terras estava em algum lugar no meio de seus próprios guardas, uns 20 talvez. De relance vi uma cabine de madeira, com espaço suficiente para apenas uma pessoa, com outras quatro a carregando, supus que lá estava nosso protegido.

A ida foi rápida e tranqüila, chegamos por volta das sete da noite, cansados de tanto andar. O senhor foi direto para a casa principal, seguido de alguns guardas, outros cercaram o lugar e ficaram revezando-se. Nós, por outro lado, ficamos em um chalé por perto. O lugar era bonito e confortável, porém extremamente pequeno... Contando com Satore-san, estávamos em seis pessoas e o chalé só tinha três quartos, se formos comparar com o dormitório, deve ser cerca de um décimo do espaço (mas o dormitório não é referência para nada, aquele lugar é enorme). Mayumi, a soberana do lugar, decidiu por si mesma que as garotas deviam ter um quarto próprio, ou seja, Satore-san, Kanro, Ryuu e eu dormiríamos no mesmo quarto.

Acordamos como se não tivéssemos dormido. Logo cedo o senhor de terras decidiu ir passear, e a única coisa que fizemos a tarde toda foi seguir a “cabine de madeira” por todo lado, numa cerimônia de chá, numa loja de móveis, num encontro de anciões, num passeio pelo bosque... Tudo, menos o que Mayumi mais queria, e isso estava deixando-a nervosa.

— Ah! Quando esse velho gagá vai nos deixar em paz?! – Gritava ela quando já passava das cinco da tarde.

— Se acalme May-chan, ouvi dizer que o senhor dorme cedo. – Tentava Satore-san.

Satore-san tinha razão, não passava das seis e meia quando o senhor de terras voltou para seu quarto e nos dispensou. Ainda estava razoavelmente claro, então Mayumi arrumou tudo para sair às termas. Todos a acompanhavam quando olharam para trás e me viram ficar, Ryuu, que estava mais perto de mim, falou:

— Vamos, Garu-kun.

— Eu não vou.

Claro que não iria. Além de não ter interesse em termas, meu corpo estava coberto de cicatrizes e o maior sinal da maldição estava gravado sobre meu peito. Como poderia deixá-los ver algo assim?

— Hm, por quê?

— Vou vigiar a casa principal. – Menti.

— Mas...

— Contamos com você, Garu-chan! – Disse sorrindo Satore-san.

E foram. Esperei sumirem de vista e sentei sobre o telhado. O silêncio e a calma eram reconfortantes, aquele clima até me lembrava das Terras Altas ao Sul, era tudo tão parado e tenebroso, que o sentimento de vida se esvaia e o de solidão se apossava. Não que isso seja ruim, pelo contrário, me sinto livre de ter de atuar como o menino bonzinho e coitado, que perdeu tragicamente os pais e que não tem mais para onde ir. Era uma noite bela. Acho que esse mês convivi mais com pessoas do que gostaria, estou cansado...

De longe ouvi um barulho, que ficava mais perto rapidamente. Eram passos, quatro pessoas sorrateiramente correndo em direção da casa principal. Claramente eram inimigos... Deveria eliminá-los?

Fui até a borda do telhado e pude vê-los claramente, pareciam bem organizados, todos com o mesmo uniforme camuflando-se perfeitamente; azar deles que eu estava por perto, ninguém os teria notado se não fosse assim. Segui-os de longe, esperando para ver o que acontecia, quem sabe poderia descansar enquanto os guardas do senhor faziam meu trabalho. Logo vi um dos invasores fazendo um sinal, mais a frente havia um guarda um pouco afastado da entrada da casa principal, o sinal claramente era para avisar os outros do inimigo, então o que estava na frente correu rápida e silenciosamente até onde o guarda estava e deu-lhe um golpe de espada, rasgando verticalmente seu tronco. O guarda não teve tempo nem de ver seu assassino, caiu morto imediatamente.

Oh~ E agora, o que eu faço? Deveria impedi-los ou assistir a morte do senhor de terras e de seus guardas? Bem, se eu tivesse ido até as fontes, não estaria vendo nada disso. Mas também terei de ouvir muita besteira de Satore-san e principalmente de Yoshifumi-san se a missão falhar. Hm, dúvida cruel... Eu realmente não me importo pela morte deles e é problemático interferir, mas também não teria problema em lidar com esses invasores. Bem, tudo pela confiança de um bom contato, certo?

Decidi fazer isso rápido e sem sujeira, o mais discreto possível. Começando pelo que estava atrás, matei-o sem que nem ao menos percebessem; depois complicou um pouco quando ia atingir o que corria perto de uma construção à esquerda e ele, me percebendo, se desviou o suficiente para que o golpe não fosse fatal. A idéia era atingir um ponto do pescoço em que a pessoa morreria sem nenhuma ferida externa, igual ao que havia feito ao outro invasor que estava atrás, porém com o desvio que este fizera, acertei-lhe o ombro, perfurando uns cinco centímetros. Pior do que o berro que ele dera e do fato de que os outros dois agora já sabiam de minha existência, era a sujeira que esse desvio causou. Tem noção de como minha blusa estava encharcada de sangue agora?

Foi impressionante como ele havia conseguido me perceber e se desviar, mas estava irritado pelo fato de que isso tinha sido um adeus a essa blusa. Azar o deles, não ia mais tratá-los “rápido e sem sujeira, o mais discreto possível”, já tinha perdido a blusa mesmo.