Neko no Noroi

11 Capítulo 11


Há muito tempo atrás, antes mesmo de a humanidade ser criada, Kami-sama convidou todos os animais para um grande banquete no seu palácio, prometendo aos doze primeiros que chegassem uma recompensa divina.

Todos ficaram animados com esta proposta. O competitivo Dragão apostou ser o primeiro a chegar, o escandaloso Macaco já preparava suas coisas, o orgulhoso Javali nem se deu ao trabalho de falar nada e o Rato, pequeno e frágil, pensava em um modo de chegar lá, pois o caminho era longo e árduo, nem todos os animais conseguiriam. Pensou e pensou, e também descobriu um sério problema... Era certo que os doze primeiros a chegar seriam os animais mais fortes e ele não tinha como derrotá-los de forma honesta. O Boi, o Tigre, o Coelho, o Dragão, a Serpente, o Cavalo, o Carneiro, o Galo, o Macaco, o Cão, o Javali e o Gato. Essa foi a ordem de chegada que o Rato supôs que sucederia. Inteligente como era, não havia a menor possibilidade de erro, certamente eram estes os que chegariam.

O Gato, o mais fraco entre estes, também era muito solitário e, no fundo, sempre quis ser amigo dos outros animas, porém nunca tivera a chance de conversar com eles, já que passava a maior parte do dia dormindo e era extremamente tímido e desconfiado. O Rato, sabendo desta fraqueza, decidiu que ele seria o animal perfeito para enganar e tomar o lugar no grande banquete.

Mais de um mês antes do dia combinado, o Rato já começou a se aproximar do Gato, conversando sobre coisas triviais e inventando desculpas para visitá-lo. Com a falsidade do Rato, não tinha como eles não se darem bem. E o Gato nem notara.

Semanas se passaram e o Gato confiava cada vez mais no Rato, até que um dia antes da grande noite do banquete, o Rato mentiu. Mudaram a data... Ele disse. E não precisou de mais uma palavra.

O Rato, para atravessar o perigoso caminho, subiu nas costas do ingênuo Boi, o mais forte dos animais e, na entrada, saltou à dianteira e chegou em primeiro, seguido pelos outros que havia previsto. No fim da festa, Kami-sama concedeu para cada um a maior honra de todas: formar o novo zodíaco celestial, o que era quase como declará-los seres sagrados.

E naquela noite, o gato não saiu do seu quarto.

— Dizem que o ódio do Gato foi tão grande que prendeu o espírito dos treze animais na terra, condenando-os a uma eternidade de rancor. Bem, ou pelo menos até que o Gato se acalme ou tenha a sua vingança. – Completou ela, dizendo tudo o que eu já sabia de cor e salteado.

Pouquíssimas pessoas conhecem a verdade por trás desta história. Na verdade, pouquíssimas pessoas conhecem essa história. Diria que os únicos que sabem são os que estão ligados diretamente a ela e os que controlam o submundo. Destes, me pergunto onde ela se encaixa... Dependendo, não hesitaria em apagá-la.

— Sabia que nem tudo é lenda? Sabia que os animais realmente existem e habitam, em sua maioria, humanos? Digo humanos, mas depois de receberem o espírito, já não são mais... – Houve um momento de silêncio. – Você é o Gato, não? – Estava pronto para matá-la. – Sei disso por que sou o Cavalo.

O quê? Outro monstro? Sabia que existiam, mas... Ela?

— Então, Garu-kun, posso considerar seu silêncio um “sim”? Gostaria de conversar sobre algumas coisas... Assim que sair do banho, talvez.

Calei-me e continuei a controlar as chamas. Não a ter notado antes provavelmente tenha sido reflexo de ser o Cavalo, quer dizer, na linha de poder, o Cavalo é o sétimo a chegar, então não tem um espírito muito forte. Além de que a maldição da aparência não é evidente em alguns dos animais, como nela, que tem seus cabelos castanhos e seus olhos igualmente num tom castanho escurecido.

Estava ansioso sobre o que ela queria falar. Sobre o que ela sabia. Sobre o que poderia ser-me útil. Estava deveras ansioso para que este banho acabasse.

Quando saiu, estava com umas roupas largas que lhe caiam mal.

— Desculpe os incômodos, Mayumi-chan. – Dizia ela, agradecendo a roupa emprestada.

— Não é nada! – Não sei se foi de bom coração ou satiricamente.

Ainda a estavam mimando e paparicando por ser a celebridade nova naquele lugar. Passou a janta e eles ainda conversavam – eles, refiro-me a Hatsumi e a Ryuu, basicamente, pois Mayumi ainda ficava com uma aura maléfica, Kanro pouco se importava, Satore-san havia fugido e Tisha, quando voltou sabe-se lá de onde, foi até a estante e pegou um livro.

Quando Ryuu deu uma folga, – talvez a saliva tenha acabado – ela sumiu por um tempo. Eu conseguia sentir seu cheiro, mas estava um pouco longe. Saí atrás dela.

— Nunca achei que encontraria um Cavalo no telhado.

— Acho que esse é o lugar mais amado dos pensadores, não? Lá naquela construção no meio da floresta, você também ficou um bom tempo no telhado.

— Você estava lá? – Subi e me sentei razoavelmente longe dela.

— Sim, vi um pouco de longe. Foi um ótimo trabalho, meio radical, mas ótimo.

— E o que você estava fazendo lá?

— Hm, realmente estava perdida... Meu espírito é livre, eu gosto de aventura, não é difícil me achar perdida em algum canto do planeta.

— Quer que eu acredite que foi mera coincidência que nós nos encontramos? Só existem treze monstros no mundo todo e nos encontramos no meio de uma floresta ao acaso?

— Não, não, não. Seria ingenuidade demais pensar nisso. Eu já estava lhe procurando, além da minha sorte, que pode ter ajudado, os monstros tendem a se atrair, você não sabia? É algo meio misterioso (e o que sobre nós não é?), sempre os portadores viajam e se encontram, ou passam perto na rua. Não seria de se estranhar caso amanhã encontrássemos outro...

— Nem me fale isso! Só você já é problema o suficiente... – Se Yoshifumi-san souber, provavelmente eu estarei em sérios apuros.

Deixando isso de lado e imaginando que ele nunca descobrirá que trouxe outro monstro para dentro das Terras Centrais, agora fico imaginando se o que ela disse é verdade... Eu nunca antes encontrei outro portador. Será que mesmo sendo sua reencarnação, os outros animais ainda evitam o Gato...?

— Então... Por que estava me procurando?

— Pode parecer idiota, mas... Eu queria quebrar a maldição. Estou estudando e procurando um meio de satisfazer os espíritos demoníacos, para que assim eles deixem esse mundo, e também a nós...

Claro, milênios de maldições e ela quer quebrar este ciclo.

— Pelo menos sabe quem comanda a linha de sucessão?

O Gato era o único que escolhia seu próprio portador, os outros espíritos eram selados no corpo de um recém-nascido. Isso era uma brecha para o controle de poder. Quer dizer, os espíritos demoníacos eram a maior fonte de poder na terra, quem os controlasse, consequentemente, teria o controle pelo medo na sociedade.

Mas eles agiam pelas sombras. Era um grupo tão velho quanto à humanidade... E tão poderoso quanto um deus... A única coisa que podia ameaçá-los era o espírito do Gato, ou seja, eu. Este era o mais forte entre todos, o único que não podia ser controlado.

Imagino que outras gerações do Gato sucumbiram ao poder deste grupo, porém eu, ao me recusar, fui sentenciado à morte. Assim talvez o próximo portador seja mais manso.

— Ah, eu fugi de uma das bases deles esse mês.

— Sério? Onde? – Qualquer informação sobre eles me interessaria, afinal, é isso o que passo minha vida procurando, as pessoas que querem me matar.

— Nas Terras Altas ao Leste, já falei um milhão de vezes!

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Notas finais
Bem, tem algumas referências do zodíaco chinês (avá), para mais informações, procure no Wikipédia, u_ú