Neko no Noroi
10 Capítulo 10
Como chegamos a isso? Realmente, como passamos de estranhos no meio de uma floresta a um chá da tarde em menos de quatro horas?
Mayumi, Ryuu, ela e eu estávamos sentados ao redor da pequena mesa de centro no segundo andar do dormitório, cada um com sua respectiva xícara alinhada ao seu assento, além de um pratinho onde dispunham de aperitivos normais, como pão e geleia. Ryuu era o único que estava no alojamento quando Mayumi nos recepcionou. Ele conversava animadamente com a intrusa enquanto Mayumi ficava de bico em um canto, sempre emanando auras malignas.
— Hatsumi-chan, de onde você veio? – Só assim descobri o nome dela.
— Das Terras Altas ao Leste. – Respondia tão animada quanto Ryuu.
— Nossa, isso é muito longe! O que veio fazer nas Terras Centrais?
— Eu vim procurar uma pessoa.
— Oh, alguém importante?
— De certa forma, sim. – E sorriu.
— Hatsumi-chan, pode contar comigo sempre que precisar! Eu conheço muitas pessoas das Terras Centrais! – Dizia ele, quase chorando.
— Bem... Seria ótimo se você o conhecesse. Na verdade, não sei exatamente onde está agora...
— Farei o possível! – Acenou com o espírito em chamas. – Qual o nome dele?
— Não sei.
— Idade?
— Uns oito, mais ou menos.
— Como ele é?
— Não sei bem, só que pode parecer com um gato.
— É o Garu-chan. – Afirmou como se eu fosse a única opção questionável.
Então Kanro subiu as escadas, dando de frente aos quatro em silêncio, sem expressão, refletindo sobre a grande conclusão de Ryuu.
— O-Oi...? – Disse, meio na defensiva, sem entender o ambiente. – Garu-kun, finalmente voltou... Está tudo bem?
— Sim, perfeitamente. – Levei a mão ao rosto, franzindo o cenho.
— Hm... Então... Quem é ela? – E apontou para o único ser não conhecido entre nós.
“Alguma louca sem-teto perdida que procura seu amigo imaginário.” Era o que eu queria falar, mas me calei, já que entendia que talvez esse comentário seja rude. Mesmo sendo verdade.
— É a Arai Hatsumi-chan, ela veio das Terras Altas ao Leste só para procurar alguém!
— Nossa, e já achou?
— Não, ainda não...
— E qual o nome dele, Hatsumi-san? – Perguntou ele, dirigindo-se diretamente a ela.
— Não sei. – Respondeu.
— Idade?
— Uns oito, mais ou menos.
— Como ele é?
— Não sei bem, só que pode parecer com um gato.
— É o Garu-chan. – Será que ninguém por aqui pensa...?
Ela me olhou e sorriu. Já me arrependia de tê-la trazido até aqui... Sentia que era mais uma dor de cabeça do que uma vantagem.
O próximo a entrar e sentir aquele clima estranho de reflexão sobre a conclusão de Kanro foi Satore-san. Veio todo alegre e saltitante quando percebeu a atmosfera e parou bem na entrada.
— G-Garu-chan... O-Onde você esteve?! – E correu chorando e me abraçando, como se não me visse há anos.
— Nada de mais... – Falei empurrando seu rosto. Foi quando ele notou a presença de Hatsumi. Parou e a encarou.
— Sua salvadora? — Perguntou a mim.
— Não!
— Ela é Arai Hatsumi-chan, ela veio das Terras Altas ao Leste procurando alguém! – Disse Ryuu, animado.
— Uau, que longe!
— Sim, é mesmo!
— Eu posso ajudar, se quiser. Qual o nome dele, Hatsumi-chan?
— Não sei. – Respondeu ela.
— Idade?
— Uns oito, mais ou menos.
— Como ele é?
— Não sei bem, só que pode parecer com um gato.
— É o Garu-chan. – Porquê estamos repetindo tudo isso...?
Recuso-me. Levantei e fui em direção à cozinha, antes que o próximo chegasse. Pessoas retardadas, tratando de assuntos retardados.
Porém, logo que levantei, a dita cuja decide acompanhar-me. Rodei a casa toda tentando despistá-la, mas nada. Parecia um filhote atrás da mãe.
Por fim desisti e fingi que ela não existia, fui até a cozinha, original destino, e peguei o único onigiri que estava sobrando na geladeira. Fechei a porta desta e me virei pensando em sentar-me à mesa e comer tranquilo... Certamente de propósito, ela estava bem atrás de mim, tão colada quanto uma sombra. No que me virei, embarrei nela – ou ela em mim, não sei – e minha comida, minha preciosa comida, espatifou-se na blusa da Hatsumi.
Eu estava com fome, sem nada para comer, minha única salvação perdida, e ainda por cima, uma louca me olhando como se esperasse alguma coisa.
— Não quer, por favor, manter uma distância de uns dois metros de mim? – Sorri.
— Garu, como pode ser tão mal-educado! – Misteriosamente Mayumi surge, já gritando, de trás da porta da cozinha.
— O que estava fazendo aí...?
Ela olha para os lados, evitando a pergunta.
— Mais importante do que isso: Hatsumi, temos que limpar essa sujeira já! – E apontou para a blusa dela, onde jazia meu adorado onigiri.
— Ah, claro. – E sorriu. – Seria muito pedir um banho...? Não consegui me banhar bem desde que Garu-kun me interrompeu na floresta, não? – E olhou para mim.
— Faça. O. Que. Quiser! – Mayumi emitia umas ondas malignas de alta potência, algo jamais visto antes. O ar estava tão denso que parecia uma neblina escura.
— Mas quem vai aquecer a água? – Ryuu apareceu misteriosamente da mesma maneira que Mayumi. Sério, o que eles estavam fazendo...?
O alojamento, mesmo sendo grande, só dispunha de duas banheiras. Ambas muito antigas, ainda funcionando ao modo tradicional em que a água era aquecida pelo fogo e que alguém tinha de ficar do lado de fora do banheiro regulando as chamas. Para nós, que já morávamos lá, não era nenhum problema, já que acostumamos a esquentar a água na temperatura certa e apagar o fogo, o que exigia um certo esforço e prática, que uma intrusa como Hatsumi não dominava...
— Garu-kun, vamos lá! – Ela me puxou pelo braço rapidamente.
Era estranho o modo que se mexia. Eu não conseguia prever, não conseguia desviar. Era estranho, muito estranho. Provavelmente ela é habilidosa o suficiente para dar problema... Tomara que não seja nenhuma inimiga em potencial, seria mais uma dor de cabeça...
Sem poder recusar, ela me arrastou pela casa sem rumo, afinal, não sabia onde era o banheiro e aquele lugar era suficientemente grande para se perder. Digo isso por que já me perdi lá.
Enfim, guiei-a até a banheira e contornei por fora da casa para chegar até a fornalha. Não demorou muito para o fogo se instalar lá e o vapor começar a surgir pela pequena janela revestida por grades que dava acesso ao banheiro.
Ouvi-a entrando na banheira e aquele excesso de água vazar pelos cantos.
— Ei, Garu-kun, está me ouvindo?
— Claro, claro... – Suspirei.
— Você conhece a lenda do zodíaco dos monstros?
Notas finais
Mas essa foi a melhor camisa que achei pra ele... Então ignorem o ~seio~ dele!
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