Neko Café - Interativa
15 Padre?
Notas iniciais
Terceiro dia de trabalho — 8:40hrs PM — Neko Café.
POV Reiko
O dia já estava acabando e minha dor nas costas piorava a cada segundo que eu ficava em pé. Eu já não aguentava mais fazer contas no caixa, era como se o número dois estivesse martelando minha cabeça e os preços das coisas voassem para fora da tela e estivessem socando minhas costas. Todas as nekos pareciam estar mais atarefadas que eu, correndo de um lado para o outro, com tanta sincronia que parecia que elas tinham treinado para aquilo. Com o sono que eu sentia, eu comecei a imaginar todo mundo fantasiado de tigre dançando em conjunto.
– Rei – chamou-me alguém. Minha cabeça estava com tanta preguiça que não quis virar para ver quem era. Pela voz eu tinha quase certeza que era Junko, mas eu não quis ter o trabalho para conferir. – Rei!
– Padre – falei do nada.
– Que? Rei, está na hora de fechar, o que acha disso?
– Eu acho bom.
A pessoa riu e me deu um tapinha nas costas.
– Vou mandar prepararem uma cama pra você aqui.
Eu finalmente me virei para ver quem incomodava a minha pessoa e me deparei com Lee. Lee era quase como uma visão de um anjo, era ele que iria me acompanhar até em casa, ou até me deixar dormir na casa dele que era mais perto, Lee era o sonho de qualquer pessoa que quisesse dormir mais rápido sem ter que pagar nada e ainda acordar com um café da manhã inteiro na cama.
– Lee!
– Padre! – ironizou ele. Eu fiz uma careta.
– Ridículo, vamos, eu vou pra casa com você!
– Calma, as meninas estão saindo agora e você tem que checar as coisas para amanhã.
– Desde que esse lugar não se desmonte amanhã, eu tenho plena convicção que todos nós vamos estar aqui de novo.
Lee riu e eu percebi que Junko passava atrás dele, eu queria falar com ela sobre a garota nova, Luka, e sobre o irmão dela. Mesmo que ela tivesse me irritado com esse lance de não gostar da ideia de aceitar Luka, ela me parecia guardar alguma coisa sobre a Luka que eu devia saber. E minha intuição dizia que a casa da Junko era a mais próxima.
– Te vejo amanhã – falei rápido.
Lee me perguntou se eu não ia com ele, mas eu não respondia mais ao garoto, não agora que eu ia dormir na casa da Junko.
– Junko! Junko! – chamei, quase levando um tombo e tropeçado feio.
– Reiko! – ela disse animada. – Você vai para quê lado? Quer vir com a gente?
– Posso dormir na sua casa hoje? – perguntei. A cara da Junko foi a mais engraçada que eu já vira na minha vida inteira. Era como se ela misturasse um “Que?” com “Que bicho te mordeu?” e “Bebeu todas?” tudo junto e fizesse uma careta estranha.
Ela riu.
– Olha, eu nem estou dormindo na minha casa agora, vamos pra casa da Mushi, ela gosta dessas paradas de festa do pijama e ela mora sozinha – disse ela, cochichando a última parte. Mushi pareceu perceber que nós falávamos dela, ela estava de braço dado com Junko e estava prestando atenção em algo que estava do outro lado do salão.
– Oi? – perguntou ela.
– Vamos pra sua casa hoje! – explicou Junko como se fosse a coisa mais simples do mundo.
– Sério? Que demais! A Rei também? – Mushi sorria. – Vamos logo, então, eu quero comprar alguma coisa pra comer.
– Ai, pega qualquer coisa com o Luke na cozinha e vamos logo! – reclamou Junko, largando o braço dela e mandando a garota para a cozinha. Mushi pareceu apavorada com a ideia de pegar alguma coisa com Luke, mas foi do mesmo jeito, com uma cara de quem dizia “Socorro, eu vou morrer lá dentro”. – Estamos esperando lá fora!
Junko se virou para mim sorrindo e pegou meu braço, cruzando com o seu e me lançando um olhar para ver se eu estava confortável com aquilo, e, àquela etapa da noite, eu já não sabia nem o que era cama e o que era chão.
Junko pareceu feliz com o meu incrível gesto de não fazer nada e aceitar que ela me desse o braço. Ela me tirou de dentro do Neko Café e, de relance, eu vi Mey passando correndo. Procurei Tohka instantaneamente como se elas fossem algum tipo de gêmeas “onde eu estou ela está”, mas Tohka já tinha ido embora há algum tempo.
Apenas deixei Junko me guiar até a cama de alguém àquela noite.
Terceiro dia de trabalho — 8:45hrs PM — Neko Café.
POV Lee
Reiko me deixou completamente sozinho e eu nem sabia se ela ia comigo ou não. Eu fui para a cozinha e logo quando entrei vi Luke e aquela cara de vencedor depois de Tohka ter abraçado ele daquele jeito. Eu fiquei com raiva por não ter conseguido ninguém para provar que meu mousse era muito melhor que o dele e saí da cozinha quase jogando meu avental para o ar. Eu passei por Mushi no caminho para fora do café, que parecia estar com medo de alguma coisa e indo para a cozinha.
Meus olhos ficaram presos nela por um instante até se virarem para Mey, que vinha correndo na minha direção, ela estava com um sobretudo vinho e seu cabelo parecia pegar carona com o vento. Ela não pareceu me perceber, apenas passou por mim como um foguete e foi para a cozinha, quase derrubando Mushi.
Eu precisava falar com Mey sobre a desculpa de Tohka, o que tinha acontecido mesmo? Tohka e Mey brigaram por um filme, isso. Pensei em ir até a cozinha falar com ela, mas eu não aguentaria ter que ver o senhor da razão de novo. Resolvi esperar Mey.
Fiz um script mental analisando tudo o que eu iria fazer e, quando eu percebi, Mey passava por mim como quando entrou, mais rápida que uma ervilha sem freio. Eu não tive nem tempo de chamar ela e a garota já corria para fora do Café, como se estivesse fugindo de alguém. Ela devia estar preocupada em achar Tohka no caminho e ter que falar com ela sobre o que aconteceu.
Sem pensar e vendo que eu prometi para Tohka que eu falaria com ela, eu corri até a Mey. Passei pela Junko e pela Reiko, que estavam falando com um cara que parecia mais velho que elas e continuei correndo até estabilizar ao lado da Mey, que estava com as mãos no bolso do sobretudo tentando não congelar. Ela estava com fones de ouvido.
Eu puxei os fones o mais delicadamente que uma pessoa pode puxar os fones de alguém e olhei para ela sorrindo.
– Oi!
– Ah, oi – disse ela, parecendo assustada e surpresa. Ela ficou vermelha e eu não sabia dizer se era do frio.
– Espero que não esteja ouvindo alguma coisa realmente interessante.
Ela sorriu e pausou a música no celular. Pude ver que ela estava com luvas quentes e ainda assim colocava as mãos nos bolsos.
– Não, não, é só música.
– Posso ir pra casa com você ou é uma hora ruim? – perguntei, vendo que a garota havia parado para falar comigo. Ela não pareceu perceber que havíamos parado e riu, dizendo que não teria problema nenhum. Ela deu passagem ainda com as mãos nos bolsos e seu sorriso fez fumaça sair da boca dela, imaginei que ela devia estar morrendo de frio ali. – Ei, por que nós não nos falamos no colégio?
Ela pareceu ficar mais vermelha ainda com a pergunta.
– Ah, não sei, eu sou mais reservada, talvez.
– Mas, mesmo com isso, você está sempre sorrindo, eu gosto da forma como você sorri, é contagiante. – Aquilo só fez mais um sorriso brotar do rosto de Mey. – E a Tohka, ela também está sempre sorrindo, mas ela é mais durona.
Pude perceber seus lábios se contraindo ao citar Tohka.
– É, ela é assim mesmo.
– Ela me contou que vocês brigaram.
– O quê?! – Ela pareceu arrasada com o que eu disse.
– Ela me contou sobre a briga e disse o motivo, disse que estava muito triste por aquilo e precisava falar com você, aí ela me pediu para falar por ela.
– Ela fez isso? – Mey estava engolindo a raiva. – Meu Deus, eu nem sei como me desculpar, não ouça o que ela diga! Sério, nada do que ela disse é verdade! – A garota colocou as mãos enluvadas no rosto e parou de andar. – Me desculpa! Ela não é assim e...
– Calma, Mey, ela só me pediu para pedir desculpas por ela, disse que estava triste e que queria poder voltar atrás.
– Eu disse que falava com ela depois! Não tinha por que contar meus segredos! O que ela tinha comigo? O que ela tinha na cabeça?!
– Ela só disse que você quis escolher um filme e que ela não deixou – esclareci, vendo que Mey estava quase chorando. Ela esfregou os olhos e soluçou. Deus, eu fiz uma garota chorar, que tipo de garoto eu sou? – Mey, eu...
– Desculpa... – ela pediu, sem tirar as mãos do rosto. Ela estava mesmo chorando?
Eu fiquei sem reação, eu não acreditei que tinha feito uma garota sorrir e um minuto depois feito a mesma garota chorar. Não sabia o que fazer, eu nunca tinha feito uma menina chorar, muito menos uma divertida e alegre como a Mey, eu devia ser o melhor retardado de todos os tempos. Tohka nunca iria me perdoar por ter feito a melhor amiga dela chorar quando eu disse que iria pedir desculpa por ela, eu sou um idiota.
Mey tentava conter o choro na minha frente e eu sabia que garotas não curtiam chorar na frente de outras pessoas, ainda mais de uma pessoa que não fosse algo como “a melhor amiga delas” e de um garoto. Os joelhos dela tremiam, estavam só com uma fina calça jeans justa. Eu realmente não sabia o que fazer. “Quando uma menina chora, ou você fez alguma coisa muito ruim, ou você fez alguma coisa boa demais”, lembrei-me do meu pai falando, “E quando uma menina chora por sua culpa, você é um lesado”.
Vamos, faça alguma coisa, obriguei-me.
Eu abracei-a. Não sabia como ela iria reagir, não sabia se estava fazendo a coisa certa, não sabia se ela iria parar de chorar, mas foi a coisa mais inteligente que eu poderia pensar em fazer que não fosse fugir.
– Ei, não precisa chorar assim – tomei coragem para falar. Eu apertei-a contra mim e passei a mão em seus cabelos. Ela estava gelada pelo frio, mas isso só me fez ficar com mais vontade de abraçá-la. Ela chorou mais ainda e eu achei que eu tivesse feito a pior coisa que eu poderia pensar em fazer, que eu deveria ter fugido quando eu pude. Isso antes dela me abraçar.
– Ela disse que foi pelo filme? – perguntou ela em meu ouvido.
– Disse – afirmei. Mey estava só com as pontas dos pés no chão e eu estava abaixado para abraçá-la. Ela me apertou mais forte e eu correspondi a ela.
– Obrigada – ela disse.
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