Neko Café - Interativa
9 Torta de Morango
Notas iniciais
Segundo dia de trabalho — 08:19hr AM — Café.
POV Mey
Nós fomos para dentro do café, eu não estava mesmo querendo ver Lee-kun do jeito que eu estava, e ainda mais trabalhar com ele. Eu me forcei a entrar depois que todos já estavam lá dentro, Tohka me empurrava pela porta, minhas pernas desejavam dar meia volta e correr dali.
Reiko estava tirando vestidos de dentro de uma bolsa e mostrando para as meninas. Tohka passou por mim correndo e foi ver os vestidos, eu estava sozinha.
Tentei passar despercebida, sem chamar muita atenção para mim, por entre as meninas, mas Tohka gritou meu nome e passou correndo entre todos para me mostrar um vestido com algumas partes em azul. Todos olharam para a animação dela, e consequentemente, para mim. Dei um sorriso falso, tentando demonstrar empolgação, mas eu queria mesmo sair dali. Meu olhos encontraram os de Lee-kun em um sinal de aprovação, eu precisava ser melhor diante dele, agora não tinha mais jeito, eu teria que aceitá-lo.
Tohka me puxou para o banheiro, notei que ela tinha pego um vestido com detalhes em vermelho. Ela saiu correndo, me puxando pelo pulso, tentei me manter animada e correr com ela, mas eu tinha medo de fazer alguma coisa errada.
Ela passou pela porta do banheiro e me puxou para dentro, fechando a porta atras de mim. Minha perna fraquejou e eu cai de joelhos, mais por não saber o que fazer.
– Você está atuando muito mal — disse Tohka. — Vista-se, veja se pelo menos consegue ficar um pouco mais animada.
Ela jogou o vestido branco com detalhes em vermelho para mim, ou melhor, em mim. Eu tirei o vestido do meu rosto e o coloquei de lado em um balção de mármore. Tohka entrou em uma cabine separada dentro do banheiro e começou a trocar de roupa.
– O que eu faço? — perguntei sentando-me no mármore.
– Seja você mesma — respondeu Tohka.
Suspirei.
– Isso não funciona, me diz alguma coisa decente.
– Anda logo, coloca sua roupa, Reiko-san disse que ela já vai abrir o café.
Junko e Mushi-chan entraram no banheiro rindo. Elas estavam com vestidos brancos com detalhes em lilás e amarelo.
– Nossa, que tenso — disse Junko. — O que aconteceu lá fora?
– Mey está tentando atuar — disse Tohka, com ironia.
Forcei uma risada irônica, acompanhando minha amiga. Tohka abriu a porta da cabine, ela estava deslumbrante, nunca tinha imaginado ela de vestido, arrumada, ela estava sempre sendo tão certinha, não imaginei que ela fosse ficar tão fofa de vestido.
– O que você está fazendo com essa roupa? — ela reclamou, não pareceu perceber que todos olhavam para ela. — Vai se trocar!
Me tirei dos meus pensamentos e peguei o vestido do meu lado, entrando em uma das três cabines. Junko e Mushi-chan entraram nas outras duas e Tohka nos esperou do lado de fora arrumando o cabelo.
– Ei, Mey, você gosta do Lee-chan? — perguntou Junko, simpática.
– Claro que não — falei, nada convincente. Pensei na Junko abraçando Lee-kun alguns minutos mais cedo na porta, eles não podiam namorar!
Ouvi alguns cochichos entre a cabine da Junko e da Mushi. Elas estavam conversando sobre como eu sou idiota por gostar do namorado da Junko? Ouvi os risinhos da Mushi.
– Verdade — ouvi Junko dizer.
Hoje é o pior dia da minha vida, pensei, enquanto colocava o vestido. Tenho que sair daqui.
– Acabou, Mey? — perguntou Tohka.
– Acho que sim — falei, desanimada.
Tohka abriu a porta da minha cabine, que eu deixei apenas encostada e ficou de boca aberta ao me ver. Achei que tinha alguma coisa de errado comigo, olhei para o meu vestido, ele estava normal para mim.
– Que perfeito! — disse Tohka.
Eu sorri, pelo menos eu não estava parecendo um zumbi naquele dia horrível. Ouvi o barulho da cabine da Mushi abrir, fui até o espelho que ficava de frente para as cabines e lavei meu rosto encarando meu reflexo. Pelo espelho eu vi Mushi e Junko, elas também estavam lindas. Reiko-san tinha feito um ótimo trabalho com as roupas.
– Reiko disse que iria dar algumas sapatilhas — disse Junko, sorrindo.
– Espero que ela tenha uma para mim — disse Mushi baixinho.
– Claro que tem! — disse Tohka.
Elas saíram animadas do banheiro com pulhas de roupas para guardar, inclusive as minhas. Eu continuei me encarando no espelho. Preciso ser eu mesma, pensei. Não posso deixa essa chance passar!
Tomei coragem para sair do banheiro e me encontrei com as meninas do lado de fora, elas estavam rodeando a Reiko-san para receber as sapatilhas, tinham tantas. Corri os olhos pela sala tentando achar Lee-kun, nenhum sinal de vida dele. Suspirei de alívio e fui até as garotas. Elas falavam sobre como as sapatilhas eram bonitas e que elas queriam todas, eu apenas peguei uma e a coloquei, por baixo da meia calça que todas estavam usando.
Depois de alguns minutos todos já estavam prontos e arrumados. Tohka, Junko, Mushi e Maya, além de mim, estavam esperando na porta a Reiko dar o sinal para abrir. Ela estava com um relógio para ver quando daria certinho as nove horas. Não vi mais Lee-kun, ele poderia ter ido embora, não sei, veio só para dar boa sorte para a namorada, ou para Reiko.
– Então, pessoas, sejam simpáticos e amistosos com os novos clientes! E, se vocês não conseguirem, é só imitar a Junko! — comentou Reiko.
– Ei! — protestou Junko.
– Bom, espero que hoje seja ainda melhor que ontem! — continuou Reiko. — E que nós possamos nos tornar amigas e que esse café seja reconhecido e que seja muito bonito, e que todas nós sejamos companheiras, e que todo mundo fique feliz, e que venham várias pessoas e que elas possam provar o café, e que...
– Nove horas! — gritou Maya, interrompendo Reiko. Mushi e Tohka abriram as portas do café.
– Sejam bem-vindas ao Neko Café! — concluiu Reiko. — Todos aos seus postos! Tohka, Mushi e Junko, vocês servem os clientes! Maya fica no caixa! E Mey fica no balcão! Você tem um papel muito importante, Mey, vai servir o café e os doces comigo, nós vamos cobrir os clientes também, ok?
Reiko-san tinha um sorriso tão fofo e amigável que até se ela te pedisse para se jogar da ponte você iria se jogar, e ainda daria um belo abraço de despedida nela. Era tão fofo, você poderia fazer tudo que ela te pedisse. E eu não tinha como recusar. Fui até o balcão, obediente, e esperei até que precisassem de mim.
Segundo dia de trabalho — 09:02hr AM — Café.
POV Mushi
Eu fui até a porta, junto com a Tohka, para esperar os clientes. Maya ajudou a abrir as portas e foi para o caixa. Reiko foi para perto de Mey, que já estava posicionada no balcão. E nós iriamos começar o nosso primeiro dia de trabalho!
Tenho que me lembrar de agradecer a Reiko por me deixar participar, pensei sorrindo. Hoje vai ser um grande dia!
[...]
Depois de um tempo um grupo de pessoas, mais ou menos cinco, entraram no café e foram até a mesa 5, a mesa do meio. Eles conversavam e olhavam a decoração, que na minha opinião era uma das melhores para um café. Uma moça elogiou a cor amarelada, quase beje, da parede, ela disse que realçava o café pelas partes em madeira marrom.
Eu olhei para Tohka, para saber se ela iria atender os novos clientes, e ela fez um gesto com a cabeça para que eu prosseguisse. Fui até a mesa 5 e fiquei entre duas cadeiras, para esperar os pedidos. Um homem, um pouco gordinho com os olhos puxados notou minha presença. Ele deu uma risada baixa (o mais baixo que alguém consegue tendo um ataque de risos com os amigos) e eu lhe entreguei os cardápios, que a Reiko tinha me dado. Ele pegou os cardápios e murmurou um pequeno "obrigado" para mim, virando-se para dá-los aos amigos.
Me afastei para esperar, olhei para Tohka. Acho que estava buscando uma resposta para a minha pergunta: "Quando eu tenho que me intrometer de novo para perguntar os pedidos?". Tohka estava conversando com Junko, que estava bem animada. Junko... Fiz um sinal com a mão e um "psiu" baixo, mas elas não me escutavam, comecei a acenar e pular e quando olhei para o lado, já vendo que elas não iriam me perceber, três dos clientes me olhavam curiosos para saber o que eu estava fazendo.
Corei e disse rapidinho, continuando com os movimentos estranhos e espalhafatosos com o braço: "Sai mosca, sai".
– Já escolhemos — disse uma moça jovem amigavelmente.
Eu fui até a mesa totalmente vermelha e ajeitei meu vestido. Um dos clientes me observava, fiquei com medo de estar parecendo estranha e ajeitei minhas orelhas de gato, o que atraiu mais olhares.
– Então, o que vão querer? — perguntei tentando mudar de assunto, sorrindo até demais.
– Ah, sim! — começou a moça jovem. — Vou querer uma tortinha de morango e um capuccino, se puder.
Ela deu um sorrisinho no final que deixou um pedido com o ar de desafio, algo tipo "você consegue fazer tudo isso?". Eu dei um sorriso falso e anotei no caderninho sem linhas.
– E os senhores? — continuei, ignorando a mulher, que possivelmente me olhava com desprezo.
– Eu vou querer a mesma coisa, mas só com um suco — começou outro homem da mesa. — Qual suco vocês tem?
– Alguma coisa light seria boa, né? — disse uma mulher com cabelo channel.
Eles começaram uma conversa sobre os benefícios dos sucos light, que depois de um tempo passou a ser sobre como os animais emagrecem sem os produtos diet que eles pareciam comer sempre.
Segundo dia de trabalho — 10:10hr AM — Café.
POV Mey
Eu olhei de longe e vi Mushi meio enrolada com os clientes da mesa 5, eles pareciam conversar e ignorar a garotinha totalmente, de um jeito que ela estava parada com o caderninho na mão esperando alguém falar alguma coisa relacionada a comida do lugar, sabe, fazer um misero pedido.
Eu peguei um pano para passar no balcão de vidro, onde ficavam os doces. Era realmente tedioso ficar em um café que não tinha muitos clientes, mas eu tinha certeza que ele teria mais conforme o tempo fosse passando. Afinal, Bruce Willis não virou o Batman de uma hora para outra... Ou... Hm... Algo assim...
– Ei, Mey — chamou Mushi, ela estava na minha frente agora, do outro lado do balcão. Estava com um caderninho já todo anotado, e ela com certeza estava vindo pegar os pedidos. Me perguntei quanto tempo eu tinha perdido pensando no Batman e limpando o vidro do balcão.
– Ah, oi, Mushi, não te vi chegar — admiti, sorrindo.
– Eu vi — ela sorria amigável, até isso passar para um sorriso malicioso. — Passa muito tempo pensando no Lee ou é só de vez em quando?
Eu corei totalmente, ela realmente sabia que eu pensava nele? Ela estava me espionando, ou a Tohka contou para elas que eu gosto dele? Como ela sabe disso? Eu passei um tempo formulando perguntas sem respostas na minha mente. A Junko não namorava ele?
– É brincadeira! — ela continuou, rindo, como se falasse com uma criança. Bom, eu devo ter a mente de uma já que demorei a entender, eu fiquei tentando raciocinar por uns segundos, sem tirar o que ela disse antes da cabeça até que eu percebi que ela não sabia de nada. Comecei a rir como uma idiota, um riso um tanto forçado para ela não perceber que tinha acabado de revelar um segredo meu.
Quando percebi todos olhavam para mim.
– Okay, okay — disse Mushi, com uma cara de quem achou aquilo estranho. — Preciso de uma tortinha de morango e alguns cupcakes do balcão, ta?.
– Eu pego os cupcakes!- disse Reiko. Dei uma olhada nos clientes e eles estavam conversando, espero que eles não tenham visto aquilo. — Mey, vai na cozinha e peça a torta.
– Já vou — falei. Terminei de arrumar as coisas em uns vinte minutos ou mais. Corada fui até a cozinha. Não parecia ter ninguém lá. Tinham móveis dos dois lados da parede da porta que eu entrei, o que me impedia de ver a cozinha inteira. Cheguei mais para frente e eu juro que quase desmaiei.
Segundo dia de trabalho — 10:45hr AM — Café.
POV Tohka
Eu levava alguns clientes até a mesa 15, um casal de namorados. Eles apertavam minhas olheiras de gato e me diziam como eu estava fofa com aquilo tudo. Eles se sentaram perto da janela, a qual dava a vista para a esquina da rua. Eles pareciam super felizes.
– Vocês já tem algo em mente para pedir? — sorri.
O menino, de uns 18 anos, olhou para a acompanhante e disse com um sorriso ao se virar para mim:
– Para a minha namorada o que você tiver de melhor e para mim um chocolate quente.
Ele se virou para a garota, que sorria satisfeita. É, eles estavam mesmo felizes. E talvez meus pais também fossem assim... Quer dizer, antes de tudo.
Eu disse que já iria pegar e sai de perto do casal, que começara a trocar elogios melosos assim que eu saí. Eles sentaram um de frente para o outro na mesa, de modo que a mesa ficasse entre eles. Uma escolha estranha para um casal.
Fui até Reiko para perguntar o que "tinha de melhor" no cardápio e no meio do caminho, quando eu já estava perto do balcão, Junko apareceu, ela me disse para levar o cliente que tinha acabado de chegar para a mesa dele. Eu disse que não poderia e ela me olhou com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança e soltou um "por favor" irrecusável. Eu suspirei e concordei, indo até a porta.
Desviei das mesas do meio ocupadas, que ao todo eram 3 e fui até a porta. Um garoto alto com cabelos brilhantes castanhos estava parado diante a porta, observando o lugar. Eu senti vergonha, não sei por que, mas eu realmente senti. Pela primeira vez eu queria me esconder e não atender aquele cliente.
Eu olhei para ele e nossos olhos se encontraram ultrapassando os óculos grandes do garoto, que combinavam de um jeito lindo com seu cabelo. Ele me olhou como quem não queria nada e fechou a porta atrás dele com um leve empurro, fazendo o sino da porta tocar. Ele não voltou a me olhar, só foi se sentar à mesa 13, desviando do casal.
Eu talvez não tenha sentido nada, só estivesse de manha, mas eu realmente vi alguma coisa que me deixou daquele jeito. Nem que fosse só as roupas jogadas, mas charmosas, dele ou o jeito que ele arruma os óculos segurando o livro antigo grosso, de umas 500 páginas, e de capa também grossa, mas ele tinha alguma coisa que me deixava com vergonha. Talvez fosse o fato dele ser um garoto e não um casal de adolescentes ou um idoso cheiroso, talvez fosse o fato de que ele poderia realmente reparar em mim.
Segundo dia de trabalho — 11:20hr AM — Café.
POV Junko
Eu vi Tohka parada entre as mesas 8 e nove e vi o cliente, um garoto meio magro, sentado sem a ajuda dela, e vi uma Junko atolada com uma bandeja com pães e doces e uma com sucos e outras bebidas. O que ela estava fazendo?
Fui até ela tentando não derrubar as coisas.
– Terra chamando Tohka. Na escuta, Tohka? — falei, colocando minhas coisas na mesa oito.
– Oi, sim — disse Tohka, saindo do aparente estado de transe. Talvez tenham apertado o botão "desliga" dela por uns segundos, ou a bateria está acabando, algo assim. — Desculpa, eu não fui atender o cliente a tempo.
Ela era tão doce, eu poderia me derreter ali mesmo, mas eu tinha que levar a tão linda comida (que eu até poderia estar com vontade de comer, mas não ia fazê-lo... Talvez...) para a mesa que tinha pedido; mesa 4. Olhei para a mesa 7, que já estava ocupada por pessoas olhando o cardápio. É, Mushi, você é rápida, pensei.
– Olha, quer atender aquele cliente ou deixa comigo? — perguntei sorrindo, ao ver a cara dela de envergonhada olhando para o cliente.
– Eu posso levar as bandejas para você — disse Tohka, tentando esconder o rosto com uma mecha de cabelo solta entre o coque perfeito que ela fizera.
– Não gostou do cliente? — eu olhei para ele para buscar alguma coisa errada, mas ele parecia um garoto de 17 anos normal, exceto pelo fato que estava lendo um livro tremendamente grosso ao meu ver.
Eu olhei para ela, já que não percebi nada estranho e ela não me respondeu, e vi que ela estava atendendo a mesa 4 alegremente, como se nada tivesse acontecido. Uf, as pessoas daqui são rápidas mesmo, pensei.
Segundo dia de trabalho — 10:50hr AM — Café.
POV Mey
Eu estava olhando, cara a cara, para Lysander. Meu coração foi à boca e eu senti meu corpo todo pesado, como se eu fosse cair de joelhos ali mesmo, como uma morta qualquer. Lee estava arrumando morangos em um cupcake, seu rosto estava com vestígios de glacê acima da bochecha e eu senti vontade de dizer à ele como eu queria limpar para ele, e o faria por simples felicidade, mas eu não arrumei voz, ou coragem.
Ele se virou para mim, pegando um pano e limpando a mão que estava rosa pelo glacê. Ele sorria de um jeito fofo, e eu devia estar apavorada, quer dizer, ele nunca me notou assim antes — a não ser que entrar por engano na aula de ciências e passar um mico na frente dele e dos amigos dele seja notório — e nós nunca ficamos tão perto. Ele deixava seu sorriso fazer pequenas ruguinhas nos cantos dos olhos. E eu tinha certeza que eu nunca tinha visto aquele sorriso tão de perto.
Devo ter deixado minha cara de espanto aparecer já que sorriu, meio que rindo.
– Qual é o pedido? — ele disse rindo pouco.
– Tortinhas de morango — respondi, quase automaticamente.
– Tortinhas de morango? Ual, isso é um ótimo pedido! — ele sorria como se fossemos antigos amigos, e eu nem sequer tinha coragem de dar mais um passo. Nem ao menos sabia por que tortinha de morango era um ótimo pedido, e por que ele estava com o lindo sorriso no rosto ao falar aquilo, eu queria rir também.
– Sim... Eu... — sem dizer mais nada, mega nervosa, eu sai dali. Eu já tinha dado o pedido, ele iria fazê-lo e eu iria mandar Mushi ir lá buscar, por que eu nunca mais iria entrar naquela cozinha.
Eu avistei Tohka servindo a mesa 4 e fui até ela para ter um... Digamos... Encontro com o guru do amor, já que ela sempre sabia de tudo. Me perguntei por que ela nunca foi boa com romances já que sabia de tudo. É aquele tipo de pessoa que dá conselhos e não segue.
– Tohka, vem comigo — falei, puxando o braço dela, que acabava de dar o último bolinho para a ciente que estava na frente dela.
– O que foi? — ela disse, tentando disfarçar a urgência falando do sabor do doce que tinha na mão.
– Rápido! — murmurei, puxando ela.
– Eu já volto! — ela falou para os três clientes que já comiam. Ela se virou para mim e o sorriso desapareceu. — O que você quer?
– Credo! Isso é jeito de se tratar uma amiga em crise?! — exclamei quase sussurrando.
– Temos trabalho, Mey.
– Ele está aqui, Tohka, você sabe quem, ele.
– Ele?
– Lee-kun! Tohka! Lee-kun! Ele está na cozinha! Eu achei que ele tinha ido embora e ele está aqui.
– E você foi lá? — ela estava pronta para dar uma longa risada.
– Fui!
– E teve que pedir alguma coisa? — ela soltava alguns risinhos baixos. Eu concordei com a cabeça, com raiva, ela não me levava a sério?! — Meu Deus, não acredito!
Ela começou a rir de um jeito que eu não sabia se estava morrendo ou rindo. Ela tentou abafar os risos e olhou envolta, eu corri meus olhos sobre as mesas e ninguém prestava atenção em nós, provavelmente preferindo a comida à nós (eu também preferiria). Eu puxei Tohka e nós fomos para trás do balcão.
– Para de rir! — falei. Tohka não me obedeceu, claro. — Eu não acredito que ele está aqui!
– Deixa de frescura, isso é trabalho e não escola, olha, finge que ele não está aqui — ela disse entre risos.
– Acha que é fácil? Ele é o Lee-kun! Ele é perfeito! Não tem como ignorar!
– Ele é só um garoto normal, que está fazendo coisas normais, em um trabalho normal com uma admiradora nada, nada, nada normal, okay? Chega de frescura, conte até três e finja que ele desapareceu!
Aquela me pareceu uma ótima ideia, pelo menos seria boa se ele aparecesse do nada. Tohka e eu nos acalmamos e voltamos ao trabalho. Eu estava prestes a sair de trás do balcão quando Lee aparece com uma bandeja com uma torta — e não uma tortinha — de morango, toda decorada. Ele está com o cabelo levemente molhado agora, e seu glacê charmoso que enfeitava seu rosto não estava mais lá, mas seu avental estava totalmente mais sujo. Mas suas mangas estavam impecavelmente limpas*.
Eu senti vontade de suspirar. Mas resisti e contei até três. Bem, eu tentei. Até ver Tohka acenar para Lee-kun, como uma amiga, e pegar a torta que estava com ele. Eles sorriram um para o outro, assim como ele fez comigo, e ela disse alguma coisa que eu não consegui ouvir. O mundo parou e Lee-kun se virou para mim, já com o sorriso desaparecendo, e me olhou rápido, talvez olhando pela primeira vez para quem passa a aula de matemática toda pensando no sorriso dele. E eu senti inveja da Tohka, por poder falar tão bem com ele, não ficar gaga ou ter que fugir. Lee-kun entrou para a cozinha sem dizer mais nada além do que disse para Tohka, ou ao menos me mandar um "oi". Será que foi por que eu fugi dele? Não, ele me parecia tão doce, não faria isso. Talvez ele... Só não sinta o mesmo que eu.
Segundo dia de trabalho — 10:47hr AM — Café.
POV Junko
Depois de ser totalmente ignorada pela Tohka, que parecia ter um repelente contra o cliente novo, eu fui até ele para perguntar o que ele queria.
– Oi — falei, chegando perto da mesa do garoto e me apoiando nela. — O que vai querer hoje?
Ele me olhou, com um sorriso pequeno, mas lindo. Talvez agora eu saiba por que a Tohka tenha ficado com medo dele. Um garoto tão fofo... Que pena que ela tem medo.
– Eu vou esperar mais um pouco — ele disse, pausando a leitura e colocando o livro na mesa, mas marcando a página com o dedo.
– Tem certeza? Não fica com fome só de entrar aqui? — pergunto, revelando um segredinho ridículo meu, talvez um pecado, não sei, a gula.
Ele soltou uma risada baixa.
– Nunca tinha vindo aqui — ele disse olhando envolta. — Com esses quadros de doces deliciosos talvez eu fique com fome, sim.
O café tem paredes amarelas, que são quase todas cercadas por quadros com fotos da Reiko e da Vó dela fazendo doces e fotos só dos doces que elas fizeram juntas, como contou Reiko. São fotos tão perfeitas, todas elas foram colocadas em quadros como os de salas de fotógrafos profissionais, eu nem posso imaginar o dinheiro que a Reiko gastou nesse café, ela deveria querer muito isso.
– É, somos novos aqui — falo. — E qual é o nome do nosso leitor? — perguntei sorrindo galanteante, tentando bisbilhotar a capa do livro.
– Noah — ele disse tímido.
Ouvi Mushi me chamar, ela parecia estar risonha, olhei para trás e comprovei minhas suspeitas.
– Acho que estão chamando você... Junko — ele disse meu nome com um ar de dúvida, como se pensasse se era meu nome mesmo. Eu olhei sorrindo para ele.
– Junko — sibilei sorrindo. Ao segundo chamado da Mushi eu percebi que tinha que ir. — Opa, acho que já vou.
Ele sorriu para mim, dizendo o que eu acho que foi um tchau.
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