Neko Café - Interativa
6 Capítulo Especial
Notas iniciais
Primeiro dia de trabalho — 20:19hr — Neko Café.
POV Reiko-chan
É, esse foi o melhor primeiro dia de trabalho de todos os tempos, agora eu já tenho as minhas nekos e eu posso finalmente abrir o café de vez. Essa madrugada vai ser bem corrida, eu não posso mandar as costureiras fazerem os vestidos para amanhã, por isso eu vou fazê-los sozinha. Eu acho que eu preciso de um pouco de tempo...
– Rei? — chamou Lee-chan. — Eu já vou, ok?
Eu sorri. Estava parada em frente ao balção de vidro viajando.
– Ok!
– Tchau — Lee-chan sorriu.
Eu o observei me dar as costas e sair. Minha noite seria bem melhor se ele me ajudasse e ficasse comigo, mas eu já pedi tanta coisa á ele, seria um abuso com a criança. Ele devia ser muito sozinho, quer dizer, morar com a mãe não é o melhor jeito de mostrar que é independente. Mas eu também morava com a minha mãe e ainda era mais velha que ele, é, eu não podia falar nada dele. Olhei o quadro da minha vó muito mal pintado na parede. Eu vou fazer esse ser o melhor da cidade, e isso vai começar amanhã mesmo, vó, prometo, sussurrei.
– Rei-san! — falou Junko, ela parecia muito feliz. — Obrigada por me deixar entrar para a equipe. Aquelas meninas vão vir amanhã?
– Não sei, a... — tentei me lembrar do nome da garota. — Tohka? É, acho que é isso, ela não estava muito feliz. Deve ter problemas.
Junko riu.
– Ela deve ser o tipo certinha, não gosto de gente assim — ela fez uma careta.
– Vamos dar uma chance à ela. Ah, e amanhã você vai usar o uniforme — sorri.
– O que é o uniforme?
– É um vestido de empregada, ora! Afinal isso é um neko café!
– Empregada?
– Sim, sim, vai ficar lindo em você!
– Como sabe? — ela me olhou com uma certa desconfiança, mas ela estava tão feliz antes.
– Eu mesma vou fazer.
– Junko, temos que ir — falou Tamaki-chan.
– Ah, sim, não sei por que você já não foi embora — disse a garota.
Senti o clima ficar estranho, queria sair dali rápido. As coisas entre a Junko e o Tamaki-chan não pareciam ser tão lindas assim.
– Estava ajudando o menino na cozinha — explicou Tamaki-chan.
– Ótimo — ela disse -, tchau, Rei-san, nos vemos amanhã.
– Ok, tchau — tentei sorrir. Olhei para o Tamaki-chan, ele não parecia feliz, estava zangado. Me perguntei o que ele era da Junko, namorado talvez?
Eles foram embora, Junko levava um casaco pequeno no braço, ela saiu conversando com o Tamaki-chan, não, estava mais para brigando.
POV Junko
– Eu não vou passar a minha vida num hospital, Tamaki! — gritei, as pessoas que passavam por ali nos observavam discutindo.
– É sua mãe, Junko, é nossa mãe!
– Pode ficar com ela! Eu não quero!
Eu recebi um tapa. Um daqueles bem no meio da cara, que vem de uma das pessoas mais importantes para você, que além que doer na face dói também no coração. Eu não acreditei. Faziam tempos que Tamaki não me batia, anos talvez. Talvez eu merecesse, mas não precisava fazer isso, não dessa forma. Eu senti a minha ignorância toda sendo jogada minha cara de uma vez, e isso era muita ignorância.
As pessoas pararam para observar a cena da mais nova novela das nove. Vão comprar picopa, eu quis dizer, mas nada saia da minha boca. Senti a primeira lágima desde a morte da minha irmã ir descendo no meu rosto. Eu não tive coragem para olhar para o Tamaki, mesmo que eu estivesse de frente para ele. Engoli toda a minha vergonha e me virei. Empinei o nariz e continuei a andar para o ponto de ônibus mais próximo. As pessoas deviam pensar em como seria a próxima cena.
– Eu não terminei — disse Tamaki, ainda parado no mesmo lugar.
– Eu já — retruquei. Ai, eu merecia um tapa a cada palavra que saia da minha boca, por que né, é meio difícil falar comigo sem receber um fora.
– Junko! — gritou Tamaki.
– Cala a boca! — me virei para ele. — Não bastou o tapa? Agora você quer conversar também? Me deixa em paz, vá você ficar enfurnado num hospital com um maldito corpo do seu lado sem fazer absolutamente nada!
– Junko, para com isso! Você não pode fazer isso com a mamãe!
Eu ri sadicamente.
– Fazer o que? Ela já está praticamente morta, Tamaki, ela sempre sempre esteve...
Dois segundos. Um tapa. Outro tapa no meio da fuça. Esse realmente doeu. Minha mente fazia cortes. Eu não tive controle. Um segundo. Oi, chão, é você? O que eu estava dizendo mesmo? Meu vestido sujou no encontro com a calçada suja e molhada. Maldita chuva, qual é o problema em chover outro dia?
– Você me dá nojo — falou Tamaki.
– Coincidência — falei sorrindo. Me virei para ele com dificuldade, ajeitando-me na calçada.
– Vá para casa sozinha — ele estava prestes a chorar, mas nunca o faria na minha frente. Queria rir da cara dele, mas eu estava ocupada demais com meus próprios problemas.
– Você não vai me ver em casa hoje.
– Você não é digna da nossa casa mesmo.
– E você é, Tamaki? Você se esqueceu dela... Seu nojento... Se esqueceu dela.
– Ela já morreu, Junko! Para de ser assim, é sua culpa a mamãe ter ficado assim.
Me levantei num pulo e em um segundo Takami que estava no chão. Aposto que aquele soco doeu mais que todos os tapas que ele já me deu. Algumas pessoas já deviam ter colocado cadeiras para nos observar, outras passavam correndo, com as carinhas de medo fugindo de nós. Eu tenho problemas.
– Não fala assim dela! Se você não fosse tão podre, tão estúpido, tão... Arg! Você é um hipócrita! Como quer dizer que ela morreu, quando ainda tenta salvar a mamãe? Seu babaca!
Ele se levantou, tinha sangue no canto da boca. Eu o machuquei... o machuquei de verdade.
– Sete anos, Junko! Sete anos! Qual é o problema em aceitar?! Qual é o seu problema?! Você não consegue se conformar, Junko, mas ela morreu, já fazem sete anos!
– A mamãe também morreu a sete anos, Tamaki! Ela já morreu! Não vai sobreviver, vão desligar tudo, acabou. Acha que ela vai voltar?! Eu não suporto, Tamaki, não suporto, eu não quero mais ir lá, deixa ela morrer!
– Nem parece que você um dia foi filha dela...
– Eu sou filha dela! Mas... você ainda acha que ela vai voltar? Ela já está morta... Acha que eu gosto disso?
– Vai pra casa, Junko, eu vou ver a mamãe.
– Ah! Não vou pra casa hoje, não entendeu? Vá ver a velha, manda um postal para ela. Te vejo amanhã, talvez.
– Se você não tivesse ficado assim, nós ainda estaríamos bem.
– Nós nunca iriamos ficar bem, Tamaki, você se esqueceu que ela não estaria com a gente.
– Lá vem você de novo falando dela, esquece ela! Esquece essa garota!
– Sua irmã! Sua maldita irmã! "Aquela garota"?! — todas as lágrimas que eu não chorei em 7 anos saiam dos meus olhos como uma cachoeira. Eu comecei a socar o peito do Tamaki, ele tentava me tirar de perto dele. — Você devia se envergonhar! Como fala assim dela?
Eu recebi um empurrão bem dado do Tamaki e cai no chão. Tudo desapareceu.
Primeiro dia de trabalho — 15:19hr — Casa da Mey.
POV Mey
Fui para casa. Estava pensando no que a Tohka disse. Pelo o que eu conhecia dela, ela sempre era esquentadinha em tudo, sempre estava na frente de todos, aquele era o jeito dela, mas eu nunca a vi daquele jeito. Parecia que ela ia chorar. Eu não sabia que a Tohka-chan chorava, quer dizer, elas é tão rígida e durona, ela não pode chorar.
Entrei em casa e dei um "oi" para o meu pai. Minha mãe deveria estar trabalhando, odiava ver eles trabalhando tanto, eles não precisam trabalhar desse jeito. Por isso eu precisava desse dinheiro, não tinha como a Tohka não aceitar trabalhar lá comigo eu iria matar ela se recusasse. Mas por outro lado ela não precisa tanto como eu do dinheiro, afinal a família dela é muito... rica? Não sei, mas ela não precisa do dinheiro. Não mais que eu.
Fui para o meu quarto. Ainda estava com a minha mochila nas costas. Tirei os sapatos e me joguei na cama. Mal podia acreditar que eu arranjei um emprego por conta própria! Dei um gritinho abafado. Fui até a minha escrivaninha e peguei um papel. Meu box de American Horror Story estava perto dos blocos coloridos em forma de gatinho, ainda estava intocado, estava com pena de abrir a linda embalagem dele. Peguei um dos blocos. Não sabia bem o que escrever. Comecei a desenhar. Olhei para trás do monitor, escondida entre uma montanha de cdcs e um livro, "Hator", estava uma foto. Ah, sim, eu lembrava dessa foto.
Peguei-a e comecei a encarar. Lysander Teshigawara. Eu tirei aquela foto quando ele passava. Não era a mesma coisa que uma foto nossa juntos, mas era tudo que eu pude arrumar. Eu ocupava quase a foto inteira, estava parecendo uma doninha, meu cabelo estava todo bagunçado, e no cantinho, lá no fundo da foto estava Lee-kun, ele nem deve ter reparado, estava saindo da escola, eu tirei na hora, acho que ninguém notou que eu só tirei a foto por que ele estava passando e com certeza iria aparecer. A única foto em que estavam eu e ele juntos. Finalmente eu tinha uma foto daquelas, mesmo que não fosse a melhor das fotos e eu estivesse parecendo um gorila que fugiu do zoológico, o Lee- kun estava naquela foto, então era uma das mais perfeitas. Eu ri sozinha. Eu era muito besta para ter a ideia de tirar a foto, mas eu gostei dela. Imaginei que com o dinheiro eu poderia sair com Lee-kun para algum lugar, talvez o cinema, sem ter que me preocupar com o que comer e quanto gastar. Mas se ele me visse trabalhando como garçonete... eu iria perder tudo.
Primeiro dia de trabalho — 15:30hr — Casa da Tohka.
POV Tohka
Empurrei a porta de casa e subi as escadas correndo. Talvez se eu não estivesse tão apressada, e talvez se eu não estivesse com os olhos cheios de água, se eu pelo menos visse alguma coisa sem que estivesse embaçada, eu talvez não teria tropeçado e caído pela escada como uma tonta. Eu desci as escadas escorregando, minha cabeça batia em cada degrau, eu iria ficar toda roxa depois daquela escada. E eu fiquei lá, caída no chão, chorando como uma boba.
– Filha?! O que houve? — meu pai chegou correndo.
– E-eu cai! — gritei, mesmo que meu pai estivesse de cara para mim.
– Calma, calma! Tente se levantar, amor.
– Não quero!
– Como não, amor? Anda, vem, vamos para o quarto — ele tentou me levantar pela cintura. Eu estava nos pés da escada, chorando como um bebe.
– Não, pai, sai, não quero!
– Filha... O que aconteceu?
– Sai pai! Eu não quero ajuda, eu não preciso! — eu berrava.
– Ok, filha, calma, quer que eu ligue para alguém?
– Quero, liga para o coveiro, por favor, e pra funerária também!
– Não diga isso! — meu pai colocou as mãos na cintura, como sempre, sua barriga grande e redonda foi para cima e para baixo.
– Pai! Sai daqui! — eu não conseguia parar de chorar.
Me virei e comecei a subir as escadas engatinhando como um cachorro. Meus olhos estavam embaçados e eu novamente escorreguei pelas escadas ao pular um degrau. Eu desisti de subir aquela maldita escada e fiquei jogada no chão gelado e recém lavado de madeira.
– Filha?
– Fala, pai, fala — pedi, mais calma agora.
– Está tudo bem?
– Sim, pai, está tudo bem sim.
– Coloque os sapatos, não fique andando de meia pela casa, por isso você escorregou.
– Obrigada, pai.
– Quer ajuda?
– Não, eu quero pensar aqui mesmo — falei, de cara nos primeiros degraus.
– Está machucada?
– Tchau, pai! — gritei.
– Calma! Estou indo... — o homem com um colete de lã saiu de perto, me deixando a sós com a escada.
Primeiro dia de trabalho — 22:14hr — Hospital.
POV Junko
Acordei. Estava em uma maca no hospital, meu irmão estava do meu lado, estava dormindo. Ele me machuca e ainda me traz para o hospital? Me levantei com um pouco de dificuldade. Comecei a andar para fora da sala, mas parei perto da porta. Tamaki ainda estava dormindo. Mandei um beijo de implicância e sai de lá. Eu não poda ir para casa, ele iria me matar quando chegasse lá. Decidi ir à casa de uma amiga, Yahna Mushimoshu, ela com certeza deixaria eu ficar na casa dela, e ainda me ajudaria com a minha família. A única que me entende.
Sai do hospital entrando em salas e me escondendo dos médicos que passavam. Passei agachada pelo balção e consegui sair sem ninguém me ver. Eu nem tinha visto o que tinha acontecido comigo, não me olhei no espelho nem nada, só precisava sair de lá. Fui andando pelas ruas, não sabia onde estava, o hospital para onde o Tamaki me levara não era o mesmo que ele sempre me levava. Fui pedir informação para uma pessoa que passava por ali e ela fugiu de mim, como se eu fosse assaltar ela. Poxa, moça, não sou tão feia assim, pensei.
Consegui perguntar o caminho à um grupo de meninos estranhos e fui andando até onde eles me indicaram, logo eu estava na via principal. Ai já estava fácil chegar na casa da Mushi-chan.
...
Tive que pular o muro quando cheguei na casa dela, foi ai que eu percebi que meu braço estava machucado, e estava muito feio. Como alguém consegue se machucar assim só com um empurrão? Subi por uma árvore no jardim dela, depois de ter caído de costas ao pular o muro, e bati na janela dela. Ela estava demorando. Se ela não estivesse em casa eu iria dormir ali mesmo, na árvore feia e podre que eu estava, sem nem pensar. Eu que não iria voltar para casa aquela noite. Esperei mais um pouco, batendo como uma desesperada de vez em quando na janela até que a Mushi-chan a abriu. Ela tomou um susto quando me viu, e para ela ficar com medo eu devia estar muito ruim mesmo.
– Doida! O que você está fazendo aqui? Como subiu ai? — ela olhou pela janela, procurando uma escada, talvez.
– Preciso de ajuda, deixa eu dormir aqui? — sorri de uma maneira fofa, se é que eu podia naquele estado.
– Como é? Minha mãe veio visitar, colega.
– Colega? Vocabulário feio, Mushi-chan, não pode falar assim.
Ela riu.
– Você não é muito diferente.
– Anda, chega pra lá, vou entrar — falei, me inclinando para frente.
– Deixei?
– E precisa? — sorri, ela era uma das melhores pessoas do mundo, depois da minha irmã, claro, mas... Deixa.
– Filha! — ouvi uma voz gritando.
– É a minha mãe, boa sorte, Junko — ela sorriu.
– Manda ela embora!
– Ela paga minhas contas! Privilégios assim são bons quando se mora sozinha — ela deu uma risadinha fofa.
– Yahna! — ela entrou no quarto. Tentei me abaixar para ela não me ver e acabei escorregando no galho. Fiquei de cabeça para baixo, com as pernas e braços rodeando o fino galho onde eu estava me apoiando. Se eu soltasse iria virar omelete. — Ah, você está aqui, nossa, deu um jeito nesse quarto quando?
Eu ri, não sabia que a Mushi-chan era assim com a mãe, para mim a mãe dela era diferente. Eu sempre me encontrava com a Mushi-chan nos lugares onde eu ia com as minhas amigas. Um dia uma delas nos apresentou e eu fiquei amiga dela até hoje, é uma das pessoas em quem eu mais confio, conto com ela para tudo.
– Mãe! Eu limpo isso tudo sozinha, dá um desconto! — disse Mushi-chan.
– Quando eu tinha sua idade limpava a casa sozinha e ainda cuidava dos meus irmãos!
– Isso foi a noventa e três anos atrás!
– Está me chamando de velha, mocinha?! Eu estou no auge da idade, meu amor, cinquenta anos! Sou mais jovem que muita gente!
Mushi-chan riu.
– É, mãe, mas os jovens tem que dormir, vai, vai, já são onze horas, já devia ter ido dormir a tempos.
– E onde eu durmo? Na pia? Arruma um lugar! Ah, que casa mal arrumada! E o que você está fazendo perto dessa janela? Vai ficar, resfriada.
resfriada, olha a friagem!
– Mãe! — ela suspirou. — Olha! Mãe, estou escutando aquela música que você gosta!
– Qual?
– Não lembro o nome, acho que está tocando na televisão, vai lá ver! Corre, vai acabar!
– Espero que não esteja mentindo! — disse a mãe, sua voz foi ficando mais baixa conforme ia entrando nos outros cômodos.
Esperei um pouquinho até a Mushi-chan dar o sinal.
– Vem, pode subir — ela disse.
– Claro, assim que você me ajudar — falei.
Ela colocou a cabeça pela janela e olhou para baixo, foi quando me viu como um ratinho assustado pendurada na árvore. Mushi-chan começou a rir.
– Que foi? Não vai ajudar?
– Quero ver como vai sair dai!
– Me dá sua mão, eu vou pegar ela e você me puxa.
– Eu tenho cara de quem puxa as pessoas das árvores? — ela balançou seu cabelo loiro que caia pelas bordas da janela. A carinha de boneca dela não me tornava mais confiante quanto ao meu plano.
– Anda! — falei, tentando ser corajosa.
– Isso não vai dar certo... — ela disse, mas depois de respirar fundo ela estendeu a mão para mim. Tive que pensar antes de tomar coragem, quer dizer, eu não salto de árvores todo dia. Contei até três e engoli em seco, em busca da pontinha de coragem que eu nunca tive. Um, dois, três! Me soltei da árvore num pulo e me segurei na mão da Mushi-chan. Ótimo, agora eu estava pendurada na janela de uma garota e tudo o que eu tinha entre a janela e o chão era a mão de princesa da Mushi-chan. Desejei nunca ter tido aquela ideia.
– Ah! Yahna! Me ajuda, por favor! Vou morrer, vou morrer, vou morrer! — eu gritava.
– Você precisa perder um quilos — ela falou. — Eu não vou conseguir te puxar!
Eu estava me debatendo, procurando alguma coisa para me apoiar, mas eu não encontrava. Como eu sou idiota, pensei.
– Cala a boca, Yahna! Anda! Me puxa!
– Como? Eu não sou forte assim! Ai, Junko, você está me machucando! Meu pulso vai sair!
– Calma! Sem drama! — eu tentei parar um pouco para pensar, mas meus pés não ficavam quietos, abanando de um lado para o outro. Percebi que aquele era um bom momento para fazer um drama básico. — Vou morrer, Yahna, vou morrer! Diz para o Tamaki que é tudo culpa dele e que ele é um babaca.
– Para, Junko. Fica direito, para de se mecher!
– Como, querida?! Eu estou pendurada na sua janela! Quer que eu fique como? — olhei para o chão. Posso jurar que ele já estava me chamando, piscou para mim!
– Olha, eu vou te puxar, mas você também tem que fazer alguma coisa, tenta colocar os pés na parede.
– Não dá, eles escorregam — falei, dando demonstrações inúteis.
– Tira o tênis e a meia.
– Ficou louca?
– Olha quem está falando!
– Yahna! Não tem música nenhuma, acho que são os vizinhos — disse a mãe da Mushi-chan, ela estava vindo para o quarto, pela voz dela.
– Não, mãe! — gritou Mushi-chan, ela parecia desesperada. — Olha o que você está fazendo — ela disse para mim.
Eu a olhei com uma cara de quem diz "ei, a culpa também é sua".
– Mãe! Olha na geladeira, tem pudim lá, eu fiz para você! — ela gritou novamente para a mãe.
– Pudim? — a mãe perguntou, então saiu tagarelando alguma coisa pela casa.
– Ótimo — murmurou Mushi-chan.
– Me tira daqui, mulher! — gritei.
– Tira o tênis! — ela me segurava com dificuldade com as duas mãos, eu não sei como ela ainda não tinha caído para fora da janela, já que estava até a cintura para fora.
– Não consigo!
– Consegue sim, fez a merda agora arruma!
– Olha a boca! — falei e então me virei para os meus pés. Eles dançavam sem parar no ar, estavam fora do eu controle. Tentei manter eles juntos e tirar o tênis, mas a imagem do chão fazia minha cabeça girar. Consegui tirar um, e depois a minha meia, mas não consegui tirar de jeito nenhum o outro. — Não dá, Mushi.
– Ok, você só precisa de um — ela fez uma pausa -, eu acho.
– Acha? Nossa, que encorajador — ironizei.
– Coloca seu pé na parede!
Meu braço estava todo arrebentado, já tinha um corte feio, uma bolha horrível e agora ele estava todo arranhado por ficar arrastando naquela parede. Eu me segurava na Mushi-chan como se eu fosse morrer se largasse... ah, é mesmo, eu poderia mesmo morrer!
Coloquei o pé descalço na parede e o pé com o tênis escorregou, como eu já havia inutilmente demonstrado.
– Tenho que tirar o do outro — expliquei.
– Não tem, não! Agora não dá mais, meu braço vai cair! — ela gritou. — Tenta subir.
Dobrei a perna, já tinha tentado escalar antes, com aquela parede estranha cheia de pedras coloridas, mas aquilo já era outro nível de agilidade, numa parede lisa eu quero ver quem escala! Mushi-chan foi me puxando para cima, eu estava andando pela parede. Me senti tão bem por não estar mais naquele sufoco. Mushi-chan foi forte o suficiente para me puxar para o parapeito da janela, eu fiquei tão orgulhosa dela. Logo (e com muito esforço) eu já estava entrando pela janela.
– Nunca mais faça isso! — murmurou Mushi-chan.
– Foi legal, né? — terminei me jogando no chão do quarto da Mushi-chan, ela parecia cansada, a pele branca dela demonstrava o esforço ficando totalmente vermelha. Me senti culpada.
– Yahna — chamou a mãe.
– Droga- falei. Rolei até a cama mais próxima e me enfiei embaixo dela.
– Quer pudim? — a mãe falou.
– Não, mãe, eu estou meio cansada, vou dormir — falou Mushi-chan, sua voz era tão amigável, ela era tão fofa!
– O que houve? Você está tão vermelha... Está com febre?
– Não, deve ser o calor, sabe, está muito quente aqui — ela falou, um pouco alto demais, acho que estava tentando falar comigo. Dei um risinho baixo, espero que a mãe dela não tenha escutado.
– É, que cidade calorenta, credo, nunca vi pior. Bem, eu vou comer um pouco de pudim e vou dormir, ok, filha?
– Já arrumou um lugar?
– Sim, não precisa se preocupar, boa noite — ela parecia estar sorrindo.
– Boa noite, mãe — disse a garota, ela não estava sorrindo, parecia estar falando aquilo por obrigação.
A mãe fechou a porta e eu sai de baixo da cama.
– Desculpa — eu disse.
– Não precisa se desculpar. Foi divertido — ela sorriu.
– É, foi divertido.
– Mas nunca mais faça isso — ela olhou para o meu braço, achei que ela já tinha visto antes, mas só pareceu perceber ali. — O que aconteceu?
– Briga com o Tamaki — respondi. — Nada demais.
– Como não? Que corte feio, ele te cortou?
– Não, eu me cortei sozinha quando cai no chão — eu pensei um pouco. — Eu acho.
– Eu vou cuidar disso, você pode ficar aqui essa noite — ela sorriu. Que fofa!
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