— Cuidado para não cair, por favor. Atenção para não tropeçar. Obrigada.

JoJo recebeu o bilhete de um homem bronzeado com palmeiras estampadas na camisa, depois aguardou pacientemente que uma mulher encontrasse o seu em duas cestas de palha volumosas.

— Espero que não tenha perdido, Mabel. Eu avisei que era melhor deixar comigo.

— Não perdi — disse a mulher irritada, e mostrou o pequeno bilhete azul de papel cartão.

— Obrigada. Por favor, tomem seus assentos. — Demorou um pouco até que todos estivessem acomodados e ela fizesse o mesmo. — Senhoras e senhores, bem vindos a bordo do Shine Water.

Mesmo preocupada com seus problemas, JoJo iniciou seu monólogo de abertura . Antes de ligar o motor, dirigiu um aceno impessoal com a cabeça para o homem no cais, que soltou as amarras. Sua voz era agradável e natural. Ela olhou novamente para o relógio. Já estavam dez minutos atrasados. Pela última vez antes de partir, esquadrinhou a praia, as espreguiçadeiras, os corpos lustrosos de bronzeador estendidos como se fossem oferendas ao sol. Não podia protelar a saída por mais tempo.

O barco balançou um pouco quando saiu do cais e tomou o curso rumo norte. Mesmo com o pensamento longe, JoJo mudou o curso e afastou-o da costa com muita perícia. Poderia pilotar o barco de olhos fechados. O vento que batia suavemente no seu rosto a deixava calma e já estava esquentando o dia, apesar de ainda ser cedo. Nuvens brancas inofensivas pontilhavam o horizonte. A água do mar, com um rastro de espuma produzida pelo movimento do motor, era azul como prometiam os guias de turismo. Passados dez anos, JoJo ainda dava valor a tudo aquilo, em porte por ser seu sustento, mas também devido à atmosfera que relaxava os músculos e fazia os problemas desaparecerem.

Atrás dela, na embarcação comprida em forma de projétil, as dezoito pessoas sentadas em bancos acolchoados já contemplavam os peixes e as formações geológicas através do fundo de vidro. JoJo duvidava de que algum deles estivesse lembrando de alguns dos problemas deixados em casa.

JoJo já havia feito aquele percurso inúmeras vezes. Mesmo sendo rotina, nunca o achava monótono. A cada passeio, deleitava-se com a sensação de liberdade do mar aberto, do céu azul e do ronco do motor ao seu comando. O barco lhe pertencia, além de outros três e da pequena loja de mergulho feita de blocos de concreto próximo a praia. Conquistara tudo aquilo trabalhando arduamente. No início, teve problemas para pagar as contas exorbitantes com um fluxo de caixa mínimo. Mas conseguiu. Dez anos de luta, afinal, eram um preço pequeno para que conquistasse algo seu. Voltar as costas para o seu país e deixar pra trás tudo o que lhe era familiar foram compensados pela paz de espírito que sua vida atual lhe trazia.

Notas finais
Quando receber leitores, começo a postar o resto.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.