Negro Ano Novo
1 Oneshot
Notas iniciais
FELIZ 2007! ^^
31 de dezembro de 2003.
-Por que tenho que usar roupas brancas? São apenas superstições, mãe! Você sempre usa a mesma calcinha amarela desde a adolescência e nunca ficou rica! — Alana ria, descontraída e apontava para as roupas brancas da mãe. Tinha apenas treze anos mas sabia desafiar seus pais para fazer as coisas do seu modo. A mãe, acostumada a sua filha rebelde, balançava a cabeça em desaprovação.
-Está bem, não vou mais insistir! Continue com as suas roupas negras até no fim do ano, mas depois não reclame se alguém olhar atravessado para você...
Alana deu de ombros, era isso mesmo que queria! Que todos a olhassem atravessado mesmo e não esquecessem de reparar no tom avermelhado do seu cabelo negro e nos lábios pretos como a noite. Afinal, suas roupas eram bonitas apesar de tudo, Alana lembrava bastante um jovem da corte francesa do século XVIII (isso mesmo UM, e não UMA), babados e rendas brancas mesclavam-se com o tecido da blusa e uma saia bufante concluiam as suas roupas pomposas. O seu sobretudo de couro legítimo havia custado os olhos da cara para os pais, mas eram eficientes na hora de tornar seu visual mais gótico e andrógeno ainda, ela deliciava-se ao se sentir como um menininho francês.
Seu Josué, o pai de Alana e principal financiador das roupas góticas, dirigia o carro no qual acontecia a discussão:
-Ah! Não fique aborrecida com ela, querida. Ela já é grande o bastante para escolher o que quer vestir! Temos que aproveitar que ainda temos um lindo bebê sobre o nosso controle.
Alana abraçou-se a sua irmã mais nova e sorriu ao acariciar o bebê, estava feliz apesar das reclamações da sua mãe. Fazia cóscegas na sua irmã e ria também, deleitando-se com a simplicidade do bebê. "Pobre Philepa..." pensou a menina, "Nem faz idéia de como vai crescer com essa irmã sinistra ao seu lado e esses pais repressores!". Ela riu de si mesma, talvez, eles nem fossem tão repressores assim, já que Philepa havia sido o nome escolhido por ela para sua irmã e que ela retirou de um de seus livros sobre magia e vidas passadas.
O Gol branco da família atravessava a floresta de eucalipto e lançava uma turva luz amarelada a frente, era um cenário que combinava bem com os sentimentos e aspecto de Alana e ela sentia-se em casa sempre que cruzava aquela floresta. Eram as árvores que a separavam da civilização, como ela costumava pensar, já que a sua casa ficava isolada em uma fazenda atrás da mata dos eucaliptos.
-O que é isso mais a frente, querido? — a mãe havia apontado para uma sombra densa na escuridão, sem dúvida se tratava de um animal, já que era grande demais para um humano. O carro prosseguia a mesma velocidade mesmo com o alerta da mulher. — Diminua a marcha, assim vamos bater nessa coisa...
O homem tentou diminuir mas percebeu que a caixa de câmbio simplesmente não queria cooperar com ele. A tensão invadiu o automóvel de Josué.
-Não consigo, acho que os freios estão com algum defeito!
-Mas tente algo rápido ou vamos bater!
-Mãe, não é um cervo? Buzine, pai!
-Calma! Parem de gritar! Estou pensando!
-Vamos morrer, pai...vamos morrer...mexa esse carro logo...
-Pare com isso, não morreremos agora!! — ele fitou os olhos da filha mais velha e voltou-se para frente, para o volante e para o ser monstruoso. Era tarde demais. Em um milésimo de segundo o Gol se chocou contra pelagem do animal gigantesco e ganhou os ares de cabeça para baixo. A tentativa de desvio de Josué não fora o suficiente e o carro foi lançado para frente violentamente. O automóvel capotou em câmera lenta e os seus passageiros viram diante de si suas respectivas vidas passarem em um flash mudo diante de seus olhos. As lágrimas da mulher de Josué caiam petrificadas, contra a gravidade, e ela já não sentia mais suas pernas. O bebê do casal ria, ainda a risada pura de quem não entende o que se passa e anestesia a dor alheia...mas o choro irrompeu dos seus frágeis pulmões quando ele também sentiu a ferida da morte abrir-se em seu peito!
Josué, o pai de família típico e trabalhador, culpava-se pelo carro e não acreditava que a sua vida ia acabar por um mísero freio! Ele berrou o mais alto que podia, mas ninguém ouviu, o som da tragédia era maior do que a sua súplica para continuar vivendo. Enfim, o carro caiu e girou para além da estrada.
...
Um silêncio mortal se fez. O animal debandou no meio dos eucaliptos e estranhamente nem um urro de dor emitira.
...
Poucos minutos depois Alana abriu os olhos, o mundo girava ao seu redor e o teto do carro estava há poucos milimetros de chocar-se com o seu crânio. Ela não sentia mais o seu corpo e olhava-o como se fosse uma porção estranha do seu ser. Estaria deixando este mundo para um mundo melhor?
Ainda não, tinha muito o que fazer naquele lugar.
-M-mãe? — ela murmurou, entre gemidos de dor pelas escoriações. Com um esforço enorme ela inclinou o corpo na direção do banco da mãe, a cutucou. — M-mãezinha...r-responde...- A cabeça da mãe pendia para um lado, o pescoço quebrado e um filete de sangue escorrendo dos lábios. Estavam ambas de cabeça para baixo. — MÃE! — Alana berrou em desespero. — Droga, mãe! FALA! — Alana encostou a cabeça no banco alcochoado da sua mãe e, mesmo sem vê-la, tateou seu rosto, relembrando-se mentalmente das suas feições. Ela tinha as rugas de uma mãe preocupada e amável em excesso, realmente cada traço seu combinava com a a sua personalidade de mãe coruja. Alana fechou os olhos após nova vertigem, como queria ter se preocupado mais com a sua mãe antes.
Lágrimas rolaram dos olhos fechados dela, talvez não fosse tão divertido e excitante o mundo negro que escolhera imitar. Mas...talvez seu pai ainda estivesse vivo e tivesse tapeado a morte! Ela abriu os olhos com esperança e se remexeu no carro, tateando as peças do automóvel na escuridão, até achar os cabelos espetados de seu pai. Ele era o homem esperto que nada temia, ele era o homem que não temia o sonho de Alana de visitar cemitérios e, portanto, nem a morte seria capaz com ele!
-Pai! Pai! Pai! — ela falava sem perceber a repetição da sua voz. Queria repetí-la, de certa forma, para garantir que permanecia viva e para acordar seu pai do sono da morte. Ele não lhe respondia, ela não deseja sofrer mais, por isso desistiu de insistir. Até ele havia tombado e seu coração não suportaria a melancolia de refletir sobre isso. Chega de tanta dor e lágrimas.
...
Após cinco vagarosos minutos um choro fez-se ouvir no meio dos eucaliptos. A menina de preto sabia que precisava checar se mais uma pessoa havia sobrevivido. Irônicamente, estava de preto e já de luto pelos seus pais. O destino às vezes nos prega peças dolorosas de humor negro. O choro desfez as teorias funestas da mente de Alana e ela partiu em busca da sua irmã. Claro, aquele choro poderia ser apenas de mais um animal daquela maldita floresta, mas seu coração de irmã sentia um aperto que lhe dizia: "Vá em frente, Alana, aquela é mesmo sua Philepa"! Ela não havia parido sua irmã, mas havia lhe dado um nome e os nomes exercem um forte poder na pessoa que os possui, Alana estava ligada a sua irmã por este vínculo místico.
Ela arrastou o corpo para sair do carro destroçado e foi até o meio das plantas com dificuldade. No meio das árvores altas, arbustos frágeis se projetavam sustentando uma cadeirinha de bebê com Philepa intacta dentro dela. Era um milagre! Só podia ser! Alana reuniu todas as forças do seu corpo e correu ansiosamente até sua pequena irmã, abraçando-a e jogando-se com ela no meio das folhas macias que a haviam protegido. E, naquele exato momento, o ano de 2003 partia e nascia o ano de 2004 com uma nova esperança para Alana e sua irmã. Philepa não era o primeiro bebê a ter nascido no ano, mas com certeza era o primeiro bebê a ter renascido no ano. Alana ergueu sua irmã, agora a sua quase-filha, e levantou-se para admirar os fogos. Era uma noite que as marcaria para sempre, as duas crianças abraçaram-se e foram iluminadas pelos fogos no céu, o ano havia nascido novamente e junto com ele as duas meninas que enfrentariam um doloroso 2004 mas que jamais se separariam pois nem a morte conseguiu afastá-las.
- Feliz ano novo, Philepa! — Alana gritou no meio da floresta.
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