Negra-Luz
2 Capítulo 1 - O Mensageiro dos Deuses
Notas iniciais

"Colina na primavera (Lugar de paz) — Creditos na Imagem"
— Faça de novo.
— Mas já fiz umas mil vezes. Não quero mais.
— Você sempre fala a mesma coisa e acaba acertando, não temos o dia todo. Você precisa aprender a controlar. Não quer ser livre como um passarinho?
— Essas aulas são inúteis, nunca vou precisar de um treinamento de combate para nada. Por favor... Eu estou com fome.
— Que eu me lembre, você gostou bastante das aulas do mês passado. Vamos lá, Zilma, faça de novo! Do inicio, exatamente como estudamos.
A criança sente seu estomago roncar, já são nove da manha e ela ainda não conseguiu tomar café. Juntou toda a força de vontade que ainda tinha e tentou se concentrar pela milésima vez em canalizar toda sua magia.
— Isso mesmo. Agora mantenha constante, escolha um alvo e acabe com ele. — Segyn nunca se cansava dessas aulas e viu, novamente, Zilma errar um alvo a pouco mais de dez passos de distancia. Era um trabalho difícil.
— Eu não sou boa com isso. — disse olhando-a desafiadoramente. — Que tal irmos para casa assar bolos com a mamãe? Eu sei que você adora aquele aroma, Segyn. Ou também podemos passear pela floresta mais uma vez, estou com saudade das amoras que nascem perto do rio.
— Vamos lá mocinha, concentre-se. Faça de novo. — Segyn sabia do potencial de Zilma e, principalmente, como atiçar o seu “mal” interior. Não se deixaria persuadir tão fácil.
Nesse momento, Zilma já não se aguentava mais de raiva e fome, estavam há meses nesse dilema. Quando Segyn iria entender que ela só queria ir pra casa curtir os irmãos e a comida? Sentiu um calor dominando seu corpo a partir da espinha, parecia que a pele ia pegar fogo. Concentrou-se mais uma vez, sentindo o ponto de fusão em seu estomago, a magia se esvaindo e concentrando na palma de sua mão. E antes que Segyn falasse qualquer coisa, ela a lançou, passando a pouco mais de um centímetro do alvo desejado. Nesse momento, ela foi tomada pela frustração, queria ter acertado, para acabar logo com esse tormento diário.
— Está vendo? Estamos quase lá, concentre-se. Fa...
— Aaaaah não, não, não...
Os olhos de Zilma começaram a brilhar como duas esferas flamejantes, ela sentia toda a magia querendo sair e acertar o primeiro desavisado que aparecesse em sua frente. Fez todo o esforço que era capaz, sentiu todos os ossos do seu corpo se renderem á sua ira e nesse momento, levitou, como um ser divino cansado dessas brincadeiras de mortais.
— Eu vou falar pela ultima vez — a voz de Zilma parecia imponente como um trovão. Em todos os meses de treinamento, Segyn jamais havia visto ela assim. — vamos para C-A-S-A, mas você quer que eu acerte os alvos? Eu acerto, eu com certeza os acerto pra você.
Criou-se uma aura prateada em volta de Zilma, que ardia em cólera e desobediência. Nem precisou se concentrar dessa vez, cada musculo do corpo dela sabia o que fazer. Então, cresceu entre suas mãos três esferas brilhantes que pareciam cada vez mais densas conforme ela as moldava. Olhou fixamente para os alvos de madeira e libertou suas três esferas de magia, cada uma com endereço certo. A mira foi tão certeira que ate mesmo Segyn, dessa vez, sentiu orgulho, principalmente ao ver que a relva, ao redor de onde a esfera havia atingido, começava a murchar devagar, ate perder completamente a vida. Zilma estava aprendendo, ela finalmente estava aprendendo.
— Parece que o treino de hoje foi produtivo, podemos voltar para casa. Você merece um pedaço de bolo. — Disse, vendo Zilma voltar ao seu estado normal, encostando os pés no chão.
— Finalmente. — Zilma se sentia fraca, seu corpo latejava e vez ou outra parecia querer desmaiar, mas não daria esse gostinho de superioridade à Segyn jamais. Pegou suas coisas, e voltou à floresta, refazendo o caminho de casa, sem esperar Segyn voltar a incorporar-se ao seu corpo.
Diferente da floresta escura, o caminho por onde Zilma trilhava era muito convidativo. A primavera havia chegado, trazendo frescor e vida à pacata Lavin. Midgard sempre dispunha de estações marcantes. Arvores frondosas, pássaros cantando, a brisa suave que acariciava o rosto e um céu limpo, deixando o sol brilhar. A trilha era ampla, enfatizando o verde brilhante das coníferas ao redor. Um cheiro de frescor invadia o olfato de Zilma, deixando o dia cada vez mais agradável. Não demoraria muito até que chegasse em casa e pudesse sentar numa mesa recheada de guloseimas, especialidade da mamãe. No caminho, pensava sobre seus dons. Era a única da casa que os possuía e sentia certo incomodo de ter que esconder de sua família, mas Segyn sempre disse que era o melhor a se fazer. Eles não entenderiam e esse precisava ser um segredo só delas.
Quando pequena, Zilma tentou surpreender a mamãe fazendo sua boneca levitar, dançando pelo quarto como uma bailarina das caixinhas de musica espalhadas pela casa. Parecia uma ideia fantástica, a mamãe poderia ter uma bailarina só dela, que dançaria para todos os lados, bastava pedir à Zilma. Mas a ideia não foi tão bem interpretada, rendendo à criança noites de reza em seu quarto e uma sessão de benzimento. Outra vez, saíra para pescar com seus irmãos. Era uma atividade simples: lançar a rede, esperar e puxar a rede, mas sempre parecia que a rede de Zilma tinha menos peixes e ela odiava ficar para trás. Então colocou a mão na água, canalizando sua energia para que os peixes se sentissem atraídos á ela. Assim que lançou a rede, sentiu-a tão pesada que precisou pedir ajuda para puxar. Até teria contado aos irmãos como realizara a façanha, não fosse o olhar de desconfiança que lançavam-na constantemente. Preferiu se contentar com um “sorte de principiante”.
Levaram cerca de vinte minutos para ver, ao longe, o telhado negro da sublime casinha. Apesar de ainda ser considerada pequena, era três vezes maior que a casa em que Zilma nascera. Por fora, se mostrava convidativa, a lareira estava sempre acesa, mesmo em dias quentes. Era uma construção sólida, preparada para a mais forte tempestade, assim como bem arejada para os dias mais quentes. O construtor do senhor Hammer tinha conseguido adicionar um tom vermelho claro a frente da casa (que Zilma reavivava cada vez que ameaçava desbotar), fazendo-a destacar-se entre aquela imensidão de verde. A mãe, Aura Hammer, fazia questão de ostentar um lindo jardim, com begônias, tulipas, trepadeiras, arvores frutíferas e toda sorte de plantas que conseguisse encontrar.
Ao pisar nos primeiros três degraus da entrada, bem na altura dos olhos, pregado à porta, está o brasão da família: um martelo entalhado em madeira, com detalhes dourados e o nome “Hammer” escrito logo abaixo, seguido por “ e uma Wormud”, (feito artesanalmente pelo patriarca da família, pois os Hammer achavam importante perdurar o nome da família biológica de Zilma, mesmo que ela fosse a única sobrevivente). Essa entrada já mostrava o espirito da família: forte, imponente, respeitada. Zilma tivera sorte de ser encontrada por uma das famílias mais influentes do condado.
Por dentro, a casa era dividida em cinco cômodos amplos. A sala era o primeiro, sucedida pela cozinha (sem nenhuma divisão), ambas muito claras devido às paredes cobertas de cal e as janelas, que permitiam a entrada da luz solar. Uma mesa grande de cedro com seis acentos ocupava boa parte da cozinha, que era aquecida por um pequeno fogão a lenha, seguido de prateleiras com muitas especiarias e cortinas alvinhas. Já a sala tinha muitos troféus das crianças (os prodígios do condado), animais entalhados, bancos cobertos por mantas de crochê e uma pequena claraboia bem ao centro.
Virando à esquerda, encontravam-se os três quartos. O maior era do Sr e Sra Hammer, com paredes claras e poucas mobílias: uma cama grande, coberta de mantas sedosas, um criado mudo, ostentando o pequeno lampião e uma cômoda, grande o suficiente para guardar as roupas do casal. O segundo era dos dois irmãos, que tinham pouco mais que dez anos cada um. O quarto era preenchido por duas camas pequenas, cobertas por um tecido em linho, uma pequena banqueta encostada à parede cinzenta entre as duas camas, brinquedos espalhados, dois baús para guardarem seus pertences e uma janela enorme, que permitia a vista de todo o jardim. Logo ao lado, o quinto e ultimo cômodo, um quarto pequeno, de paredes claras e piso cinza, com a cama dossel ao fundo. Zilma preferia não ter armários, então suas roupas ficavam penduradas em uma arara feita especialmente para este fim. Próximo à cama ficavam três candelabros de macramê, sua salvação em noites sem lua.
Zilma entrou correndo pela cozinha. Vendo á mãe logo ao fundo, correu para abraça-la. Aura Hammer era uma mulher esbelta, de pele clara e cabelos flamejantes, com traços finos e uma habilidade indescritível na cozinha. A verdadeira mãezona que da bronca, oferece muitos pedaços de bolo e obriga os filhos a lavar os pés antes de dormir. Ela se sentia feliz com a posição em que ocupava, era a chefe da casa, forte, respeitada. Cuidava de tudo enquanto o marido saia para abrir a ferraria da família e às vezes fazia negócios com alguns utensílios artesanais, como forma de hobbie.
O cheiro de café da manhã, misturado com inicio de almoço estava fazendo o estomago de Zilma tremer de alegria. Nunca mais iria aos treinos com Segyn sem comer algo.
— Onde estava mocinha? Quer me matar do coração? — Aura sempre fora uma mãe muito cuidadosa, se pudesse, colocaria corujas para vigiar cada passo dos seus filhos.
— Mamãe, já faz meses que eu te explico, saio para caminhar, meditar, às vezes colher algumas frutas. Não precisa se preocupar, conheço essa floresta como a palma da minha mão. — Zilma odiava ter que mentir para Aura, mas Segyn a havia convencido de que a verdade seria chocante demais.
— Não é certo que uma garotinha saia por ai tão cedo, você nem mesmo sabe se defender. — Disse Aura. Zilma amava a preocupação que a mãe tinha com ela. A calma, o carinho e o pensamento de que a criança sempre fora a órfã indefesa, faziam Zilma se sentir segura, acolhida, amada... Ela era parte da família e com certeza prezava por isso. Aura suspirou forte. — Não posso te proibir de sair, você é uma garotinha livre, mas posso pelo menos cuidar de você. — e tirou uma adaga do bolso de seu avental. A arma tinha uma lamina negra, cravejada de martelos prata. O cabo de madeira fora revestido por couro, dando um ar ameaçador à pequena adaga.
— Uau! É linda, eu... Nem sei como agradecer. — Os olhos de Zilma começaram a marejar lagrimas. Era realmente a adaga mais linda que ela já tinha visto.
— Seu pai fez especialmente para você. Está trabalhando nela há semanas. Queríamos esperar até o seu aniversário, mas sabe como é o seu pai, ia acabar tendo um ataque se não entregasse logo. — Dito isso, Yorick saiu do corredor onde estava escondido, ouvindo toda a conversa. Só então Zilma viu os olhos dos dois brilhar e correu para abraçar seu ferreiro preferido.
— Estava com medo de que você não gostasse. Juro que abandonaria a profissão na mesma hora. — Todos riram muito e as bochechas do Sr Hammer coraram. — Mas já que você gostou, podemos começar umas aulas de como manusear corretamente essa belezinha. Fui um ótimo guerreiro durante a juventude.
— Eu com certeza vou adorar. — Zilma gostou muito da ideia de poder passar mais tempo com o pai, aprendendo sobre algo que ele realmente gostava.
Yorick era um homem de estatura alta, peludo, forte... Os cabelos, ondulados e negros, realçavam sua pele — levemente corada pelo calor da ferraria. Alguns tremiam só por sua presença. Martelava os metais como ninguém, forjando armas letais que eram procuradas por todos os guerreiros do reino. Mas, na companhia de sua família, era um homem carinhoso, um pai amável, um amigo gentil e cheio de expectativas.
— O que é isso? Por que ninguém chamou a gente para o abraço em família? — ninguém tinha percebido os gêmeos entrarem, mas logo foram puxados pelos braços fortes de Yorick, que espremeu os três em um abraço apertado. — Tudo bem, — falaram quase sem folego. — a gente já entendeu que você nos ama muuuuito, agora pode soltar. — e todos caíram na gargalhada mais uma vez.
Era final de semana, todos passaram o resto do dia ajudando Aura com a comida e a casa. Os gêmeos adoravam acender o fogo e descascar os legumes. Aparentemente, herdaram a maestria de culinária da mãe. Os dois eram franzinos e ruivos, destacando-se apenas por gostos singulares. O que nascera primeiro se chamava Erick, e estava sempre tentando adicionar novos ingredientes às receitas de sua mãe. Já o mais novo, aparentemente herdaria a ferraria da família, pois além de dotes culinários, também se interessava muito pela arte do pai. Uma vez até fez uma pequena faquinha de fatiar carnes para presentear sua mãe.
Já Yorick e Zilma, espanaram e varreram a casa, enquanto Aura cuidava da “tonelada” de roupa que só aqueles quatro conseguiam juntar em uma semana. Pouco depois da hora do almoço, Zilma rumou ao seu quarto, a fim de descansar do dia corrido.
Faltava uma semana para o aniversário de 14 anos de Zilma e ela se tornava cada vez mais forte e bela. O cabelo continuava branco (devido o incidente de seu nascimento), seu pele, extremamente alva, vez ou outra adquiria uma tonalidade corada, em vista das horas que passava exposta ao sol. Já sua personalidade era algo turvo. Ás vezes mostrava-se como uma garotinha amável, feliz pela família que tinha. Outras vezes, sua voz vinha carregada de um tom de amargura, como se buscasse constante vingança de seus pais biológicos. Não entendia por que ela tinha que ser a diferente, por que não podia ser só uma humana normal, nascida em uma família de ferreiros alegres. Mas como dizia a Sra Hammer, o justiceiro do universo tem um plano para todas as criaturas, o Ragnarock depende de pequenas ações de todos nós.
Não tardou até ouvir seu pai chama-la, cheio de entusiasmo, à sua primeira aula de manuseio de armas brancas. Para sua surpresa, o Sr Hammer já havia planejado tudo: limpou uma pequena área do jardim (se Aura visse aquilo, ele estaria em apuros), revestiu alvos de madeira com sacos de feno e trouxe uma jarra de água.
— Vamos lá garotinha, me mostre o que você sabe.
Zilma precisava confessar que não sabia absolutamente nada, além de segurar a adaga. Então fez a melhor cara de brava que tinha e tentou desferir um golpe mortal naquele alvo de feno. É bem verdade que ela conseguiu acertar, mas não cortou mais que um centímetro, mesmo com a adaga muito afiada. Seu pai riu.
— Vamos ter bastante trabalho pela frente. Usar uma adaga não é apenas cortar, é uma arte. Há todo um posicionamento, uma visão periférica... E muitos não acreditam, mas saber se defender é a parte mais importante.
Andou até perto de Zilma e começou a posicionar seu corpo de forma que ele mantivesse o equilíbrio, assim, se precisasse atacar ou se defender, seu corpo poderia utilizar uma rotação especifica, lhe dando vantagens em uma luta. Pegou a adaga de sua mão e colocou sob um pequeno banquinho e entregou-lhe um pedaço de madeira das mesmas dimensões da adaga.
— Agora tente me atacar. — Disse Yorick.
Zilma foi com tudo na direção dele, a fim de acertar sua barriga, seria um golpe doloroso, mas ele se esquivou tão rápido que ela mal teve tempo de acompanha-lo com sua “adaga improvisada” e ele a acertou nas costas.
— Se fosse um corte, você precisaria de um médico. — ele estava adorando tudo aquilo. Nunca tinha ensinado sua “arte oculta” a ninguém, e era muito divertido.
“Hora de utilizar as técnicas de defesa que treinamos mês passado, menina”. Era a voz de Segyn falando dentro dela. Parece que o treinamento de combate não era tão inútil afinal. “Vamos mostrar a ele que você pode ser um inimigo páreo para essa brincadeira”.
Zilma afastou-se e voltou à posição de defesa, dessa vez, os movimentos estavam bem claros em sua mente. Seu pai empunhou o pedaço de madeira novamente, dessa vez, ele que tacaria. Avançou rapidamente em direção a ela, tentando dar-lhe um golpe da parte superior do braço, mas Zilma abaixou-se rapidamente, tocando a parte inferior da coxa dele com a falsa adaga.
— Você que precisaria de um médico agora. — os dois riram.
— Parece que você aprende rápido. — disse, voltando para posição de defesa. — mas vamos ver se pode me acompanhar.
Movimentou-se tão rápido que Zilma mal conseguiu acompanhar e quando percebeu, o bastão de madeira já estava encostado à sua barriga. Realmente era eletrizante a forma como ele se movia, a destreza, a simplicidade. Gostaria de ficar tão boa quanto ele algum dia. “Se começasse a prestar mais atenção às minhas aulas, já estaria muito melhor”. Zilma queria a mandar ficar quieta, mas sabia que era verdade. Então se virou de costas, precisava tomar distancia para pensar no próximo movimento.
— Nunca dê as costas ao seu oponente — disse, tentando acertá-la na nuca. Mas, dessa vez ela estava preparada, girando e acertando o braço dele por baixo.
Passaram mais de duas horas nessa disputa, e parecia que não teria fim, não fosse por Aura aparecer e querer saber exatamente para onde ele havia deslocado suas plantas. Não haveria mais treino por hoje, papai estaria “ocupado”. Então Zilma pensou em aproveitar o resto da tarde no lugar de costume, ela gostava de chamar de “Lugar de Paz”. Já estava cruzando a cerca quando ouviu sua mãe gritar: “volte antes de escurecer, a janta é a sua preferida, torta de bacalhau com repolho”. Seu estomago roncou na mesma hora. Zilma precisava aprender a controlar aquele estomago feroz.
Era inicio do pôr-do-sol quando chegou ao topo da colina, sentou-se em baixo da velha arvore para aproveitar a sombra e olhou para baixo, o mar, sempre tão... Grande. Nada trazia mais calma à Zilma do que ficar recostada aquela amoreira admirando a imensidão azul. “O que acha Segyn? Também gosta daqui?”
Um sopro prateado saiu do corpo de Zilma, tão elegante quanto a treze anos atrás. Segyn era como uma amiga para Zilma, estava com ela desde que se entendia por gente, vira seus primeiros passos, primeiras palavras e a primeira paixonite. Era companheira inseparável em seus momentos de explosão e também nos momentos de alegria. Uma podia sentir tudo que a outra sentia, era como um encontro, duas almas dividindo o mesmo corpo.
Apesar de parecer estranho, as duas estavam acostumadas, entendiam e respeitavam as limitações da outra. Mas, em muitos momentos, Segyn ainda era uma incógnita para Zilma. Às vezes, em comemorações muito felizes com sua família, de repente, Zilma sentia um aperto no peito, uma tristeza quase palpável. Sabia que eram os sentimentos de Segyn refletindo nela, mas Segyn nunca quis falar sobre o assunto, dizia que era melhor não reabrir aquela ferida.
— Você sempre me trás aqui, então é, acho que aprendi a gostar. — disse, recostando sobre o tronco da amoreira, ao lado de Zilma. — É amplo, da para ver muitas paisagens, faz eu me sentir livre.
— Sabe que eu queria muito que você fosse livre, mas não sei como fazer. Não sei se tenho que falar algo ou fazer alguma magia. Talvez devêssemos visitar algum mago experiente, ele pode ajudar. — Zilma odiava sentir a tristeza de Segyn, pois se sentia imponente. Era como estar de mão atadas vendo a amiga definhar.
— Minha escolha, minha responsabilidade. Tudo bem criança. Um dia tudo encontra o seu lugar, eu só não imaginava que o para sempre seria tanto tempo.
Muitas vezes Segyn falava coisas que Zilma não compreendia, mas ela já havia aprendido que era melhor não interrogar, pois acabaria como em todas as outras conversas: frustrada e sem respostas.
Um vento forte soprou do norte, era tão irreverente que seria quase palpável, não fosse a distancia entre cada átomo. Levantou as folhas secas do chão, fez farfalhar o topo da arvore e bem distante, Zilma percebeu pequenas ondas se formando. Vendavais não eram muito comuns nessa época do ano, ainda mais em um dia de céu tão limpo quanto aquele. Segyn levantou-se, lembrava daquela sensação e de repente, teve saudade de casa, da sua verdadeira casa.
— É ele, com certeza é ele. — voltou-se para Zilma — Diga: “eu recebo vossa mensagem”.
— O que? Mas por que? — Mais um momento em que Zilma não entendia nada, que novidade.
“Segyn, esposa de Loki,
Sua hora é chegada.
Volte para casa,
Sua família à espera.
Mas, seja paciente,
Um passo de cada vez.
Aceite o chamado,
Pois, sem o corpo,
é impossível trazer à alma”.
— Era para mim, a mensagem era para mim. Eles ainda estão vivos. V-I-V-O-S. — o rosto de Segyn se iluminou olhando para Zilma — Você não imagina por quantos séculos eu esperei essa notícia.
— Sim, eu ouvi. O que foi isso? A gente falou com o vento?
— Esse é Hermodr, o mensageiro dos deuses. Você nem imagina a honra que é receber uma mensagem por seus meios.
Zilma continuava sem entender muita coisa, mas não pôde deixar de perceber que as ondas na praia se tornavam cada vez maiores, a arvore já começava a balançar desde sua raiz. O vento parecia impaciente, como se tivesse muito que fazer e algo estivesse atrasando-o. Se aquele mensageiro não fosse embora logo, arrancaria toda a vegetação da colina e Zilma nem precisaria mais pescar, pois as ondas trariam os peixes na sua mão.
— E como fazemos para ele ir embora? Ele já deu o recado, certo?
— Na verdade, ele já deveria ter ido. A não ser que... — olhou com duvida para Zilma — Vamos, repita o que eu disse.
— “A não ser que”? — disse e olhou para os lados como se esperasse os ventos se dissiparem milagrosamente.
— Pelo amor de Odin, isso não. O que eu disse para receber a mensagem, e rápido, ele já está nervoso. — Às vezes Segyn se perguntava como Zilma conseguia ser tão desligada.
— Aaaaaa, lembrei: “Eu recebo vossa mensagem”.
“Zilma, humana detentora de magia,
Filha dos feiticeiros Wormud.
O alto feiticeiro faz saber a todos os seres mágicos
Que procura um sucessor,
Um aprendiz.
Não procure por glorias ou perigos desnecessários.
Apenas sinta e aceite o chamado”
Nesse momento as ondas acalmaram e a amoreira quase fez uma reverencia de felicidade por suas raízes continuarem no lugar. O mensageiro foi embora, provavelmente, chamar a atenção de outro ser magico, deixando o recado do alto feiticeiro.
— Nossa! O que foi isso? Que loucura.
— Nós vamos para casa, garota. Quer dizer, a minha casa. — os olhos de Segyn brilhavam de felicidade, parecia que ela iria explodir a qualquer momento.
— Ah, não vamos não. Eu vou para casa, a MINHA casa. Mamãe já está esperando com um ótimo jantar.
— Mas você recebeu o chamado. Você ouviu, não ouviu?
— Sim, e não vou aceitar chamado nenhum. Estou muito feliz na minha casa, com a minha família.
— Você disse que queria me ver livre. Prometeu que faria tudo ao seu alcance. — Agora Segyn já estava se sentindo invadida por uma ira gigante. A mágoa de tantos séculos longe de casa finalmente veio à tona.
— Eu disse que poderíamos visitar um mago experiente, fazer algum tipo de ritual de separação, e não que eu iria com você para sei lá onde. — Zilma podia sentir a dor crescente de Segyn e pela primeira vez, sentiu medo da amiga.
E Zilma saiu andando, em direção à trilha de casa, deixando Segyn para trás, sozinha com suas memórias e sua dor. Até que no meio do caminho, sentiu o sopro prateado voltar ao seu corpo, sem implorar, sem falar... Ela apenas estava. Agora muito mais que duas almas, Zilma parecia carregar um corpo morto dentro de si.
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