Nefasto

2 Terra do Nunca


O céu ainda estava escuro quando acordei. Não consegui abrir meus olhos direito, minha cabeça ainda pendia para o lado. Eu só conseguia pensar em voltar a dormir, mas meu corpo doía e senti que o lugar onde estava deitada já não era minha cama. Era quase macio, mas arranhou minhas mãos assim que as apoiei para sentar. Abri os olhos assustada. Sem explicação, eu estava sentada numa praia, no meio da noite.

Passei a mão em meu cabelo e percebi que estava cheio de areia. Sacudi-o tanto quanto pude e fiquei de pé, cambaleando uma ou duas vezes — culpa da fraqueza das pernas ainda adormecidas. O barulho das ondas agitadas era a única coisa que se ouvia. Minha cabeça girava sem entender o porquê de estar ali.

Aquele cenário não se parecia com nada que eu já tivesse visto na vida. O mar era esverdeado e turvo, a areia era fina e muito clara, quase branca, mas cheia de pequenas pedras no lado sul. Rochas cercavam os cantos da praia, e atrás de mim havia uma floresta escura com árvores espaçadas, verdes e muito altas. Não havia horizonte além da praia, apenas um céu negro, e só isso. Era um fim de mundo.

O lugar me deixava encantada e ao mesmo tempo apreensiva e confusa. Dava uma sensação estranha de perigo constante. Olhei para o chão, tentando pensar em alguma coisa, entretanto parecia que minha cabeça estava vazia. Depois meu olhar foi direto para a floresta, e eu estava tentada a entrar ali, mesmo correndo o risco de me perder. Que diferença ia fazer, afinal, já que eu não sabia onde estava nem agora? Comecei a caminhar, chutando a areia, em direção às árvores.

E eu não estava sonhando. Sempre há como perceber a diferença. Você sabe quando está acordado de verdade, e naquele momento eu tinha plena certeza desse fato.

{...}

A floresta era extensa, cheguei a passar bem perto de vários precipícios, entrei e saí de clareiras, e no caminho não encontrei nenhum animal. Vi flores e árvores estranhas, que nunca tinha visto. O cheiro de terra era diferente do que eu conhecia. Não havia uma nuvem sequer no céu. A caminhada no começo foi até surpreendente. Contudo, com o passar do tempo, comecei a reparar no chão e nas árvores.

O chão parecia ter sido muito pisado, formava trilhas não-naturais. As árvores, em sua maioria (principalmente nas clareiras) apresentavam alguns sinais: arranhões incomuns, pedaços faltando, claramente cortados com lâminas afiadas, pancadas. Havia inúmeros pedaços de madeira queimada espalhados. Aquilo começou a me assustar. Eu já sabia não estava sozinha, mas eu não havia encontrado ninguém até o momento, mesmo tendo passado tanto tempo andando. Aquele pensamento me causou um arrepio e eu queria achar o caminho de volta à praia.

Meu coração começou a bater mais rápido. Respirei fundo para me acalmar enquanto tentava achar o som do mar. No entanto não foi a água o que ouvi. Uma voz jovem e forte soou atrás de mim.

— Ora, ora, ora... O que temos aqui?

Virei-me num pulo, com o coração saindo pela boca.

Um garoto loiro, bem alto e muito magro, de olhos azuis, queixo pontudo, cabelos lisos e bagunçados e uma cicatriz profunda, que ia de cima do nariz até sua bochecha, me encarava com um olhar desafiador. Usava roupas surradas e simples, como as de um camponês, e um capuz saía de uma grande capa marrom que descia até suas botas de couro gasto. Apoiava no ombro um cajado de madeira. Não parecia ter mais que 19 anos. Ele exibia um sorriso de lado, segurando um pequeno galho nos lábios. Sua expressão era assustadora.

— A sombra fez um belo trabalho. Pan vai adorar isso.

O menino segurou o galho entre os dedos e abriu um enorme sorriso malicioso. Olhou-me de cima a baixo, encarou o chão e soltou uma risada fraca, para logo depois me olhar no fundo dos olhos e dizer quase como uma ameaça:

— Seja bem-vinda à Terra do Nunca.

Ele me olhou com divertimento quando viu que não tive reação. Foi se aproximando tranquilamente de mim, e recuei um ou dois passos. Não conseguia saber o que ele estava pensando em fazer.

— Quem é você? — falei com receio, temendo pronunciar cada palavra.

Recebi como resposta uma risada tomada de desdém, como se fosse uma piada eu ter feito aquela pergunta. O garoto elevou seu olhar à altura dos meus olhos e pronunciou cada palavra num estranho tom de aviso.

— Tem coisas mais importantes esperando. Preciso que me siga.

— E se eu não atender seu pedido? — disse, mais com curiosidade do que como desafio.

O sorriso dele nem vacilou. Pelo contrário, se alargou por todo seu rosto, enquanto colocava o galho de volta à boca. Tirou o cajado dos ombros e o apontou para a floresta.

— Você pode tentar correr por aqui. Não esqueça que a floresta está escura.

Com essas palavras, abriu os braços num gesto indiferente e começou a dar passos lentos para trás, indicando que entraria na floresta sem mim. O pânico de ficar perdida na mata me fez impedi-lo de desaparecer em meio às árvores antes que fosse tarde. Estar com alguém perigoso de algum modo parecia melhor que estar sozinha.

— Espere!

O menino parou de se mover, esperando que eu dissesse alguma coisa. Após alguns segundos de silêncio, andou até mim e parou muito próximo, falando devagar.

— Pan ficará muito feliz em vê-la.

{...}

Era difícil acompanhar os passos largos do garoto. Por mais que ele tentasse se manter ao meu lado, vez ou outra acabava se distanciando e se vendo obrigado a parar para me esperar. Caminhava silencioso e concentrado. Parecia observar tudo ao redor, e ao mesmo tempo não tirava os olhos de mim.

Após algum tempo andando, vi uma luz fraca surgir no meio da floresta, e uma fina nuvem de fumaça se formar no céu ofuscando parte da luz da lua, por cima das copas das árvores. O silêncio me permitiu ouvir uma melodia sinistra, um tanto perturbadora, que ecoava entre as árvores. Uma típica música de floresta.

Caminhamos até chegar nos arredores de uma clareira, mas os arbustos que a cercavam eram altos demais para que eu pudesse ver qualquer coisa à altura dos meus olhos. Consegui apenas distinguir a luz de uma fogueira refletindo nos galhos mais altos das árvores ao redor. A música agora estava forte, claramente sendo tocada à nossa frente, junto à fogueira, junto a gritos, uivos e assobios. O menino deu alguns passos, se pondo à minha frente.

— Bem-vinda ao acampamento de Pan.

Ele estendeu o braço para trás e afastou as folhas que antes me impediam de ver o que acontecia. A cena me assustou e surpreendeu ao mesmo tempo.

Vários meninos dançavam em volta de uma enorme fogueira que estava bem no centro da clareira. Pulavam alegres e quase selvagens, seguindo a música que tocava. Alguns davam saltos e cambalhotas. Tinham maracas, claves e sinos em suas mãos, e alguns estavam à volta com apitos e tambores. Olhei ao redor procurando de onde vinha o som da flauta, que se destacava do resto.

Do outro lado da fogueira estava um menino de cabeça inclinada para baixo, sentado num tronco no chão, passando uma flauta de Pã suavemente pelos lábios, mas com as mãos segurando o instrumento firmemente. Seu cabelo era de um castanho bem claro, e vestia roupas de pano, variando entre tons de verde e marrom escuro. Suas botas, feitas de couro gasto, subiam até as panturrilhas, amarradas por cadarços velhos. Os olhos verdes faiscavam, fixos na fogueira, absortos no movimento do fogo.

Percebi que ele notou minha chegada quando afastou a flauta da boca repentinamente. O resto dos meninos continuou a pular em volta da fogueira, seguindo os outros instrumentos, sem se importarem. Levantando-se com um sorriso debochado, ele veio em nossa direção, parando próximo à mim. Examinou-me da cabeça aos pés com uma sobrancelha arqueada, depois se virou para o menino ao meu lado.

— O que temos aqui, Felix?

— Perdida na mata. Parece que foi trazida pela sombra, achei que você já sabia.

— Sim, sim... — os olhos dele voltaram rapidamente para os meus. — Já sabia.

Depois de alguns segundos calado, ele se aproximou um pouco mais de mim.

— Esqueci de me apresentar? — perguntou, assumindo uma expressão ironicamente séria e cortês.

As chamas da fogueira e os tambores traziam um suspense crescente. Eu o encarava, já sabendo o que ele diria, mas ainda não parecia possível. O sorriso voltou a seu rosto, negligente. Com uma meia reverência, retomou a fala.

— Eu sou Peter. — e depois de uma desnecessária pausa dramática, limpou a garganta e completou. — Peter Pan.

Olhei no fundo de seus olhos verdes e os observei, enquanto me encaravam com um ar superior, mas estranhamente gentil. As roupas verdes, a flauta, as botas, os meninos, a floresta, a fogueira. Tudo se encaixava perfeitamente à história, mas parecia ter algo errado. A criança do conto que cresci lendo era na verdade um adolescente cínico?

— Tem certeza? — foi tudo o que consegui dizer.

Ele e Felix riram em uníssono, olhando um para o outro.

— Sim, sim, tenho certeza.

— Eu não... — Pan me olhou novamente com uma sobrancelha erguida. — Eu sou a Ana.

Diante de minha afirmação, Peter levantou as duas sobrancelhas e parecia satisfeito. Sorriu para Felix e em seguida voltou ao meio da clareira, sinalizando aos garotos que tocavam tambores parassem. Felix tocou minhas costas para que eu o seguisse. Imediatamente, tudo ficou quieto, e olhares ansiosos aguardavam.

— Meninos.

Peter Pan se virou para mim, fazendo com que todos os outros na clareira me olhassem também. Então caminhou até onde eu estava, sem desviar seus olhos dos meus, e continuou.

— Hoje recebemos uma menina perdida!

Pan sorriu para mim, curvou-se em um breve cumprimento e foi buscar a flauta em seu tronco. A música recomeçou e a fogueira parecia estar com suas chamas maiores agora. Pouco a pouco, os meninos se levantaram para dançar, não sem antes andar até mim e dizer "seja bem-vinda", dar apenas um sorriso receptivo ou fazer uma reverência. Estavam felizes, exatamente como o livro conta que foi quando Wendy chegou à Terra do Nunca. Mas isso aqui era totalmente diferente.