Need You Now
5 Capítulo 5
Darcy Williamson era um excelente motorista. Dirigia com cuidado, sempre sabia onde deveria estar, e nas primeiras duas semanas de seu trabalho não deixou Elisabeta esperando uma só vez. Sempre estava pronto antes dela sair e à postos quando precisava voltar para casa. Sabia quando conversar e quando ficar calado. Não havia um só defeito em seu trabalho.
Exceto, talvez, ele ser atraente demais. E, embora Elisabeta achasse Darcy uma visão agradável, conviver com ele estava despertando uma série de necessidades que ela mantinha sob controle desde a morte do marido. Ou, se fosse sincera, que mantinha sob controle desde o seu casamento.
Ludmila, sua melhor amiga, estava coberta de razão quando dizia que Elisabeta não era uma puritana. Os muros de sua escola a impediriam de tentar parecer inocente. Embora fosse uma criança quieta, sua versão adolescente não tinha qualquer resquício de timidez. E se no início era Ludmila quem pulava os muros divisórios para a ala masculina primeiro, com o passar dos anos Elisabeta aprendera o caminho.
Havia um bom número de namorados até chegar em Xavier. Do primeiro beijo com um dos meninos mais populares aos carinhos ousados com o inspetor que era tão novo quanto um garoto do último ano, Elisabeta conheceu alguns prazeres. Sempre no limite do que seria aceitável, e ao mesmo tempo passando por cima de qualquer lógica e bom senso de uma boa família.
E então, quando conheceu Xavier, em um momento em que perdeu a única família que ainda restava, Elisabeta priorizou uma série de outros fatores. Valorizou o fato de Xavier parecer um homem honesto, culto, carinhoso. Encantou-se pelas flores que ele trazia, e interpretou sua falta de iniciativa para contato físico como uma demonstração de respeito.
Em sua noite de núpcias Elisabeta ficou decepcionada. Apesar dos beijos, carícias, descobertas, havia sempre respeitado os limites. Sabia que entregar-se totalmente à um homem era uma decisão definitiva, que vinha com uma série de consequências. E apesar da insistência de alguns, sempre soube que guardaria esse momento para seu marido. E então havia sido apenas frustrante.
Xavier não despertava seu corpo. Seus toques eram sem graça, sem jeito. Não havia paixão em seus atos, e Elisabeta mal podia acreditar que aquele fogo que parecia queimar sua pele com outros rapazes não estava ali. Entregar-se à Xavier foi como um banho gelado em um dia de inverno.
Então veio a doença do marido, e não houve mais espaço para qualquer contato físico. Sua morte pareceu apagar parte da esperança de Elisabeta, como se uma família fosse um sonho distante demais. Focou-se no trabalho, na empresa, no legado de seus pais, de seu tio. Não havia lugar para sonhar com o amor, com relacionamentos, mesmo que passageiros.
Elisabeta também descobriu que o mundo não era generoso com as mulheres. Perdeu as contas de quantos sócios – casados, solteiros, mais velhos ou mais novos do que ela – iniciaram reuniões com comentários pouco lisonjeiros. Havia uma lista considerável de momentos nos últimos anos em que precisou fugir de algum toque inapropriado de homens poderosos que esperavam mais do que uma reunião de negócios.
Em tal contexto, era difícil alimentar seus desejos. Havia muito em jogo para uma herdeira que ousava ser dona de seu próprio nariz. Um simples caso com o homem errado seria o suficiente para arriscar sua reputação, não importando o que Ludmila dizia. E, mais do que isso, Elisabeta não queria contentar-se com pouco.
Por isso a convivência com Darcy era tão perturbadora. Seu corpo respondeu ao dele desde o primeiro momento, despertando desejos que estavam adormecidos. Darcy estimulava sua imaginação como há muitos anos nenhum homem era capaz de fazer. A diferença é que Elisabeta não era mais uma menina inconsequente, sem medo de brincar com fogo.
Ignorou, portanto, as palavras de Ludmila no último encontro das duas. Não havia qualquer benefício em pensar sobre Darcy como mais do que seu motorista, mais do que o filho de Archibald. Estava convencida de que ele não a desejava, e era melhor assim. Seria perigoso demais se Darcy sentisse ao menos parte da atração que ela sentia por ele.
— E então? – Ludmila falou, arrancando Elisabeta de seus pensamentos.
— O que?
— Você está ai toda pensativa e não respondeu minha pergunta. – a amiga ergueu a sobrancelha. – Como está a convivência com seu motorista bonitão?
— Pacífica. – Elisabeta deu de ombros.
— Só isso? Nenhuma escapada no meio da noite, nenhuma voltinha naquele corpo? – Ludmila fingiu decepção.
— É claro que não. – Elisabeta fechou os olhos, bloqueando a imagem do corpo de Darcy.
— Você quer me dizer que nas últimas duas semanas não houve um só momento interessante na sua vida? – Ludmila revirou os olhos.
Bem, Elisabeta não diria isso. Havia encontrado Darcy algumas vezes durante a noite. Nada de conversas demoradas, mas quando os cachorros faziam algum barulho, Darcy abria a porta do quarto dele. Comentavam alguma banalidade, ela tinha uma amostra dos braços dele. Não poderia chamar aquilo de pouco interessante.
Havia também os dias em que ele simplesmente dirigia, óculos escuros, as mangas da camisa dobradas, a barba cobrindo seu rosto. Também não diria que eram momentos desinteressantes. Darcy, por si só, valia a visão. Era um homem bonito e desejável. Mas não havia mais do que isso para contar para Ludmila.
— Lud, nós temos expectativas diferentes do que seriam momentos interessantes na minha vida. – Elisabeta riu.
— E onde ele está, afinal? – Ludmila olhou para os lados. – Achei que estaria atrasada quando chegasse à sua casa.
As duas iam ao chá da tarde da esposa de um dos maiores sócios na empresa. Odiavam cada momento da convivência, mas era importante para os negócios, e havia um pacto de que uma vez por mês obrigariam uma a outra à tal papel.
— Está ansiosa para o chá de Lady Brianna? – Elisabeta ergueu a sobrancelha.
— É claro que não. Estou ansiosa para que termine logo. – Ludmila fingiu uma surpresa teatral. – Eu esqueci de mencionar, não é mesmo? Adivinhe quem desembarca em Londres hoje.
— Eu sabia que esse seu humor atacado tinha a ver com Januário. – Elisabeta abriu um sorriso. – Você não poderia estar me importunando a toa.
— Eu não estou, minha querida. Estou importunando para que você e Darcy tenham noites tão boas quanto as minhas com Januário. – Lud bateu palmas. – Mal posso esperar para vê-lo.
— Se bem me lembro, em nossa última conversa você não estava muito preocupada com Januário. – Elisabeta riu.
— Elisabeta, você me conhece. Se existe um homem no mundo que me faça cogitar casamento, este homem é Januário. – Ludmila sorriu.
— Lud, eu nunca vou me acostumar com a sua versão apaixonada. – Elisabeta gargalhou.
— Agora você sabe como me sinto com essa versão freira que você escolheu.
Elisabeta revirou os olhos, fazendo Ludmila rir.
— Se quisermos chegar à tempo é melhor procurarmos o seu motorista. – Ludmila abriu um sorriso malicioso. – Na melhor das hipóteses o encontraremos em uma situação comprometedora.
Elisabeta sorriu, e as duas foram até a cozinha. Petúlia disse não ter visto Darcy em lugar nenhum, e sugeriu que perguntassem para Archibald. No mesmo momento, porém, ouviram o barulho do motor do carro vindo do galpão que servia como garagem. Antes que Elisabeta pudesse dizer qualquer coisa, Ludmila já estava saindo pela porta dos fundos, com Jamie e Olive à seus pés.
Quando chegaram à porta do local, as duas pararam. Darcy havia deixado a camisa em cima de uma bancada improvisada. Usava uma regata muito parecida com as que Elisabeta conhecia, mas a calça social deixava suas pernas mais marcadas. Ele estava debruçado sobre o carro, de costas para elas, e chegaram à tempo de ouvi-lo xingar baixo. Elisabeta engoliu em seco e tentou desviar o olhar.
— Se eu soubesse que teria essa visão hoje, teria agradecido em dobro nas orações de ontem. – Ludmila disse em voz alta.
Ouviram o riso de Darcy antes que pudessem ver seu rosto, e então ele virou-se lentamente, o sorriso de convencimento no rosto.
— Você sempre pode agradecer nas de hoje à noite. – Darcy piscou para Ludmila, fazendo-a gargalhar.
— Acho que meu namorado não apreciaria. – Ludmila respondeu, fazendo Elisabeta rir.
— Porque certamente Januário ficaria feliz com seus comentários. – disse, e Ludmila revirou os olhos.
— Estou apenas admirando as paisagens da sua casa, Elisabeta. – Ludmila olhou para Darcy. – Já que você não o faz.
Elisabeta também voltou seus olhos para Darcy. Ele havia cruzado os braços e encostado o corpo no carro. As mãos estavam um pouco sujas pelas peças do carro, os cabelos dele úmidos pelo calor. Precisaria demiti-lo e alegaria que Darcy era atraente demais para trabalhar para ela. Mas os olhos dela viajaram pelo corpo dele de qualquer forma. A calça justa, a gota de suor que escorria por seu peito e se escondia na regata. E quando voltou para o rosto dele, Darcy mantinha aquele sorriso de quem sabe que está sendo avaliado, de quem conhece seus efeitos.
— A paisagem... – Elisabeta apontou para ele. – Ficou de nos levar para o chá de Lady Briana.
Elisabeta voltou seus olhos para Ludmila, que parecia estar a beira de uma crise de riso. Talvez sua análise de seu motorista fosse óbvia demais.
— Eu sinto muito. – Darcy interrompeu, olhando diretamente para Elisabeta. – Estou tentando resolver o problema, mas não parece que poderei levá-las a tempo.
— Que infortúnio terrível. – Ludmila disse, teatralmente, fazendo Elisabeta rir. – Lady Briana terá que nos desculpar quando enviarmos biscoitos amanhã.
E então Ludmila puxou um banco empoeirado e sentou-se. Elisabeta ergueu a sobrancelha para ela, e Ludmila apenas sorriu maliciosa.
— Vamos observá-lo trabalhar, se não se importa. – Ludmila disse para Darcy.
— De forma alguma. – Elisabeta sentiu o olhar dele nela. – Será um prazer.
— Você é impossível. – Elisa reclamou em português.
— Apenas aproveite, já que não pretende pular em cima dele. – Ludmila respondeu em seu idioma materno.
— Senhoras, eu apreciaria se usássemos um idioma que eu compreenda. – Darcy sorriu.
Elisabeta sabia que deveria deixar Ludmila para trás e procurar alguma coisa com que se ocupar, que não envolvesse observar todos os movimentos de seu motorista. Principalmente quando sua observação envolvia estar bastante ciente dos músculos dele se contraindo com o movimento. Ludmila parecia saber exatamente a qual tipo de tortura estava submetendo Elisabeta.
É claro que a amiga achava Darcy atraente. Mas as duas sabiam que era diferente. Ludmila achava Darcy bonito, gostava de flertar com ele, como flertava com qualquer rapaz interessante. Elisabeta o desejava em outro patamar.
— Darcy, você gostaria de um pouco de água? – Ludmila perguntou, inocentemente.
— Eu não me atreveria. – ele respondeu, com um sorriso que dizia que se atreveria, sim.
— Não é incomodo nenhum. – Ludmila sorriu inocente. – Me espere aqui, Elisa.
Sua melhor amiga era um furacão, e antes que Elisabeta dissesse qualquer palavra, ela estava saindo do local, tão rápido quanto tinha entrado. Elisabeta a observou partir, e de canto de olho viu que Darcy fazia o mesmo.
— É uma mulher fascinante a sua amiga. – Darcy encarou Elisabeta. – Ela quase faz com que me sinta constrangido.
— Você não parece constrangido. – Elisabeta sorriu.
A expressão que ele tinha quando escolhia as palavras deixava Elisabeta fascinada. Nos últimos dias aprendeu a identifica-la com perfeição. Os cantos dos olhos dele se enrugavam com um sorriso pequeno, um humor que parecia inadequado brilhava naquele azul. E então ia embora, fugaz.
— Eu não fico constrangido facilmente – ele deu de ombros, voltando a olhar para o motor do carro.
— Especialmente por causa das mulheres. – Elisabeta disse, antes que pudesse pensar sobre aquilo.
Darcy estava com as duas mãos apoiadas no carro, e virou apenas sua cabeça para olhar para ela. Elisabeta sentiu seu corpo arrepiado com a intensidade daquele olhar.
— Especialmente. – ele confirmou, com aquele sorriso de lado. – Mas Ludmila quase faz com que eu fique envergonhado.
— Ela costuma causar este efeito. – Elisabeta riu. – Então as pessoas a conhecem e percebem que não há motivos, ela simplesmente fala o que pensa.
— E você não? – Darcy perguntou, voltando os olhos para o motor do carro.
— Costumo achar que tenho mais bom senso. – ela manteve o sorriso.
Ludmila entrou novamente no galpão naquele momento, um copo de água na mão.
— Você? Bom senso? – ela arqueou a sobrancelha para Elisabeta. – Eu devo começar a falar sobre a sua adolescência?
— Acho que fizemos um pacto de não compartilhar essas memórias com outras pessoas. – Elisabeta riu.
— Então não diga que tem mais bom senso do que eu. – Ludmila resmungou.
— Darcy estava dizendo que você é fascinante. – Elisabeta desviou o assunto.
— É mesmo? – Ludmila olhou para ele. – Eu deixo você fascinado?
— Eu também disse que quase me sinto constrangido. – Darcy sorriu.
— Você? Por favor... – Ludmila sentou-se novamente. – Eu já disse à Elisa que você é um homem que sabe o efeito que tem nas mulheres.
Elisabeta balançou a cabeça, incrédula. Darcy olhou diretamente para ela, novamente aquele brilho no olhar. Então deu de ombros e voltou a focar no motor.
— Darcy me lembra aquele inspetor da escola que você namorou, Elisa. – Ludmila disse. – Como era mesmo o nome dele?
— Ludmila, pelo amor de Deus. – Elisabeta bufou. – Você bebeu enquanto foi buscar a água?
Darcy deu uma risada abafada.
— Porque é a única explicação para que você resolva iniciar um debate sobre isso. – Elisa revirou os olhos.
— Você sabe que eu não precisaria beber para lembrá-la do seu maior ato de rebeldia. – Ludmila disse, fazendo Elisabeta rir.
— Eu estou quase preferindo o chá de Briana.
— Pois bem, eu preciso ir. Já que não vamos à casa de Briana, eu vou ficar pronta para esperar Januário. – Ludmila levantou-se. – Darcy, tenha uma boa noite.
— Você também. – Darcy piscou para Ludmila, com um sorriso malicioso. – Divirta-se.
— Ah, eu vou. – ela também piscou. – E por favor, tente ajudar Elisabeta com esse mau humor, sim?
Elisabeta revirou os olhos enquanto Ludmila saia novamente do galpão, Jamie e Olive a seguindo por onde ia.
— Como eu disse, fascinante... – Darcy comentou.
No momento Elisabeta descreveria sua amiga como irritante, insistente, inconveniente. Mesmo que suas reações à Darcy não fossem óbvias para ele, Ludmila não poderia deixar mais claro o que pensava. Não percebia que só estava fazendo com que Elisabeta fizesse papel de tola?
— Eu não sei se poderia ajudá-la com esse problema. – Darcy disse, ao não obter resposta.
— Que problema? – Elisabeta bufou, com o pensamento perdido.
— O seu humor. – ele virou-se totalmente para ela, atraindo seu olhar. – Eu não sei contar piadas, não vejo como poderia ajudar.
Ele tinha a expressão inocente, mas Elisabeta podia ver a malícia. Em outro momento talvez ficasse desconcertada. Mas depois da fala tão óbvia de Ludmila, Darcy parecia apenas estar fazendo piada.
— Faça seu trabalho. – ela respondeu, ríspida. – Arrume o carro, chame alguém para arrumá-lo, não importa.
Darcy ergueu a sobrancelha, surpreso. Então deu alguns passos em direção à ela, diminuindo a distância entre eles. Elisabeta suspirou. Era exaustivo sentir-se tão atraída por ele. Darcy então levantou a mão, uma pequena peça entre os dedos engraxados.
— Eu já resolvi o problema há pelo menos meia hora. – ele abriu um sorriso irônico.
Elisabeta ergueu a sobrancelha, confusa.
— E não disse nada?
— Eu não poderia perder a chance de mostrar serviço. – Darcy deu uma piscada para ela.
Algo dentro dela pareceu acender. Estava em um galpão, em sua casa, com um homem que fazia com que ela pensasse loucuras. Talvez ele estivesse fazendo uma piada, mas Elisabeta repentinamente não quis sentir que estava por baixo. E por isso passou seus olhos pelo corpo dele descaradamente.
— Não tenho certeza se me convenceu. – ela disse, antes de virar as costas.
E não olhou para trás.
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