Need You Now

3 Capítulo 3


Desde que decidiu tomar as rédeas de todas as empresas do pai, Elisabeta convivia com uma rotina agitada. Ao longo do tempo foi capaz de ter homens e mulheres de confiança no comando da maioria delas. Ainda assim, Elisabeta gostava de estar presente, de saber o que estava acontecendo, tomar as decisões mais importantes. Por isso passava parte de seu dia indo de uma empresa à outra.

Quando entrava no carro geralmente revisava os assuntos da reunião anterior e revia as pendências da próxima reunião. Venâncio estava acostumado ao seu estilo, e fazia de tudo para que Elisabeta passasse o menor tempo possível pensando em trabalho. Comentava sobre as notícias, sobre as flores e os animais, sobre livros de poesia. Elisabeta então esquecia-se do que estava fazendo, envolvida na conversa, o que nunca impactava negativamente sua reunião seguinte.

Mas aquele era apenas o primeiro dia de Darcy, e, a não ser pelas poucas palavras que trocaram antes de sair de casa, Elisabeta podia jurar não ter ouvido a voz dele. Surpreendentemente, ela não precisou apontar o caminho nenhuma vez. Apesar de não ser um londrino e nunca ter ido à nenhuma de suas empresas, Darcy sabia exatamente onde precisava estar. Ainda assim, fazia tudo em silêncio.

E, sem as interrupções de Venâncio, Elisabeta foi capaz de revisar tudo o que precisava antes da primeira hora da tarde. Agora Darcy a levava até um vilarejo próximo à Londres, onde a maioria dos trabalhadores de uma de suas fábricas morava. Naquela manhã Elisabeta foi informada de que os trabalhadores estavam insatisfeitos com o estado da moradia, e para ela, a dignidade de seus empregados era sempre uma prioridade.

Era um trajeto de quase 45 minutos, e há pelos menos 10 minutos Elisabeta olhava as paisagens pela janela do carro. Suspirou, sem dar-se conta. Odiava o silêncio. Se Darcy fosse realmente ficar tão calado o tempo todo, ela precisaria de um novo passatempo para suas viagens. Quase não via o tempo passar quando debatia qualquer coisa com Venâncio. Sentia-se estimulada pela inteligência de seu antigo motorista.

— Você é sempre tão calado? – ela perguntou, de repente, ainda olhando para a janela.

E quando Darcy não respondeu, Elisabeta olhou para ele de relance. Ele a observava pelo espelho retrovisor, com a sobrancelha arqueada e um sorriso divertido.

— Não. – Darcy disse, simplesmente.

— É alguma forma de tentar me entediar? – Elisabeta questionou, e Darcy deu um sorriso de gato.

— Não. – disse, contido. – Não percebi que queria conversar.

— Eu parecia feliz lendo relatórios ou olhando pela janela? – perguntou em tom de brincadeira.

— Parecia miserável. – Darcy deu de ombros.

— Então, por favor, melhore o meu humor. – Elisabeta sorriu.

Darcy a encarou pelo retrovisor, e embora não pudesse ver todo o seu rosto, Elisabeta teve novamente a sensação de haver um brilho diferente em seus olhos. Ele parecia uma criança prestes a dizer alguma coisa que sabia que o colocaria em maus lençóis.

— Sobre o que quer conversar? – em um segundo ele parecia o mais profissional dos motoristas.

— Me surpreenda. – ela deu de ombros.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse decidindo sobre o que falar.

— Seria ousado da minha parte perguntar o motivo da mudança de planos? – Darcy perguntou, sem qualquer expressão no rosto. – Meu pai fez um mapa de todos os locais onde eu poderia precisar levá-la, mas a Vila dos Operários não seria meu palpite.

— Há relatos de condições precárias de moradia. – Elisabeta olhou novamente pela janela. – Faz muito tempo que não visito à Vila, e certamente os diretores da fábrica a visitam menos do que eu.

— Entendo. – foi a única coisa que Darcy disse.

Elisabeta olhou para ele, estudando o que podia ver de seu perfil. Ele sorriu de lado, daquela forma enigmática que a intrigava.

— Me fale sobre você. – Elisabeta disse, de repente. – Sua história, suas motivações.

Darcy novamente olhou para ela através do retrovisor.

— Eu não sei como falar sobre a minha vida e não entediá-la ao mesmo tempo. – disse, em tom de brincadeira.

Elisabeta não sorriu, porque parecia haver mais do que uma brincadeira naquela frase.

— Você conhece parte da minha história. Minha mãe faleceu quando eu tinha dez anos, e minha irmã apenas um. Meu pai não poderia trabalhar e cuidar de duas crianças ao mesmo tempo. – Darcy soou resignado. – Investiu muito em nossos estudos, e eu aproveitei as oportunidades que apareceram.

— E Londres? – perguntou, genuinamente curiosa.

— Eu sempre gostei de Londres, e agora que Charlotte está prestes a terminar os estudos, não há motivos para ficarmos no interior. – ele deu de ombros. – Meu pai não está ficando mais novo com o passar dos anos.

Elisabeta assentiu, calada. Archibald já era um senhor, e não fosse a ideia de que fazê-lo parar de trabalhar seria condená-lo à uma vida infeliz, Elisabeta seria a primeira a impedir que se desgastasse.

— E este emprego? – ela questionou. – Sei que você tem bons estudos, poderia trabalhar em um cargo melhor.

Darcy desviou seus olhos por um segundo e a olhou de relance.

— Eu fui motorista nas forças armadas. Gosto de dirigir e foi o melhor salário que me ofereceram. – ele sorriu. – Além disso eu tenho um quarto luxuoso em uma mansão.

Elisabeta riu com aquele comentário. Gostava do humor de Darcy. Ele tinha um toque irônico que a divertia, que era parecido com o dela.

— Um quarto que você prometeu não destruir. – ela o alfinetou.

— Eu não ousaria. Não depois de dormir nos lençóis mais caros que já vi. – Darcy manteve o sorriso.

— Por que você acha que seu pai nunca pediu demissão? – Elisabeta ergueu a sobrancelha. – Certamente não foi pelo meu rostinho.

Então ela viu novamente aquele brilho nos olhos dele, por um breve período. Tão breve que Elisabeta pensou ter imaginado.

— Pelos travesseiros, provavelmente. – Darcy disse, em tom neutro.

— Você ainda não experimentou a torta de chocolate que Petúlia faz. – Elisabeta disse, enquanto via a Vila se aproximar. – É preciso um pouco de charme e barganha para que ela entre na cozinha. Mas vale cada pedaço.

— Parece então que eu tenho uma nova missão. – Darcy sorriu.

E com aquele sorriso Elisabeta não tinha dúvidas que convenceria Petúlia. Provavelmente a convenceria a fazer tortas todos os dias.

— Chegamos! – Darcy anunciou.

Elisabeta então foi ao trabalho. Conversou com os moradores, entrou em suas casas, anotou os detalhes do que precisava ser consertado e melhorado. Sujou os sapatos e a barra do vestido de lama, e quando um grande cachorro correu em sua direção com as patas molhadas e pulou em seu vestido, Elisabeta apenas riu. Interagiu com homens, mulheres e crianças.

No trajeto de volta à Londres mal percebeu que Darcy não disse uma palavra. Havia muito a ser resolvido por aquelas pessoas. A situação era decadente e urgente. Faltava comida, as casas tinham enormes buracos e goteiras. Foram frequentes os relatos de ratos dentro das moradias. E, para completar, a escola local estava de portar fechadas após a chuva derrubar seu telhado.

Elisabeta anotou tudo o que precisavam fazer. Consultou seus orçamentos, os lucros da fábrica. Calculou por alto o quanto gastaria, e o quanto poderia gastar sem comprometer seus funcionários. Quando deu-se conta, já estavam estacionando em frente à mansão. Darcy abriu a porta para ela, e Elisabeta o agradeceu com um sorriso.

— Lizzie! – Petúlia gritou, ao vê-la pisar em casa. – O que foi que aconteceu com você? Foi à guerra?

— Fui à Vila. – Elisabeta sorriu.

— Olhe o estado do seu vestido! – a governanta foi até ela, segurando o tecido com nojo. – Precisará ser jogado no lixo.

— Tenho certeza que não. – Elisabeta riu, grata pela distração.

Então seus cachorros surgiram correndo, vindos da cozinha. Como sempre faziam, dividiram-se entre pular em Elisabeta, lamber suas mãos e cheirar suas roupas à procura de intrusos. Ela não tardou a subir, acompanhada de seus fiéis companheiros. Após um banho, Elisabeta acabou adormecendo.

Acordou horas depois, quando a casa já estava silenciosa. Já era início da madrugada e seus cachorros à acompanharam sonolentos até o andar de baixo. Elisabeta foi até a cozinha, onde encontrou já pronta a bandeja de pão, manteiga e geleia. A xícara já continha o chá e a chaleira só precisava ser colocada no fogão à lenha. Era obra de Archibald, ela sabia. Ele sempre deixava tudo preparado para os dias em que ela adormecia sem jantar.

Elisabeta abriu a porta para os cachorros, e sentiu o vento gelado batendo em seu rosto. Estava distraída olhando para fora de casa, por isso assustou-se ao virar o corpo e dar de cara com Darcy parado na porta da cozinha. Ele estava novamente com a regata branca, e Elisabeta imaginou que fossem suas vestimentas de dormir.

— Boa noite. – ele disse, constrangido. – Desculpe, eu não sabia que estava aqui.

Elisabeta deu de ombros.

— Chá? – perguntou.

— Foi justamente o que me trouxe aqui. – Darcy sorriu.

Elisabeta foi até a prateleira e pegou outra xícara, colocando em frente à ele.

— Você é um ser noturno, então. – Elisabeta encostou-se no balcão.

— Eu não poderia negar. Você também, pelo que vejo. – Darcy brincou com a xícara.

— Sim. – ela disse, simplesmente. – E foi um dia cheio.

Darcy olhou para as próprias mãos, e Elisabeta teve novamente a sensação de que haveria algo que ele quisesse dizer. Era comum essa sensação quando estava perto dele, ela percebeu. Ele suspirou, como se decidisse falar.

— Essas pessoas tem sorte de trabalhar para alguém que se preocupa com elas. – Darcy olhou em seus olhos.

— Não é como se elas estivessem ganhando lençóis caros. – Elisabeta disse, corando.

Lidava mal com elogios, especialmente quando era elogiada por algo que sentia ser sua obrigação.

— Não se pode ter tudo. – Darcy abriu um sorriso.

Os cachorros retornaram, o chá ficou pronto, e os dois ficaram em silêncio enquanto terminavam suas xícaras. Quando Darcy terminou, foi até a pia e Elisabeta o ouviu lavando sua xícara.

— Boa noite, então. – ele disse, antes de sair da cozinha.

— Boa noite, Darcy. – Elisabeta respondeu, distraída, seu pensamento de volta ao estado do vilarejo.

Elisabeta não notou que ele não tinha de fato saído do ambiente. Não até ouvir a voz dele e voltar seus olhos para os dele.

— Sobre meu pai ficar... é muito mais do que pelos travesseiros.

Darcy piscou para ela. Elisabeta sorriu, agradecida. E ignorou a sensação de estar flutuando. Era perigosa demais.