Need You Now
20 Capítulo 20
Ela não soube se o que a acordou foi o calor do sol ou o calor do braços dele. Mas houve um momento de pânico assim que ela abriu os olhos e percebeu que não estava sozinha. Darcy estava ali. Ela havia pedido que ele ficasse. Ele havia sorrido como se fosse a pergunta mais simples do mundo inteiro, arrumado os lençóis e cobertores como se fizesse isso todos os dias na cama dela. E então a havia puxado contra seu peito e passado os braços em volta dela.
Acordaram na mesma posição. Darcy respirava profundamente às suas costas, e não poderia ser confortável dormir abraçando alguém daquela forma. Mas ele a abraçava e não parecia ligar. Não ao menos até resmungar e a puxar ainda mais contra seu corpo. Seria possível desejá-lo mais? Ainda? Como se não pudesse ter o suficiente dele, como se seu corpo pedisse o de Darcy.
— Você está entrando em pânico? – ele sussurrou no ouvido dela de repente, mordendo seu ombro.
— O que? – Elisabeta assustou-se.
— Você está tensa. – Darcy riu contra a pele dela, a mão dele deslizando pela pele dela.
— Não estou entrando em pânico. – Elisabeta também riu, entrelaçando seus dedos à outra mão de Darcy.
— Ótimo. Sua cama é mais confortável do que a minha. – ele a mordeu de leve novamente. – Eu pretendo dormir aqui mais vezes.
— Você não está com dor no braço? – ela disse a primeira coisa que surgiu em sua mente. – Não pode ser confortável dormir assim.
— Você pode dormir com a cabeça no meu peito da próxima vez. – Darcy esfregou-se contra ela. – Mas eu gosto de ter seu corpo todo grudado no meu.
Darcy a girou lentamente, até que Elisabeta estivesse deitada de barriga para cima. Logo ele estava em cima dela, seu joelho afastando as pernas dela. Ele abriu um sorriso sonolento e Elisabeta sentiu o coração acelerar.
— Oi. – ele disse, sorrindo.
— Você acordou animado. – Elisabeta também sorriu, não resistindo à passar a mão pelos cabelos dele.
— É meu dia de folga. – ele soltou um pouco do peso em cima dela. – Você não tem lugar nenhum para ir aos sábados pela manhã.
— Isso não nos dá o direito de ficar o dia todo na cama. – ela fez charme.
— Fale por você. Eu não tenho nenhum lugar melhor para estar. – Darcy cheirou o pescoço dela. – Exceto talvez...
Elisabeta o sentiu em sua entrada e não havia como não sorrir com a expressão arteira dele. Ele estava leve naquela manhã, e Elisabeta deu-se conta que poderia se acostumar com aquilo. Deixou que ele a guiasse em movimentos preguiçosos, e quando Darcy girou os dois para que ela ficasse por cima dele, o provocou até a expressão travessa se transformar em um olhar escurecido, desejoso.
Quando terminaram, Elisabeta deitou no peito dele. E era estranho que nenhum deles saísse correndo. Era estranho permanecerem juntos, em silêncio, seus dedos acariciando pontos aleatórios de pele. Haveria algo mais íntimo do que ouvir as batidas do coração de Darcy se normalizando? Sua respiração voltando à um ritmo confortável, enquanto ele acariciava os cabelos dela? Darcy beijou o topo de sua cabeça, e Elisabeta inclinou-se para ele.
Era intenso estar ali com ele. O sol já estava alto no céu, toda a sua casa certamente já estava em pleno funcionamento. Petúlia provavelmente estava dividida entre esperá-la para o café da manhã ou retirar tudo para preparar o almoço. Archibald gostava de polir a prataria aos sábados. Charlotte e Cecília provavelmente liam no jardim, aproveitando o sol que fazia. E Darcy a encarava com olhos brilhantes. A mão dele que acariciava seus cabelos agora fazia o mesmo em seu rosto.
Elisabeta teve novamente aquela velha sensação de que ele não dizia alguma coisa. E, por algum motivo, não fez seu corpo aquecer ou pedir por ele. Fez borboletas se agitarem em seu estômago, acelerou seu coração e fez com que ela tentasse lembrar de outro momento como aquele. E não havia. Nada em sua vida se comparava à estar nos braços de Darcy.
— Eu estou com fome. – ele disse, um sorriso surgindo em seus lábios.
— Eu também. – Elisabeta suspirou.
— Eu poderia ir para o meu quarto, tomar um banho, fingir que acordei muito tarde e estou faminto. – Darcy cutucou o nariz dela.
— Petúlia não ousaria retirar o café da manhã enquanto eu não acordasse. – Elisabeta disse, pensativa.
— Então você pode descer e tomamos café da manhã juntos. – Darcy beijou a testa dela. – E depois eu vou tentar convencê-la à passar o meu dia de folga na cama.
— Eu não estou de folga hoje. – Elisabeta riu.
— Uma pena, Lizzie. – Darcy sorriu, mudando as posições dos dois.
Ela o observou vestir suas roupas rapidamente, ouvir pela porta qualquer movimentação no corredor e então espiar se havia alguém ali. Darcy piscou para ela antes de sair do quarto, e foi um daqueles momentos em que tudo parece perfeito demais. Meses antes não imaginaria acordar ao lado de um homem, sentir seu coração bater forte por outra pessoa. E agora estava ali, com um sorriso bobo no rosto.
Elisabeta estranhou um pouco quando não o viu no café da manhã. Ainda mais quando notou a xícara cheia no lugar em que ele deveria estar. É claro que ela havia demorado mais do que o normal. Levou um tempo até criar coragem de levantar, arrumar-se. Mas o café a deixou com uma sensação estranha, instável. Ela o procurou sem qualquer desespero. Talvez tivesse ido até a cozinha, talvez tivesse ido encontrar Charlotte.
Mas Darcy não estava em lugar nenhum. Imaginou que ele Petúlia o tivesse convencido à buscar qualquer ingrediente de emergência para o almoço. Voltou então para a sala de jantar, serviu seu próprio café, e folheou o jornal. Darcy já havia passado por ele, e ela sabia pelos amassados nas pontas, que ele deixava ao marcar as páginas já lidas. Elisabeta leu manchetes sobre o pós guerra, recuperação econômica, novos investimentos em saúde.
E então uma foto no jornal fez seu coração despencar. Um casal bonito, sem dúvidas. Porque daquele ângulo, em preto e branco, não havia como notar a falsidade de seu sorriso. Não havia como notar o medo em seus olhos, ou a forma como West dizia absurdos em seu ouvido, a forma nojenta como a mantinha imóvel ali. Não. Naquela imagem, não havia mais do que duas pessoas que pareciam familiares demais uma com a outra.
Parece que Elisabeta Green Hall e Weston Mitchel pareceram estar se conhecendo melhor, é o que uma fonte que esteve no grande evento de ontem afirma. Os dois dançaram e conversaram ao pé do ouvido, parecendo confortáveis demais na presença um do outro. Ao ser questionado, West, o americano que arrasa corações ingleses não quis comentar o relacionamento.
Era a última página marcada por Darcy, e é claro que seria. Porque não havia Charlotte, Petúlia ou compras de última hora. Havia uma matéria tendenciosa no jornal, e mais do que isso, uma foto que não desmentia. West que não desmentia. Ela não ficou surpresa, e se fosse em outro momento, talvez sentisse repulsa pela armação de West. Mas, naquele momento, queria falar com Darcy. Queria explicar à Darcy que tudo não passava de um mal entendido.
É claro que ele estaria furioso. Mas Elisabeta estava que ele voltasse no meio da tarde, no decorrer do dia. Conversariam como duas pessoas civilizadas e ela explicaria a situação. Não que precisasse explicar. Darcy não era seu namorado, não era seu noivo. Mas havia sido uma noite intensa, uma manhã especial. Elisabeta não conseguia imaginar sua reação se a situação fosse diferente.
Ela o esperou, mas Darcy não chegou durante o dia. E quando a noite se aproximou da madrugada, ela seguia alerta e desconfortável. Jantou o mínimo possível, enquanto Charlotte fazia piadas sobre o sumiço de Darcy. Ninguém da casa tinha o hábito de ler o jornal, e se alguém o fizera, certamente não comentaria com ela sobre West. E Cecília e Charlotte seriam as únicas duas pessoas que fariam uma ligação entre a matéria e Darcy, mas nenhuma delas parecia ciente.
Ficou no escritório quando todos se recolheram, e o relógio já marcava mais de uma hora da manhã quando Olive e Jamie ergueram as orelhas e correram pela casa. Elisabeta os seguiu, e deu de cara com Darcy, que passava pela porta. Os olhos dele estavam fundos, irritadiços, mas o que chocou Elisabeta foi um corte acima de seu supercílio direito. Um pouco de sangue seco fazia o ferimento parecer ainda pior.
— Que diabos... – ela suspirou, e tentou se aproximar dele.
Mas Darcy passou por ela, subindo as escadas em passos apressados. Elisabeta o seguiu, chamando seu nome. Darcy a ignorou, mas Elisabeta estava em seu encalço quando ele passou pela porta do quarto dele, sem poder evitar a presença dela. Foi ela quem fechou a porta, olhando para ele. Darcy respirou fundo e ela teve a sensação que ele estava prestes a gritar com ela.
— O que aconteceu com o seu rosto? – ela perguntou, foi a única coisa que conseguiu perguntar.
— Com o meu rosto? – Darcy perguntou, cínico. – Pode ter certeza que o do seu namorado ficou pior.
— Você brigou com West? – Elisabeta aumentou o tom de voz, cobrindo a boca em seguida. – O que foi que aconteceu?
— Eu fico surpreso, no fundo. – ele bufou, e andou até o banheiro, saindo de lá com uma toalha molhada. – Uma mulher que poderia ter o homem que quisesse e escolhe se envolver com um canalha.
Elisabeta observou Darcy levar à toalha ao ferimento e dar um gemido controlado de dor. Mas ele o limpou mesmo assim.
— E eu achei que você tinha percebido quem ele era. – Darcy deu um olhar de desdém para ela. – Mas talvez seja isso o que você gosta nele. A falta de caráter e o interesse.
Ela processava as palavras dele, mas tudo parecia distante demais. E Darcy limpava de uma forma completamente equivocada aquele ferimento. Elisabeta se aproximou dele, tirando a toalha das mãos de Darcy.
— Eu posso fazer isso sozinho. – ele reclamou.
— Fique quieto. – ela disse, e pressionou delicadamente a toalha no rosto dele.
— Você achou que eu não ia descobrir? – Darcy olhou nos olhos dela. – Ou era divertido pra você brincar comigo? É algum tipo de fetiche que você tem?
Elisabeta revirou os olhos.
— Eu achei que havia acontecido alguma coisa ontem. Que alguém havia feito mal a você. – os olhos dele pesaram. – E tudo o que aconteceu foi que você resolveu ter uma aventura com o motorista enquanto o seu namorado fazia aparições pelo salão.
Elisabeta olhou nos olhos dele, incrédula. O ferimento já estava limpo o suficiente e ela soltou a toalha em cima da cama de Darcy. Só então percebeu que era a primeira vez que estava ali. E para ouvir aquele monte de absurdos. Elisabeta cruzou os braços.
— Você não quer se defender ao menos? – Darcy aumentou o tom de voz. – Pelo menos diga que está apaixonada por ele, Elisabeta. Que está encantada pelo canalha que conta sobre sua vida sexual pro motorista em um bar lotado.
— West o que? – foi a única coisa que ela falou.
— Não faça de conta que está surpresa. Você sabe que tipo de homem ele é. Eu só fico surpreso por ser o tipo de homem que você quer na sua vida. – Darcy irritou-se. – Mas quem sou eu para questionar? Sou só o seu motorista. – ele disse com desprezo.
— Você não pode estar falando sério. – Elisabeta bufou.
— E eu estou falando alguma mentira? Mas sabe o que eu desejo? – ele falou mais alto, passando a mão pelos cabelos. – Que você seja feliz com esse maldito americano. Que tenha filhos com sotaque americano. Eu poderia inclusive levá-la até a igreja no dia do seu casamento.
Elisabeta não soube o que a dominou. Percebeu o que estava prestes a fazer apenas quando suas mãos já estavam no rosto dele, e não havia mais tempo de recuar. Seus lábios tocaram nos dele, e houve um segundo de resistência dos dois. A língua dele tocou a dela, sem nenhum dos dois tomar a iniciativa, ou os dois a tomaram ao mesmo tempo. Uma das mãos de Elisabeta foi para os cabelos de Darcy, a outra para sua nuca. E ele a segurou pela cintura, juntando os corpos dos dois.
Ela havia imaginado o sabor dele em diversos momentos. Não esperava uma mistura de bebida barata e irritação. Não esperava que o primeiro beijo deles fosse uma disputa de poder. Ainda assim, era quente, a barba de Darcy roçava em seu rosto. Havia desejo, mágoa. Darcy mordeu o lábio dela e Elisabeta fez o mesmo com dele. Suas línguas brigavam, enquanto suas mãos apertavam o outro. Ela sentiu a mão dele descer para sua nádega, apertando com força. Elisabeta retribuiu arranhando a nuca dele.
Não soube quanto tempo passou, mas como o impulso veio, ele passou. Os dois se afastaram, suas bocas vermelhas, a respiração acelerada. Sustentaram o olhar um do outro. Ela queria beijá-lo, e então bater nele. E logo em seguida repetir o processo. Darcy bufou.
— O que foi isso? – ele perguntou.
— Você não parava de falar. – Elisabeta gritou. – Você não para de despejar asneiras desde que entrou aqui.
— O que? Você realmente está tentando virar esse jogo? – Darcy indignou-se.
— Não há jogo nenhum. Eu esperei que você estivesse irritado com aquela foto, não que você estivesse se metendo em brigas e planejando meu casamento. – Elisabeta revirou os olhos.
— Algum de nós tem que planejar seu casamento, princesa. – Darcy disse, irônico. – Pelo menos West pareceu empolgado com a ideia.
— O que foi que West disse à você? – ela franziu a testa.
— Coisas nada interessantes sobre sua vida sexual. – Darcy sorriu, malicioso. – Não me admira que você precise de mim.
— West é um mentiroso, Darcy. – Elisabeta cuspiu as palavras. – Um manipulador, aproveitador. O único momento em que ele tocou em mim foi ontem, à força, naquele baile.
Darcy pausou por alguns segundos.
— O que aconteceu ontem é que West se esfregou em mim dizendo coisas nojentas, me manteve imóvel à menos que eu fizesse um escândalo. E com certeza ele pagou alguém para escrever essa matéria.
— Eu não estou entendendo nada. – Darcy reclamou.
— Não está, porque você é um idiota. – Elisabeta irritou-se.
— É mentira? – ele pareceu realizar. – E o que você falou? Ele se esfregou em você? Aquele americano filho da puta fez isso?
— Fez, Darcy. – ela bufou. – Por isso eu corri até você. Que inferno.
— Eu devia ter batido nele dez vezes mais. – Darcy passou a mão pelos cabelos. – Eu deveria ter feito mais do que quebrar o nariz dele. Deveria ter quebrado todos os dentes.
Elisabeta revirou os olhos.
— E como você está? Ele fez algo a mais do que isso? – Darcy se aproximou dela, os olhos cheios de preocupação.
— Ele é um manipulador e é capaz de fazer qualquer coisa pelos interesses dele. – Elisabeta disse, séria.
— Mas você está bem? – Darcy acariciou o rosto dela, e Elisabeta teve vontade de chorar.
Chorar por West, pelo que ele estava dizendo sobre ela. Chorar por Darcy cogitar que ela pudesse fazer aquilo com ele.
— O que é que você acha? – ela respondeu, certeira.
Darcy a puxou para ele e Elisabeta sentiu seus lábios se tocarem novamente. Foi gentil dessa vez. E a língua dele era quente, possessiva, e ao mesmo tempo o beijo era calmo. Elisabeta sentiu o corpo derreter naquele toque. Mas se afastou dele, quebrando o beijo.
— Não. – ela disse. – Isso tudo está errado.
Elisabeta virou as costas e saiu do quarto de Darcy. Seu coração estava acelerado, mas sua mente parecia um turbilhão incontrolável. E quando se viu sozinha em seu quarto as lágrimas finalmente rolaram, sem que ela nem soubesse porque.
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