Need You Now

8 Capítulo 8


— Você O QUE?

Foi a única frase dita por Ludmila após Elisabeta narrar os fatos da noite anterior, com uma riqueza de detalhes impressionante. Elisabeta encarou a amiga com impaciência.

— Eu realmente não compreendi. – Ludmila arregalou os olhos. – Darcy esteve em seu quarto, vestido para o pecado, ou praticamente não vestido, dando indiretas e você O QUE?

— Nada aconteceu. – Elisabeta bufou.

— Você não fez nada? – Ludmila continuava espantada. – Nem um beijinho, uma passadinha de mão?

— Meu Deus, Lud. – Elisa fechou os olhos. – Pare de tornar a situação pior.

— Eu não tenho como tornar a situação pior. – Ludmila riu. – Não pelo que você está me dizendo.

— E o que você sugeriria que eu fizesse? – Elisabeta cruzou os braços.

— Elisabeta, eu sei o que eu faria se um homem como Darcy estivesse no meu quarto no meio da noite. – Lud disse, sonhadora. – Mas eu não posso ensiná-la a viver sua vida.

— Lud, tentar me ensinar como viver a minha vida é o que você mais faz desde que eu tinha seis anos. – Elisabeta revirou os olhos.

— Justamente. Se depois de vinte anos você ainda não aprendeu, o que quer que eu faça? – a amiga sorriu.

Elisabeta sabia que era um erro dividir a história com Ludmila. Mas apenas não sabia o que fazer. Havia passado a noite em claro, com mais calor do que poderia lembrar de ter sentido na vida, seu corpo desejando o de Darcy como se fosse vital.

— Lud, eu não sei como olhar para o meu próprio motorista. – Elisabeta suspirou.

— Com embaraço, é óbvio. E ele deveria olhá-la do mesmo jeito. Que tipo de tortura é essa que vocês estão se auto infligindo?

— Ele é meu funcionário, pelo amor de Deus. – ela bufou. – Deve haver algum tipo de lei contra isso.

— Em cem anos talvez você tenha alguma lei. No momento a única coisa que impede você e Darcy de rolar pelos lençóis é sua própria covardia.

— Covardia?

— Você é viúva há seis anos, Elisabeta. Isso já seria justificativa para pular na cama de qualquer um. E convenientemente você tem o homem perfeito no quarto ao lado do seu. – Ludmila revirou os olhos.

— Você faz parecer uma decisão simples. – Elisabeta resmungou.

— E é simples. Você é uma mulher independente, você e Darcy são solteiros, e a menos que você o mande embora é inevitável que algo aconteça.

— Não é inevitável, Lud. Até onde sabemos Darcy pode nem ter o mesmo interesse. – Elisabeta deu de ombros.

— Elisa, bancar a sonsa nunca fez bem para você. Darcy é um mulherengo e deve se interessar por qualquer mulher. Imagina se não ficaria atraído por você, que é linda e cheia de personalidade?

— As coisas não funcionam assim. – ela suspirou.

— Você sabe o que está fazendo, não sabe? – Ludmila arqueou a sobrancelha. – Está refugiada na ideia absurda de que as pessoas com as quais você se importa morrem, como se você fosse capaz de interferir no destino delas.

— Eu não estou fazendo isso. – Elisabeta revirou os olhos.

— Está, e você sempre faz isso. A ideia de desejar Darcy a assusta porque você tem medo de se envolver.

— Ludmila, pelo amor de Deus, só falta agora você dizer que estou apaixonada por Darcy. – Elisabeta bufou.

— Não está, eu sei que não está. – Ludmila sorriu. – Mas poderia se apaixonar. Darcy é exatamente o tipo de homem por quem você se apaixonaria.

— E é por isso que eu deveria ficar longe. – Elisabeta sorriu.

— Essa sua lógica deturpada faz com que você não aproveite as boas oportunidades. – Ludmila manteve um sorriso estranho.

— Você está me julgando. – Elisa apontou.

— É claro que eu estou. – Ludmila cruzou os braços. – E prefiro acreditar que você me julgaria se eu deixasse uma oportunidade como essa passar.

As duas ouviram uma batida na porta do escritório, e Elisabeta pediu que a pessoa entrasse. Ironicamente, Darcy passou pela porta, sua expressão extremamente formal até ver que era com Ludmila a reunião de Elisabeta.

— Boa tarde. – ele sorriu para Ludmila.

— Darcy, meu caro. – Ludmila deu um sorriso largo. – Sempre um prazer ser agraciada por sua beleza.

— E eu pela sua. – Darcy sorriu de lado.

— Elisabeta estava me contando sobre sua nova função. – Ludmila disse, e Elisabeta sentiu o rosto corar.

Precisaria parar de falar as coisas para Ludmila se ela sempre fosse deixar claro para Darcy que conversavam sobre ele.

— Nova função? – Darcy fingiu-se de desentendido, o olhar dele em Ludmila.

— Soube que nas horas vagas você espanta animais vestindo pouca roupa. – Ludmila arqueou a sobrancelha, sugestivamente.

Darcy sorriu abertamente, cruzando os braços, e então seu olhar se demorou em Elisabeta. Ele tinha um brilho divertido nos olhos, e por alguns segundos Elisabeta esqueceu-se que Ludmila estava ali.

— Eu apenas cumpri ordens. – Darcy piscou para Elisabeta.

— Ordens, é? – Ludmila gargalhou, olhando de um para o outro. – Sabe, eu estou precisando um motorista, Darcy.

— Eu poderia recomendar um amigo do interior. – ele mantinha o sorriso.

— Eu estava pensando em você. – Ludmila fingiu tristeza.

— Sou um homem fiel, Lud. – Darcy olhou novamente para Elisabeta. – Mas se um dia você precisar espantar algum animal eu acho que poderia ajudar.

— Por mais que a visão seja tentadora, Elisabeta nunca soube dividir muito bem. – Ludmila piscou para Darcy. – Poderíamos iniciar um incidente grave.

— Por favor, continuem. – Elisabeta revirou os olhos. – Façam de conta que não estou aqui.

— Como eu disse, acho que Elisa não aceitaria bem. – Ludmila trocou um sorriso cúmplice com Darcy.

— Você veio fazer algo específico aqui, além de flertar com Ludmila? – Elisabeta ergueu a sobrancelha, encarando Darcy.

Ele conteve uma risada antes de responder.

— Oh, sim. Eu gostaria de saber à que horas devo levá-la ao baile. – Darcy sorriu, inocente.

— Por volta das oito horas, por favor. – Elisabeta disse, seca.

— Eu nem acredito que consegui escapar deste evento. – Ludmila bateu palmas. – Eu não aguentaria uma festa de Briana.

— Espero que você saiba que haverá retaliação por me deixar ir sozinha. – Elisabeta revirou os olhos.

— Pode ser divertido. Ouvi dizer que os primos americanos de Brianna estão na cidade. – Ludmila sorriu para Elisabeta. – Você costumava fazer amizades facilmente com americanos.

Elisabeta revirou os olhos, mas sentiu os olhos de Darcy nela. E provavelmente porque estava cansada de que ele e Ludmila parecessem sempre de alguma forma deixá-la desconfortável, Elisabeta sorriu para a amiga.

— Isso é verdade. Os americanos tem algo que os ingleses não tem. – deu de ombros.

— Eu não poderia discordar. – Ludmila sorriu, cúmplice. – Sem querer ofender, Darcy.

— Não estou ofendido. – ele sorriu. – Embora exista uma chance de que não tenham conhecido um inglês de verdade.

Elisabeta o encarou, irônica.

— Acho que meu marido era inglês o bastante. – ela direcionou seu olhar para Ludmila. – Você não acha?

— E uma completa decepção, devo dizer.

Darcy cruzou os braços, e Elisabeta teve a impressão que o via desconfortável, como raramente acontecia.

— Talvez falte paixão. – Elisabeta disse, pensativa.

— Os americanos são definitivamente mais apaixonados. – Ludmila concordou. – Darcy, talvez você precise se preparar para dormir tarde esta noite. Elisa está pensando sobre os americanos.

— Ora, que bobagem, Lud. – Elisabeta riu, e então olhou para Darcy. – Não ouça o que ela está dizendo.

Darcy assentiu, mas não disse nada. Então pediu licença e saiu do escritório, fazendo Elisabeta e Ludmila olharem para a porta fechada. Não demorou mais do que dois segundos para que gargalhassem.

— Você está brincando com fogo. – Ludmila avisou. – Se ele resolver mostrar um pouco da paixão inglesa, não vai sobrar nada de você.

Elisabeta revirou os olhos.

— Darcy é confiante demais. E eu não menti. Os americanos tem mesmo mais paixão do que os ingleses.

— Eu não sei porque, mas Darcy não parece ser muito parecido com Xavier.

As duas ainda debateram um pouco mais sobre o acontecido da noite anterior, mas Elisabeta logo precisou arrumar-se para o baile. Escolheu um vestido vinho com pedrarias, deixou seus cachos soltos, a maquiagem um pouco mais carregada do que o normal. Quando desceu as escadas, horas depois, Darcy estava a sua espera. E se notou algo sobre seu visual, não falou nada.

Os dois foram em silêncio até a o baile. Darcy abriu a porta para Elisabeta e olhou em seus olhos intensamente. Elisabeta manteve o olhar dele, mas no segundo em que pareceu vacilar, Darcy abriu um sorriso convencido.

— Divirta-se. – ele disse, em voz baixa.

E é claro que não houve qualquer divertimento. Os primos de Brianna eram tão chatos quanto ela. Um terço da noite envolveu conversas sobre negócios, outro terço sobre futilidades, e o restante do tempo Elisabeta tentou despistar homens com o dobro de sua idade que, mesmo acompanhados das esposas, pareciam adequado fazer qualquer investimento nela.

Por isso Elisabeta odiava tais ambientes. A maioria das mulheres servia apenas como um acessório para seus maridos. Eles não permitiam que elas falassem ou agissem por conta própria, e quase sempre Elisabeta recebia os olhares de julgamento das esposas que sentiam que ela era uma ameaça. Não que fosse, é claro. Os homens da alta sociedade costumavam ser todos muito parecidos. Velhos ou novos, altos ou baixos, todos pareciam ver Elisabeta como alguém que precisava de um marido para cuidar de seus negócios.

E ela não precisava, definitivamente não precisava. Era uma mulher independente, e mais do que isso, gostava de trabalhar. Sabia que comandava suas empresas de forma mais efetiva do que muitos homens. E era apenas frustrante detectar aqueles olhares de compaixão, como se ela estivesse fazendo algo além de sua capacidade. Elisabeta acabava sempre precisando de mais álcool do que o normal para tolerar um par de horas nestes eventos.

Quando as danças começaram, Elisabeta desviou de três ou quatro pedidos de dança, despediu-se dos anfitriões, e saiu da casa. Estava acostumada com as saídas de baile. Os motoristas estavam sempre reunidos em um canto, conversando e jogando cartas. Seus trajes eram alinhados e completamente iguais. Pareciam inclusive sempre estar se divertindo mais do que os convidados da festa. Venâncio sempre a esperava com os outros, e por isso a primeira coisa que Elisabeta fez foi olhar para o grupo de motoristas.

Mas Darcy não estava por ali, e por isso Elisabeta o procurou entre os carros. E lá estava ele, encostado no carro dela como se fosse dele. Ao contrário dos outros motoristas, vestia apenas uma camisa branca com as mangas dobradas, os primeiros botões abertos. Darcy já a observava, aquele sorriso de lado, convencido, brincando nos lábios dele. Elisabeta quis ficar irritada, mas a verdade é que, entre todos os homens do baile, Darcy era o mais atraente.

De repente, ela pareceu sufocada. Queria sair dali o mais rápido possível. Queria estar em casa, com seus cachorros, com todas as pessoas que respeitavam seu trabalho, seu intelecto. Ela caminhou até Darcy e talvez sua expressão tenha ficado alarmante, porque o sorriso dele se desfez e uma ruga surgiu entre seus olhos.

— O que aconteceu? – Darcy perguntou, sério, e seus olhos foram para a casa onde as luzes brilhavam e a música soava.

— Nada. – Elisabeta disse, e tentou sorrir.

— O que aconteceu? – ele repetiu, e Elisabeta notou o maxilar dele tensionar.

— Nada, não é nada. – Elisabeta suspirou. – Eu só preciso ir para casa, tirar esse vestido.

Darcy a estudou por poucos segundos, e então sua expressão suavizou.

— Eu posso ajudar com isso. – ele disse, a expressão inocente, mas os olhos queimando em malícia.

— Com o vestido? – Elisabeta não resistiu a perguntar, seu corpo relaxando ao estar perto dele.

Darcy passou os olhos pelo corpo dela, demorou-se em sua boca, voltou à seus olhos.

— Com a ida para casa. – Darcy respondeu, inocente.

— Tenho certeza que sim. – Elisabeta sorriu, e Darcy abriu a porta para ela.

Quando Darcy entrou no carro, o ar parecia estar mais pesado. O baile era distante da cidade, e as ruas estavam desertas. Nenhum dos dois arriscou falar nada por alguns minutos, e então Elisabeta sentiu os olhos de Darcy através do espelho.

— Nenhum americano? – ele perguntou, desdenhoso.

— Tão chatos quanto Brianna. – ela respondeu.

— Uma pena. – Darcy fingiu tom de tristeza.

Elisabeta riu com o comentário.

— Você acha? – perguntou, com um sorriso. – Você queria tanto assim me ver saindo de lá aos beijos com um americano?

— Me pareceu inevitável, sendo eles tão apaixonados. – Darcy disse, irônico, fazendo-a rir.

— Você ficou incomodado, não é? – Elisabeta riu ainda mais. – Eu afetei seu ego inglês.

— Você ofendeu toda uma nação. – ele respondeu, categórico.

— Mas eu tenho motivos. – ela deu de ombros.

— Eu devo lembrá-la que foi uma escolha sua? – Darcy ergueu a sobrancelha. – E com base nas fotografias que vi, era bastante óbvio.

— O que era óbvio?

— Que um almofadinhas como aquele não daria conta de uma mulher como você. – Darcy sorriu de lado.

— Como eu? – Elisabeta questionou.

— Não me faça ser pouco lisonjeiro. – Darcy manteve o sorriso.

Elisabeta sabia que aquela era uma conversa perigosa, mas havia bebido um pouco. E queria saber. A opinião dele importava.

— Só estamos nós dois aqui. – ela suspirou. – Acho que nada do que você disser vai ser menos lisonjeiro do que a alta sociedade inglesa me tratando como uma coitada por precisar trabalhar.

Darcy riu.

— Você tem certeza? – ele perguntou.

— Sim. – Elisabeta o observou atentamente.

Darcy não falou em princípio. Encostou o carro em uma rua deserta, próxima a casa de Elisabeta. E virou-se para ela, os olhos dele iluminados pelo poste na rua.

— Você é uma mulher que precisa de um homem que saiba o que está fazendo. E que diga o que você quer ouvir. – Darcy baixou o tom de voz. – Que diga no seu ouvido que vai foder você forte e rápido.

Elisabeta engoliu em seco. Ela não sabia se poderia desejar Darcy ainda mais sem perder a sanidade.

— Um homem como seu falecido marido jamais faria isso. – Darcy sorriu malicioso. – Eu aposto que ele pedia permissão para tirar suas roupas.

Xavier fazia exatamente isso. E tão raramente que Elisabeta ficava entediada.

— É injusto culpar os ingleses por isso. – ele piscou para ela.

Elisabeta não soube o que responder. Darcy ligou o carro novamente e iniciou o caminho para casa. Ela sentia seu corpo arder por ele, cada centímetro pedir pelo toque de Darcy. E ele estava ali, como se não tivesse dito nada.

— E você? – ela disse, de repente, em voz baixa.

— Eu?

— Que tipo de homem é você?

Darcy não respondeu, apenas abriu um sorriso misterioso. Não demorou para que chegassem à casa de Elisabeta. Mal entraram em casa e os cachorros correram em sua direção. Logo depois subiram as escadas em silêncio, a tensão presente em cada passo. Quando passaram pela porta de Elisabeta, os dois pararam. O corredor não tinha qualquer iluminação naquele horário.

Elisabeta surpreendeu-se quando Darcy segurou seu braço com firmeza, impedindo que ela abrisse a porta. Sentiu quando ele deu um passo em sua direção, o calor do corpo dele aquecendo o dela. Darcy afastou os cabelos de Elisabeta sem dizer uma palavra, fazendo-a prender a respiração. Céus, o que ele estava fazendo? Era algum tipo de tortura?

Os dedos dele então começaram a brincar com as pérolas que serviam como botões. Elisabeta sentiu o vestido ficar mais solto em seu corpo. Os dedos dele roçavam na pele dela, a medida que as casas eram abertas. Era erótico e Elisabeta quis virar-se para ele, beijá-lo, levá-lo para o quarto dela. Mas estava embriagada pelo toque de Darcy, pela proximidade dele no escuro.

Elisabeta sentiu as mãos de Darcy descendo pelos botões, e então ele subiu um dedo lentamente pela coluna dela, um toque suave e certeiro na pele nua. Seu vestido estava aberto, bastaria Darcy querer e poderia despi-la ali mesmo, no corredor de sua casa, em frente à seu quarto. A respiração dele era controlada, mas profunda. Elisabeta nem sabia se estava respirando.

Darcy abriu a porta do quarto de Elisabeta, a luz da lua iluminando um pouco o corredor. Elisabeta virou-se para ele com um olhar questionador.

— Eu sou um homem que cumpre o que promete. – ele disse, em voz baixa, olhando nos olhos dela. – Tenha cuidado com o que você deseja.

Elisabeta soltou uma risada abafada, um sorriso malicioso nos lábios dela. Entrou no quarto e quando chegou ao meio dele, olhou para Darcy, ainda parado na porta. A lua era a única iluminação do cômodo, e Elisabeta deixou cair o vestido pelos ombros, juntando-se graciosamente em uma pilha no chão. Sua roupa de baixo era importada, ousada, e ela sabia disso. Viu quando Darcy engoliu em seco.

— Boa noite, Darcy. – ela disse, angelical. – Obrigada pela ajuda com o vestido. Você pode fechar a porta, por favor?

Darcy sorriu, malicioso, e essa foi a última visão de Elisabeta antes da porta se fechar entre eles.