Need You Now
29 Capítulo 29
Paris fazia parte da vida de Elisabeta. Estivera na cidade em momentos da infância e em incontáveis momentos na vida adulta. Gostava de tudo sobre a cidade e cada nova visita era uma nova sensação de estar em casa. Era a primeira vez, porém, que entendia o romantismo que todos viam em sua bela Paris.
Talvez qualquer cidade fosse romântica com um homem como Darcy à seu lado, mas Paris tinha um brilho especial. Havia algo de simples e lindo em percorrer as ruas tão conhecidas com seus dedos entrelaçados aos dele. Frequentar restaurantes e confeitarias apontando quais eram suas guloseimas preferidas, apenas para comparar com as dele.
Estavam juntos em todos os momentos em que ela não precisava trabalhar, e propositalmente foram muitos deles. Passaram finais de tarde abraçados vendo o sol se pôr, tiveram noites ardentes e manhãs preguiçosas nos braços um do outro. Elisabeta não recordava-se de estar mais feliz do que naqueles dias.
— Você está distante. – Darcy comentou, acariciando os cabelos dela.
— É nossa última noite. – Elisabeta beijou o peito dele. – Não quero voltar para a realidade.
— Eu não me oponho à vivermos aqui. – ele riu baixo. – Eu poderia encontrar um emprego como motorista de uma viúva rica e...
— Idiota. – Elisa deu um tapa de leve nele. – Eu adoraria viver aqui, mas os meus negócios estão em Londres.
— Eu sei. – Darcy beijou o topo da cabeça dela.
Elisabeta ergueu-se um pouco, sentando na cama. Seu coração doía ao olhar para ele, com a barba um pouco mais cheia depois de dez dias preguiçosos, os cabelos bagunçados por ela mesma, e aqueles olhos cheios de promessas azuis. Azuis como o paraíso.
— Os últimos dez dias talvez tenham sido os melhores da minha vida. – Elisabeta acariciou o rosto dele. – E eu sei que nunca falamos sobre isso, mas...
Darcy a encarou com expectativa, enquanto ela respirava fundo, criava coragem.
— Eu acho que não quero mais nos esconder do mundo, Darcy. – disse, por fim. – Talvez seja um escândalo, mas uma vez Lud me disse que quase nenhuma mulher de Londres poderia se arriscar tanto quanto eu. E você vale esse risco.
Darcy a puxou levemente para um beijo delicado, colando sua testa à dela na sequência.
— Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, Lizzie. – ele suspirou. – Não há um dia desde que nos conhecemos que eu não pense o quanto eu sou sortudo por estar ao seu lado.
— Estamos um pouco melosos hoje, não? – ela riu, tentando quebrar aquela seriedade.
— Eu estou apaixonado por você. – Darcy disse, de súbito. – E espero que isso não a deixe apavorada. Ao menos não mais apavorada do que eu me sinto.
Elisabeta cogitou rir, levantar daquela cama ou partir para Londres naquele minuto. Era apavorante. É claro que ela ficaria apavorada. E, ao mesmo tempo, era tudo o que queria ouvir. Tudo o que precisava para coroar tantos dias fantásticos.
— É a coisa mais assustadora que eu já ouvi. – ela admitiu, em um sorriso. – Mas eu estou apaixonada por você também, Darcy Williamson.
— Isso é bom. – Darcy a beijou. – Muito bom.
— Mas você não me respondeu de verdade. – Elisabeta se afastou e ergueu a sobrancelha.
— Lizzie, neste momento não tem quase nada que eu não fizesse por você. E isso inclui alguns crimes, inclusive. – ele a fez rir. – Se você quer contar ao mundo que eu sou um desgraçado sortudo, eu não vou fazer mais do que aceitar com um sorriso no rosto.
— Aquele sorriso convencido? – Elisa acariciou o rosto dele.
Darcy sorriu daquele jeito que ela tanto amava. Como se soubesse tudo o que ela pensava, e que era dono de cada uma de suas emoções e desejos. Ele a puxou para seu colo, e Elisa não ofereceu qualquer resistência.
— Como você acha que as pessoas vão reagir? – ele perguntou, enquanto a acomodava.
— Sua irmã e Cecília já sabem. – Elisabeta arrumou os cabelos dele. – Petúlia vai fingir surpresa, mas não tenho um pingo de dúvida que ela sabe exatamente o que anda acontecendo.
Darcy sorriu.
— E o seu pai vai querer te deserdar por me tocar. – ela disse, dando de ombros. – Mas esse é um problema seu.
— Ainda bem que não temos um patrimônio, então. – Darcy beijou o pescoço dela. – Mas pode ser pior, você sabe? Ele pode querer me matar.
— Nesse caso eu preciso impedir. – Elisabeta deu mais espaço para as carícias dele. – Afinal eu preciso de você vivo.
— Precisa, é? – Darcy riu contra a pele dela. – Para que?
— Muitas coisas. – ela divagou. – O que me faz pensar em algo...
Darcy não respondeu, fazendo Elisabeta afastá-lo um pouco.
— Talvez você pudesse ter um cargo melhor em alguma das empresas. – ela disse, incerta. – Se quiser.
— Eu não quero subir na vida às suas custas, Lizzie. – Darcy disse, sério. – Eu gosto de ser seu motorista. A menos que seja um problema para você.
— Para mim? – Elisabeta perguntou, confusa.
— Uma mulher do seu nível com um simples motorista. – ele suspirou. – Será mesmo um escândalo.
— Darcy, eu não me importo com o que você faz. – ela sorriu. – E eu não me importo com o que as pessoas vão falar.
— Nesse caso eu prefiro passar o dia à sua disposição. – Darcy sorriu, malicioso. – Eu odiaria pensar em outro sendo seu motorista.
— Então vamos aproveitar a nossa última noite.
Ele assentiu, os lábios buscando os dela. Seus beijos, toques, carícias, eram o suficiente para Elisabeta perder qualquer racionalidade. Estava completamente entregue à Darcy e à tudo o que poderiam viver. Nada era tão importante quanto a sensação de felicidade que a invadia quando estavam juntos, quando seus corpos se moviam juntos, quando o nome dela saia da boca dele. E foi assim que passaram aquela última noite em Paris.
##
Voltar para Londres foi como um sopro de realidade em meio à um sonho. Embora tivessem combinado de não esconder nada, Elisabeta o notou tenso em todo o caminho para casa. E ela poderia entender. Archibald talvez não fosse ver aquela relação com bons olhos, e isso nada tinha a ver com seu amor pelos dois.
Archibald era tradicional. Elisabeta sabia que ele se sentiria culpado por pedir um emprego para Darcy. Ele jamais o faria se imaginasse alguma possibilidade de Darcy se envolver com Elisabeta. Por isso ela compreendia a tensão de Darcy, e foi por isso que tocou de leve sua mão.
— Não precisamos fazer isso imediatamente. – ela disse, ainda no carro.
— Não é que eu não queira. – ele sorriu. – Só precisamos encontrar o melhor momento para contar ao meu pai.
Elisabeta assentiu, e quando retornaram à mansão, foi com o mesmo profissionalismo fingido de sempre. A rotina de trabalho e afazeres logo se refez, e voltaram aos encontros furtivos no meio da noite. Darcy dormia no quarto de Elisabeta quase todas as noites. Antes do sol nascer ele voltava ao seu. E Elisa sentia falta de acordar ao lado dele.
O melhor momento de contar pareceu distante quando Archibald começou a empalidecer e se alimentar pouco, cerca de duas semanas depois do retorno de Paris. Os médicos receitaram tônicos e receitas caseiras. Petúlia ordenava que caldos fortes fossem preparados, mas nada disso parecia adiantar. Archibald definhava aos olhos de todos, o que teve um impacto profundo em seus filhos e em Elisabeta.
— Lizzie, você não precisa cuidar de mim. – Archie disse, com a voz fraca. – Eu é que preciso cuidar de você.
— Você precisa se cuidar. – Elisabeta sorriu. – E eu vou ajuda-lo. Não há nada que possa fazer.
Ela passava horas no quarto de Archibald, assim como Charlotte e Darcy faziam. Liam, relembravam histórias, e quando Archie adormecia, ainda assim ficavam por perto, como se a presença de algum deles pudesse evitar o inevitável. Era questão de tempo, segundo os médicos. E Elisabeta não se sentia preparada para perder mais uma pessoa. Sentia-se inclusive culpada por seu envolvimento com Darcy. Como se, de alguma forma, fosse responsável pela doença de Archibald.
O cansaço físico e mental fez com que Darcy e Elisabeta se afastassem um pouco. Darcy agora passava quase todas as noites no quarto do pai, e Elisabeta o dispensava do trabalho na maioria dos dias. Ela mesma evitava ao máximo sair de casa. Quando se viam sozinhos era como se precisassem daqueles momentos de silêncio e conforto.
Elisabeta deveria ter imaginado que a calmaria de Paris era um prenúncio da tempestade. A doença de Archie também coincidiu com uma ampla investigação policial em relação à sabotagem de suas empresas. Ludmilla acompanhava tudo de perto, e foi justamente a amiga a responsável por dar uma notícia esperada, mas que impactou Elisabeta da mesma forma.
— As suas suspeitas estavam certas. Weston foi o responsável. – Ludmilla disse, simplesmente.
E de repente era como se a vida de Elisa saísse de controle. Como se seu castelo fosse desmoronando pouco a pouco. Sua confiança inicial em West havia gerado aquela situação. Archibald, o mais próximo que ela teve de uma referência durante a vida, estava a cada dia pior.
As lágrimas não caiam, mas havia uma angústia crescente em seu peito. E, ainda assim, nada a teria preparado para aquela noite. Chovia e ventava quando Archibald a chamou. Sua aparência era a de uma pessoa doente demais para qualquer preocupação. Mas o semblante dele era pesado quando começou a falar.
— Lizzie, eu evitei este momento durante toda a minha vida. – o mais velho suspirou. – Quando a conheci você era apenas um bebê. Seus pais sempre imaginaram que chegaria um momento certo de contar à você sobre a sua história, mas eles não tiveram tempo para isso. E eu nunca tive a coragem.
— Archie? – Elisabeta o encarou. – Do que você está falando?
— Seus pais não podiam ter filhos, Lizzie. Tentaram por muitos anos, sem sucesso. E então foram ao Brasil. Quando retornaram, traziam você nos braços. – ele sorriu. – Você era o bebê mais bonito que eu já tinha visto. Bochechas coradas, e quase não chorava.
Elisabeta sentia-se cada vez mais confusa.
— Você nasceu pra ser forte, Lizzie. E é por isso que você precisa ser forte agora. – Archibald tossiu. – Elisabeta, minha cara Elisabeta. Eu não sei como dizer isso.
— Isso o que, Archie? Você está me assustando.
— Você, Lizzie, foi adotada no Brasil. Não me peça detalhes, porque não os tenho. Seus pais pretendiam contar em algum momento, mas...
— Do que você está falando? – Elisabeta sentia como se o chão estivesse abrindo à seus pés.
— Sua mãe deixou uma carta. – Archibald apontou para a escrivaninha ao lado da cama. – Eu tenho certeza que eles teriam contado em um momento mais oportuno. Me desculpe, Lizzie.
Elisabeta não ouviu mais nada. Abriu a gaveta e aquela carta a atingiu em cheio. Pegou o pedaço de papel com mãos trêmulas, sem coragem para abrir. Seus passos para fora do quarto foram vacilantes, e tudo o que via eram sombras, vultos. Não podia ser verdade. Sua origem era ali. Elisabeta era uma Green. Não poderia ser outra coisa. Seus pais não teriam omitido por tantos anos.
E se Archibald sabia, Petúlia também saberia. As duas pessoas que ela mais confiava no mundo, as pessoas que foram sua referência de afeto e cuidado. Como poderiam omitir aquela informação por tanto tempo? Como tantas pessoas que amava foram capazes de mentir daquela forma.
Lizzie,
Se você está lendo esta carta, é porque nunca tive a coragem ou oportunidade de te contar pessoalmente sobre sua história. Eu a amei desde o primeiro momento em que a vi. Você completou minha vida com sorrisos banguelas e olhos curiosos. Você, Lizzie, me tornou mãe e deu todo o significado da minha vida.
Mas eu não pude gerar você, Lizzie. Todo o desejo que tive de ser mãe nunca foi recompensado com uma gestação de verdade. Isso nunca impediu meu amor, ou o amor do seu pai. Soubemos que era nossa desde o primeiro momento em que vimos você.
É justo, porém, que você saiba que tem outra história. Você nasceu em São Paulo, mas eu não sei o nome dos seus pais. Tudo o que sei é que eles saíram do hospital sem levar você. Eu e seu pai estávamos em viagem para o Brasil, e naquela noite seu pai sentiu-se mal. Fomos ao hospital, e tudo o que os funcionários sabiam falar era sobre aquela menina linda que havia sido abandonada.
Uma enfermeira me levou até você, e eu nunca mais consegui deixar você ir.
Escrevo esta carta em nossa volta para Londres. Você está adormecida nos braços do seu pai. Se algo deu errado e eu não estou com você neste momento, saiba que a amo. Que onde quer que eu esteja estou pensando em você, protegendo você e torcendo por seu futuro.
Mas eu entendo a importância de raízes, e sei que você merece saber as suas.
Com amor, Mamãe
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