Necromante
13 Capítulo 11: Consequências da Magia e Moral (Parte 1)
(PDV Umbra)
Sentado na minha banheira, eu olhei para a televisão que está transmitindo a notícia mais recente. A repórter fala com a voz apressada, claramente chegando ali no último momento.
— Diretamente do vaticano! A presença de anjos na cidade sagrada, em frente a Basílica de São Pedro foi confirmada! Uma legião de fiéis está em frente à Basílica rezando enquanto as portas estão fechadas com o papa e os anjos lá dentro!
Demorou para acontecer. Bem, isso prova minha teoria.
— Anjos no vaticano? Como isso é possível?
Misaki me pergunta, parando a esponja cheia de espuma que ela estava usando para lavar eu braço.
— Se lembra do que eu te falei alguns meses atrás, depois da sua cirurgia?
— Aquilo sobre a teoria da magia?
Eu olhei para o corpo nu de Misaki, que está tomando banho no banheiro junto comigo. Percebendo meu olhar, ela cobre os seios, corando levemente, seu cabelo prateado preso atrás de sua cabeça para não ser molhado.
— O-oque foi?
— Não, é que eu só estou surpreso que você aceitou essa de não poder se afastar de mim com tanta facilidade.
Ela corou mais ainda.
— E-e-e-eu já disse que não foi minha culpa, ok?! Eu só me animei um pouco!
— Eu acho que explodir metade do depósito abandonado em que nós testamos seus poderes passa longe de “um pouco”...
— Eu já pedi desculpa! Eu não planejava liberar tanto poder! Mas a sensação foi um pouco boa demais, e eu acabei perdendo o controle...
— É, se não fosse por causa disso você não teria desestabilizado seu esqueleto e não teria que ficar perto de mim para não perder o controle. Graças a isso você não pode se afastar mais de dez metros.
— Quando isso vai acabar...
— Em cerca de um ano, quando seu corpo se adaptar a energia. Enfim, de volta ao assunto, — eu voltei a olhar para a televisão. – você se lembra do que a teoria da magia é sobre?
— É sobre como a mente humana afeta a magia, certo? Eu não achei que fosse sério assim.
— Você se lembra do que eu te falei, sobre eu ser o primeiro mago a ser capaz de usar magia no mundo?
— Se eu não me engano, você podia usar magia desde que nasceu, diferente dos outros que a despertam depois dos dez anos, certo?
— Exatamente. Você sabe porque a magia desperta aos dez anos?
— Não, você nunca me explicou isso, e os cientistas não foram capazes de chegar a uma conclusão...
— Ok, eu vou explicar então. Se lembra da composição de um humano, o corpo, espírito e alma? – ela assente – normalmente, um humano se torna capaz de usar magia quando a conexão entre corpo e alma amadurece, o que acontece a partir do dez anos. Pessoas com um sexto sentido, capazes de ver espíritos e essas coisas são pessoas nas quais essa conexão não amadureceu completamente durante este período.
Ela assente e comenta.
— Dessa forma os humanos podem não somente interagir com o mundo sobrenatural, mas também usar magia, certo?
— Sim, porém tem algo que eu ainda não te ensinei. Você sabe o que é fé, certo?
— Acreditar em algo que não se vê.
— Sim. A fé também afeta a magia. No fim, mana é energia, algo que os humanos constantemente produzem., incluindo em seus pensamentos. Sonhos, pesadelos, emoções, tudo isso gera energia que eventualmente se libera pelo mundo. Normalmente, essa energia não causa nada, já que o mundo não se adaptou para suportar criaturas feitas de mana. Mas agora que o planeta consegue suportar...
— Essa energia mudou!
Ela disse surpresa. Eu sorrio e falo novamente.
— Provavelmente, o céu cristão e os anjos já existiam á muito tempo, desde que o primeiro cristão acreditou em deus e seus anjos.
— Como assim?
— Como eu posso explicar... vejamos... essa energia coletiva se cria através da vontade e mente dos humanos, e flutua por aí. Eventualmente, essas energias semelhantes se reúnem e criam um fenômeno. E esse fenômeno muito provavelmente criou uma dimensão secundária que é o céu onde reside deus e seus anjos.
— Uau, isso implica em muitas coisas e possibilidades. Sem falar no ódio que isso pode gerar com preconceito contra religião e ateus.
— Realmente. Claro, nós não vamos chegar ao ponto de anarquia, mas com certeza o vaticano vai adquirir um poder de combate incrível.
— Como assim?
— Pense um pouco. Os anjos que se manifestaram no vaticano com certeza não serão exatamente os que nós conhecemos. Eles mais provavelmente serão soldados ao invés de guardiões dos puros.
— Porque você diz isso, Mestre?
— Pense Misaki. Se existe um céu e anjos, existe um inferno e existem demônios. E agora que os anjos têm livre acesso à terra, capazes de se materializar sem problemas já que o mundo aguenta as formas deles. Você acha que os opostos deles não vão fazer nada?
— Entendo...
— Isso pode ser um grande problema para mim...
Ela me olha confusa.
— Como assim?
— Pense, eu uso magia negra e necromancia. Eu também não sou boa pessoa.
— Mas você não é capaz de usar magia branca também? Se eu não me engano, você me disse que é necessário ser puro para poder usar magia branca, e quão mais puro você é mais poderosa é a magia branca que você consegue usar. Mestre consegue usar todas as magias brancas, não é?
Verdade. Eu sou “puro”. No começo, quando eu era criança na minha vida anterior, eu era capaz de usar magia branca e pouca magia negra. Eu via tudo como “bem” e “mau”. Para se usar magia branca, é necessário ser “bom”, e magia negra ser “mau”.
— Eu te expliquei de uma forma simplificada, então não ficou claro o suficiente. Permita-me elaborar mais nesse assunto. Magia é afetada pelo seu estado psicológico. Se você acredita sem duvidar que magia negra é em essência maligna, você só poderá usar magia negra para atos que você considera maldade. O mesmo para magia branca e qualquer outra cor de magia.
— Então no que você acredita, Mestre?
— Humanos se juntam em grupos e impõe morais. Aquilo é ruim, isso é ruim, fazer tal coisa é bom, nós criamos vários padrões pelos quais seguimos. Dessa forma, nós criamos um senso de bom e ruim, nos fazendo crer que certas coisas são ruins e certas coisas são boas.
— E o que tem de errado? Não é assim que se vive em sociedade?
— Sim. Isso não é um problema. Na verdade, é o jeito que as coisas deveriam ser. Nós criamos a sociedade, e nós vivemos de acordo com o bem punindo o mal. Mas tem um porém, e se alguém nascer no mal, mas não for inerentemente mal?
— Como assim?
— Vejamos... uma criança, numa cidade destruída pela guerra e teve toda sua família assassinada. Antes de morrer, seus pais disseram para ele viver o máximo que ela puder.
— O-ok.
— Essa criança vai morrer de fome se ela não encontrar comida. Digamos que essa criança encontra um mercenário na cidade que tem comida, mas vai matar a criança se ele a ver. Esse mercenário está dormindo com a comida na mão e a faca dele não está longe. A criança tem somente duas opções, matar o mercenário ou morrer de fome. Qual é a opção certa?
— ...
Misaki fica em silencio. Uma situação difícil.
— O garoto escolhe sobreviver, e mata o mercenário. Ele sobreviveu pelo custo de outra pessoa. Claro, ele é uma criança e tentou sobrevier através de uma ação ruim. Então, se você o julgar por suas ações, ele é “mau”. Porém, o mal nele não é inerente, não é a natureza dele. O que ele fez é errado ou certo?
Silencio.
— Claro, você pode dizer que ele está errado por tirar uma vida. Mas é errado tentar sobrevier? O que você acha?
— Eu...
Misaki não conseguiu responder. Depois de um curto silencio, eu falei.
— Na minha opinião, não importa. Eu não conheço a criança, e ele também não e importante para mim, assim como o mercenário. E na situação da criança, eu não hesitaria em cortar a garganta do mercenário.
— Mas isso...
Misaki perde as palavras. Eu suspiro, dizendo gentilmente.
— Misaki, não se sinta mal. Eu vou proteger aqueles que são importantes para mim e a mim mesmo, e se eu tiver a oportunidade de ajudar alguém, eu ajudarei. Porém, eu não sou um santo. Eu não vou me sacrificar por algum estranho. Eu estou disposto a fazer algo terrível por aqueles que eu amo, e eu não me arrependo. Humanos não som “brancos” ou “negros”, somos todos cinzas, capazes dos maiores bens e das piores maldades. Eu não sou diferente, eu sou o que sou, e nada nunca vai mudar isso.
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