Necessidade
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Preferia que não superestimasse sua afeição. Dessa forma, Prudêncio procurava sempre deixar os cantos de seus lábios apenas um pouco levantados, deixando exposto apenas uma simpatia mínima ao encontrar a pessoa esperada. Tudo em cálculo certo para não deixar ao encontro de Eliano aquela derrota por detrás de seus olhos escuros.
A palavra, que o determinava como perdedor, estava presa em sua pele e restante do corpo como uma mordida de gato irritado, e a necessidade daquele homem perto dele, em proximidades que lhe permitiriam captar o cheiro fraco de pele sem perfume, exigindo lógicas cada vez mais incompreensíveis com o passar dos dias, latindo faminta no peito.
Era tarde. Estavam tão atrasados naquele tempo de rotinas e planos. Incabível aquelas emoções o partindo aos poucos. Preferia as questões equilibradas, não aquela injustiça em que dificilmente poderia contar com um retorno, gota a gota, de seu investimento sentimental. Mesmo se fosse amado, algo que dificilmente lhe passava como possibilidade por conta daquela obsessão de seu amigo por questões literárias, não lhe parecia algo compensável ao esforço.
Amava demais e se orgulhava demais de si mesmo para esperar aquele amor real desbalanceado. Contudo, Prudêncio ainda era um derrotado. Então, aqueles sorrisos breves, controlados, que eram respondidos pelo mau humor leve, cotidiano, resmungão, que eram traços de seu amigo de infância.
Noite em meio àqueles postes de luz que falhavam uma vez ou outra. Há horas tinham realizado a última refeição deles em uma lanchonete da faculdade. Para Eliano, um suco de uva com empada de frango. O dele mesmo, o de laranja com bolo de chocolate. Sempre se perguntavam em voz alta como os dois poderiam comer coisas tão doces, o suco de uva e o bolo de chocolate, quando eram tão insociáveis, intragáveis pelos outros.
“Quem gosta de doces não pode ser uma má pessoa!” Analice lhes dizia sem se importar com os comentários que eram ditos a respeito deles.
Eram gratos àquela única amiga fora da relação deles, o que não auxiliava naqueles momentos em que, entre si, se mantinham presos em seus mundos, apenas volte meia em um esbarrar leve de ombros, ou mãos, uma palavra ou outra trocada. Eram amigos de infância, mas ninguém imaginaria a menos que dissessem. Nem mesmo Analice teria suspeitado.
Eliano continuava olhando para frente em uma indiferença dos arredores tão palpável, pesando o ar, que poderia estrangular, ou era o que Prudêncio tinha imaginado com a garganta fechando, até que, repentinamente, o amigo disse, parando:
— Prudêncio.
Parou com a menção de seu nome. Eram poucas às vezes em que ouvia àquela voz encarnando a palavra seriedade de forma tão plena. Eliano continuou com o mesmo tom:
— Você...
Os olhos de Prudêncio se arregalaram um pouco, em pânico interno, emoções gritando, se retorcendo como lagartixas procurando fugir, ao ver aquela mesma chama escura de desejo camuflado nos olhos daquele rapaz. Quem sabe mais derrotado do que imaginava.
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