Necessidade
2 Epílogo
Notas iniciais
A imagem de Abarai Renji adormecido em sua cama era completamente fascinante. O lençol esverdeado cobria-o da cintura para baixo, o tom vermelho sangue das madeixas soltas misturava-se com o branco do travesseiro. Quando despertara há minutos atrás, Byakuya sentiu que os braços fortes abraçavam-lhe com força. Fora até um pouco difícil se desvencilhar deles, mas quando conseguiu, pode ver o corpo tatuado se esticar e permanecer adormecido daquele jeito. Não se lembrava de que ele era assim tão espaçoso... A boca aberta e os roncos baixos não lhe incomodavam, mas eram de extrema graça. Com o que deveria estar sonhando? Os murmúrios desconexos que ele soltava em meio aos roncos não lhe ajudavam a sanar sua curiosidade. Aquelas tatuagens tão belas a mostra eram o toque final na imagem bonita e divertida de seu tenente dormindo. Era quase um pecado ter que acordá-lo.
— Renji... – chamou baixo, se aproximando mais do rapaz adormecido. Segurou os ombros largos e chacoalhou o ruivo de leve, esperando que ele acordasse só com isso. Ledo engano. – Renji!
— Hmm... – O murmúrio rouco e manhoso deu a entender que o Abarai queria continuar dormindo.
Byakuya desejava não precisar acordar seu tenente, até deitaria ao seu lado e lhe abraçaria até que pegasse no sono outra vez. Entretanto, ambos tinham compromissos naquela manhã fria, então o moreno não tinha muitas opções. Encarou a face adormecida mais uma vez antes de levar sua boca até os lábios entreabertos do mais alto, colocando a língua sedenta para dentro. Não precisou esperar muito; logo as línguas se tocaram, entrelaçando-se com calma e delicadeza. Constatou que o tatuado havia acordado de vez quando sentiu o toque da mão morena em sua nuca, deixando ali um carinho sutil. Separaram-se em seguida, e o capitão pode observar as pálpebras do mais novo tremerem um pouco antes de se abrirem com um pouco de dificuldade.
— Bom dia. – disse o moreno, querendo rir da adorável expressão sonolenta do rapaz.
— Dia... – A voz continuava manhosa e bem rouca, além de extremamente agradável de se ouvir. – Quem me dera ser acordado assim todas as manhãs.
O comentário fez com que o coração do Kuchiki batesse com força contra suas costelas. Como era bobo, sempre dizendo aquele tipo de coisa. Será que fazia de propósito? Não, ele não tinha como saber que aquele tipo de frase fazia com que se apaixonasse ainda mais. Após erguer seu tronco e se sentar sobre a cama, o Abarai indignou-se. Por que diabos havia sido acordado tão cedo? Ainda nem eram sete da manhã e sequer tinha que trabalhar! Bocejou e se espreguiçou, sem nenhuma vontade de se levantar. Tudo ali cheirava a Byakuya, os lençóis e até seu próprio corpo... Já estava pronto para voltar a dormir, quando ouviu a voz imponente de seu capitão dizer:
— Melhor você tomar um banho e se vestir. Rukia já está a caminho, afinal eu a instruí a não se atrasar para nenhum compromisso.
— Compromisso? – perguntou o Abarai, bocejando outra vez.
— Sim. – disse o nobre após um suspiro. – Você prometeu ir com ela até o a cidade de Karakura para as Saudações de Ano Novo.
A expressão sonolenta do shinigami ruivo se transformou em susto. Era óbvio que ele havia se esquecido, mas isso não era nenhuma novidade. Com muito esforço, o tatuado se levantou da cama confortável de Byakuya e foi procurar suas roupas pelo chão, tudo em uma lentidão impressionante para qualquer um que não o conhecesse. Renji estava relutante, passava tão pouco tempo com o capitão e naquela rara ocasião, precisava ir cumprir a promessa que fizera à Rukia... Suspirou decepcionado, sem perceber os olhares sobre si. Dobrou o quimono azul com cuidado e se direcionou ao banheiro, surpreendendo-se assim que entrou lá.
Viu o local espaçoso e bem limpo, a banheira extremamente convidativa se destacando no meio do cômodo, como nas casas do mundo humano. Não se lembrava de ter visto algo tão luxuoso antes. Sem pensar muito, o shinigami encheu a banheira e em seguida afundou-se ali. A temperatura da água era perfeita, fazia-o esquecer-se do tempo frio e de tudo o que precisava fazer naquele dia. Seu corpo e sua mente eram tomados pela preguiça, pelo cheiro bom do sabonete e pelas lembranças da noite passada. Fechou os olhos lentamente, focando-se na bela imagem de Byakuya dizendo que o amava, os raros sorrisos e tudo aquilo que encantava mais no mais velho. Estava tão relaxado, poderia dormir novamente a qualquer momento. Entretanto, fora assustado com o toque de mãos frias em seu rosto avermelhado. Abriu os olhos e deparou-se com seu capitão, que acariciava de leve suas bochechas.
— Você está quente. – disse o moreno, causando um leve sorriso no tenente.
— Suas mãos estão frias, senhor.
“Senhor”, pensou Byakuya. Queria arranjar alguma forma de fazer aquele homem chamá-lo sempre pelo primeiro nome, como na noite anterior, afinal não eram apenas superior e subordinado; a relação deles excedia àquilo. Mirou a face cansada do mais novo, pensando brevemente no quanto ele parecia querer ficar agarrado a si o resto do dia. Era sua vontade também, entretanto não podiam. O mais velho suspirou de forma imperceptível e se afastou de seu tenente, voltando a sua costumeira postura séria.
— Não demore muito. Rukia deve estar chegando.
O shinigami ruivo bufou frustrado, afundando o corpo ainda mais na banheira e fechando os olhos para aproveitar o toque quente da água em sua pele. Xingou-se muito em pensamento, reforçando que nunca mais prometeria nada que pudesse arruinar um momento seu com seu capitão. Os orbes castanhos do Abarai abriram-se e cresceram em surpresa ao sentir as mãos de Byakuya em seu couro cabeludo, massageando-o de forma hábil de gostosa.
— T-Taichou...?
A voz marcante do ruivo saíra como um gemido fraco, seus olhos voltando a se fechar à medida que a massagem continuava. Sentia o cheiro gostoso do shampoo acariciando seu nariz, fazendo-o pensar se tudo aquilo era mesmo a realidade, pois era bom demais. O Kuchiki se encontrava sentado em um pequeno banco atrás da banheira, esfregando os fios longos e vermelhos de Renji sem pressa, ignorando a espuma e a água em que caíam em seu quimono cinza. Amava com força o fato de estar fazendo aquele homem se sentir bem de alguma forma, pois ele fazia o mesmo por si a todo o momento, sempre sem exigir nada em troca. O sorriso largo na face bela do tatuado o fazia se sentir satisfeito, além de evitar que resistisse a vontade de sorrir também.
Como já era esperado por ambos, aquele momento não tardou a terminar. Logo o ruivo estava de pé, enxugando seu corpo com uma toalha branca, enquanto que Byakuya ia procurar um shihakushou para que o ruivo pudesse usar, afinal, ele não tinha tempo para ir até sua casa, vestir suas próprias roupas e voltar à mansão; Rukia estava chegando.
— Vista-o. – disse o moreno, entregando o quimono negro ao tenente.
— Tem certeza, Taichou? — indagou o Abarai, parando de enxugar os próprios cabelos. – Não precisa se incomodar comigo...
— Não vou repetir. Seja rápido, estarei lhe esperando na sala.
Renji ficou parado encarando aquele quimono por alguns segundos antes de levar o tecido dobrado até a altura das narinas, sentindo o perfume de Byakuya lhe inebriar. Sorriu como o idiota que sempre foi, vestindo a peça logo em seguida. Ficou ligeiramente feliz por saber que ficaria o dia todo com o cheiro daquele homem grudado em seu corpo. Devidamente vestido e com seus cabelos presos no topo da cabeça, como era de seu costume, Renji saiu do quarto de seu capitão, dando uma última olhada na cama ainda desarrumada. Permitiu sorrir brevemente ao lembrar-se de como foi maravilhosa a noite anterior, desejando silenciosamente que pudesse amar Byakuya daquela mesma forma o mais breve possível.
Chegando à sala da mansão, o tenente pode ver sua zampakutou recostada na parede. Perguntou-se como Zabimaru havia ido parar ali, já que não havia trago-a na noite anterior. Aproximou-se da katana, só então percebendo a presença do grande Kuchiki Byakuya no cômodo. Ele estava dentro de suas roupas de capitão, os kenseikan presos aos seus cabelos negros e, como de costume, o cachecol esverdeado adornava-lhe o pescoço alvo. Lindo, como sempre. O rapaz pensou em ir até seu capitão e tomar seus lábios uma última vez antes de ir embora, porém acabou se dando conta da presença de mais uma pessoa ali.
— Renji, que milagre é esse que não chegou atrasado? – A voz divertida e inconfundível de Rukia o decepcionou um pouco.
— Ás vezes em me lembro dos meus compromissos, baixinha! – retrucou o mais alto, tentando fazer graça. – E então, se divertiu muito ontem?
— Sim! Apesar das loucuras que a Matsumoto fez quando estava bêbada, a festa foi bastante divertida.
Após algumas risadas e comentários dos dois amigos, Byakuya ordenou que Rukia fosse logo se trocar e buscar sua zampakutou, pois eles não podiam se atrasar. Quando a pequena sumiu de suas vistas, o moreno esperou pacientemente pelo o que viria em seguida. De forma ligeira, o corpo tatuado se achegou ao seu e lhe envolveu em um abraço que saberia que demoraria muito para acabar. A enorme mão de seu tenente fazia um carinho gostoso em seus cabelos, da forma mais cuidadosa possível para não atrapalhar os kenseikan presos aos fios negros. Suspirou baixo, sentindo o coração palpitar forte dentro do peito. Retribuiu o aperto da forma que pode, fechando os olhos e aproveitando aquele momento, já que não sabia quando poderia repeti-lo.
— Obrigado, Byakuya. – sussurrou o ruivo depois de um tempo, afastando os corpos um pouco para poder encarar os olhos azuis. Uniu os lábios devagar, iniciando um beijo sereno e demorado, depositando nele todo o amor que sentia por seu superior. As línguas se tocavam sem pressa, sem medo ou receio. Renji acariciava as costas do capitão devagar, enquanto o mesmo segurava o rosto do tatuado de forma possessiva. Deleitavam daquele momento ao máximo, se separando apenas quando sentiram que já havia passado tempo demais. Quando cessaram o beijo, ambos sorriam ternamente.
— Eu trago seu quimono de volta, senhor. – disse Renji, se afastando um pouco do mais velho, mesmo que relutante.
— Não há necessidade, pode ficar com ele.
— Sério? – O mais alto riu, desacreditando no que ouvira. – Lá se foi a minha desculpa para voltar aqui...
— Tolice. – disse Byakuya, imponente como costumava ser. – Não precisa de desculpa para voltar aqui, Abarai fukutaichou.
Passou direto pelo subordinado, sorrindo imperceptivelmente. Antes que o ruivo pudesse perguntar algo, Byakuya continuou sua fala:
— Não se esqueça de vir buscar o seu yukata, Renji. Eu estarei lhe esperando.
E naquela pequena frase, o subordinado mais fiel de Kuchiki Byakuya encontrara a “desculpa” que procurava, apesar de não precisar dela. Sorriu como o imbecil que sempre foi, desejando agora que pudesse buscar logo seu tão amado quimono azul.
~**~
— Que bocejo é esse logo no começo do Ano Novo?
— Não tenho culpa. Ontem, Iba-san e os outros me obrigaram a festejar a noite toda.
— Ichigo e os outros iriam rir se vissem seu rosto agora.
— Esquece eles. Vamos logo terminar as nossas saudações do Ano Novo. Quero voltar pra casa rápido e dormir.
Apesar de cansado de se sentir um grande mentiroso, Renji estava feliz. Nada o faria esquecer-se daqueles momentos que passara com seu capitão, nada arrancaria o sentimento extremamente bom de saber que seu amor era correspondido com igual intensidade. Talvez não fosse necessário, mas o rapaz ruivo visualizou em sua mente a imagem de seu superior sorrindo, confirmando o que já sabia. Amava-o, precisava estar junto a ele e repetir todo e qualquer momento bom passado. Essa era sua necessidade; viver por Kuchiki Byakuya.

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