Nebulosa Cristalis - Parte 1

4 Capítulo 3: A estrela do anteontem


Notas iniciais
Desculpem o clima deprê e a perda do foco, mas eu achei por bem mostrar outro lado de Ushio. Achei por bem fazer entendido seus sentimentos.

Assim se passou aquela maldita semana. O nervosismo tomou conta de nossas mentes, e, ficamos tão preocupados em apenas treinar mais e mais, que esquecemos por alguns dias de todas as nossas desavenças. Eu realmente não me importava mais com a piranha da Natasha ou o tapado do Ibrahim... Digo.. Capitão...

Tá, eu me importava. Muito. Mas preferi agir como se não nos conhecessemos. Foi melhor assim, afinal, eu não queria mais ser esbofeteada na cara. Muito menos, queria ser humilhada por Ibrahim, que se mostrou bem menos... Gentil.. Durante aquela semana. Sua preocupação com o sucesso da missão, e com seu desempenho, chegou a assustar o supervisor, que deixou os últimos dois dias para ele descansar, depois de virar quatro dias no simulador.

"Capitão...?" — Eu disse, enquanto batia na grande porta de aço que nos separava. A porta do simulador não possuía maçaneta, sendo necessário digitar uma senha, que óbviamente, eu não sabia, para entrar. Enquanto eu ponderava a estupidez de se fazer uma porta sem maçaneta, ela se abria perante mim. Distraída, de repente sinto uma mão chacoalhando de leve minha cabeça.

"Ushio? Sorata? Está viva?" — Disse o Capitão, enquanto olhava para mim. Seus olhos estavam vermelhos, e suas olheiras negras ressaltavam isto. O Capitão emagreceu nesses dias todos, e eu não consegui encontrar nenhum prato de comida dentro da sala. Isso me irritou profundamente. Não é como se eu desse alguma foda para aquele tapado, mas se ele passasse mal, a missão iria por água abaixo. Passando isto para minhas palavras, no momento:

"C..capitão... Eu acho que você.. Deveria comer algo. " — Eu disse, quase enfiando o prato de sopa fervendo em sua cara. — "Natasha mandou eu lhe trazer isto..." — Menti. Não via Natasha desde nosso último embate, por causa do prato verde. Aquela vadia sabia que minha cor preferida é verde, e que eu sempre comia naquele prato! Só pode ter pego de propósito. Mas, o babaca do supervisor concordou com ela e disse que eu estava com mania de perseguição. Tomei uma bronca absurda, e passei a evitá-la.

"Ushio, não precisava trazer isto, estrelinha. Não estou com fome..." — Disse ele, enquanto eu ouvia seu estômago roncar como um motor de submarino. Ele era um retardado, realmente.

"Coma, Capitão. É uma ordem." — Eu disse, deixando a sopa em sua mesa, e me dirigindo ao meu quarto. Estava cansada, faltavam três dias para a missão, e eu, mais uma vez, estava entediada. Meu trabalho na missão é apenas estudar a composição química das atmosferas, e, caso pousemos, dar apoio logístico a Natasha quando ela for estudar a fauna e flora do local. Não que eu realmente acredite que vamos chegar a algum lugar... Provavelmente aquela piranha vai nos explodir primeiro.

Sentei em meu computador, e comecei a ler meus emails. Não que eu tivesse algo como um amigo que me mandasse aquelas idiotices que amigos mandam... Graças aos Deuses, eu realmente não aguentaria algo do tipo. Mas, lendo e relendo minhas mensagens, percebo que, dos 230 contatos que me enviaram algo, 228 são mensagens práticamente idênticas, provavelmente vindas do mesmo site idiota de cartões virtuais, desejando boa sorte na missão. Não que eu realmente me importe com todos estes babacas da escola e da faculdade, afinal, todos tinham inveja de mim. Muita, diga-se de passagem. Mas, a lembrança deles me acordou memórias desagradáveis, e, contra a minha vontade, meus olhos começaram a lacrimejar um pouco.

Me levantei do computador, despi-me para ir dormir. Não estou dormindo com ninguém, então tenho o direito de usar as roupas que me sinto confortável. Ou seja, nenhuma. Sentei-me na cama, e de relance prestei atenção em minhas pernas. São finas, todos dizem. Me dão um certo asco. Toco em minhas coxas, sentindo o relevo de cada uma das cicatrizes, e relembrando os motivos de todas... Subo, lentamente meus dedos, tamboreando minhas coxas, ventre, até meus seios.

"Tábua. Reta." — Desabafei. Podia parecer inútil, e era, desabafar com o meu quarto. Mas não é como se alguém fosse realmente ouvir e me julgar por isto. É este tipo de coisa que meninas normais fazem, não? Desabafam sua normalidade com seus diários, blogs e amigos. Eu desabafo com a noite e suas estrelas que brilhavam em minha janela. Com o silêncio do vento e o barulho incessante dos pensamentos que atormentam minha mente.

Dormi.